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Especial Passaporte Literário | Como Pessoas Normais revela uma Irlanda que não aparece nos roteiros turísticos

O romance de Sally Rooney e sua adaptação para as telas transformaram paisagens irlandesas em destinos para fãs de Marianne e Connell, e algumas das locações têm histórias tão interessantes quanto a própria série 

Quando pensamos na Irlanda, é comum imaginar os penhascos de Moher, os castelos medievais ou os pubs cheios de música ao vivo. E, se existe um livro capaz de fazer o leitor querer conhecer o país sem precisar vender a ideia de uma viagem, é Pessoas Normais

No romance de Sally Rooney, a Irlanda não existe apenas como ambiente de fundo. A história de Marianne Sheridan e Connell Waldron começa em uma pequena cidade do condado de Sligo e acompanha os dois até Dublin, onde ambos estudam no Trinity College. No caminho, a autora  constrói uma história sobre amor, classe social e  amadurecimento, enquanto a paisagem acompanha os dois personagens e ajuda a explicar por que certas distâncias parecem tão difíceis de atravessar, mesmo quando eles estão a poucos quilômetros um do outro.

Um livro sobre lugares normais
Imagem: reprodução/Enda Bowen

Há um fator que deixa o começo dessa viagem literária ainda mais interessante: boa parte dos lugares que ficaram conhecidos pelos fãs da história existem  de verdade, e alguns ganharam ainda mais atenção depois que a adaptação da BBC chegou às telas.

Em 2020, inclusive, o sucesso da série chegou a provocar um pequeno fenômeno turístico na Irlanda. A Tourism Ireland passou a promover imagens de Sligo e das locações da produção, enquanto a imprensa local acompanhava a nova onda de visitantes interessados em conhecer os lugares de Marianne e Connell. Até o apelido Fifty Shades of Sligo (tradução livre: Cinquenta Tons de Sligo) apareceu por causa das muitas cenas íntimas da adaptação.

Se a ideia é embarcar nessa viagem, estas são algumas das paradas que merecem entrar no roteiro.

Sligo: onde tudo começa
Imagem: reprodução/Enda Bowen

Antes da universidade, existe Sligo

No livro, Marianne e Connell vivem em Carricklea, uma cidade fictícia do condado de Sligo. Localizada no noroeste da Irlanda, é o lugar onde Marianne e Connell crescem e onde boa parte dos conflitos do livro ganha forma. Em um lugar onde todos se conhecem, as diferenças sociais, os julgamentos e as expectativas pesam muito mais do que parecem.

A cidade de Carricklea não existe no mapa, mas a adaptação encontrou seu equivalente em Tubbercurry, no sul do condado de Sligo. A região foi usada para várias cenas ambientadas na cidade natal dos personagens.

E existe um detalhe que ajuda a entender por que a equipe escolheu Sligo: a paisagem praticamente faz o trabalho sozinha. O condado é conhecido pelas montanhas, praias e pelo imponente Benbulben, uma formação rochosa que aparece nas imagens de divulgação da série. Para Daisy Edgar-Jones, que interpreta Marianne, Sligo foi um dos lugares favoritos das filmagens justamente pela paisagem. Em entrevista ao The Guardian, a atriz descreveu a chegada ao local ao avistar o Benbulben como uma experiência impressionante.

Embora o romance nunca transforme Sligo em um cartão-postal, a cidade desperta curiosidade justamente por parecer tão autêntica. Cercada por montanhas, praias e paisagens que inspiraram o poeta William Butler Yeats, ela oferece um ritmo completamente diferente do das grandes capitais, em um cenário que combina muito com a atmosfera introspectiva do livro.

Streedagh Strand: a praia que virou cenário da história
Imagem: reprodução/Ireland.com

Outra parada para quem quer seguir os passos dos personagens é Streedagh Strand, uma praia localizada ao norte da cidade de Sligo.

É ali que foram gravadas cenas importantes da adaptação, aproveitando a paisagem costeira que combina tão bem com o tom melancólico da história. O lugar também aparece em materiais oficiais de turismo da Irlanda justamente associado a Pessoas Normais.

O Trinity College é mais do que um cenário
Imagem: reprodução/Enda Bowen

Quando os protagonistas chegam a Dublin para estudar no Trinity College, o romance também muda.

A universidade representa uma fase em que Marianne e Connell começam a experimentar novas amizades, interesses e versões de si mesmos. É ali que a relação entre os dois ganha novas camadas, enquanto cada um tenta encontrar o próprio lugar no mundo. Se Sligo representa a adolescência de Marianne e Connell, Dublin marca a entrada dos dois em uma fase completamente diferente da vida.

No Trinity College, eles deixam para trás parte da dinâmica que conheciam e passam a conviver com pessoas de outros círculos sociais, enquanto tentam descobrir quem são longe da cidade onde cresceram.

Esse ambiente universitário soa tão convincente por um motivo simples: o Trinity College não foi escolhido por acaso. A universidade é uma das mais tradicionais da Irlanda e também foi onde a própria Sally Rooney estudou Literatura Inglesa e depois concluiu o mestrado. A experiência acadêmica da autora aparece refletida nos dilemas, nas relações e até na forma como Connell e Marianne enxergam aquele novo ambiente. 

As gravações aconteceram em diferentes espaços do campus, incluindo a Berkeley Library, o Robert Emmet Theatre, os campos de críquete e Parliament Square. A equipe chegou a enfrentar dificuldades para filmar em uma universidade que recebe muitos turistas, mas o resultado fez com que os espaços descritos por Rooney ganhassem uma existência visual para os leitores. 

Para quem visita Dublin, o campus vale a atenção. Fundado em 1592, o Trinity College abriga a Biblioteca Antiga e o Book of Kells, manuscrito ilustrado por monges celtas há mais de mil anos e considerado um dos maiores tesouros históricos da Irlanda.

Uma viagem para quem gosta de boas histórias
Imagem: reprodução/Enda Bowen

Talvez o mais interessante em Pessoas Normais seja perceber como a história não precisou transformar a Irlanda em um destino de fantasia para fazer o leitor querer conhecê-la.

Sally Rooney escreve sobre lugares comuns. A escola, a casa dos pais, a universidade, o apartamento dos amigos, a praia. A adaptação fez o mesmo e, ao colocar esses espaços diante das câmeras, acabou criando uma espécie de mapa para quem queria enxergar a história fora das páginas.

E funcionou porque, em Pessoas Normais, a Irlanda não é escrita somente para impressionar o leitor. Os momentos mais memoráveis acontecem em lugares comuns: salas de aula, apartamentos estudantis, cafeterias, bibliotecas e ruas do interior. São espaços que qualquer morador atravessaria sem pensar duas vezes, mas que, nas mãos de Sally Rooney, ajudam a contar uma história sobre amor, amadurecimento e pertencimento.

