O romance de Sally Rooney e sua adaptação para as telas transformaram paisagens irlandesas em destinos para fãs de Marianne e Connell, e algumas das locações têm histórias tão interessantes quanto a própria série
Quando pensamos na Irlanda, é comum imaginar os penhascos de Moher, os castelos medievais ou os pubs cheios de música ao vivo. E, se existe um livro capaz de fazer o leitor querer conhecer o país sem precisar vender a ideia de uma viagem, é Pessoas Normais.
No romance de Sally Rooney, a Irlanda não existe apenas como ambiente de fundo. A história de Marianne Sheridan e Connell Waldron começa em uma pequena cidade do condado de Sligo e acompanha os dois até Dublin, onde ambos estudam no Trinity College. No caminho, a autora constrói uma história sobre amor, classe social e amadurecimento, enquanto a paisagem acompanha os dois personagens e ajuda a explicar por que certas distâncias parecem tão difíceis de atravessar, mesmo quando eles estão a poucos quilômetros um do outro.
Um livro sobre lugares normais

Há um fator que deixa o começo dessa viagem literária ainda mais interessante: boa parte dos lugares que ficaram conhecidos pelos fãs da história existem de verdade, e alguns ganharam ainda mais atenção depois que a adaptação da BBC chegou às telas.
Em 2020, inclusive, o sucesso da série chegou a provocar um pequeno fenômeno turístico na Irlanda. A Tourism Ireland passou a promover imagens de Sligo e das locações da produção, enquanto a imprensa local acompanhava a nova onda de visitantes interessados em conhecer os lugares de Marianne e Connell. Até o apelido Fifty Shades of Sligo (tradução livre: Cinquenta Tons de Sligo) apareceu por causa das muitas cenas íntimas da adaptação.
Se a ideia é embarcar nessa viagem, estas são algumas das paradas que merecem entrar no roteiro.
Sligo: onde tudo começa

Antes da universidade, existe Sligo.
No livro, Marianne e Connell vivem em Carricklea, uma cidade fictícia do condado de Sligo. Localizada no noroeste da Irlanda, é o lugar onde Marianne e Connell crescem e onde boa parte dos conflitos do livro ganha forma. Em um lugar onde todos se conhecem, as diferenças sociais, os julgamentos e as expectativas pesam muito mais do que parecem.
A cidade de Carricklea não existe no mapa, mas a adaptação encontrou seu equivalente em Tubbercurry, no sul do condado de Sligo. A região foi usada para várias cenas ambientadas na cidade natal dos personagens.
E existe um detalhe que ajuda a entender por que a equipe escolheu Sligo: a paisagem praticamente faz o trabalho sozinha. O condado é conhecido pelas montanhas, praias e pelo imponente Benbulben, uma formação rochosa que aparece nas imagens de divulgação da série. Para Daisy Edgar-Jones, que interpreta Marianne, Sligo foi um dos lugares favoritos das filmagens justamente pela paisagem. Em entrevista ao The Guardian, a atriz descreveu a chegada ao local ao avistar o Benbulben como uma experiência impressionante.
Embora o romance nunca transforme Sligo em um cartão-postal, a cidade desperta curiosidade justamente por parecer tão autêntica. Cercada por montanhas, praias e paisagens que inspiraram o poeta William Butler Yeats, ela oferece um ritmo completamente diferente do das grandes capitais, em um cenário que combina muito com a atmosfera introspectiva do livro.
Streedagh Strand: a praia que virou cenário da história

Outra parada para quem quer seguir os passos dos personagens é Streedagh Strand, uma praia localizada ao norte da cidade de Sligo.
É ali que foram gravadas cenas importantes da adaptação, aproveitando a paisagem costeira que combina tão bem com o tom melancólico da história. O lugar também aparece em materiais oficiais de turismo da Irlanda justamente associado a Pessoas Normais.
O Trinity College é mais do que um cenário

Quando os protagonistas chegam a Dublin para estudar no Trinity College, o romance também muda.
A universidade representa uma fase em que Marianne e Connell começam a experimentar novas amizades, interesses e versões de si mesmos. É ali que a relação entre os dois ganha novas camadas, enquanto cada um tenta encontrar o próprio lugar no mundo. Se Sligo representa a adolescência de Marianne e Connell, Dublin marca a entrada dos dois em uma fase completamente diferente da vida.
No Trinity College, eles deixam para trás parte da dinâmica que conheciam e passam a conviver com pessoas de outros círculos sociais, enquanto tentam descobrir quem são longe da cidade onde cresceram.
Esse ambiente universitário soa tão convincente por um motivo simples: o Trinity College não foi escolhido por acaso. A universidade é uma das mais tradicionais da Irlanda e também foi onde a própria Sally Rooney estudou Literatura Inglesa e depois concluiu o mestrado. A experiência acadêmica da autora aparece refletida nos dilemas, nas relações e até na forma como Connell e Marianne enxergam aquele novo ambiente.
As gravações aconteceram em diferentes espaços do campus, incluindo a Berkeley Library, o Robert Emmet Theatre, os campos de críquete e Parliament Square. A equipe chegou a enfrentar dificuldades para filmar em uma universidade que recebe muitos turistas, mas o resultado fez com que os espaços descritos por Rooney ganhassem uma existência visual para os leitores.
Para quem visita Dublin, o campus vale a atenção. Fundado em 1592, o Trinity College abriga a Biblioteca Antiga e o Book of Kells, manuscrito ilustrado por monges celtas há mais de mil anos e considerado um dos maiores tesouros históricos da Irlanda.
Uma viagem para quem gosta de boas histórias

Talvez o mais interessante em Pessoas Normais seja perceber como a história não precisou transformar a Irlanda em um destino de fantasia para fazer o leitor querer conhecê-la.
Sally Rooney escreve sobre lugares comuns. A escola, a casa dos pais, a universidade, o apartamento dos amigos, a praia. A adaptação fez o mesmo e, ao colocar esses espaços diante das câmeras, acabou criando uma espécie de mapa para quem queria enxergar a história fora das páginas.
E funcionou porque, em Pessoas Normais, a Irlanda não é escrita somente para impressionar o leitor. Os momentos mais memoráveis acontecem em lugares comuns: salas de aula, apartamentos estudantis, cafeterias, bibliotecas e ruas do interior. São espaços que qualquer morador atravessaria sem pensar duas vezes, mas que, nas mãos de Sally Rooney, ajudam a contar uma história sobre amor, amadurecimento e pertencimento.
E é justamente essa a força do romance. Em vez de convencer o leitor a visitar a Irlanda pelos pontos turísticos, ele desperta a vontade de conhecer os lugares onde Marianne e Connell descobriram quem eram.
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Texto revisado por Gabriela Matuk









