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Entrevista | Luca Guadagnini reflete sobre representatividade LGBTQIAP+ no futebol e na literatura

Escritor comenta o novo romance Os Dois Tempos de Beto Garcia, inspirado no universo do futebol, e discute homofobia, racismo, mercado editorial e a valorização de autores nacionais

Dois grandes astros do futebol brasileiro se amam em segredo: esse é o mote do novo livro de Luca Guadagnini, publicado em junho pela Seguinte. Em Os Dois Tempos de Beto Garcia, o leitor acompanhará a trajetória de Beto Garcia e Arthur Abreu que, amigos de infância, são convocados para a seleção brasileira e se reencontram na Copa do Mundo de 2026. Desse modo, neste sports romance, a narrativa se divide entre passado e presente, mostrando como o amor genuíno entre os personagens se transformou em mágoa. 

O autor, que cresceu rodeado pela cultura futebolística, conta que se afastou do mundo do esporte por conta do preconceito e da violência presentes nesses meios. Assim, para refletir sobre a presença de pessoas LGBTQIAP+ em tais espaços, Guadagnini imaginou uma história de amor entre dois jogadores de futebol – que também precisam enfrentar a homofobia e o racismo. 

“Achei que ia ser muito legal escrever um livro com dois jogadores LGBTQIAP+ vivendo um romance nesse ambiente. Trazer de volta esse ambiente que é, até hoje, o esporte mais violento do mundo, com racismo, homofobia e misoginia. Achei que ia dar uma história legal para mostrar como é ser uma pessoa gay nos vestiários, e que existem aos montes — a gente só não sabe”, explica o escritor. 

Luca Guadagnini é também influenciador e ator, tendo publicado a obra O Mundo que Habita em Mim em 2025. Em entrevista para o Entretetizei, ele fala mais sobre o processo de criação do livro, principais inspirações e representatividade LGBTQIAP+ na literatura. Confira!

Foto: editora Seguinte
Entretetizei: De onde vem o futebol na sua vida? Por que escrever uma história em torno dele?

Luca Guadagnini: Eu cresci rodeado por futebol porque a minha família sempre foi obcecada, meus amigos de infância e adolescência também. Quando eu era mais novo, eu caía nesse discurso: “Minha família é flamenguista, então sou flamenguista também”.

Com o tempo, conforme eu comecei a me entender enquanto uma pessoa LGBTQIAP+ – ainda que escondesse –, o meu carinho e o meu gosto pelo futebol foram sumindo. Por ser um esporte que afasta desse lugar de violência as pessoas LGBTQIAP+ no geral. Eu fazia escolinha quando era mais novo e era o tempo todo xingamento, porradaria, etc. Eu falava: “Cara, não é um ambiente que eu gosto muito”.

Acabei me afastando um pouco do esporte, mas aprendi o suficiente para conhecer o mundo esportivo. Mais velho, eu li um dos meus livros favoritos da vida até hoje, que é Vermelho, Branco e Sangue Azul. É um livro sobre duas figuras públicas que têm que se amar em segredo até falarem: “Não, queremos viver esse amor em liberdade”. Quando eu li esse livro, pensei: “Nossa, que delícia. Eu queria muito ter uma ideia assim no contexto brasileiro”.

E: Você está bastante presente nesse universo da literatura. Como leitor, como você se sentia enquanto crescia em relação à questão da representatividade nos livros? 

LG: Eu falo isso muitas vezes: na minha adolescência, a gente não tinha Heartstopper, não tinha Vermelho, Branco e Sangue Azul, não tinha muitos dos livros que hoje em dia são voltados para o público jovem com representatividade LGBTQIAP+. Na minha época, o máximo que eu tive para mim foi o Nico di Angelo, que é um personagem gay de Percy Jackson – saga pela qual eu era e ainda sou obcecado.

Nessa época, eu acabava lendo mais fantasia, jogos de terror, Percy Jackson, exatamente porque eu nem entendia a possibilidade da existência de romances LGBTQIAP+. Falar isso hoje é muito doido, mas realmente, há dez anos era muito diferente.

A primeira vez que eu peguei um livro de protagonismo LGBTQIAP+ para ler, já mais velho e entendido com a minha própria sexualidade, me vi nas páginas de um livro pela primeira vez e pensei: “Calma aí, tem um mundo novo a ser explorado aqui na minha frente”. Foi daí também que começou a vir esse meu desejo de escrever e ajudar a encher o mundo literário com histórias queer.

