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O Cidadão Incomum
Foto: divulgação/Pedro Ivo

Entrevista exclusiva | Pedro Ivo revela os bastidores de O Cidadão Incomum e fala sobre o futuro da saga após o fim da trilogia de origem

Em entrevista ao Entretetizei, o autor explica por que a Experiência de Quase Morte é o ponto de partida dos superpoderes, comenta os dilemas morais de Caliel, revela a origem da Organon e adianta o que vem por aí no universo de O Cidadão Incomum

Chegar ao fim de uma trilogia costuma significar o encerramento de uma jornada, no entanto, em O Cidadão Incomum 3 – Experiência de Quase Morte, Pedro Ivo faz justamente o contrário: usa o desfecho da história de origem de Caliel para abrir caminho para um universo ainda maior. O terceiro volume aprofunda os conflitos apresentados nos livros anteriores, coloca seus personagens diante de escolhas cada vez mais difíceis e reforça que, no mundo criado pelo autor, superpoderes nunca são apenas habilidades extraordinárias, eles carregam consequências.

Na história, a Experiência de Quase Morte (EQM), evento extremo que dá nome ao livro, é o gatilho que desperta os poderes dos personagens, mas que também funciona como uma metáfora para a transformação. Para Pedro Ivo, descobrir os próprios dons exige deixar partes importantes de si para trás, tornando a experiência um símbolo de amadurecimento, trauma e autoconhecimento.

O Cidadão Incomum
Foto: divulgação/Pedro Ivo

Em entrevista ao Entretetizei, o autor falou sobre a construção desse universo, explicou como o Brasil e a cidade de São Paulo influenciaram a narrativa, comentou a moralidade de personagens como Regina Albuquerque e Jac, revelou uma curiosidade inédita sobre a criação da Organon e adiantou o que os leitores podem esperar após o fim da trilogia de origem de O Cidadão Incomum. Confira: 

Entretetizei: A ‘Experiência de Quase Morte’ (EQM) é a chave de tudo. De onde veio essa ideia de que o trauma extremo é o que “liga” o interruptor dos poderes?

Pedro Ivo: Os poderes no universo do Cidadão Incomum são uma alegoria das nossas próprias capacidades individuais. Perceba que o dom de cada personagem é uma extensão da sua personalidade. E acredito que, em algum momento da jornada de autodescoberta, na busca pelos próprios dons e pelo sentido deles, partes importantes de você precisarão morrer.

E: Você acha que, no fundo, todo super-herói precisa de uma cicatriz psicológica profunda para existir, ou o Caliel poderia ter sido herói sem o trauma da EQM?

PI: Acredito que existe um componente de culpa em todo super-herói. Batman quer voltar ao passado e impedir a morte dos pais. Peter Parker quer o tio de volta. Superman ressuscitaria Krypton inteira se pudesse. O caso do Cidadão Incomum é o oposto: todos os traumas vieram depois que ele decidiu voar por São Paulo, sem saber controlar seus poderes. Outros traumas nasceram da decisão de agir como herói. Os poderes não o salvam de nada. Eles catapultam Caliel direto para dentro da vida, com tudo que ela tem de brutal e de belo.  

E: A Regina Albuquerque é aquela vilã que a gente ama odiar porque ela faz sentido. Você se pegou concordando com os argumentos dela em algum momento enquanto escrevia?

PI: O tempo todo. Os argumentos dela são impecáveis. Só discordo dos métodos que ela usa. 

E: A Organon parece um reflexo sombrio das grandes corporações que a gente vê por aí. O quanto da nossa realidade política e empresarial “vazou” para dentro da ficção?

PI: Vou contar um segredo. Exclusividade pro Entretê.

Organon é o nome da empresa de análise de sistemas que meu pai tinha quando faleceu. Na minha mente, ela nasceu como um símbolo enorme do mistério que ele era pra mim. 

Transferi isso pro Cidadão Incomum: esse conglomerado disforme, opaco, que parece maior por dentro do que por fora. Mas, claro, me inspirei nos escândalos da indústria farmacêutica e nas empresas que lucram com a exploração da Amazônia para dar estofo à Organon fictícia.

