Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Entrevista | Zoe X: entre o anonimato, o dark romance e a construção de um lar através da literatura

Com mais de 400 mil livros vendidos, e às vésperas de mais uma Bienal, a autora conversou com o Entretetizei sobre identidade, escrita, relação com as leitoras e a consolidação do dark romance brasileiro

Antes dos milhares de livros vendidos, das filas em bienais e das turnês pelo Brasil, a escrita ocupava um espaço muito mais íntimo na vida de Zoe X. Foi nas histórias que a autora encontrou uma forma de acolher a própria solidão e criar o lugar que sentia falta de encontrar. Anos depois, esse espaço deixou de pertencer apenas a ela.

Escrevendo desde os oito anos, Zoe começou a publicar suas histórias na internet em 2016. Um ano depois, venceu o prêmio Wattys com uma distopia e, em 2018, deu início oficialmente a sua carreira com a série Dark Hand. Desde então, construiu uma trajetória que atravessa a publicação independente e o mercado editorial tradicional, acumulando milhões de páginas lidas no Kindle Unlimited e mais de 400 mil exemplares vendidos.

O que começou como companhia para uma jovem escritora cresceu junto a uma comunidade de leitoras que encontrou em seus personagens um pouco desse mesmo sentimento de pertencimento. Hoje, enquanto títulos como Dark Hand, Bad Prince, Amor Profano e Queimando por Você ampliam seu espaço nas livrarias, Zoe preserva algo que decidiu manter longe dos olhos do público: sua identidade.

Entre a autora e a mulher por trás dos livros
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Em um mercado no qual a imagem do escritor muitas vezes se mistura à divulgação de sua obra, Zoe seguiu pelo caminho contrário. A autora preserva sua identidade civil e aparece publicamente usando uma balaclava, estabelecendo uma divisão entre aquilo que pertence à sua vida particular e a persona que encontra as leitoras em eventos.

Com o crescimento da carreira, porém, aquilo que surgiu como uma forma de preservar sua privacidade também se tornou uma assinatura. Hoje, basta a máscara para que muitas leitoras saibam imediatamente quem está diante delas.

Entretetizei: A balaclava acabou se tornando uma imagem imediatamente associada a você. É curioso pensar que, ao tentar separar a autora da pessoa, você acabou criando uma das identidades visuais mais reconhecíveis da literatura brasileira atual. Como você enxerga esse paradoxo?

Zoe X: Vejo isso de uma maneira muito mais simples do que os outros acreditam que seja, e penso que isso aconteceu porque a máscara nunca foi um disfarce. Ela é uma forma de proteção e também o limite que estabeleci entre a minha vida pessoal e aquilo que escolhi oferecer publicamente. Quando visto a balaclava, continuo sendo eu, mas estou ali como Zoe X, completamente voltada para minhas leitoras, meus livros e minha carreira. Talvez a força dessa identidade esteja justamente nessa contradição. As pessoas não conhecem o meu rosto, mas reconhecem imediatamente a minha presença. O que começou como uma escolha pessoal se transformou de maneira muito natural em uma assinatura visual, sem que eu precisasse abrir mão da privacidade que sempre quis preservar. Para mim, é o melhor dos dois mundos.

Quando a escrita deixa de ser um lugar solitário
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Antes de se transformar em profissão, a literatura já ocupava um espaço importante na vida de Zoe. A autora começou a escrever ainda criança e, anos mais tarde, encontrou na publicação digital uma forma de fazer aquelas histórias chegarem a outras pessoas.

Se, no início, criar personagens era uma maneira de encontrar companhia, o crescimento de sua comunidade deu um novo significado a esse processo. A escrita continua partindo de um lugar íntimo, mas agora existe a consciência de que, do outro lado da página, há alguém esperando para entrar naquele universo.

E: Você já comentou que começou a escrever porque se sentia só e queria criar um lugar onde outras pessoas também encontrassem conforto. Hoje, com milhares de leitoras encontrando esse “lar” nas suas histórias, sua relação com a escrita mudou?