Acho que a gente ainda está caminhando para lugares onde consegue chegar e ocupar mais espaços. Mas se a gente compara com dez anos atrás, sem sombra de dúvidas, o mercado abriu muito para a literatura LGBTQIAP+. Até porque hoje em dia a gente tem, com mais facilidade, os livros e os autores independentes, que também ajudam a ampliar vozes – e muitas dessas vozes são LGBTQIAP+. A juventude de hoje consegue chegar nessas histórias e obras com mais facilidade. Para mim isso é maravilhoso, porque se eu tivesse tido essa oportunidade mais jovem, minha vida teria sido completamente diferente, para melhor, creio eu.

E: O livro gira em torno da amizade e do romance entre Beto e Arthur. Como foi para você construir esses dois personagens?

LG: Foi muito gostoso e, ao mesmo tempo, desafiador. Eu saí do O Mundo Que Habita em Mim, que é o meu primeiro romance, um livro muito próximo de mim em todos os aspectos: protagonista bissexual, faz teatro, ama MPB… ele basicamente sou eu. Eu saí desse livro e falei: “Tá, agora eu quero escrever dois personagens que são absolutamente distantes de mim, que passam por experiências que eu nunca vivi – graças a Deus –, as tragédias, etc. Cada um tem suas dores e pertencimentos que não chegam nem perto de ser a minha vida”. Foi muito desafiador nesse aspecto.

Para o Beto, desde o início em que pensei essa história, eu pensava nele enquanto um garoto preto. Quando a gente fala de ídolos do futebol nacional, estamos falando de pessoas pretas em sua avassaladora maioria. O futebol, por mais que ainda seja uma bolha em relação a quem eles valorizam ou desvalorizam, ainda é um esporte diverso dentro dessa bolha.

Quando eu pensava no Beto, falava: “Cara, eu quero um garoto preto do interior de Minas Gerais que conquista o mundo”. Quando tive essa ideia de escrever um protagonista preto e trazer essa verossimilhança com a realidade, trazendo as violências sofridas, pensei: “Preciso fazer isso com carinho e cuidado também”. Eu não queria de forma alguma que a trajetória do Beto fosse reduzida às violências que ele sofre no livro.

Queria que isso estivesse presente, sim, mas que mostrasse que ele é muito mais do que isso. Que a família dele é acolhedora desde o início, com todos os diálogos com a mãe sobre pertencimento e representatividade, que ele entende quem ele é enquanto herança e não enquanto uma dor. Isso também pega nesse lugar onde ele é um homem gay e tem o que chama de dois alvos nas costas: ser um jogador de futebol preto e gay.

Para o Arthur, indo para o outro lado, foi delicioso de construir enquanto um personagem apaixonante, que é o amor da vida do Beto. Mas ele tem toda essa questão familiar de violência e de traumas, que para mim foi muito difícil de acessar também, porque venho de uma família acolhedora como a do Beto. Então foi feito com muito carinho e cuidado para conseguir chegar nesse lugar.

Foi uma mistura deliciosa de construir dois personagens que se amam, que são amigos de infância – que era meu sonho escrever, porque amo friends to lovers –, e depois um enemies to lovers, que eu também amo ler. Foi delicioso escrever e trazer essas camadas de vivência. Foi desafiador, mas no final, passando por leituras sensíveis com pessoas, fiquei muito feliz com o resultado a que chegamos.

E: No livro, você aborda sobre a questão do racismo no futebol. Sendo um homem branco, quais cuidados tomou para construir a narrativa? 

LG: Foi um lugar de muita escuta de amigos pretos e de pesquisa no sentido de ler. Na época em que eu estava escrevendo o Beto, estava lendo também O Avesso da Pele, do Jeferson Tenório, para entender esse lugar de dentro. Tem até uma frase que li no livro e peguei emprestada para o Beto, que a mãe dele fala para ele: “Amar o lado de fora e proteger o lado de dentro”.

Foram livros que me ajudaram a entender esse tipo de vivência. É uma vivência que eu nunca vou ter. Eu sou um autor branco e, a partir do momento em que pensei em trazer esse protagonista preto, pensei no cuidado e no carinho que precisavam ser aplicados.

