Em viagem ao Brasil, as haenyeo compartilham como o respeito pela natureza, a força da comunidade e a memória de gerações moldaram suas vidas e mantêm viva uma das tradições mais emblemáticas da Coreia
Quando pensamos em Jeju, uma das primeiras imagens que vêm à mente são as haenyeo, mulheres que mergulham sem cilindro de oxigênio para coletar frutos do mar. Mas a história delas vai muito além do mergulho. Ser haenyeo significa viver em comunidade, respeitar o tempo da natureza e carregar conhecimentos que passam de mãe para filha há gerações.
Foi justamente essa tradição que desembarcou no Brasil com a exposição Sopro do Mar – Jeju Haenyeo, Mulheres e Coletividade, realizada pelo Centro Cultural Coreano no Brasil (KCCB). Além da mostra, o público também teve a oportunidade de ouvir quem vive essa realidade todos os dias.
O Entretê conversou com Yang Young-boo, que mergulha há 46 anos nas águas da Ilha de Gapado, e com Yoo Yong-ye, haenyeo, fotógrafa e diretora da Cooperativa de Pescadores da ilha. Entre lembranças emocionantes, mudanças no oceano e reflexões sobre o futuro, as duas mostram que a cultura das haenyeo não sobrevive apenas por causa do mar, mas pelas pessoas que decidiram preservá-la.

“Ninguém vence o mar”, relembra Yang Young-boo, 46 anos como haenyeo.
Yang Young-boo tinha apenas 19 anos quando entrou no mar pela primeira vez. O que começou como uma forma de garantir o sustento acabou se transformando em uma vida inteira dedicada às águas da Ilha de Gapado. Ao longo de 46 anos como haenyeo, ela viu o oceano mudar, enfrentou tempestades, perdeu companheiras e aprendeu que mergulhar exige muito mais do que coragem.

Em conversa com o Entretetizei, Yang falou sobre os desafios da profissão, a força da comunidade e o legado que espera deixar para as próximas gerações:
Entretetizei: Quando a senhora começou a mergulhar como haenyeo, aos 19 anos, imaginava que essa escolha definiria toda a sua vida?
Yang Young-boo: Naquela época eu nem pensava nisso. Comecei porque precisava trabalhar e ganhar a vida, não por que imaginava que seria uma profissão para sempre. De repente, quando percebi, já tinham se passado mais de 40 anos. Hoje, olhando para trás, sinto que foi o mar que moldou a minha vida.
E: Existe algum mergulho que tenha marcado especialmente sua trajetória como haenyeo? Essa experiência mudou a forma como a senhora enxerga a profissão ou a própria vida?
YYB: O mar parece sempre o mesmo, mas nenhum dia é igual ao outro. Já enfrentei tempestades e vivi situações de perigo que nunca imaginei passar. Foi assim que aprendi que ninguém vence o mar. É preciso respeitá-lo. Não podemos ser gananciosos e, quando as condições não são favoráveis, também precisamos saber esperar o momento certo.
E: Depois de 46 anos vivendo do mar, qual foi a maior lição que essa experiência lhe ensinou?
YYB: O mar é honesto. Ele devolve exatamente aquilo para o qual você se preparou e logo mostra quando alguém age com ganância. Também aprendi que ninguém vive sozinho. No mar, o mais importante é cuidar uns dos outros e saber esperar por quem está ao seu lado. Acho que é esse espírito que faz das haenyeo uma verdadeira família.
E: As haenyeo costumam ser vistas como símbolo de força feminina. Mas quais medos, fragilidades e sacrifícios dessa profissão as pessoas normalmente não enxergam?
YYB: As pessoas dizem que somos fortes, mas não existe ninguém que entre no mar sem sentir medo. Basta o tempo mudar um pouco para a tensão aumentar, principalmente porque sempre há uma família esperando por nós em casa. Houve dias em que precisei mergulhar mesmo estando doente e também vivi a dor de perder companheiras de trabalho. Esse é um lado da vida das haenyeo que muita gente não conhece.
E: Se a senhora tivesse nascido em outro lugar, acredita que seria uma haenyeo diferente? Qual foi a importância de Gapado na pessoa que a senhora se tornou?
YYB: Acredito que sou quem sou porque nasci e cresci em Gapado. Desde pequena vivi olhando para esse mar e aprendi tudo com as haenyeo mais experientes da ilha. Quando o mar muda, a forma de mergulhar também muda, e as pessoas mudam junto. No fim das contas, foi o mar de Gapado que me formou.