E: São Paulo é praticamente um personagem no livro, com o calor infernal e o caos urbano. Por que era importante que a história acontecesse aqui e não em uma cidade genérica?

PI: São Paulo é um colchão de retalhos onde você consegue identificar fragmentos de todas as facetas do Brasil. Dos becos disformes ao ecletismo dos prédios art déco. Dos terreiros de umbanda às cantinas italianas. Do bairro coreano aos eventos populares de rua.

O Cidadão Incomum é produto de um Brasil que só existe em São Paulo.

E também porque amo essa cidade. 

E: O Caliel não quer salvar o mundo, ele quer uma “vida boa e útil”. Você acha que o maior desafio dele não é o vilão, mas sim a vontade de ser uma pessoa comum?

PI: Aí mora a maior contradição de Caliel. Ele diz que quer uma vida boa e útil, mas quer também usar os poderes. Pior: quer ser visto voando, gerando energia nas mãos. O que ele quer na verdade é que a sociedade normalize o fato de ele ter superpoderes, o que definitivamente não vai acontecer. 

O Cidadão Incomum
Foto: divulgação/Pedro Ivo

E: A Jac parece enxergar o Caliel de um jeito que poucos personagens conseguem. Qual era exatamente a função dela dentro da jornada dele: provocar, testar ou revelar quem ele realmente é?

PI: A Jac, pelo menos neste volume da série, tem uma função bastante clara: mostrar para Caliel que ele é só uma pequena parte de um universo bem maior. É basicamente colocar o super-herói no seu lugar. 🙂  

E: Falando na Jac, ela vive numa zona moral muito cinzenta. Em algum momento você quis que o leitor torcesse por ela mesmo sem confiar nela?

PI: Ela é uma sobrevivente, né? Assim como Caliel, Jac precisou tomar decisões difíceis, com a diferença de que ela é mulher e preta. Dona Jacqueline terá um papel fundamental para a expansão deste universo, no futuro próximo.  

E: O Eder é o melhor amigo que todo mundo queria ter. Ele é a âncora moral do Caliel ou ele também está se perdendo nesse jogo de espionagem e tecnologia?

PI: Acho que ele se encontra antes de Caliel. Em algum momento, Eder olha para tudo o que está acontecendo, pisa no freio e decide pelo mundo dos adultos. Afinal, ele não tem poderes.  

E: Você acredita que os poderes do Caliel são um presente, uma maldição ou apenas uma ferramenta neutra que ele ainda não aprendeu a usar direito?

PI: Imagine que você tem o poder de criar músicas incríveis que vão impactar para sempre as vidas de milhões de pessoas, por gerações. Se isso é uma dádiva ou uma maldição, depende totalmente de ti. O mesmo vale para os dons de Caliel, Tito, Elias, Jac, Isaac… O que você faz com seu dom diz quem você é. 

E: O Isaac tem aquele poder de teletransporte apelão, mas continua preso às decisões da Regina. Isso mostra que, no universo de O Cidadão Incomum, o verdadeiro poder nunca é só físico?

PI: Essa é uma discussão e tanto. O que é poder de verdade? Teletransportar ou ter acesso a uma quantidade absurda de dinheiro?

Desde o livro dois vemos que Regina é muito habilidosa em controlar essas pessoas incomuns, seja por meio da coação, seja simplesmente dando à pessoa o que ela precisa. Ultimamente, aqui no mundo real, a gente tem acompanhado como esses dois métodos, dinheiro e coação, são os alicerces da obtenção e manutenção de poder.

E: O livro fala muito sobre “máscaras sociais”. Você acha que todo mundo hoje em dia precisa de um pouco de “Cidadão Incomum” para aguentar o dia a dia na sociedade?

PI: Não só hoje em dia, como em toda a história da civilização. Ser uma criatura social implica, entre outras coisas, vestir máscaras. Fazemos isso o tempo todo, até mesmo em nossas relações mais íntimas. Em muitos momentos durante a saga do Cidadão Incomum, podemos ver Caliel mascarar literalmente seus reais sentimentos com sua máscara preta e visores estranhos. 