Além de ouvir e continuar lendo mais livros de pessoas pretas com protagonismo, tive muita ajuda das minhas editoras. Uma delas é uma mulher preta. O texto, depois de finalizado, também passou pela leitura sensível de Solaine Chioro, que é uma mulher preta.

Eu queria ouvir as pessoas que de fato têm as vivências mais semelhantes com a do Beto para trazer o tema com carinho e cuidado, sem cair no lugar do estereótipo ou de reduzir o personagem – o que muitas vezes acontece quando autores colocam personagens pretos e os reduzem à violência que sofrem. Eu não queria que o Beto fosse isso de jeito nenhum, queria mostrar que ele é muito mais do que uma coisa só.

E: O livro foi publicado bem na época da Copa do Mundo, em junho. Como foi esse processo?

LG: Eu tive a minha primeira reunião com a editora um mês e meio depois de ter publicado O Mundo Que Habita em Mim, no ano passado. Eu não tinha nada do livro ainda, tinha uma ideia e um sonho. Cheguei e falei: “Olha, tenho essa ideia de um romance entre dois jogadores da Seleção Brasileira na Copa do Mundo e queria muito que fosse lançado na Copa do Mundo de 2026. A gente consegue?”. Ela falou: “Consegue, mas você vai ter que correr”.

Foram três meses de absoluto mergulho nessa história. Saí traumatizado, mas foi delicioso. Pelo amor de Deus, nunca mais quero ter um prazo apertado assim na minha vida! Mas deu tudo certo para lançarmos a tempo. A editora mexeu no cronograma interno deles para conseguir fazer isso acontecer, o que é uma coisa que normalmente não fazem, mas era um caso à parte: Copa do Mundo. Senão, teríamos que esperar até 2030, e eu não ia ter essa paciência.

Foi planejado exatamente por isso: o futebol é uma coisa que muita gente acompanha, mas quando a gente fala da comunidade LGBTQIAP+ – que eu sei que seria o público maior desse livro –, não é um público que acompanha muito futebol. A Copa do Mundo é um momento em que está todo mundo em clima de futebol e de Copa. Eu queria muito aproveitar essa vibe gostosa de torcer pelo Brasil para lançar o livro bem nessa meiuca. Deu tudo certo. Foi ótimo acompanhar os jogos reais e os fictícios.

E: Algo que chama muita atenção no livro é o projeto gráfico. Como foi essa construção da imagem dos personagens?

LG: A capa foi feita pela Débora Islas, que é maravilhosa e também fez a capa do meu primeiro livro, O Mundo Que Habita em Mim. Eu tinha essa capa na cabeça desde o início: dois garotos deitados de mãos dadas no parque, em uma das cenas. Mas eu queria muito que a capa fosse em formato de figurinhas.

Quando pensei em figurinhas, me passou primeiro a ideia de talvez serem silhuetas, porque nunca fui o maior fã de capas que mostram o rosto dos personagens. Gosto muito de deixar a imaginação do leitor livre para ir para onde quiser. Quando a gente traz essa ilustração na capa, acaba prendendo, de certa forma, a imagem que o leitor tem do personagem. Mas pensei: “Estamos falando de figurinhas, de um romance de esporte. Vamos seguir por esse lado, que acaba sendo mais comercial também”.

As referências para os dois foram atores. Para a arte do Arthur, a referência foi o Pedro Novaes. Muita gente, quando fala isso, diz: “Nossa, sempre achei parecidíssimo”. É proposital. O Beto foi um ator chamado Gabriel Faryas, que fez um filme chamado Ato Noturno, que eu amo. Era, até então, a minha escalação perfeita para o Beto. Hoje em dia já tenho mais várias opções que seriam ótimos Betos, mas as referências para a capa foram eles dois.

As artes de miolo do interior foram feitas por outra artista, a Letrinha. A gente já tinha a capa pronta, mandamos para ela e falamos: “Obviamente no seu traço, mas são esses personagens aqui”. 

E: Por que você decidiu alternar a narrativa entre o passado e o presente?

LG: Quando comecei a escrever, tinha muita dúvida se faria entre passado e presente ou se faria um livro que alternasse do Beto para o Arthur, com dois pontos de vista diferentes. Fazer os dois seria completamente impossível: eu não ia conseguir escrever e as pessoas não iam conseguir ler, seria uma maluquice.