ZX: Minha relação com a escrita mudou porque ela deixou de ser apenas uma necessidade pessoal e também se tornou uma profissão, uma responsabilidade e uma forma de me conectar com milhares de pessoas. Hoje, quando começo uma história, sei que existem leitoras esperando por ela e que aqueles personagens podem alcançar alguém em um momento importante da vida. Inevitavelmente, isso traz um peso e uma consciência que eu não tinha quando comecei. Ao mesmo tempo, a essência permanece a mesma. Continuo escrevendo para criar o lugar que eu mesma procurava quando me sentia só. Meus personagens ainda são uma companhia para mim antes de se tornarem companhia para qualquer outra pessoa, e acredito que é justamente essa verdade que permite que as leitoras encontrem um lar nas minhas histórias. Talvez, hoje, a maior mudança seja que esse lugar não pertence mais apenas a mim. A escrita começou como uma forma de acolher a minha própria solidão e acabou se transformando em um espaço coletivo, onde mulheres com vivências muito diferentes conseguem se reconhecer, se conectar e perceber que também não estão sozinhas.

Do independente às livrarias
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

A proximidade com as leitoras acompanha Zoe desde os primeiros anos da carreira. Foi no ambiente digital e na publicação independente que ela construiu uma comunidade capaz de transitar entre e-books, edições físicas, redes sociais e encontros presenciais.

A chegada ao mercado tradicional, no entanto, não significou substituir uma trajetória pela outra. Ao ocupar também as prateleiras das livrarias, Zoe passou a conversar com um público diferente daquele que já acompanhava cada lançamento pela internet.

E: Suas leitoras acompanham seu trabalho de forma muito próxima e você conseguiu levar essa comunidade da publicação digital e independente para o mercado editorial tradicional. O que você teve medo de perder nessa transição, o que acabou ganhando e até que ponto a reação desse público influencia suas próximas histórias sem interferir na sua liberdade criativa?

ZX: Costumo brincar que hoje vivo como a Hannah Montana, aproveitando o melhor dos dois mundos. Minha entrada no mercado tradicional não significou abandonar o independente, inclusive, não tenho essa pretensão. O que aconteceu foi uma expansão. Passei a ocupar as livrarias e alcançar pessoas que talvez nunca encontrassem meus livros na Amazon, sem perder o espaço em que construí minha trajetória e formei uma comunidade tão próxima. Confesso que no início, meu maior medo era perder justamente essa proximidade com as leitoras e parte da liberdade que sempre tive para decidir como, quando e o que publicar.

No independente, acompanho todas as etapas, conheço profundamente o meu público e tenho uma relação muito direta com ele. No tradicional, ganhei alcance, distribuição e a possibilidade de chegar a uma leitora diferente, que compra meus livros na livraria, mas que nem sempre me acompanha nas redes sociais ou procura minhas outras obras porque não tem o hábito de ler e-books. A leitora do independente costuma transitar por todos esses espaços. Ela lê o digital, compra o físico e acompanha cada passo da minha carreira nas redes. Já a leitora da livraria pode conhecer apenas aquele título que encontrou na estante e nunca me procurar além dele para criar uma conexão. São públicos com comportamentos diferentes, e aprender a conversar com os dois sem descaracterizar meu trabalho tem sido uma parte muito única dessa transição.

Sobre minha liberdade criativa, é óbvio que a reação das leitoras influencia a maneira como compreendo e apresento cada obra, mas não determina o que vou escrever. Eu observo o que desperta identificação, quais elementos funcionam comercialmente e como posso fazer uma história encontrar seu público. Ainda assim, não escrevo livros sem alma, nem escolho personagens apenas para corresponder a uma expectativa. A leitora continua sendo o centro da minha carreira, mas minha forma de criar é o que permite que eu entregue a ela uma história na qual realmente acredito.

Muito além do grotesco
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Com a expansão do dark romance no mercado editorial brasileiro, cresceram também as discussões em torno dos limites do gênero. Conhecida por construir personagens imperfeitos e explorar situações moralmente complexas, Zoe rejeita a ideia de que histórias sombrias existam simplesmente para transformar violência ou comportamentos problemáticos em algo desejável.

Para a autora, o que sustenta essas narrativas não é apenas aquilo que pode provocar ou incomodar, mas o contexto em que esses elementos aparecem e as questões que colocam diante do leitor.

E: Você costuma dizer que “dark romance não é uma ode ao grotesco”. O que você acha que as pessoas que criticam o gênero sem o terem lido ainda não compreenderam sobre essas histórias? E, dentro do gênero, existe alguma linha que nem mesmo você atravessaria nesse tipo de narrativa?

ZX: Acho que muitas pessoas ainda não compreenderam que o dark romance não é apenas um romance hot com situações mais pesadas. As cenas gráficas, sozinhas, não definem o gênero. O que importa é quem são aquelas personagens, como elas se comportam dentro de determinadas circunstâncias e quais questões morais a história coloca diante do leitor. São narrativas construídas para explorar limites, contradições e desconfortos, não para transformar tudo o que representam em exemplo ou aprovação.

