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Larissa Góes
Foto: reprodução/Julia Trevisan

Entrevista | Larissa Góes comemora 20 anos de carreira e fala sobre seu mais recente trabalho em Guerreiros do Sol

A atriz cearense reflete sobre sua trajetória, o desafio de construção de uma personagem em plena gravação, a força da cultura nordestina e o que espera despertar no público com sua nova personagem

Entrevista por Gabriella Emim @gabriellaemim

Com vinte anos de carreira, a atriz cearense Larissa Góes vive um momento especial. Um dos destaques do elenco de Guerreiros do Sol, produção da Globo que mergulha no universo do cangaço, ela interpreta Petúnia, personagem intensa e cheia de camadas.

Larissa iniciou sua carreira muito jovem e ganhou projeção nacional ao ser escalada para a novela Velho Chico (2016), experiência que abriu portas para outras grandes produções, como a terceira temporada da série Cine Holliúdy (2019). 

Ao longo desses anos, construiu uma trajetória que transita entre televisão, streaming e teatro, tornando-se um dos nomes de destaque da cena artística brasileira.

Nesta conversa com o Entretê, Larissa fala sobre a infância no Ceará, reflete sobre o espaço do artista nordestino nas produções nacionais e revela os bastidores de Guerreiros do Sol. Ela também compartilha o processo de criação de Petúnia e o impacto pessoal de viver essa personagem.

Larissa Góes
Foto: reprodução/Julia Trevisan

Entretetizei: Larissa, você começou muito jovem e já soma vinte anos de carreira. O que mudou na sua forma de atuar e de enxergar a profissão desde seus primeiros trabalhos até hoje?

Larissa Góes: Acho que, antes, a ideia de atuação para mim se inscrevia em uma lógica mais formatada, quase uma receita pronta que se aprendia e colocava em prática. Hoje penso que esta é uma ideia falida quando se refere a processos que acontecem também dentro da subjetividade, da imaginação. Além de ser um tanto sem graça, já que, hoje, me empolgo cada vez mais com as descobertas sobre aonde os processos de construção de personagens me fazem chegar, com as reelaborações sobre o que foi pensado e até mesmo com as contradições que se somam. 

Compreendo também que aquele primeiro entendimento foi uma base de aprendizado crucial para que hoje novas ideias fizessem mais sentido dentro do que amadureci enquanto artista e indivíduo. E esta é a maneira como hoje enxergo minha profissão; ela se integra ao que sou. Sou grata por olhar para trás e pensar não só no quanto mudei, mas no quanto ainda posso mudar, pois, para mim, o caminho de formação do artista não tem um ponto de chegada, ele pulsa com a vida e isso é fascinante.

E: Você lembra do momento em que entendeu que atuar seria mesmo o seu caminho? Pode contar um pouco sobre como foi esse processo de descoberta?

LG: Aos vinte anos, mesmo mantendo minhas atividades no teatro sempre vigentes, eu estava fazendo faculdade de fisioterapia, visando um futuro profissional mais “seguro”, mesmo sem uma pressão familiar declarada, que é desestimulante e tão comum nos depoimentos dos meus colegas artistas. Quando surgiu um teste para fazer um trabalho na TV, a novela Velho Chico, onde eu contracenaria com pessoas que tanto admiro, em uma obra de tanto requinte e projeção, e eu precisaria interromper, mesmo que temporariamente, minha graduação, eu não pensei duas vezes. 

Para mim, não tinha o que decidir. Inconscientemente me ocorreu um alívio de quem está sendo salva, aquele respiro de “Ufa! Ainda bem que estão me tirando daqui.” Obviamente fisioterapia é uma profissão digna e louvável, mas, quando se está apostando em uma área profissional que não faz brilhar os teus olhos, pode ser deprimente. E eu jamais conseguiria dispor de tanta energia na fisioterapia como faço na arte.

Quando voltei para a minha cidade depois de ter participado daquela obra, entendi que só estava começando. A partir de então, eu iria assumir este ofício como único e larguei de vez a graduação em fisioterapia para me dedicar integralmente àquilo que seria assumidamente (e corajosamente) a minha carreira profissional.

E: Ter crescido no Ceará influenciou seu olhar artístico? Quais memórias ainda lhe acompanham nos personagens que constrói hoje?