E: Quando começou a trabalhar como haenyeo, imaginava que um dia essa cultura seria reconhecida pela UNESCO? Ao longo desses anos, o que mais mudou: o mar, as pessoas ou o significado de ser haenyeo?
YYB: Nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Naquela época, ser haenyeo era simplesmente um meio de sustento. Hoje, as pessoas enxergam essa profissão como parte da cultura. Mas o que mais mudou foi o próprio mar. Espécies que antes eram comuns desapareceram e a paisagem marinha também mudou bastante. Por isso acredito que a vida das haenyeo também está mudando.
E: Hoje, muitas jovens escolhem outros caminhos profissionais. Como a senhora se sente ao ver essa tradição diminuindo? Ela ainda pode continuar viva sem perder sua essência?
YYB: É claro que dá tristeza. Mas também não é algo que possa ser imposto. Para ser haenyeo é preciso gostar do mar e ter disposição para enfrentar essa vida por muitos anos. Mais importante do que aumentar o número de mergulhadoras é que quem decidir seguir esse caminho aprenda da forma certa e cuide do mar com respeito.
E: Se pudesse conversar com a senhora de 19 anos, antes do primeiro mergulho, o que diria? E que mensagem gostaria de deixar para as futuras gerações de haenyeo?
YYB: Eu diria: “Você trabalhou muito. Parabéns por todo o seu esforço”. Naquela época eu só seguia em frente, sem olhar para trás, mas hoje vejo o quanto me dediquei. Para quem sonha em se tornar haenyeo, espero que nunca enxergue o mar apenas como uma forma de ganhar dinheiro. Antes de tudo, é preciso aprender a respeitá-lo e a viver em harmonia com ele. Se esse espírito continuar existindo, acredito que a cultura das haenyeo seguirá viva por muito tempo.
“Ser haenyeo é muito mais do que mergulhar”: Yoo Yong-ye fala sobre preservar uma tradição centenária
Enquanto Yang Young-boo compartilha a experiência de quem passou quase cinco décadas no mar, Yoo Yong-ye vive a cultura das haenyeo sob diferentes perspectivas. Além de mergulhadora da Ilha de Gapado, ela também é fotógrafa, diretora da Cooperativa de Pescadores de Gapado e auditora da Associação das Haenyeo de Jeju. Seu trabalho vai além dos mergulhos: ela registra, preserva e apresenta ao mundo uma tradição que acredita ter muito a ensinar sobre comunidade, meio ambiente e convivência.

Em conversa com o Entretetizei, Yoo falou sobre sua trajetória, os impactos das mudanças climáticas e a importância de manter viva uma cultura que continua atravessando gerações:
Entretetizei: Além de ser haenyeo, a senhora também exerce um papel de liderança na comunidade. Como foi assumir a responsabilidade de preservar e dar continuidade à cultura das haenyeo?
Yoo Yong-ye: Eu não fui para Jeju pensando em me tornar haenyeo. Cheguei à Ilha de Gapado como fotógrafa para registrar a vida dessas mulheres, mas logo percebi que apenas fotografá-las não era suficiente para compreender quem realmente eram.
Foi por isso que entrei no mar.
Ser haenyeo não é apenas aprender a mergulhar. É aprender a viver em comunidade, compreender seus valores e desenvolver uma relação de respeito com a natureza.
Com o tempo, conquistei a confiança da comunidade e assumi a liderança da cooperativa de pescadores. Para mim, um líder não é apenas alguém que representa um grupo, mas quem protege seus valores e garante que eles cheguem às próximas gerações. Trazer essa cultura ao Brasil também faz parte dessa responsabilidade.
E: A cultura das haenyeo valoriza a força da comunidade acima do trabalho individual. O que esse modo de viver pode ensinar ao mundo de hoje?
YYY: Antes de aprender a competir, as haenyeo aprendem a conviver.
O mar não é um lugar onde alguém consegue sobreviver sozinho.
Nós protegemos juntas as áreas de pesca, cuidamos umas das outras nos momentos de perigo e pensamos sempre nas próximas gerações. Não retiramos tudo o que o mar oferece; deixamos que ele continue vivo.