Também existe uma dificuldade em separar representação de identificação. Quando escrevo sobre uma personagem, não estou escrevendo sobre a minha leitora, nem afirmando que ela tomaria as mesmas decisões. Estou contando a história de outra pessoa, inserida em outra realidade, com uma trajetória e uma moralidade próprias. A literatura não tem a obrigação moral de ensinar ou oferecer personagens exemplares, mas quem escreve tem a responsabilidade de estudar os temas que escolhe abordar, respeitar a classificação etária da obra e avisar com clareza o que a leitora encontrará, inclusive por meio dos alertas de gatilho.

Hoje, não consigo estabelecer uma linha temática que jamais atravessaria. Posso dizer que não escreveria algo e, amanhã, surgir uma história que me exija justamente aquilo. Dependendo do contexto, do propósito e da maneira como o tema se apresenta dentro da narrativa, talvez eu decida explorá-lo. Para mim, o limite não está necessariamente no assunto, mas na forma como ele é construído. O grotesco inserido apenas para chocar não sustenta uma história. É preciso que exista intenção, coerência e humanidade, mesmo quando escrevo sobre personagens moralmente condenáveis.

Quando os números ganham rostos
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Milhões de páginas lidas podem mostrar o alcance de uma obra, assim como rankings e números de vendas ajudam a dimensionar uma carreira. Mas foi diante das leitoras que Zoe percebeu concretamente que as histórias publicadas na internet haviam ultrapassado as fronteiras que imaginava.

Desde 2019, a autora participa de bienais e outros grandes eventos literários. Com o passar dos anos, filas, sessões de autógrafos e turnês passaram a fazer parte de uma carreira que havia começado atrás de uma tela.

E: Filas quilométricas, turnês e centenas de milhares de livros vendidos transformaram algo que começou de maneira muito íntima em um fenômeno público. Qual foi o momento em que você pensou: “isso ficou muito maior do que eu imaginava”?

ZX: Tenho os pés muito firmes no chão quando penso na minha carreira. Mesmo diante dos números, das filas e de tudo o que já conquistei, minha cabeça não fica nas nuvens. Mas houve um momento em que precisei reconhecer que aquilo tinha alcançado uma dimensão muito maior do que eu imaginava.

Foi na minha primeira Bienal depois da pandemia. Eu não tinha nenhuma sessão programada naquele dia, mas a quantidade de leitoras que apareceu formou uma fila tão grande que foi preciso organizar um atendimento de última hora. Comecei a receber as leitoras assim que cheguei e continuei até a Bienal fechar. Naquele dia, entendi de forma muito concreta que havia construído um público extremamente fiel e uma relação que tinha resistido ao tempo e à distância.

Ainda assim, acredito que cada ano é um ano e que cada livro representa um novo desafio. Hoje posso estar em evidência e, amanhã, lançar uma história com a qual o público talvez não se identifique. Reconheço a força das minhas leitoras e tudo o que construímos juntas, mas também tenho humildade para entender que esse sentimento de ter me tornado maior do que imaginava pode ser momentâneo. Nada está garantido. Por isso, continuo fazendo a minha parte, respeitando quem me acompanha e tratando cada nova história como se ainda tivesse tudo a conquistar.

Histórias que também transformam quem escreve
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Entre tantos universos e personagens, escolher uma única obra não é necessariamente uma resposta definitiva. Neste momento, porém, Zoe encontra um significado particular em Queimando por Você. O primeiro volume de Malditos Também Amam nasceu, na verdade, anos antes da edição que chegou às livrarias.

A oportunidade de retornar à história permitiu que a autora encontrasse novamente personagens concebidos em outra fase da vida e reconstruísse o livro a partir da escritora que se tornou.

E: Entre todas as suas obras, existe uma preferida ou alguma que você gostaria de revisitar e talvez mudar alguma coisa? Há algum personagem dessas histórias que tenha desafiado especialmente suas próprias convicções enquanto você o escrevia?

ZX: Neste momento, meu livro favorito é Queimando por Você, mas isso pode mudar no futuro. Cada história ocupa um lugar diferente em mim, dependendo da fase que estou vivendo e da autora que sou quando a escrevo. Ainda assim, esse livro tem um significado especial porque representa uma história que tive a oportunidade de revisitar e reconstruir completamente.

Queimando por Você surgiu em 2019. Eu escrevi uma primeira versão naquela época, mas não estava no meu melhor momento mental e sentia que não havia conseguido entregar tudo o que aquela história poderia ser. Quando a Faro me convidou para desenvolver uma série depois do sucesso de Amor Profano, enxerguei a oportunidade perfeita para começar novamente e explorar tudo o que não tive capacidade de desenvolver naquele primeiro momento.