E é justamente essa a força do romance. Em vez de convencer o leitor a visitar a Irlanda pelos pontos turísticos, ele desperta a vontade de conhecer os lugares onde Marianne e Connell descobriram quem eram.

E você, qual livro já fez um destino entrar para a sua lista de viagens dos sonhos? Conte para a gente nas redes sociais do Entretetizei  – Instagram, Facebook e X  e acompanhe os próximos capítulos do Especial Passaporte Literário, uma série do Entretetizei que transforma páginas em destinos e leva a literatura para muito além dos livros.

 

Leia também: Normal People: adaptação supera livro e retrata um amor real sem idealização

 

Texto revisado por Gabriela Matuk

 

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Emergência 53 estreia no streaming com drama médico intenso e surpreendente

A série Emergência 53 chegou nesta quinta-feira ao streaming como uma grande promessa de sucesso para a ficção nacional

 

Produzida pela Conspiração Filmes, exibida pelo Globoplay desde quinta (20) e já premiada no Festival de Berlim, Emergência 53 aposta em uma fórmula de sucesso de alta performance: conflitos, adrenalina, drama humano e ação com foco total em situações de emergência envolvendo equipes de pré-atendimento em unidades de emergência móvel, mergulhando de cabeça na realidade do Brasil periférico.

A série, focada nos atendimentos de urgência que começam ainda na rua e dentro da cabine da ambulância, promete despertar o interesse do público pelo ambiente médico fora do hospital. A obra mostra a realidade da rotina caótica e intensa não só de médicos, mas também de enfermeiros e condutores. 

Na produção, acompanhamos oito protagonistas, que se desdobram para salvar vidas enquanto lidam com os próprios conflitos pessoais. 

Para o diretor Cláudio Torres, um dos criadores da trama, a série volta novamente o olhar para a saúde pública ao narrar a rotina dos socorristas nas ruas: “Emergência 53 é uma série voltada para a ação, para o conflito interno, para o universo de pessoas que compõem um time, uma família, um exército para salvar gente na rua“, definiu ele em coletiva de imprensa.

A equipe de criação também conta com o médico e roteirista Márcio Maranhão e com o diretor Andrucha Waddington. Eles ressaltam que essa proposta de mostrar a rotina dos socorristas nunca havia sido apresentada com foco na realidade do Brasil. “É uma série inédita que vai ao chamado das pessoas. Não é mais o paciente que chega ao hospital, quando se abre a porta da ambulância ou aparece na emergencia“, afirmou Andrucha. 

O espectador verá a ação para salvar vidas em situações adversas e de calamidade, como vítimas de desastres naturais ou eletrocutadas pela queda de um poste, por exemplo. “Nossa fonte de inspiração é a vida real, essa foi nossa diretriz de linguagem, tentar fazer um produto brasileiro baseado no que a gente vê todos os dias no Rio de Janeiro.

Foto: divulgação/Laura Campanella

No centro de tudo está a Doutora Irene Costa, vivida por Yara de Novaes, idealizadora e chefe de equipe. Ela enxerga a medicina como parte de uma missão de vida. “Durante o decorrer da série, a Irene vai precisar fazer algumas coisas que vão descumprir alguns protocolos desse sistema de saúde. No entanto, se precisar descumprir protocolos para salvar uma vida, ela vai fazer isso“, destacou a atriz.

Foto: divulgação/Laura Campanella

Ao lado de Irene, estará a médica Glória (Heloísa Jorge), criada na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Ela venceu diversas adversidades para se formar em medicina e atua na defesa do atendimento comunitário. “A minha personagem escolhe a profissão como ferramenta de transformação. Ela busca fazer justiça com as próprias mãos por conta de vivências do passado“, contou Heloísa. 

Foto: divulgação/Laura Campanella

Fechando o núcleo médico está o doutor Pedro (Emílio Dantas), um cirurgião-geral que carrega uma rotina pessoal bastante complexa. Acostumado a lidar com o controle no dia a dia, ele precisa, ao mesmo tempo, se controlar, pois tem um transtorno bipolar que nega existir, oscilando entre picos de euforia e momentos de depressão, vivendo um conflito interno consigo mesmo.

Pedro encontra na unidade 53 a oportunidade de recomeçar e exercer sua vocação nas ruas. “Ao longo da temporada, a gente trata essa disparidade entre o gênio que ele é e a dificuldade que ele tem de aceitar a própria condição“, comentou o ator. 

Emílio também destacou o texto elaborado da trama e o quanto o serviço de saúde pode destruir uma pessoa que se dedica para aquilo: “O que me chamou atenção foi que  o texto já é muito bem elaborado logo no início, muito certeiro, então não precisou de muitas coisas a mais do que estava sendo proposto. E a dinâmica do serviço de atendimento já é, em si, bastante insana. É um lugar de paixão, de orgulho, mas também um lugar que destrói uma pessoa quando ela se doa muito para aquilo.” 

Foto: divulgação/Laura Campanella

Além dos médicos, os criadores esperam que a série promova um mergulho mais realista e de valorização do trabalho dos socorristas e de toda a equipe por trás dos atendimentos. “A saúde pública é um patrimônio coletivo, um bem comum, um pacto civilizatório do Brasil. Ninguém tem o que a gente tem”, defendeu Márcio Maranhão.

O ator Jaffar Bambirra dá vida a Vandam, um dos condutores da unidade 53. Fissurado por velocidade desde criança, ele herdou da convivência com o pai criminoso o desejo por ação, mas busca construir uma trajetória correta e diferente da do genitor, encontrando na unidade a oportunidade de aplicar seu talento para salvar vidas de forma humana e dedicada.

Ele é um cara fissurado por direção, algo que aprendeu com o pai, mas não quer seguir o mesmo destino dele. O Vandam vai acabar caindo em uma furada por conta do pai, que é um criminoso“, adiantou o ator. 

Jaffar passou por aulas de condução especializada e noções de atendimento de emergência para dar veracidade às manobras arriscadas e ao cotidiano da profissão. “Fomos até a uma unidade do SAMU para aprender com os condutores. É uma função que não é só dirigir, o motorista também é socorrista. Tive que aprender a tirar uma maca da ambulância, além de tirar habilitação para dirigir veículos de grande porte“, destacou ele. 

Foto: divulgação/Laura Campanella

Ao lado de Vandam está Duda (Ana Hikari), que também é condutora de uma das ambulâncias da unidade 53. Apaixonada por velocidade e com profundo conhecimento em mecânica herdado do pai, Duda é uma jovem batalhadora e cheia de garra e dedicação. Ela se desdobra em uma jornada dupla entre os resgates nas ruas e a produção de conteúdo adulto na internet. 

