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Foto: divulgação/Rodrigo Ferraz
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Entrevista | Alana Alberg relembra show no The Town, fala sobre carreira e representatividade feminina na música

Baixista reflete sobre trajetória, protagonismo feminino na música, projetos futuros e experiências marcantes, incluindo sua participação no The Town 2023 na banda de Jão

A baixista Alana Alberg tem se destacado tanto pela técnica no contrabaixo, instrumento que toca desde os 13 anos de idade, quanto pela força de sua presença. De uma cidade com cerca de 38 mil habitantes no interior de São Paulo, para os grandes palcos da música brasileira, seu talento vai além das cordas e do som grave: reflete uma energia única que a torna impossível de ignorar.

A trajetória da paulista, nascida em Tietê, foi marcada por desafios e aprendizados que a moldaram como artista. Hoje, ela inspira uma nova geração de meninas que sonham em ocupar os palcos tocando instrumentos.

Como diz a frase que a baixista tanto gosta: “a sorte só é boa para quem tá preparado.” E foi entre o som pesado do Heavy Metal, a concentração necessária para se apresentar em um circo, a experiência desafiadora de tocar em um navio internacional com ritmos diferentes a cada dia,  a exposição em programas de TV e a responsabilidade de dividir o palco com grandes artistas, que Alana foi descobrindo a sua própria batida: uma mistura de talento, sensibilidade, presença, dedicação e criatividade.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi subir ao palco do The Town, um dos maiores festivais de música do Brasil, onde se apresentou ao lado do cantor Jão. A experiência se somou à sua participação na superturnê do artista, que percorreu diversos estados e reuniu mais de 500 mil pessoas em plateias apaixonadas pela música Pop nacional. Além da fase mais recente com a banda do cantor do hit Idiota, a artista acumula trabalhos de relevância, incluindo a participação na banda do programa Amor & Sexo, da Globo, e colaborações com a banda Blitz e a cantora Julia Mestre.

Ainda assim, não foi um caminho fácil. No início, Alana não imaginava que a música poderia ser sua carreira. Ela tocava apenas por prazer, em bares e casas de show. Mas a vida tinha outros planos. Foi ao se mudar para o Rio de Janeiro, em 2012, para estudar Psicologia na UFRJ, que, mergulhada em um ambiente mais diverso, ela começou a se ver realmente inserida no mundo da música.

A virada de chave aconteceu em uma noite na Estudantina, um dos espaços mais tradicionais do Rio de Janeiro, fundado em 1928 e referência do samba de gafieira. O salão, repleto de histórias e embalado pelo som envolvente do grupo Afro Jazz, surpreendeu a artista e criou o cenário perfeito para um encontro transformador. Foi ali, entre luzes e a mistura de guitarra, metais, percussão e as batidas de um DJ que preenchiam o ambiente, que Alana sentiu uma conexão instantânea com a música — e com a possibilidade de seguir uma carreira como baixista profissional.

Foto: divulgação/Rodrigo Ferraz

Em entrevista ao Entretetizei, Alana Alberg compartilhou detalhes de sua trajetória como baixista, falou sobre o processo de crescimento pessoal e artístico, refletiu sobre a representatividade feminina e na cena musical, comentou sobre as trocas com outros artistas, relembrou a sua formação em Psicologia e revelou um pouco sobre seus projetos futuros. Confira a entrevista abaixo: 

Entretetizei: No The Town de 2023, você protagonizou um momento marcante ao desfilar no palco tocando como baixista da banda do Jão, emocionando e representando muitas mulheres. O que esse momento significou para você pessoalmente e profissionalmente?

Alana Alberg: Realmente foi um momento muito especial, por duas razões. 

A primeira é que eu realmente nunca tinha vivido isso: um momento de protagonismo em um show tão gigantesco como o The Town. Isso é bem raro para baixistas, sabe? O baixo é um instrumento que, em sua essência, é de acompanhamento e eu realmente nunca tinha nem me imaginado nesse cenário. 

A segunda foi sentir como isso me conectou com tantas meninas e as impactou. A melhor sensação é a de que aquele momento não foi sobre mim, mas sim sobre uma representação do poder feminino. Nós, que por tanto tempo fomos oprimidas e descredibilizadas, que ouvimos ou sentimos que não tínhamos a capacidade de fazer certas coisas que só os homens faziam, sentimos ali nossa força, foco, determinação e poder para realizar o que quer que seja da nossa vontade.

Foto: divulgação/Iris Alves

E: A cena musical ainda é majoritariamente masculina. Como você enxerga a representatividade feminina em grandes festivais atualmente? Você sente que sua trajetória pode abrir caminhos para outras musicistas? Quais conquistas você percebe que já podem ser celebradas e quais desafios ainda precisam ser enfrentados para ampliar a presença de mulheres instrumentistas em grandes palcos no Brasil?

A.A: Eu vejo o quanto minha trajetória abre caminhos para outras musicistas e isso é o que mais me emociona. 

Quando todo mundo duvida de você, é bem mais difícil acreditar que você é capaz de fazer determinada coisa e se você tem alguém para se inspirar, isso com certeza impacta e te dá mais força e determinação para seguir.

