Inspirado nas lendas arturianas, o romance de Lex Croucher combina humor, amizade e representatividade LGBTQIAPN+ em uma história leve e envolvente
Gwen e Art Não Estão Apaixonados, da escritora inglesa Lex Croucher, é uma comédia romântica que prende do início ao fim. Dessa forma, com uma narrativa queer leve e rica em detalhes, Croucher apresenta ao leitor uma história divertida que fala sobre amizade, liberdade e romance.
A obra, que é repleta de referências aos contos de cavalaria medievais, chegou ao Brasil em 2024 pela Editora Verus, recebendo tradução de João Pedroso. Da autora, também já foram publicados no Brasil os livros Reputação (2022) e Só Para os Fortes de Coração (2025).
Em Gwen e Art Não Estão Apaixonados, acompanhamos a jornada de Arthur Delacey, futuro lorde e fanfarrão, que descende do rei Arthur. Já ao nascer, o rapaz foi prometido em casamento a Gwendoline, a princesa da Inglaterra. Inteligente e geniosa, Gwen detesta Arthur que, por sua vez, não a suporta na mesma medida. Pouco antes do casamento, Arthur é obrigado a passar o verão em Camelot, para estreitar os laços com a noiva. No entanto, logo no início da estadia dele no castelo, Gwen o flagra aos beijos com um menino.
Só que Gwen também guarda um segredo: é apaixonada pela única cavaleira mulher do reino, Bridget Leclair. Então, quando Art descobre a paixão secreta da princesa, a chantageia em troca de silêncio. Agora, sabendo do segredo um do outro, Gwen e Art decidem tornar-se aliados e fingir que se gostam. Mas ainda há um detalhe importante; enquanto Gwen percebe-se cada vez mais apaixonada por Bridget, Arthur passa a nutrir sentimentos fortes por Gabriel, príncipe real e herdeiro ao trono.

Gwen e Art: uma dupla improvável
Improvável no primeiro momento, a amizade de Gwen e Art logo começa a florescer, sendo esse um dos trunfos do romance. Como compartilham dores muito semelhantes, os dois acabam constroem uma compreensão mútua, além de auxiliarem no amadurecimento um do outro. Enquanto Arthur é essencial para Gwendoline entender a própria sexualidade, a princesa será a figura central para que Art recupere a própria autoestima.
Na obra, a autora utiliza-se grandemente da trope “rivais que viram aliados”; assim, ao decorrer da narrativa, vemos as pré-concepções e o ódio dos personagens se dissiparem pouco a pouco. Detentores do segredo um do outro, Gwen e Art precisam fingir que estão perdidamente apaixonados. Tal aproximação forçada, no entanto, acaba fazendo com que eles compartilhem sentimentos, medos e percebam que têm bem mais em comum do que pensavam.
Na verdade, bem mais do que as relações românticas, é a amizade entre os dois que move toda a narrativa. Por mais que a autora desenvolva o romance entre os casais, o que realmente irá catapultar o desenvolvimento dos personagens é a parceria que estabelecem um com o outro. Juntos, eles descobrem as belezas de serem quem realmente são, além da força que carregam para mudar normas arcaicas e preconceituosas.
Comédia romântica em clima medieval? Temos!
Para escrever o livro, Lex Croucher inspirou-se em grande parte pelas novelas ou romances de cavalaria. Neste gênero literário, que imperou durante a Idade Média, as principais características eram a valorização de feitos heroicos, a idealização da pessoa amada e elementos míticos ou sobrenaturais. Todos esses elementos aparecem em Gwen e Art Não Estão Apaixonados, mas trazendo uma roupagem bem atual.
Em relação ao cenário medieval, a ambientação segue uma pesquisa histórica bastante rigorosa, o que contribui para a imersão do leitor na história. Porém, Croucher não deixa de lado uma linguagem mais contemporânea, o que também aproxima a narrativa para os nossos dias. Sua prosa é leve e fluída, o que deixa a leitura rápida e dinâmica.
Outro ponto interessante que a autora faz é a brincadeira com o amor cortês dos contos de cavalaria. Na Idade Média, era comum a figura do amor e da mulher idealizada, quase perfeita. Isso também acontece no romance de Croucher, porém ela faz questão de mostrar que, por mais que os personagens coloquem as suas paixões em pedestais, elas são humanas e falíveis. A escritora traz um lado bem mais real das relações amorosas, indicando que a perfeição não existe, além de que é preciso esforço dos dois lados para que um relacionamento funcione.
Um romance queer de aquecer o coração
De fato, não podemos falar em liberdade sexual durante a Idade Média. Por isso, a narrativa criada por Lex Croucher desperta a imaginação ao apresentar uma versão desse período em que personagens queer podem viver seus sentimentos com mais liberdade. Embora as narrativas LGBTQIAPN+ estejam cada vez mais presentes na literatura contemporânea, é importante lembrar que nem sempre foi assim.
Ao construir uma história queer ambientada em uma sociedade marcada pelo machismo e pela intolerância, a autora convida o leitor a imaginar novas possibilidades para esse contexto histórico. Mais do que reescrever o passado, a obra transmite uma mensagem sobre identidade, pertencimento e a importância de ser quem se é, sem abrir mão do tom leve e bem-humorado que conduz toda a narrativa.
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Texto revisado por Luana Chicol