LG: Certamente minha base de formação se concentra inteiramente no meu estado, Ceará. Depois, eu tive a oportunidade de conhecer novos lugares e contar novas histórias, mas a cena artística de Fortaleza é muito forte, tanto na linguagem da encenação quanto em outras áreas, como a música, a dança, as artes plásticas. Sempre que volto para a minha cidade, me inspiro novamente tanto com os artistas quanto com as pessoas que me atravessam por outras vias que não a arte em si. Minhas relações e meu senso crítico também se alimentam quando estou em casa e isso complementa o meu processo criativo de maneira até mesmo intuitiva.

Larissa Góes
Foto: reprodução/Julia Trevisan

E: Em Guerreiros do Sol, sua personagem Petúnia se vê no meio do cangaço ao se apaixonar por Sabiá. Como foi a construção dela e o que mais tocou você nessa história?

LG: O processo de construção da Petúnia se deu em tempo real, enquanto estava com as gravações em andamento, já que assumi a personagem substituindo uma outra atriz que precisou sair do projeto. Então não tive muito tempo de preparação, o que torna o desafio muito maior do que já costuma ser normalmente. Mas quando li o roteiro, a personagem me atravessou de maneira muito intensa e bonita. As relações que se construíram dentro e fora de cena também me ajudaram a encontrar cada vez mais camadas da Petúnia, e a equipe envolvida no projeto é de peso, o que contribuiu fortemente para que este olhar sobre a Petúnia se pousasse na delicadeza e na sensibilidade, mas também encontrava cargas mais densas, se necessário.

Hoje, me situo em outro tempo/espaço, com outras noções sobre pautas sociais e políticas, que me diferenciam bastante da Petúnia. Por isso mesmo, evito ter julgamentos sobre seus comportamentos e escolhas, que certamente são distantes dos meus, mas me fazem refletir sobre estruturas patriarcais que ainda se perpetuam. 

É lindo ver o amor deste casal que se encontra intimamente, construindo um imaginário tão sublime sobre um relacionamento, mas também me toca muito ver Petúnia em uma espera incessante por alguém que acaba por fazê-la atravessar tantas perdas. É triste, porque, para mim, é crível, é possível, para não dizer comum. Mas trago a trajetória da Petúnia comigo para que eu reinvente em mim cada vez mais maneiras de não me deixar anular dentro de relações e, ainda assim, me permitir amar com a intensidade e a coragem que ela amou.

E: A trama se passa em meio ao cangaço, um tema muito presente na cultura nordestina. Como foi se reconectar com essas raízes através do trabalho? E como você enxerga o espaço que os artistas nordestinos vêm conquistando nas produções nacionais?

LG: A novela tem uma dramaturgia fictícia, mas com forte embasamento em um marco na história do nosso país, que foi o cangaço. Muitos acontecimentos narrados na trama têm referência direta a fatos históricos. Compor o elenco de uma obra deste porte é para mim um forte elo ancestral, um espaço identitário que raramente é respeitado, infelizmente. 

Precisei pesquisar bastante sobre a temática, pois não tinha tanto domínio até então, para que a minha contribuição fosse ainda maior, pois acredito que o meu trabalho seja de co-criação, o que vai além de decorar os textos. O sotaque que compus para a Petúnia, por exemplo, está mais atrelado à região do Cariri, que fica no sul do Ceará, onde Lampião mantinha fortes laços. Então, mesmo eu já sendo nordestina, a pesquisa se fez presente para que a personagem ganhasse ainda mais complexidade. 

Para mim, é gratificante enquanto nordestina poder resgatar memórias da minha história e da minha família. Pude reunir isso em uma obra, dialogando com outras culturas vindas de outros estados da região de onde vêm vários atores do elenco. Percebo o quanto o Nordeste é imenso e rico, e amo descobrir novos elementos da cultura nordestina.

O Nordeste esbanja excelência no fazer artístico e, quando assisto a colegas de trabalho galgando novos espaços e conquistando tanto reconhecimento, eu vibro e me encho de esperança de que cada vez mais espaços de honraria sejam ocupados por pessoas vindas de regiões que estão fora do eixo sudestino.

E: O que o público pode esperar de Guerreiros do Sol — e por que vale a pena acompanhar? E o que você espera que o público sinta ao assistir à Petúnia nessa jornada?