Temos muitas conquistas para celebrar! A última edição do Lolla, por exemplo, foi a que teve a maior presença de musicistas no palco. A Olivia Rodrigo veio com uma banda inteira feminina, teve a Jéssica Falchi (guitarrista brasileira) convidada a tocar com o Tool, a Carol Mathias (baixista da Marina Lima), Sus Vasquez (guitarrista do Benson Boone), dentre tantas outras! 

Eu vejo uma atenção bem maior dos artistas e produtores em ter mulheres nas bandas como acho que nunca houve antes e esse é o caminho. Seguindo assim, a tendência é só melhorar, a ponto da gente em algum momento se perguntar: como que já foi normal só vermos homens tocando instrumentos em cima do palco?

E: Você já viveu experiências musicais muito diversas. Você já tocou em um circo, com um artista Pop, em uma banda de Heavy Metal e em uma banda embarcada em um navio. Como foram essas experiências e como elas contribuíram para a formação da artista e pessoa que você é hoje? 

A.A: Tocar Heavy Metal foi a minha escola de pré-profissionalização. Dos 15 aos 18 anos, foi através do Heavy Metal, em bandas no interior de São Paulo onde nasci, que eu me conectei com o prazer de tocar baixo: era meu grande momento de lazer! Nessa época não pensava em trabalhar com isso, mas, mesmo assim, acabou que desenvolvi muita coisa com o Metal: presença de palco, técnica, pegada e o ouvido (não tinha partitura ou cifra de nada daqueles metais trevosos, então aprender de ouvido era a única opção).

Tocar no circo foi muito especial, porque foi o meu primeiro trabalho “sério” como musicista. Foi em 2015, substituindo meu professor, que me escolheu para essa missão. Eu já estava fazendo aulas com ele há alguns meses, totalmente focada em me profissionalizar, e esse momento foi como conquistar algo que eu estava 100% dedicada. Ele ter confiado em mim e eu ter conseguido ocupar esse espaço ao lado de músicos profissionais que já estavam a bastante tempo no mercado foi muito muito gratificante.

O navio, em 2019,  foi outra escola maravilhosa. Nessa época já estava bem inserida no mercado, mas depois de ter ficado durante sete meses tocando e performando praticamente todos os dias, com músicos do mundo todo, meu play com certeza foi para outro nível.

Lá cada dia era um estilo diferente: um dia era só Motown, outro Pop, depois Jazz, tinha o dia de Disco e Anos 80. Foi muito bom para absorver muito bem cada uma dessas linguagens. Além disso, eu pude aprimorar o meu inglês, conquistar uma ótima autonomia financeira, me conectar com pessoas e culturas do mundo inteiro, conhecer o Caribe todinho ganhando para isso!! Ah, bons tempos!

E aí, depois de todas essas experiências, tocar com um dos maiores artistas Pop do país foi diferente de tudo que eu já tinha vivido. Muito privilégio trabalhar com um artista que tem a estrutura e o tamanho que o Jão tem.

E: Além de baixista, você é formada em Psicologia pela UFRJ. Esse conhecimento adquirido na faculdade aparece, de alguma forma, na sua maneira de lidar com os desafios da carreira musical?

A.A: Com certeza. Quando a gente toca um instrumento lida com muitas questões, como o nosso ego, o medo da exposição e do julgamento. É um privilégio ter recurso para observar isso de forma consciente e não deixar que me domine ou paralise. 

A Gestalt-terapia é uma linha da Psicologia que me fez traçar muitos paralelos com a música. É uma abordagem que fala muito sobre Awareness (consciência) do momento presente, que é algo indispensável quando estamos tocando/estudando. 

Consciência corporal, outra coisa que acho, na minha opinião, essencial para qualquer pessoa que queira chegar à sua máxima potencialidade musical. Quando conseguimos identificar o estado de tensão ou relaxamento, nosso play vai para outro nível.

Criatividade. A Gestalt entende que todo ser humano é criativo por natureza e poder usar a música como forma de expressar criatividade, ampliar a espontaneidade, é também muito terapêutico. 

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E: O programa Amor & Sexo, do qual você fez parte da banda, contribuiu para a evolução de pensamentos, educação e diálogos mais plurais sobre amor, corpo e comportamento. Como essa experiência agregou na sua vida? 

A.A: No Amor & Sexo eu aprendi muito sobre todo o universo trans. Aprendi que orientação sexual (por quem você sente atração) não tem nada a ver com identidade de gênero. Aprendi que devolver violência com amor é uma das coisas mais poderosas que existe. Aprendi que um trisal nunca terá a sua relação reconhecida pelo Estado, não importa quanto tempo ou quão estável seja o relacionamento. Aprendi que existem artistas como a Fernanda Lima, extremamente dedicada, competente, com reconhecimento nacional, muito humana, pé no chão e sensível. Aprendi que autoestima não tem nada a ver com a aparência física. Aprendi a importância e urgência de se falar sobre sexo e sexualidade sem tabus. Dentre muitas muitas outras coisas!