O livro se tornou o primeiro dark romance nacional inédito lançado pelo mercado editorial tradicional e abriu a série Malditos Também Amam. Por meio dele, pude apresentar o que acredito que o dark romance pode ser para além da visão superficial de quem reduz o gênero a um texto absurdo ou a um romance hot mais pesado.

Quanto aos desafios morais, encontro vários durante a escrita, inclusive em alguns dos meus romances considerados mais tranquilos. Existem personagens meus com os quais, na vida real, eu provavelmente não trocaria nem um “oi”. Ainda assim, a forma como minha arte nasce não me permite fugir deles. Meu papel não é concordar com suas escolhas, mas compreender quem são, o que os formou e até onde sua própria moralidade pode levá-los. Muitas vezes, escrever significa permanecer diante de uma personagem que desafia minhas convicções e contar sua história sem tentar transformá-la em alguém que ela não é.

Essa proximidade não termina na construção moral. Para Zoe, os personagens ocupam um espaço tão presente durante o processo criativo que aprender a entregá-los às leitoras também fez parte de seu amadurecimento como escritora.

E: Já aconteceu de você se conectar tanto a um personagem que, de alguma forma, sentiu que ele fosse real para você? O que acontece emocionalmente quando chega a hora de terminar a história e se despedir dele?

ZX: Meus personagens são reais para mim. E confesso que sou chata, porque só escrevo aqueles que são muito insistentes, que tiram meu sono e me fazem passar dias e noites obcecada pela necessidade de contar suas histórias.

Enquanto escrevo, existe algo que pertence apenas a mim e a eles. Eu me emociono, me compadeço, sinto raiva e, às vezes, choro. Não observo essas personagens de longe. Durante aquele período, convivo com elas, tento compreendê-las e experimento cada parte da história ao lado delas. Quando coloco o ponto final, é como se meu HD fosse limpo para receber a próxima carga. Também preciso desse afastamento para organizar o que vivi internamente durante a escrita e me preparar para a fase seguinte, que é dividir aquelas personagens com o mundo.

Inclusive, isso já foi um problema para mim. Como eles eram muito reais e a relação durante a escrita era tão íntima, demorei a desenvolver maturidade para não sentir ciúmes quando outras pessoas passaram a ter acesso a elas. Precisei entender que, depois de publicado, o personagem deixa de ser somente meu. Cada leitora cria sua própria relação com ele, enxerga coisas que talvez nem eu tenha percebido e passa a carregá-lo de uma maneira diferente. Hoje, consigo compreender que essa também é uma forma de mantê-lo vivo.

Zoe X para além do dark romance
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Embora o dark romance tenha se tornado uma das principais associações ao nome de Zoe X, sua trajetória não começou nele. A autora venceu o Wattys com uma distopia e, ao longo da carreira, transitou por diferentes possibilidades dentro da ficção.

E quem espera que os próximos anos sejam dedicados exclusivamente ao gênero pelo qual ficou conhecida pode encontrar algumas surpresas.

E: De Dark Hand e Bad Prince a obras como A Maldição do Amor, você já explorou diferentes caminhos dentro do romance. Existe algum gênero, tema ou tipo de protagonista que suas leitoras jamais imaginariam ver em um livro da Zoe X, mas que você gostaria de escrever?

ZX: Com toda a certeza. Tenho dramas e suspenses escondidos na cabeça, um dark academia recém-iniciada nos meus arquivos e até um romance de época um pouco fora do padrão esperando para ser escrito. Comecei minha trajetória com uma distopia, em um gênero bem distante daquele pelo qual fiquei mais conhecida, mas nunca gostei de ser colocada dentro de uma caixinha.

Sei que posso misturar gêneros, temas e estruturas e, se uma história surgir e me der vontade de escrevê-la, é exatamente isso que vou fazer. No momento, tenho experimentado unir distopia e romance em um projeto que ainda está no começo. Minhas leitoras sabem que não quero e não vou me prender a apenas um tipo de história ou a fórmulas prontas. Para mim, essa é uma das partes mais interessantes da escrita. Gosto da liberdade de transitar por diferentes gêneros sem deixar de imprimir minha assinatura em cada história que decido contar.

Um capítulo do dark romance brasileiro
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

A ascensão de Zoe acontece em paralelo a uma mudança maior no mercado literário nacional. Histórias que encontraram público primeiro nas plataformas digitais e na autopublicação passaram a ocupar livrarias, editoras e alguns dos maiores eventos literários do país.