Eu gosto muito de friends to lovers e dessa pegada de amigos de infância que se apaixonam e viram os grandes amores da vida um do outro. Queria trazer essa sensação do passado, da construção da relação deles. O enemies to lovers o livro já ia ter de qualquer maneira, eu sabia que começaria com eles se odiando.

Quando pensei “por que eles se odeiam?”, quis construir a narrativa inteira para mostrar que eles eram amigos de infância que se apaixonaram e passaram a se odiar. Veio desse desejo de escrever uma parte muito fofa, de trazer o friends to lovers. O passado entrou porque eu queria escrever um friends to lovers que não conseguiria escrever no presente.

Começou a funcionar intercalar um com o outro, fazendo cenas paralelas. Às vezes falava de uma coisa no passado e isso respingava no presente de alguma forma. Era como se, de alguma maneira, fosse o Beto relembrando tudo enquanto vivia o presente dele. No final funcionou muito bem e gostei muito de como ficou.

E: Você mencionou anteriormente o seu primeiro romance, O Mundo Que Habita em Mim. O que mudou no seu processo de escrita de um livro para o outro?

LG: Acho que muita coisa. No processo de escrita em si, não sei se mudou tanto, porque meu processo é meio caótico. Tenho a ideia da história, tenho o início, algumas cenas do meio e o fim. Todo livro que começo é desse jeito. O resto eu descubro escrevendo. Tem personagem que aparece que eu nem sabia que existia e vira quase protagonista.

O Mundo Que Habita em Mim, por mais que tenha sido publicado no ano passado, foi um livro que comecei a rascunhar em meados de 2021. De lá até o lançamento foram quatro anos. Terminei o texto final no final de 2022 e revisei inteiro no final de 2023, então tive muito tempo para mexer. Eu tinha muito menos referências literárias de escrita, porque muito do que escrevo é o que leio e absorvo.

Se você pega o Luca de 2021, eu tinha 21 anos. Agora, o Luca que escreveu o Beto no ano passado e lançou este ano tem 26 anos. Acho que o que mais evoluiu foi a escrita, no sentido de amadurecer mesmo. Não só a escrita, mas também como as temáticas são tratadas. O Mundo Que Habita em Mim é um livro mais leve, mais utópico de certa forma, por mais que tenha temas sensíveis como a aceitação da própria sexualidade. O livro do Beto traz temas mais sensíveis.

Eu amadureci bastante de lá para cá, tive novas referências literárias que me fizeram querer escrever de formas diferentes e trazer uma nova voz. Quando comecei a escrever o Beto no ano passado, escrevi 200 páginas, cheguei na metade e falei: “Não estou gostando dessa voz do Beto“. Estava muito próxima de O Mundo Que Habita em Mim. Por mais que seja um livro jovem, estava jovem demais, não estava gostando do tom. Eu apaguei tudo – usei a mesma história de base, claro –, mas reescrevi absolutamente tudo amadurecendo a voz dele. O que mudou no processo foi entender esse amadurecimento da voz do protagonista.

E: Como vê a perspectiva do mercado literário no Brasil, para autores nacionais? 

LG: Acho que a gente ainda tem muito que caminhar. Em relação a obras LGBTQIAP+, por exemplo, sinto que temos aberto muito mais portas, mas principalmente para autores brancos. Quando estamos falando de literatura LGBTQIAP+, é mais para autores gays e bissexuais. A gente vê pouquíssimos autores trans e pretos publicados por editoras tradicionais, assim como autoras mulheres.

Temos visto um crescimento, mas ainda é uma escassez. Quando paramos para procurar um livro jovem de protagonismo trans em uma editora tradicional, conseguimos contar nos dedos de uma mão os mais conhecidos. Sinto que estamos melhorando, mas ainda muito para caminhar até chegar lá.

Uma coisa que eu percebia como leitor, percebia criando conteúdo para a internet, mas agora como autor percebo muito mais, é como o leitor – por mais que leia muito e a comunidade literária seja muito inteligente – ainda desvaloriza a literatura nacional em contraponto à literatura estrangeira.

Nos rankings dos mais vendidos, sempre estão livros jovens da Lynn Painter, Colleen Hoover… Não criticando, porque são maravilhosos também, mas a gente vê toda essa devoção a livros de pessoas estrangeiras. Quando vemos um livro de temática muito parecida e escrita excelente que se passa no Brasil ou é de um autor nacional, não há esse mesmo movimento.