O Vandam ajuda ela a criar esses conteúdos para ajudar a pagar uma grande dívida que ela tem, gravei muitas cenas sentindo adrenalina lá no alto. É um desafio divertido, além de dirigir com câmeras em volta, é preciso entregar emoção, falar o texto, manter a concentração na emergência e no que está na parte de trás do veiculo“, afirmou Ana. 

Inspirada no atendimento de urgência móvel, Emergência 53 foca na ação dos socorristas nas ruas. O SMU é o serviço fictício de urgência que integra a unidade 53, comandada por Irene (Yara de Novaes), onde a enfermeira novata Manuela (Valentina Herszage) começa a trabalhar. A jovem terá seus limites testados ao vivenciar a realidade e a adrenalina voraz e intensa dos atendimentos ao lado de Glória (Heloisa Jorge) e Pedro (Emílio Dantas), além da equipe formada pelos enfermeiros Vanessa (Raquel Villar) e Átila (William Nascimento) e pelos motoristas Duda (Ana Hikari) e Vandam (Jaffar Bambirra). 

E aí, gostou de saber mais sobre essa série? Pretende assistir? Conta para gente nas redes sociais do Entretê! Nos siga no X, no Facebook e no Instagram e não perca as novidades.

Leia também: Entre justiça e sensibilidade: Coletiva da série Ângela Diniz: Assassinada e condenada reforça o poder de contar histórias sobre mulheres

Texto revisado por Sabrina Borges de Moura e Maria Fernanda Constantini

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Cultura asiática Entrevista Notícias

Entrevista exclusiva | Grupo Hannuri Yeonhui traz a força das artes tradicionais coreanas ao Brasil

Em sua primeira passagem pela América do Sul, artistas ligados à K-ARTS falam sobre yeonhui, formação de novas gerações e o encontro da tradição coreana com o público brasileiro

Muito antes de o K-pop e os K-dramas ajudarem a transformar a Coreia do Sul em uma potência cultural, música, dança, teatro e performances populares já contavam histórias do país por meio do yeonhui, termo que reúne diferentes manifestações das artes tradicionais coreanas. Foi um pouco desse universo que o público brasileiro pôde conhecer de perto durante o Festival da Cultura Coreana, em São Paulo.

Formado principalmente por graduados e estudantes do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS), o Grupo Hannuri Yeonhui leva aos palcos expressões como samulnori, talchum, jultagi, teatro de bonecos, dança e outras performances tradicionais. A passagem pelo Brasil marcou também o primeiro encontro do grupo com o público da América do Sul.

Em entrevista exclusiva, integrantes do Grupo Hannuri Yeonhui e o professor Kim Wonmin conversaram sobre a formação de jovens artistas, o desafio de manter tradições vivas sem deixá-las presas ao passado e o espaço que a cultura tradicional vem conquistando enquanto a Hallyu desperta a curiosidade de novos públicos pela Coreia. Eles também falaram sobre a recepção calorosa dos brasileiros e revelaram que já existe vontade de voltar ao país, inclusive para uma futura colaboração com artistas brasileiros.

Entretetizei: Para começar, vocês poderiam apresentar o Grupo Hannuri Yeonhui e contar um pouco sobre a trajetória de vocês?

Kim Wonmin (professor do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia): O Grupo Hannuri Yeonhui é uma organização formada principalmente por graduados e alunos do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS). Sua característica principal é permitir que formados e alunos da graduação deem continuidade juntos às suas atividades nas artes cênicas.

Centrados no yeonhui, temos trabalhado com diversos gêneros da performance tradicional, como samulnori, talchum, dança das máscaras, rituais xamânicos, musok, caminhada na corda bamba, jultagi, e teatro de bonecos, apresentando-nos em vários palcos na Coreia e no exterior. Através da nossa participação no Festival da Cultura Coreana no Brasil, estamos nos encontrando com o público sul-americano pela primeira vez.

E: Como surgiu o interesse de cada um de vocês pelas artes tradicionais coreanas?

Oh Jungmin: Originalmente, minha formação era em gayageum. No entanto, por acaso, assisti a uma apresentação de samulnori e achei aquilo tão incrível que tomei a decisão: “Tenho que fazer isso!”. Foi assim que entrei no caminho do samulnori.

Hannuri Yeonhui
Foto: divulgação/KKCB

Lee Seunggi: Tive meu primeiro contato com o samulnori através das atividades de um clube escolar. Conforme participava do clube, cresceu em mim o desejo de seguir essa atividade de forma cada vez mais profissional. Como resultado, ingressei na Escola Secundária Nacional de Artes Tradicionais, trilhando o caminho como especialista na área.

E: O trabalho de vocês reúne música, dança e performances acrobáticas. Como funciona a preparação para conseguir trabalhar com tantas expressões diferentes no palco?

Kim Gwanhyeong: O próprio currículo do Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Universidade Nacional de Artes da Coreia é composto por disciplinas que exigem a assimilação de muitos gêneros. Existem 11 matérias obrigatórias da especialidade, e a grade curricular é estruturada para que possamos executar diretamente diversos gêneros, como a música camponesa, nongak, de cada região, dança das máscaras, talchum, rituais xamânicos, musok, e as artes dos grupos de artistas profissionais.

Hannuri Yeonhui
Foto: divulgação/KCCB

É um processo em que aprendemos o conjunto total da arte conhecido como “música, canto, atuação e dança”, ak-ga-mu-hui. Com base nessa fundação consolidada desde a universidade, preparamos nossos espetáculos conciliando o treino individual de cada modalidade com ensaios em grupo para alinhar a harmonia coletiva.

E: Para você, qual é o papel e o significado da Escola Nacional de Artes da Coreia (K-ARTS) na formação de jovens artistas que desejam atuar no campo das artes tradicionais coreanas?

Kim Wonmin: O Departamento de Yeonhui da Escola de Artes Tradicionais da Escola Nacional de Artes da Coreia é a única instituição de ensino superior no país a educar sistematicamente todas as modalidades de yeonhui. Ela ajuda os jovens artistas a adquirirem habilidades individuais e teoria de forma simultânea, além de desenvolver a capacidade de reinterpretar a tradição de maneira contemporânea.

E: Em um momento em que a cultura popular coreana se torna cada vez mais conhecida mundialmente, como você enxerga o papel da jovem geração na preservação e divulgação da cultura tradicional coreana?

Jung Dana: Com a onda Hallyu, movida pelo K-pop, K-dramas, K-food, entre outros, a expansão dessa cultura popular tem levado, naturalmente, a um interesse pela cultura tradicional coreana. O redescobrimento do hanbok e do sentimento cultural único da Coreia são exemplos representativos disso.