Hoje o mundo enfrenta não apenas as mudanças climáticas, mas também um distanciamento cada vez maior entre as pessoas. Acredito que a comunidade das haenyeo mostra que ainda é possível viver em equilíbrio com a natureza e cooperar em vez de competir.
E: Em que momento a senhora percebeu que preservar a cultura das haenyeo era uma responsabilidade que ia além do próprio trabalho?
YYY: Foi quando comecei a perceber que o mar estava mudando.
Algas que sempre apareciam em determinada época do ano começaram a desaparecer. O fundo do mar mudou, a vida marinha mudou e as haenyeo mais velhas repetiam que aquele já não era o mesmo mar.
Foi então que entendi que não estávamos perdendo apenas espécies marinhas. Também estávamos correndo o risco de perder conhecimentos e memórias construídos ao longo de centenas de anos.
Desde então, registrar essa cultura deixou de ser apenas o meu trabalho. Tornou-se uma responsabilidade.
E: O que a fotografia e o vídeo conseguem registrar que livros e documentos não conseguem?
YYY: Livros registram os acontecimentos.
A fotografia e o vídeo mostram como aqueles momentos foram vividos.
Uma fotografia preserva detalhes que o tempo apaga: as mãos marcadas pelo trabalho, o rosto de quem passou décadas mergulhando, a cor do mar ou a textura das roupas das haenyeo.
Mas escolhi a fotografia porque ela também registra as relações humanas.
Em uma única imagem estão presentes uma vida inteira de trabalho, o respeito pela natureza e o tempo vivido em comunidade.
O vídeo acrescenta movimento, respiração e até o sumbisori, o som característico que as haenyeo fazem quando voltam à superfície.
Por isso acredito que fotografia e vídeo não servem apenas para preservar o passado. Eles aproximam pessoas de culturas diferentes e ajudam a criar conexões que muitas vezes as palavras não conseguem.
E: As mudanças climáticas já afetam a rotina das haenyeo? O que mais mudou no mar ao longo dos anos?
YYY: Para nós, as mudanças climáticas não são um problema do futuro. Elas já fazem parte da nossa realidade.
Em Gapado, diversas espécies de algas diminuíram bastante e o ecossistema marinho continua mudando rapidamente.
A ciência registra essas mudanças por meio de pesquisas e dados.
Nós sentimos essas mudanças primeiro com o corpo.
Quem entra no mar todos os dias percebe antes de qualquer pessoa a temperatura da água, as correntes, a distribuição das espécies e até as mudanças nas estações do ano.
É por isso que acredito que as haenyeo são algumas das testemunhas mais próximas das mudanças climáticas.
E: O que as pessoas de outros países costumam entender errado sobre as haenyeo?
YYY: Muitas pessoas pensam que ser haenyeo é apenas uma profissão diferente ou uma tradição antiga.
Mas é muito mais do que isso.
É um modo de viver.
Nós não apenas usamos o mar. Vivemos em relação com ele.
Espero que, depois desta exposição no Brasil, as pessoas enxerguem as haenyeo não apenas como uma tradição do passado, mas como um exemplo de sabedoria que continua fazendo sentido nos dias de hoje.
E: Se imaginar as haenyeo daqui a 50 anos, o que a senhora espera que nunca mude?
YYY: A profissão pode mudar com o tempo.
Mas espero que nunca desapareçam o respeito pela natureza e o espírito de colocar a comunidade em primeiro lugar.
O verdadeiro valor das haenyeo não está apenas na técnica do mergulho, mas na forma como aprendemos a viver em harmonia com o mar.
É esse espírito que espero ver atravessando gerações e chegando a cada vez mais pessoas.
E: Se quem visitar esta exposição lembrar de apenas uma coisa sobre as haenyeo, o que a senhora gostaria que fosse?
YYY: Espero que as pessoas não se lembrem apenas de mulheres fortes.Gostaria que lembrassem de uma comunidade de mulheres que viveu, protegeu e preservou o mar ao longo de gerações.
Esta exposição fala sobre Jeju, mas também sobre a relação entre as pessoas e a natureza.O mar do Brasil e o mar de Jeju têm paisagens diferentes, mas acredito que quem vive deles compartilha os mesmos valores.
Se cada visitante sair daqui pensando no seu próprio mar, na sua própria comunidade e na importância de cuidar deles, esta exposição já terá cumprido seu propósito.
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Leia também: Haenyeo – As Sereias de Jeju
Texto revisado por Angela Maziero Santana