LG: A trama está em sua reta final de lançamento, mas ficará no ar na plataforma da Globoplay Novelas. O público que ainda não viu pode começar a ver e o público que já viu pode assistir novamente e matar a saudade desses personagens e dessas histórias tão envolventes e emocionantes. 

Petúnia tem uma trajetória bem intensa, marcada por uma grande paixão e por grandes perdas que a fizeram tecer um novo olhar para a vida. Espero muito que ela reverbere nas pessoas o amor que reverberou em mim desde que a li pela primeira vez. Que essa personagem possa nos fazer lembrar do quanto é bom se entregar a um sentimento tão bonito, mas que também nos faça refletir sobre o tempo de hoje e as nossas escolhas.

Confira uma cena de Guerreiros do Sol! 

E: Recentemente, você viveu Dolores Duran nos palcos, na peça Território do Amor (2025). Como foi se aproximar de uma figura tão emblemática da música brasileira?

LG: Dolores Duran é uma das artistas precursoras no ramo da composição musical feminina brasileira e tem obras regravadas por grandes intérpretes como Maria Bethânia, Tom Zé, Elis Regina, Milton Nascimento… Dar vida a esta grande artista no espetáculo é certamente mais desafiador não só por ela ser quem foi, mas também por não nos ter deixado tantos registros de suas performances nos palcos, ou fora deles. 

Isso, inicialmente, foi bastante limitante, pois não tive tanta referência imagética de Dolores, mas, dentro do meu processo de pesquisa, tive acesso a documentários, histórias contadas por amigos e familiares que se somaram às suas próprias obras musicais e me ajudaram a encontrar a corporeidade que disponho nas cenas. Então, para compor a Dolores, trabalho com duas perspectivas: a que ela de fato já existiu e seu legado repercute ainda hoje; e com a que não há uma forma pronta, mas sim uma linda somatória quase que artesanal de como a Dolores vibra nas pessoas.

E: Como você se reconecta com sua essência quando está longe de casa, já que a carreira de atriz muitas vezes exige deslocamentos?

LG: A praia é certamente o lugar onde me sinto em casa. Mesmo tendo passado minha infância morando longe da praia, em bairros menos favorecidos, era nesse lugar que eu via minha família inteira feliz, brincante e conectada, mesmo com suas questões conflituosas. Então, hoje, além de manter o contato de maneira digital com meus pais e minhas irmãs, alimento o meu corpo e a minha mente com as memórias que a praia me traz. Quando preciso viajar para um lugar que não tem praia, é mais difícil, mas encontro outros espaços que me acolhem ou pessoas que vêm da minha região, e me revigoro.

E: Você já passou pelo teatro, cinema e televisão. Cada linguagem exige algo diferente do ator. Qual delas mais desafia você e qual encanta mais? Que tipo de personagem ou história você ainda tem vontade de viver nas telas?

LG: Gosto de transitar entre diferentes linguagens, porque uma sempre acaba me dando novas perspectivas sobre a outra. Fazer teatro, por exemplo, é estar em pleno exercício de presença: não tem segundo take, é como um plano-sequência no audiovisual, que não tem cortes. No teatro, reconheço a força do ensaio, do processo de construção, da escuta ativa, que acabam sendo base para as demais linguagens. Lamento muito por não ter tanto investimento quanto precisa e merece. Fazer teatro independente é encarar cruamente os percalços da profissão. 

Então, muitas vezes, quando os compromissos se chocam, acabo não dando prioridade ao teatro por questões financeiras. Mas é sempre a linguagem para onde preciso voltar para rememorar o meu interesse pela atuação.

Amo personagens que não se definem facilmente, que se complexificam através de contrariedades e de mistura de comportamentos. Nem todo mundo é um vilão por completo e nem todo mocinho é imaculado, mas o que se investiga sem a borda da definição é sempre mais intrigante para mim. Eu interesso por Capitus, Hamlets, Raskúlnikovs e outras invenções atraentes e controversas.

E você, já assistiu Guerreiros do Sol? Conta pra gente o que achou da Petúnia nas redes sociais do Entretê Insta, Facebook e X e aproveita para nos seguir e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do entretenimento.

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Texto revisado por Cristiane Amarante

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