Dentro desse contexto, como uma jovem artista de yeonhui, tenho o desejo de contribuir para divulgar amplamente a arte pura do nosso país, a música tradicional, gugak, por todo o mundo.

Hannuri Yeonhui
Foto: divulgação/KCCB

E: Como surgiu a oportunidade de vir ao Brasil e participar do Festival da Cultura Coreana?

Kim Gwanhyeong: Participamos deste Festival da Cultura Coreana a convite da Korea Creative Content Agency (KOCCA) e do Centro Cultural Coreano no Brasil.

E: Como foi a experiência de se apresentar pela primeira vez para o público brasileiro? O que mais chamou a atenção de vocês nessa passagem pelo Festival?

Park Eungyoung: As reações calorosas e o entusiasmo do público brasileiro foram o que mais me impressionou. O público vibrou de forma especial em apresentações visualmente intensas, como a Dança do Leão, sajachum, e o girar do chapéu com fita longa, yeoldubaet sangmo-dorigi. Senti novamente que, mesmo falando línguas diferentes, é possível se comunicar apenas através do ritmo e do movimento.

E: Depois dessa primeira experiência no país, vocês gostariam de voltar ao Brasil? E quais são os próximos projetos do grupo?

Park Juhwan: Desta vez, ficamos no Brasil por pouco tempo, então foi uma pena não termos conseguido realizar uma colaboração com grupos artísticos locais. Se houver uma oportunidade no futuro, adoraríamos colaborar com artistas e grupos do Brasil para promover o intercâmbio cultural e, juntos, criar e levar ao palco um grande espetáculo.

Hannuri Yeonhui
Foto: divulgação/KCCB

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Leia também: Não é dorama! A Coreia se libertou do Japão há 81 anos, está na hora de aprender a falar K-drama

 

Texto revisado por Alexia Friedmann

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Notícias Séries

Miami Vice ’85, filme reboot da clássica série policial dos anos 1980

Michael B. Jordan e Austin Butler assumem os papéis que marcaram a televisão em nova versão dirigida por Joseph Kosinski

Prepare os óculos escuros e o visual retrô, porque Miami Vice está de volta! A clássica série policial dos anos 1980 ganhará uma nova versão para os cinemas com Miami Vice ’85, longa da Universal Pictures que promete revisitar o glamour, a ação e a atmosfera da Miami dos anos 1980. A produção será dirigida por Joseph Kosinski, responsável por Top Gun: Maverick e F1, e terá Michael B. Jordan (Pecadores) e Austin Butler (Duna: Parte dois) como protagonistas.

A ideia é resgatar justamente a identidade que tornou Miami Vice um fenômeno cultural: carros esportivos, moda, música, estética neon e o contraste entre o luxo de Miami e o submundo do crime.

 Diferentemente do filme de 2006, dirigido por Michael Mann e estrelado por Colin Farrell e Jamie Foxx, o novo longa retorna aos anos 1980 e busca uma conexão mais direta com a série original.

Miami Vice ’85 é adiado para 2028

Inicialmente previsto para chegar aos cinemas antes, Miami Vice ’85 teve seu lançamento adiado e agora está programado para 19 de maio de 2028. A mudança aconteceu após a Universal reorganizar seu calendário de estreias para acomodar novo longa da franquia A Múmia, que ocupou a janela anteriormente destinada ao reboot.

Grande elenco
Colagem dos atores escalados para o longa.
Foto: reprodução/Karl Ferguson Jr./Gabriel Hutchinson/Chris Pizzello/Dick Thomas Johnson/Olivia Galli

A produção também ganhou uma nova integrante recentemente: Camila Morrone (Daisy Jones & The Six) fará parte do elenco do longa. A atriz se junta a Michael B. Jordan e Austin Butler, que serão os protagonistas da história.

Jordan interpretará Ricardo “Rico” Tubbs, enquanto Butler dará vida a James “Sonny” Crockett, a dupla de detetives que precisa se infiltrar no perigoso submundo do crime de Miami. Alden Ehrenreich (A Hora do Mal) e Whitney Peak (Abracadabra 2) também estão confirmados na produção, embora os detalhes sobre seus personagens ainda não tenham sido revelados. 

Agora, os fãs terão que esperar um pouco mais para reencontrar Crockett e Tubbs nas telas. Até lá, já dá para começar a contagem regressiva para Miami Vice ’85!

E aí, o que vocês acharam das novidades de Miami Vice ’85? Conta pra gente nas redes sociais do Entretetizei (Facebook, Instagram e X) e nos siga para não perder nenhuma novidade!

 

Leia também: Só Por Uma Noite: novo romance com Mônica Barbaro e Callum Turner estreia nos cinemas 

 

Texto revisado por Gabriela Matuk 

 

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A Hipótese do Amor ganha sessão especial para fãs brasileiros com presença de Lili Reinhart e Tom Bateman

Protagonistas desembarcam no país para promover a adaptação do best-seller de Ali Hazelwood

Preparem o coração, fãs de A Hipótese do Amor! Lili Reinhart e Tom Bateman, protagonistas da adaptação do best-seller de Ali Hazelwood, estarão no Brasil para um encontro especial com o público. A dupla desembarca no país no dia 2 de setembro para participar de uma sessão exclusiva do filme em São Paulo.

A visita acontece antes da estreia oficial da produção no Prime Video, marcada para 23 de setembro, e promete ser um dos momentos mais aguardados pelos fãs brasileiros. Será a oportunidade de acompanhar a adaptação de um dos romances mais populares dos últimos anos ao lado dos próprios intérpretes de Olive Smith e Adam Carlsen.

Uma experiência especial para os fãs
Lili Reinhart e Tom Bateman e capa do livro de A Hipótese do Amor.
Foto: reprodução/Ingresso.com

Na história, Olive Smith é uma doutoranda em Biologia que decide fingir um relacionamento para ajudar a melhor amiga, mas acaba se envolvendo com Adam Carlsen, um professor conhecido pelo jeito intimidador. O que começa como um acordo entre os dois logo se transforma em algo muito maior.

Agora, a história que conquistou milhares de leitores chega às telas com Lili Reinhart e Tom Bateman nos papéis principais. A sessão em São Paulo marca uma das primeiras oportunidades para o público brasileiro conferir o longa e ainda acompanhar de perto a passagem dos protagonistas pelo país.

Como participar?

Quer viver esse momento de pertinho? Já pode colocar o alarme para tocar! Os ingressos para a sessão especial serão disponibilizados pelo Sympla nesta sexta (21), às 18h.

O evento acontece em São Paulo, no dia 2 de setembro, e contará com a presença de Lili Reinhart e Tom Bateman. Para quem quer garantir um lugar, a dica é acessar o Sympla no horário de abertura e ficar de olho nas informações divulgadas pelos canais oficiais do Prime Video.