Para a autora, sua própria trajetória faz parte de um caminho aberto anteriormente por outras escritoras e ampliado por uma geração que mostrou existir mercado para romances escritos por mulheres e direcionados principalmente a elas.

E: Daqui a muitos anos, quando alguém olhar para o fenômeno do dark romance brasileiro desta geração, o que você gostaria que estivesse escrito sobre a contribuição de Zoe X para essa história?

ZX: Espero que reconheçam que fiz parte da consolidação do dark romance brasileiro. As autoras de romance hot que vieram antes de mim começaram a escavar um caminho em um mercado que ainda resistia a enxergar a força das histórias escritas por mulheres para mulheres. Minha contribuição veio ao ajudar a dar ao dark romance uma identidade mais definida dentro desse espaço.

Quando comecei, o gênero ainda não possuía no Brasil a linguagem comercial que tem hoje. Ao longo da minha carreira, participei da construção da forma como esses livros são apresentados, posicionados e comunicados para que encontrem o público certo. Fiz isso no independente e, agora, também no mercado tradicional, levando comigo as leitoras que ajudaram a transformar um nicho desacreditado em um fenômeno.

Se meu nome aparecer nessa história, quero que seja como o de uma autora que não apenas vendeu muitos livros, mas ajudou a abrir espaço para que o dark romance brasileiro fosse reconhecido como gênero, como literatura e como mercado.

O lar que deixou de pertencer apenas a si
Foto: divulgação/Zoe X/Entretetizei

Se hoje existem números capazes de dimensionar parte da trajetória de Zoe X, eles não existiam quando a autora começou a colocar suas histórias no mundo. Não havia como antecipar livrarias, turnês ou leitoras esperando por horas para encontrá-la.

Talvez seja justamente por isso que, diante da possibilidade imaginária de voltar ao começo, Zoe prefira não revelar àquela jovem escritora onde suas histórias a levariam.

E: Por fim, se você pudesse conversar hoje com a Zoe que começou a publicar suas histórias na internet, antes dos milhares de leitores, das bienais e das turnês, o que diria a ela, e o que escolheria não contar para que ela pudesse descobrir sozinha?

ZX: Eu diria a ela para continuar, mesmo sem entender exatamente onde aquilo poderia levá-la. Diria para confiar mais na própria voz, aprender mais cedo que o livro também é um produto e não esperar que alguém lhe dê permissão para se considerar escritora. Também pediria que protegesse o propósito que a fez começar, porque seria muito fácil perdê-lo em meio aos números, às cobranças e às expectativas.

Não contaria sobre os milhares de livros vendidos, as filas nas bienais, as turnês ou a chegada ao mercado tradicional. Acho que, se ela soubesse de tudo isso, talvez começasse a escrever tentando alcançar o futuro que eu descrevi, quando o mais importante foi justamente ter construído essa trajetória sem garantias. Ela precisava continuar escrevendo porque aquelas histórias eram necessárias para ela, não porque sabia que seriam um sucesso.

Também não contaria o quanto algumas partes do caminho seriam difíceis. Não para poupá-la, mas porque cada descoberta, cada erro e cada pessoa que encontrou contribuíram para formar a autora e a mulher que sou hoje. Eu apenas diria que a solidão que a fez abrir aquela primeira página não duraria para sempre. Um dia, muitas outras mulheres encontrariam ali o mesmo lugar que ela estava tentando criar para si.

Das páginas para um lar compartilhado

No fim, talvez a dimensão da trajetória de Zoe X não esteja apenas nos livros vendidos, nas páginas lidas ou nas filas que atravessam os corredores das bienais. Está também no caminho entre uma escritora que abriu uma página para lidar com a própria solidão e as leitoras que, anos depois, encontraram companhia exatamente naquele mesmo lugar.

A máscara continua estabelecendo o limite entre a vida particular e a autora que Zoe escolheu compartilhar com o público. Mas, por trás das histórias, existe algo que já não pode ser mantido apenas para si: o universo que um dia serviu de lar para uma pessoa agora tem espaço para muitas outras.

E você, já conhecia a trajetória de Zoe X? Qual livro da autora conquistou um espaço especial na sua estante? Compartilhe com a gente através das nossas redes sociais – Instagram, Facebook e X – e, se você gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!

 

Leia também: Especial | Dark romance: por que a ficção consumida por mulheres incomoda?

 

Texto revisado por Crystal Ribeiro

 

plugins premium WordPress

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!