O Cidadão Incomum
Foto: divulgação/Pedro Ivo

E: O desfecho coloca o Caliel diante de uma escolha praticamente impossível. Em algum momento você cogitou um caminho diferente para ele ou sempre soube que aquela era a única decisão possível?

PI: Precisamos levar em conta que Cidadão Incomum 3 — EQM é só o fim da trilogia de origem do Cidadão Incomum. A história dele como pessoa e super-pessoa mal saiu do primeiro ato. Tem muito chão ainda pela frente, e essa “escolha praticamente impossível” é só o começo de tudo.

Mas, para responder a pergunta: havia pelo menos quatro desfechos diferentes para Caliel. Escolhi o mais coerente e o segundo mais dramático.

E: “Pessoas boas também fazem maldade”. Qual foi a coisa mais “errada” que você fez o Caliel fazer e que te deixou desconfortável como autor?

PI: Bruce Wayne se torna o Batman porque se culpa pela morte dos pais. Peter Parker veste a máscara do Homem-Aranha porque acredita ser responsável pela morte do tio. Mas a verdade é que eles não mataram ninguém. Caliel matou uma pessoa. Todos os outros pequenos crimes que ele comete para se manter como super-herói do mundo real, não me incomodam tanto quanto o que ele fez no primeiro livro. 

E: Pelo que este volume apresenta, a história parece assumir um tom mais sombrio e “pé no chão”. Essa densidade foi uma evolução natural da trilogia ou uma escolha influenciada pelo Brasil de hoje?

PI: Acho que tudo isso colabora, mas devo mais ao fato de que eu estou em uma fase mais existencialmente sombria. Não tinha como isso não escapar para a obra. Mas entendo que todos nós, enquanto sociedade, estamos nesse lugar mais indefinido e acho que o Cidadão Incomum representa bem isso. 

E: Se o Caliel pudesse escolher hoje: continuar com os poderes ou voltar a ser o cara que ele era na página 1 do primeiro livro, o que você acha que ele escolheria?

PI: Continuar com os poderes. Penso que, se você aprende algo extraordinário, como voar, tudo o que você pensava sobre a vida muda radicalmente. Não tem como ser a mesma pessoa. Caliel não é mais o garoto da página um do primeiro livro. 

E: Como você equilibra a ação cinematográfica com as pausas reflexivas que o livro tem? Você ouve alguma trilha sonora específica para escrever as cenas de voo ou de luta?

PI: Não. Pelo contrário. Escrevo com um daqueles fones de ouvido que tem canceladores de barulho, sabe? 

Uma característica desse universo é a quebra de expectativa. O leitor acha que a história caminha para um lugar, mas ela vai para outro. Esse mistério, que é parte da estrutura, acho que é o ingrediente fundamental. O resto são truques comuns para equilibrar a narrativa. Quanto mais profunda for a reflexão entre dois personagens, pode ter certeza que alguma coisa vai explodir ao redor deles. 

E: O que mais te surpreendeu no Caliel ao longo dessa trilogia? Ele tomou algum rumo que você não tinha planejado no começo?

PI: Sim. Não comecei essa saga de origem sabendo como ela terminaria. Não quero dar spoiler, mas fiquei surpreso como ele trocou de lugar com outro personagem.  

E: A trilogia de origem acaba aqui, mas o universo parece gigante. O que vem por aí? Veremos o Cidadão Incomum enfrentando problemas ainda maiores ou o foco vai continuar sendo o lado humano e político?

PI: O teor humano e político vai continuar. Temos muita história para contar e Caliel vai continuar por aí. Ele tem um papel importante no futuro desse universo. Mas esse terceiro livro também é uma passagem de bastão. Acho que o leitor vai amar conhecer mais profundamente outros personagens que estão loucos para protagonizar as próprias histórias. 

 

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Texto revisado por Thaís Figueiredo

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