Quem aí já está contando as horas para esse encontro? Conta pra gente nas redes sociais do Entretetizei  (Facebook, Instagram e X) e nos siga para não perder nenhuma novidade!

 

Leia também: Streaming divulga primeiras imagens e data de estreia de A Hipótese do Amor

 

Texto revisado por Kalylle Isse

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Primeiro trailer da 3ª temporada de The Pitt é divulgado

Série ganhadora do Emmy retorna em janeiro

Foi divulgado, nesta sexta (21), o primeiro trailer da terceira temporada de The Pitt. A ganhadora do Emmy de Melhor Série de Drama retorna à HBO Max em janeiro de 2027.

O trailer mostra o retorno de Dr. Robby (Noah Wyle) ao trabalho depois de três meses sabáticos, e traz mais emergências médicas que prometem chocar tanto os profissionais em plantão como os espectadores. A terceira temporada se passa no dia 12 de novembro, um dia após o Dia dos Veteranos nos Estados Unidos e algumas semanas antes do Dia de Ação de Graças.

Confira o trailer abaixo:

The Pitt acompanha a jornada caótica dos médicos do Pittsburgh Trauma Medical Hospital (PTMC) durante um único turno de emergência de 15 horas. Cada episódio corresponde a uma hora deste turno e são lançados semanalmente.

Retornam do elenco principal para a nova temporada: Patrick Ball (Dr. Langdon), Katherine LaNasa (Dana Evans), Fiona Dourif (Dr. McKay), Taylor Dearden (Dr. King), Isa Briones (Dr. Santos), Gerran Howell (Dr. Whitaker), Shabana Azeez (Javadi), Ayesha Harris (Dr. Ellis), Sepideh Moafi (Dr. Al-Hashimi) e Shawn Hatosy (Dr. Abbot).

Noah Wyle como Dr. Robby em The Pitt
Foto: reprodução/The Wrap

Criada por R. Scott Gemmill (ER: Plantão Médico), a série foi bem recebida pela crítica e conquistou três categorias na 77ª edição do Primetime Emmy Awards: Melhor Série de Drama, Melhor Ator em Série de Drama e Melhor Atriz Coadjuvante. Além destes, também ganharam Melhor Ator Convidado em Série Dramática no Creative Arts Emmy Awards de 2025.

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Leia também: Sterling Point é renovada para 2° temporada

 

Texto revisado por Gabriela Matuk

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Entrevista | Zoe X: entre o anonimato, o dark romance e a construção de um lar através da literatura

Com mais de 400 mil livros vendidos, e às vésperas de mais uma Bienal, a autora conversou com o Entretetizei sobre identidade, escrita, relação com as leitoras e a consolidação do dark romance brasileiro

Antes dos milhares de livros vendidos, das filas em bienais e das turnês pelo Brasil, a escrita ocupava um espaço muito mais íntimo na vida de Zoe X. Foi nas histórias que a autora encontrou uma forma de acolher a própria solidão e criar o lugar que sentia falta de encontrar. Anos depois, esse espaço deixou de pertencer apenas a ela.

Escrevendo desde os oito anos, Zoe começou a publicar suas histórias na internet em 2016. Um ano depois, venceu o prêmio Wattys com uma distopia e, em 2018, deu início oficialmente a sua carreira com a série Dark Hand. Desde então, construiu uma trajetória que atravessa a publicação independente e o mercado editorial tradicional, acumulando milhões de páginas lidas no Kindle Unlimited e mais de 400 mil exemplares vendidos.

O que começou como companhia para uma jovem escritora cresceu junto a uma comunidade de leitoras que encontrou em seus personagens um pouco desse mesmo sentimento de pertencimento. Hoje, enquanto títulos como Dark Hand, Bad Prince, Amor Profano e Queimando por Você ampliam seu espaço nas livrarias, Zoe preserva algo que decidiu manter longe dos olhos do público: sua identidade.

Entre a autora e a mulher por trás dos livros
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Em um mercado no qual a imagem do escritor muitas vezes se mistura à divulgação de sua obra, Zoe seguiu pelo caminho contrário. A autora preserva sua identidade civil e aparece publicamente usando uma balaclava, estabelecendo uma divisão entre aquilo que pertence à sua vida particular e a persona que encontra as leitoras em eventos.

Com o crescimento da carreira, porém, aquilo que surgiu como uma forma de preservar sua privacidade também se tornou uma assinatura. Hoje, basta a máscara para que muitas leitoras saibam imediatamente quem está diante delas.

Entretetizei: A balaclava acabou se tornando uma imagem imediatamente associada a você. É curioso pensar que, ao tentar separar a autora da pessoa, você acabou criando uma das identidades visuais mais reconhecíveis da literatura brasileira atual. Como você enxerga esse paradoxo?

Zoe X: Vejo isso de uma maneira muito mais simples do que os outros acreditam que seja, e penso que isso aconteceu porque a máscara nunca foi um disfarce. Ela é uma forma de proteção e também o limite que estabeleci entre a minha vida pessoal e aquilo que escolhi oferecer publicamente. Quando visto a balaclava, continuo sendo eu, mas estou ali como Zoe X, completamente voltada para minhas leitoras, meus livros e minha carreira. Talvez a força dessa identidade esteja justamente nessa contradição. As pessoas não conhecem o meu rosto, mas reconhecem imediatamente a minha presença. O que começou como uma escolha pessoal se transformou de maneira muito natural em uma assinatura visual, sem que eu precisasse abrir mão da privacidade que sempre quis preservar. Para mim, é o melhor dos dois mundos.

Quando a escrita deixa de ser um lugar solitário
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Antes de se transformar em profissão, a literatura já ocupava um espaço importante na vida de Zoe. A autora começou a escrever ainda criança e, anos mais tarde, encontrou na publicação digital uma forma de fazer aquelas histórias chegarem a outras pessoas.

Se, no início, criar personagens era uma maneira de encontrar companhia, o crescimento de sua comunidade deu um novo significado a esse processo. A escrita continua partindo de um lugar íntimo, mas agora existe a consciência de que, do outro lado da página, há alguém esperando para entrar naquele universo.

E: Você já comentou que começou a escrever porque se sentia só e queria criar um lugar onde outras pessoas também encontrassem conforto. Hoje, com milhares de leitoras encontrando esse “lar” nas suas histórias, sua relação com a escrita mudou?