Sinto que ainda há muito caminho a ser percorrido dos dois lados: tanto do mercado em si quanto dos leitores, de começarem a valorizar mais a literatura nacional. Isso tem mudado bastante de um tempo para cá, já temos vários grandes nomes e temos ganhado cada vez mais espaço com as pessoas falando e querendo indicar esses autores. Temos Raphael Montes, Carla Madeira e, para o público jovem, Clara Alves, Pedro Rhuas, Vitor Martins. Mas sinto que ainda dá para melhorar e acho que vamos chegar lá em algum momento.

E: Quais são as suas maiores inspirações como escritor?

LG: Uma das minhas grandessíssimas inspirações é o Vitor Martins. Quinze Dias foi um dos primeiríssimos livros LGBTQIA+ que eu li. O Vitor é da minha cidade, no interior do Rio, em Nova Friburgo. É uma vivência que a gente compartilha: crescer LGBTQIA+ em Friburgo, sair de lá e começar a contar histórias LGBTQIA+ para o mundo. Ele é uma inspiração gigantesca, fora que amo os livros dele. A Clara Alves, que também é minha amiga hoje, sempre foi uma grande inspiração para mim.

Fora eles, o Édouard Louis, que é um autor contemporâneo que amo muito. Descobri ele no início do ano passado e a escrita dele mudou alguma coisa dentro de mim pessoalmente e profissionalmente. Ele é responsável por 60% desse meu amadurecimento na escrita.

Também cito o Rick Riordan, de Percy Jackson, porque foi o autor que me fez entrar na literatura, crescer com ela e continuar expandindo o universo que criou com muita representatividade. Tem livro dele no universo de Percy Jackson protagonizado por um casal gay, uma coisa maravilhosa. São pessoas que me inspiram bastante a continuar escrevendo e fazendo o que amo.

E: Minas Gerais e Milton Nascimento têm papéis importantes na narrativa. Como se deu a escolha desses elementos?

LG: Começando por Minas: sendo absolutamente sincero, não tenho um grande motivo. Eu sabia que queria que o Beto fosse um protagonista mineiro porque sou apaixonado por Minas, amo os mineiros, tenho vários amigos de lá. Queria que os dois fossem de uma cidade do interior. Em O Mundo Que Habita em Mim já falo de um protagonista do interior do Rio de Janeiro e não queria repetir.

Hoje em dia moro em São Paulo, mas não é uma vivência de interior que eu tenha. Minas era um estado que eu frequentava mais na adolescência por ter amigos de lá. Originalmente, a história ia se passar em Juiz de Fora, cidade que já fui algumas vezes e amo. Mas faz muitos anos que não vou e fiquei em dúvida se conseguiria retratar bem. Tenho dois amigos muito próximos que são de Ipatinga e um deles falou: “Bota Ipatinga!”. Eu disse: “Total!”.

Botei Ipatinga, uma cidade onde nunca fui, mas comecei a pesquisar muito e eles me ajudaram a construir essa ambientação. Para entender o Parque Ipanema, que está no livro, eu via vídeos no YouTube para entender como era, porque gosto de ambientar muito próximo da realidade.

Em relação à música: o meu primeiro livro tem vários trechos de MPB ao longo do texto. É um livro que traz a cultura brasileira ao seu máximo, falando de dramaturgos e artistas brasileiros. Gosto de escrever livros que tragam a nossa cultura para a literatura. A gente importa muitas músicas gringas em livros nacionais e eu não queria fazer isso nesse contexto.

No livro do Beto foi difícil trazer essa brasilidade porque, por mais que eles venham de Minas Gerais, a história se passa na Copa nos Estados Unidos. Eu pensava: “Como posso trazer o máximo da cultura brasileira?”. Sabia que a música dos dois seria uma música nacional.

De tempos em tempos, eu redescubro a música River Phoenix, do Milton Nascimento. Na época em que estava escrevendo, redescobri a teoria de que essa música foi feita para o ator River Phoenix. Eles eram amigos na juventude e existe a teoria de que se amavam em segredo. Eu amo o Milton Nascimento, ele é top 3 de artistas da MPB para mim. Quando vi essa música, pensei: “Quero colocar no livro de alguma forma”. Quando encontrei a cena perfeita, encaixou. É uma das minhas cenas favoritas.

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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