E: A Julia Mestre, artista que você acompanha atualmente em turnê, esteve recentemente no evento de inovação Rio Innovation Week falando sobre inteligência artificial, expressão artística e criação autoral. Você está por dentro desse assunto tão atual? Qual a sua percepção sobre o uso da inteligência artificial no meio musical e criativo?

A.A: Veja bem, não estou tão por dentro assim, confesso, mas o que sinto sempre que surge esse assunto é: a única constante é a mudança. E por alguma razão, embora essa seja quase que uma lei natural, as mudanças sempre enfrentam muita resistência. Talvez por medo do desconhecido ou de perder espaço, e eu entendo isso, mas para cada coisa que possa perder um pouco de espaço ou ser substituída, surgem também novas profissões e a democratização do acesso a tantas outras.

Pensei aqui no exemplo da comida. Será que quando começaram a surgir os fast food e comidas processadas, os cozinheiros/chefes de cozinha ficaram com medo, entraram em debates? De lá pra cá, por termos acesso a uma comida tão mais rápida, menos elaborada e barata, os chefes ficaram obsoletos?

Sempre haverá consumidores para tudo, do fast food há quem paga R$ 1.000,00 reais para comer em um restaurante com estrela Michelin.

Arte, para mim, é o que é expresso pela via da emoção e é percebido da mesma forma por quem consome. Até onde eu sei, a inteligência artificial é capaz de tudo, menos de sentir.

Para mim, nunca deixaremos de ter pessoas que consomem aquilo que foi criado a partir de um peito despedaçado, um braço inteiro arrepiado, um rosto todo chorado e um coração apaixonado, porque, não sei você, mas eu sinto a diferença. 

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E: Convites para trabalhos importantes, como fazer parte da banda de Jão, chegaram a você pelo Facebook e pelo Instagram. Na sua visão, qual é o papel das redes sociais para músicos hoje? Para você, é essencial saber se posicionar nas telas?

A.A: A internet é uma ferramenta incrível para músicos e artistas em geral. De alguma forma essa pergunta se conecta com a anterior, porque eu já ouvi muitos músicos/artistas reclamando dessa tal mudança: “Ah, porque antigamente a gente não tinha que se preocupar com isso, chato demais ter que ficar postando, se preocupando em divulgar o trabalho online”. Meu querido, antigamente se você quisesse divulgar o seu trabalho, tinha que convencer uma rádio, revista ou canal de TV a fazer isso por você, não havia essa autonomia. A internet colocou uma ferramenta de divulgação incrível nas nossas mãos e tornou o processo bem mais democrático.

Não quer dizer que se você não tiver uma presença online não terá trabalhos, conheço muitos músicos que quase não postam e trabalham bastante só com o “boca a boca”, porém, é inegável que é uma ferramenta que pode ampliar ainda mais o seu alcance e atrair ainda mais oportunidades.

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E: Alana, você comentou em uma entrevista sobre o fato de o humor ser um recurso diferencial que contribui para o sucesso dos vídeos do criador de conteúdo e baixista Davie504. Ao mesmo tempo, quando mulheres baixistas usam o recurso da sensualidade em suas performances, isso, muitas vezes, é usado para descredibilizar o trabalho delas. Como você vê essa questão? Já viveu algo parecido?

A.A: Quando a gente descredibiliza uma mulher só porque ela está expressando sua sensualidade, a gente está na verdade tentando controlá-la. Por que o homem sente essa necessidade? Porque a nossa sensualidade carrega muito poder.

Não que quando um homem xingue uma musicista no post dela (ou pense que ela tem menos valor, porque está com determinada roupa) ele tenha consciência disso, pois foi algo aprendido e passado de geração em geração (inclusive para as próprias mulheres).

Eu vivi algo parecido, mas diferente do exemplo que eu dei na entrevista. Eu não estava usando a minha sensualidade propositalmente como recurso, não foi de caso pensado. Eu estava simplesmente com uma roupa de ficar em casa, mas foi o suficiente para eu ser assediada, descredibilizada e muito xingada na internet.

E: Você já compartilhou que está trabalhando em um projeto seu com foco em expandir conhecimento, que você começou a estruturar durante a turnê com o Jão. Pode nos contar mais ou dar algum spoiler sobre esse projeto inédito?

A.A: Claro, com prazer. Eu estou produzindo o meu curso online de baixo, para nível iniciante e intermediário. É um projeto que estou colocando toda minha dedicação, carinho e atenção nos mínimos detalhes, para que a experiência de aprender a tocar baixo seja a mais divertida, leve e fácil possível!! 

E você, acompanha o trabalho de Alana Alberg? Lembra da participação da artista no The Town 2023? Conta para gente nas redes sociais do EntretêInstagram, FacebookX — aproveita para nos seguir e ficar por dentro de tudo que rola no mundo do entretenimento.

Leia também: Entrevista | Marco França conquista os palcos, as telas e os ouvidos com sua sensibilidade e talento – Entretetizei

 

Texto revisado por Sabrina Borges de Moura 

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