ZX: Minha relação com a escrita mudou porque ela deixou de ser apenas uma necessidade pessoal e também se tornou uma profissão, uma responsabilidade e uma forma de me conectar com milhares de pessoas. Hoje, quando começo uma história, sei que existem leitoras esperando por ela e que aqueles personagens podem alcançar alguém em um momento importante da vida. Inevitavelmente, isso traz um peso e uma consciência que eu não tinha quando comecei. Ao mesmo tempo, a essência permanece a mesma. Continuo escrevendo para criar o lugar que eu mesma procurava quando me sentia só. Meus personagens ainda são uma companhia para mim antes de se tornarem companhia para qualquer outra pessoa, e acredito que é justamente essa verdade que permite que as leitoras encontrem um lar nas minhas histórias. Talvez, hoje, a maior mudança seja que esse lugar não pertence mais apenas a mim. A escrita começou como uma forma de acolher a minha própria solidão e acabou se transformando em um espaço coletivo, onde mulheres com vivências muito diferentes conseguem se reconhecer, se conectar e perceber que também não estão sozinhas.

Do independente às livrarias
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

A proximidade com as leitoras acompanha Zoe desde os primeiros anos da carreira. Foi no ambiente digital e na publicação independente que ela construiu uma comunidade capaz de transitar entre e-books, edições físicas, redes sociais e encontros presenciais.

A chegada ao mercado tradicional, no entanto, não significou substituir uma trajetória pela outra. Ao ocupar também as prateleiras das livrarias, Zoe passou a conversar com um público diferente daquele que já acompanhava cada lançamento pela internet.

E: Suas leitoras acompanham seu trabalho de forma muito próxima e você conseguiu levar essa comunidade da publicação digital e independente para o mercado editorial tradicional. O que você teve medo de perder nessa transição, o que acabou ganhando e até que ponto a reação desse público influencia suas próximas histórias sem interferir na sua liberdade criativa?

ZX: Costumo brincar que hoje vivo como a Hannah Montana, aproveitando o melhor dos dois mundos. Minha entrada no mercado tradicional não significou abandonar o independente, inclusive, não tenho essa pretensão. O que aconteceu foi uma expansão. Passei a ocupar as livrarias e alcançar pessoas que talvez nunca encontrassem meus livros na Amazon, sem perder o espaço em que construí minha trajetória e formei uma comunidade tão próxima. Confesso que no início, meu maior medo era perder justamente essa proximidade com as leitoras e parte da liberdade que sempre tive para decidir como, quando e o que publicar.

No independente, acompanho todas as etapas, conheço profundamente o meu público e tenho uma relação muito direta com ele. No tradicional, ganhei alcance, distribuição e a possibilidade de chegar a uma leitora diferente, que compra meus livros na livraria, mas que nem sempre me acompanha nas redes sociais ou procura minhas outras obras porque não tem o hábito de ler e-books. A leitora do independente costuma transitar por todos esses espaços. Ela lê o digital, compra o físico e acompanha cada passo da minha carreira nas redes. Já a leitora da livraria pode conhecer apenas aquele título que encontrou na estante e nunca me procurar além dele para criar uma conexão. São públicos com comportamentos diferentes, e aprender a conversar com os dois sem descaracterizar meu trabalho tem sido uma parte muito única dessa transição.

Sobre minha liberdade criativa, é óbvio que a reação das leitoras influencia a maneira como compreendo e apresento cada obra, mas não determina o que vou escrever. Eu observo o que desperta identificação, quais elementos funcionam comercialmente e como posso fazer uma história encontrar seu público. Ainda assim, não escrevo livros sem alma, nem escolho personagens apenas para corresponder a uma expectativa. A leitora continua sendo o centro da minha carreira, mas minha forma de criar é o que permite que eu entregue a ela uma história na qual realmente acredito.

Muito além do grotesco
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Com a expansão do dark romance no mercado editorial brasileiro, cresceram também as discussões em torno dos limites do gênero. Conhecida por construir personagens imperfeitos e explorar situações moralmente complexas, Zoe rejeita a ideia de que histórias sombrias existam simplesmente para transformar violência ou comportamentos problemáticos em algo desejável.

Para a autora, o que sustenta essas narrativas não é apenas aquilo que pode provocar ou incomodar, mas o contexto em que esses elementos aparecem e as questões que colocam diante do leitor.

E: Você costuma dizer que “dark romance não é uma ode ao grotesco”. O que você acha que as pessoas que criticam o gênero sem o terem lido ainda não compreenderam sobre essas histórias? E, dentro do gênero, existe alguma linha que nem mesmo você atravessaria nesse tipo de narrativa?

ZX: Acho que muitas pessoas ainda não compreenderam que o dark romance não é apenas um romance hot com situações mais pesadas. As cenas gráficas, sozinhas, não definem o gênero. O que importa é quem são aquelas personagens, como elas se comportam dentro de determinadas circunstâncias e quais questões morais a história coloca diante do leitor. São narrativas construídas para explorar limites, contradições e desconfortos, não para transformar tudo o que representam em exemplo ou aprovação.

Também existe uma dificuldade em separar representação de identificação. Quando escrevo sobre uma personagem, não estou escrevendo sobre a minha leitora, nem afirmando que ela tomaria as mesmas decisões. Estou contando a história de outra pessoa, inserida em outra realidade, com uma trajetória e uma moralidade próprias. A literatura não tem a obrigação moral de ensinar ou oferecer personagens exemplares, mas quem escreve tem a responsabilidade de estudar os temas que escolhe abordar, respeitar a classificação etária da obra e avisar com clareza o que a leitora encontrará, inclusive por meio dos alertas de gatilho.

Hoje, não consigo estabelecer uma linha temática que jamais atravessaria. Posso dizer que não escreveria algo e, amanhã, surgir uma história que me exija justamente aquilo. Dependendo do contexto, do propósito e da maneira como o tema se apresenta dentro da narrativa, talvez eu decida explorá-lo. Para mim, o limite não está necessariamente no assunto, mas na forma como ele é construído. O grotesco inserido apenas para chocar não sustenta uma história. É preciso que exista intenção, coerência e humanidade, mesmo quando escrevo sobre personagens moralmente condenáveis.

Quando os números ganham rostos
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Milhões de páginas lidas podem mostrar o alcance de uma obra, assim como rankings e números de vendas ajudam a dimensionar uma carreira. Mas foi diante das leitoras que Zoe percebeu concretamente que as histórias publicadas na internet haviam ultrapassado as fronteiras que imaginava.

Desde 2019, a autora participa de bienais e outros grandes eventos literários. Com o passar dos anos, filas, sessões de autógrafos e turnês passaram a fazer parte de uma carreira que havia começado atrás de uma tela.

E: Filas quilométricas, turnês e centenas de milhares de livros vendidos transformaram algo que começou de maneira muito íntima em um fenômeno público. Qual foi o momento em que você pensou: “isso ficou muito maior do que eu imaginava”?

ZX: Tenho os pés muito firmes no chão quando penso na minha carreira. Mesmo diante dos números, das filas e de tudo o que já conquistei, minha cabeça não fica nas nuvens. Mas houve um momento em que precisei reconhecer que aquilo tinha alcançado uma dimensão muito maior do que eu imaginava.

Foi na minha primeira Bienal depois da pandemia. Eu não tinha nenhuma sessão programada naquele dia, mas a quantidade de leitoras que apareceu formou uma fila tão grande que foi preciso organizar um atendimento de última hora. Comecei a receber as leitoras assim que cheguei e continuei até a Bienal fechar. Naquele dia, entendi de forma muito concreta que havia construído um público extremamente fiel e uma relação que tinha resistido ao tempo e à distância.

Ainda assim, acredito que cada ano é um ano e que cada livro representa um novo desafio. Hoje posso estar em evidência e, amanhã, lançar uma história com a qual o público talvez não se identifique. Reconheço a força das minhas leitoras e tudo o que construímos juntas, mas também tenho humildade para entender que esse sentimento de ter me tornado maior do que imaginava pode ser momentâneo. Nada está garantido. Por isso, continuo fazendo a minha parte, respeitando quem me acompanha e tratando cada nova história como se ainda tivesse tudo a conquistar.

Histórias que também transformam quem escreve
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Entre tantos universos e personagens, escolher uma única obra não é necessariamente uma resposta definitiva. Neste momento, porém, Zoe encontra um significado particular em Queimando por Você. O primeiro volume de Malditos Também Amam nasceu, na verdade, anos antes da edição que chegou às livrarias.

A oportunidade de retornar à história permitiu que a autora encontrasse novamente personagens concebidos em outra fase da vida e reconstruísse o livro a partir da escritora que se tornou.

E: Entre todas as suas obras, existe uma preferida ou alguma que você gostaria de revisitar e talvez mudar alguma coisa? Há algum personagem dessas histórias que tenha desafiado especialmente suas próprias convicções enquanto você o escrevia?

ZX: Neste momento, meu livro favorito é Queimando por Você, mas isso pode mudar no futuro. Cada história ocupa um lugar diferente em mim, dependendo da fase que estou vivendo e da autora que sou quando a escrevo. Ainda assim, esse livro tem um significado especial porque representa uma história que tive a oportunidade de revisitar e reconstruir completamente.

Queimando por Você surgiu em 2019. Eu escrevi uma primeira versão naquela época, mas não estava no meu melhor momento mental e sentia que não havia conseguido entregar tudo o que aquela história poderia ser. Quando a Faro me convidou para desenvolver uma série depois do sucesso de Amor Profano, enxerguei a oportunidade perfeita para começar novamente e explorar tudo o que não tive capacidade de desenvolver naquele primeiro momento.

O livro se tornou o primeiro dark romance nacional inédito lançado pelo mercado editorial tradicional e abriu a série Malditos Também Amam. Por meio dele, pude apresentar o que acredito que o dark romance pode ser para além da visão superficial de quem reduz o gênero a um texto absurdo ou a um romance hot mais pesado.

Quanto aos desafios morais, encontro vários durante a escrita, inclusive em alguns dos meus romances considerados mais tranquilos. Existem personagens meus com os quais, na vida real, eu provavelmente não trocaria nem um “oi”. Ainda assim, a forma como minha arte nasce não me permite fugir deles. Meu papel não é concordar com suas escolhas, mas compreender quem são, o que os formou e até onde sua própria moralidade pode levá-los. Muitas vezes, escrever significa permanecer diante de uma personagem que desafia minhas convicções e contar sua história sem tentar transformá-la em alguém que ela não é.

Essa proximidade não termina na construção moral. Para Zoe, os personagens ocupam um espaço tão presente durante o processo criativo que aprender a entregá-los às leitoras também fez parte de seu amadurecimento como escritora.

E: Já aconteceu de você se conectar tanto a um personagem que, de alguma forma, sentiu que ele fosse real para você? O que acontece emocionalmente quando chega a hora de terminar a história e se despedir dele?

ZX: Meus personagens são reais para mim. E confesso que sou chata, porque só escrevo aqueles que são muito insistentes, que tiram meu sono e me fazem passar dias e noites obcecada pela necessidade de contar suas histórias.

Enquanto escrevo, existe algo que pertence apenas a mim e a eles. Eu me emociono, me compadeço, sinto raiva e, às vezes, choro. Não observo essas personagens de longe. Durante aquele período, convivo com elas, tento compreendê-las e experimento cada parte da história ao lado delas. Quando coloco o ponto final, é como se meu HD fosse limpo para receber a próxima carga. Também preciso desse afastamento para organizar o que vivi internamente durante a escrita e me preparar para a fase seguinte, que é dividir aquelas personagens com o mundo.

Inclusive, isso já foi um problema para mim. Como eles eram muito reais e a relação durante a escrita era tão íntima, demorei a desenvolver maturidade para não sentir ciúmes quando outras pessoas passaram a ter acesso a elas. Precisei entender que, depois de publicado, o personagem deixa de ser somente meu. Cada leitora cria sua própria relação com ele, enxerga coisas que talvez nem eu tenha percebido e passa a carregá-lo de uma maneira diferente. Hoje, consigo compreender que essa também é uma forma de mantê-lo vivo.

Zoe X para além do dark romance
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Embora o dark romance tenha se tornado uma das principais associações ao nome de Zoe X, sua trajetória não começou nele. A autora venceu o Wattys com uma distopia e, ao longo da carreira, transitou por diferentes possibilidades dentro da ficção.

E quem espera que os próximos anos sejam dedicados exclusivamente ao gênero pelo qual ficou conhecida pode encontrar algumas surpresas.

E: De Dark Hand e Bad Prince a obras como A Maldição do Amor, você já explorou diferentes caminhos dentro do romance. Existe algum gênero, tema ou tipo de protagonista que suas leitoras jamais imaginariam ver em um livro da Zoe X, mas que você gostaria de escrever?

ZX: Com toda a certeza. Tenho dramas e suspenses escondidos na cabeça, um dark academia recém-iniciada nos meus arquivos e até um romance de época um pouco fora do padrão esperando para ser escrito. Comecei minha trajetória com uma distopia, em um gênero bem distante daquele pelo qual fiquei mais conhecida, mas nunca gostei de ser colocada dentro de uma caixinha.

Sei que posso misturar gêneros, temas e estruturas e, se uma história surgir e me der vontade de escrevê-la, é exatamente isso que vou fazer. No momento, tenho experimentado unir distopia e romance em um projeto que ainda está no começo. Minhas leitoras sabem que não quero e não vou me prender a apenas um tipo de história ou a fórmulas prontas. Para mim, essa é uma das partes mais interessantes da escrita. Gosto da liberdade de transitar por diferentes gêneros sem deixar de imprimir minha assinatura em cada história que decido contar.

Um capítulo do dark romance brasileiro
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

A ascensão de Zoe acontece em paralelo a uma mudança maior no mercado literário nacional. Histórias que encontraram público primeiro nas plataformas digitais e na autopublicação passaram a ocupar livrarias, editoras e alguns dos maiores eventos literários do país.

Para a autora, sua própria trajetória faz parte de um caminho aberto anteriormente por outras escritoras e ampliado por uma geração que mostrou existir mercado para romances escritos por mulheres e direcionados principalmente a elas.

E: Daqui a muitos anos, quando alguém olhar para o fenômeno do dark romance brasileiro desta geração, o que você gostaria que estivesse escrito sobre a contribuição de Zoe X para essa história?

ZX: Espero que reconheçam que fiz parte da consolidação do dark romance brasileiro. As autoras de romance hot que vieram antes de mim começaram a escavar um caminho em um mercado que ainda resistia a enxergar a força das histórias escritas por mulheres para mulheres. Minha contribuição veio ao ajudar a dar ao dark romance uma identidade mais definida dentro desse espaço.

Quando comecei, o gênero ainda não possuía no Brasil a linguagem comercial que tem hoje. Ao longo da minha carreira, participei da construção da forma como esses livros são apresentados, posicionados e comunicados para que encontrem o público certo. Fiz isso no independente e, agora, também no mercado tradicional, levando comigo as leitoras que ajudaram a transformar um nicho desacreditado em um fenômeno.

Se meu nome aparecer nessa história, quero que seja como o de uma autora que não apenas vendeu muitos livros, mas ajudou a abrir espaço para que o dark romance brasileiro fosse reconhecido como gênero, como literatura e como mercado.

O lar que deixou de pertencer apenas a si
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Se hoje existem números capazes de dimensionar parte da trajetória de Zoe X, eles não existiam quando a autora começou a colocar suas histórias no mundo. Não havia como antecipar livrarias, turnês ou leitoras esperando por horas para encontrá-la.

Talvez seja justamente por isso que, diante da possibilidade imaginária de voltar ao começo, Zoe prefira não revelar àquela jovem escritora onde suas histórias a levariam.

E: Por fim, se você pudesse conversar hoje com a Zoe que começou a publicar suas histórias na internet, antes dos milhares de leitores, das bienais e das turnês, o que diria a ela, e o que escolheria não contar para que ela pudesse descobrir sozinha?

ZX: Eu diria a ela para continuar, mesmo sem entender exatamente onde aquilo poderia levá-la. Diria para confiar mais na própria voz, aprender mais cedo que o livro também é um produto e não esperar que alguém lhe dê permissão para se considerar escritora. Também pediria que protegesse o propósito que a fez começar, porque seria muito fácil perdê-lo em meio aos números, às cobranças e às expectativas.

Não contaria sobre os milhares de livros vendidos, as filas nas bienais, as turnês ou a chegada ao mercado tradicional. Acho que, se ela soubesse de tudo isso, talvez começasse a escrever tentando alcançar o futuro que eu descrevi, quando o mais importante foi justamente ter construído essa trajetória sem garantias. Ela precisava continuar escrevendo porque aquelas histórias eram necessárias para ela, não porque sabia que seriam um sucesso.

Também não contaria o quanto algumas partes do caminho seriam difíceis. Não para poupá-la, mas porque cada descoberta, cada erro e cada pessoa que encontrou contribuíram para formar a autora e a mulher que sou hoje. Eu apenas diria que a solidão que a fez abrir aquela primeira página não duraria para sempre. Um dia, muitas outras mulheres encontrariam ali o mesmo lugar que ela estava tentando criar para si.

Das páginas para um lar compartilhado

No fim, talvez a dimensão da trajetória de Zoe X não esteja apenas nos livros vendidos, nas páginas lidas ou nas filas que atravessam os corredores das bienais. Está também no caminho entre uma escritora que abriu uma página para lidar com a própria solidão e as leitoras que, anos depois, encontraram companhia exatamente naquele mesmo lugar.

A máscara continua estabelecendo o limite entre a vida particular e a autora que Zoe escolheu compartilhar com o público. Mas, por trás das histórias, existe algo que já não pode ser mantido apenas para si: o universo que um dia serviu de lar para uma pessoa agora tem espaço para muitas outras.

E você, já conhecia a trajetória de Zoe X? Qual livro da autora conquistou um espaço especial na sua estante? Compartilhe com a gente através das nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!

 

Leia também: Especial | Dark romance: por que a ficção consumida por mulheres incomoda?

 

Texto revisado por Crystal Ribeiro

 

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Cinema

Cinema nacional: Bruna Linzmeyer vive coach do mal em Virtuosas, thriller brasileiro

Produção nacional combina terror e humor ácido em uma história que explora os perigos da manipulação.

Tem novidade no cinema nacional! Na última quarta (19), a produtora Olhar Filmes divulgou o trailer de Virtuosas, novo filme de terror estrelado pela atriz Bruna Linzmeyer.

O longa, dirigido pela cineasta Cíntia Domit Bittar, conta a história de um grupo de mulheres cristãs que decide participar de um retiro espiritual que promete ajudá-las a alcançar a submissão feminina.

O espaço, comandado pela coach Virgínia Heinzel (Bruna Linzmeyer), impõe uma série de regras rígidas baseadas na fé, onde falhar não é permitido. Apesar de o início parecer um verdadeiro paraíso, as atitudes suspeitas da mentora transformam a jornada em busca da perfeição em uma experiência perigosa e assustadora.

Com estreia prevista para 24 de setembro nos cinemas, o filme conta com um elenco de peso, incluindo a atriz Maria Galant, no papel de Germina, além de Juliana Lourenção, Sarah Motta, Brisa Marques, Nenê Borges, Fernando Bispo e Gabriel Godoy.

Cinema nacional Bruna Linzmeyer vive coach do mal em Virtuosas, thriller brasileiro
Foto: reprodução/Cristiano Siqueira

O longa é a mais nova aposta do cinema brasileiro e promete levar o público a transitar entre os gêneros do terror, suspense e humor ácido, em uma combinação que promete surpreender os espectadores.

Vale lembrar que, antes de chegar ao Brasil, o filme foi apresentado no Goes to Cannes, programa do Marché du Film realizado durante o Festival de Cannes no ano passado. A produção foi bem recebida pelos críticos e chegou a conquistar o prêmio Goes to Cannes Award, oferecido pela produtora espanhola Sideral Cinema.

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Revisado por Marina Barrelli de Carvalho

 
 

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