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Foto: reprodução/Sunrise Radio

BAFTA: pessoas negras têm o direito de se incomodar com racismo

A reação ao insulto involuntário durante a cerimônia revela que a comunidade negra ainda carrega sozinha o fardo do racismo

No último domingo (22), ocorreu a 79ª edição do BAFTA, a cerimônia de premiação da academia britânica de cinema. Apesar de grandes surpresas nas categorias principais – como Ryan Coogler ter se tornado a primeira pessoa negra a vencer a categoria de Melhor Roteiro Original na história da premiação –, o momento mais comentado da noite não teve nada a ver com cinema.

Ainda no começo da cerimônia, quando os atores Michael B. Jordan e Delroy Lindo, ambos indicados ao Oscar pelo filme Pecadores (2025), subiram ao palco para apresentar a primeira categoria da noite, injúrias raciais foram gritadas por alguém na plateia. 

Diante do silêncio absoluto do público presente e dos olhares atentos de milhares de pessoas assistindo de casa, Delroy apenas continuou a ler o teleprompter, sem que nenhum dos dois se permitisse uma reação além de uma breve pausa.

O esclarecimento veio depois: John Davidson, um dos indicados da noite, tem síndrome de Tourette, um distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por tiques motores ou vocais. Além dos sintomas mais comuns, uma menor parcela de pacientes também pode sofrer com coprolalia, quando usam palavras obscenas e expressões inapropriadas de forma completamente involuntária e incontrolável.

Foto: reprodução/Ingresso.com
Coprolalia e a responsabilização de pessoas com deficiência

Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, a coprolalia não diz respeito a uma “falta de filtro” que, como tal, apenas revelaria pensamentos próprios da pessoa com a deficiência. A condição se aproxima mais de um pensamento intrusivo fisicamente incapaz de ser contido e que leva a pessoa a falar a coisa mais inapropriada em uma dada situação.

Eu quero que as pessoas saibam e entendam que meus tiques não têm absolutamente nada a ver com o que eu penso, sinto ou acredito”, explicou Davidson em entrevista à revista Variety após o BAFTA. “É uma falha neurológica involuntária. Meus tiques não são intencionais, não são uma escolha e não refletem meus valores.

O que vocês me ouvem gritando é literalmente a última coisa no mundo que eu acredito; é o oposto do que eu acredito”, continuou. “A palavra mais ofensiva que eu disse na cerimônia, por exemplo, é uma que eu jamais usaria e condenaria completamente se eu não tivesse Tourette.

Foto: reprodução/Rolling Stone Brasil

É importante ressaltar que o momento com Michael e Delroy não foi o único tique de Davidson na cerimônia, que durante a abertura já tinha gritado outras palavras ofensivas.

O entendimento e o acolhimento de pessoas com uma deficiência como Tourette, cujos comportamentos fogem do próprio controle, são inegociáveis, assim como a desculpa e a empatia com as pessoas ofendidas e vitimizadas pelos tiques também são, uma vez que, apesar do que as redes sociais parecem acreditar, pedir desculpas não é o mesmo que admitir intencionalidade.

Segundo a Variety, inclusive, Davidson está em contato com representantes de Pecadores (2025) para poder pedir desculpas aos atores pessoalmente, afinal, uma violência – intencional ou não, fruto de uma deficiência ou não – ainda é uma violência

O que é esperado de pessoas negras

Nós gostaríamos de agradecer Michael e Delroy por sua incrível dignidade e profissionalismo”, dizia a nota oficial do BAFTA, postada um dia após a cerimônia. Nas redes sociais, centenas de pessoas decidiram, antes mesmo que qualquer um dos dois comentasse o assunto, que expressar qualquer emoção além de compreensão imediata seria capacitismo. Muitos ainda disseram que Davidson não devia desculpas a ninguém, e que Michael e Delroy deviam apenas entender.

Parece controverso dizer isso, mas pessoas negras têm o direito de se incomodar com racismo. Em um dos maiores palcos do entretenimento, sob holofotes e olhares de centenas de milhares de pessoas, assistindo do teatro ou do sofá de casa, Jordan e Delroy, dois homens negros que celebram o sucesso de um filme que tematiza justamente a história de pessoas negras e a violência racial nos Estados Unidos, foram vítimas de racismo em uma situação humilhante e de profunda exposição pública.

Foto: reprodução/Variety

Chega a ser de mau gosto que o BAFTA elogie a dignidade dos dois, quando essa mesma dignidade foi violada naquele momento com o uso de um insulto que, independentemente de quem o esteja dizendo, é tão sensível para negros estadunidenses. 

Existe uma expectativa velada nesta nota e na reação de todos que correram para policiar a reação dos dois de que pessoas negras devem sempre demonstrar compreensão e estar dispostas a ignorar experiências de racismo. O que parece é que precisamos ter uma capacidade ilimitada de empatia, ainda que esse mesmo sentimento raras vezes nos seja concedido.

Em comentário à Vanity Fair, Delroy disse que ele e Michael “fizeram o que tinham que fazer” no momento, mas que gostaria que alguém do BAFTA tivesse entrado em contato com eles depois. Outros portais disseram que Jordan teria se sentido enojado por ser submetido ao racismo na cerimônia – rumor que também foi recebido com críticas nas redes sociais.

O racismo sofrido nunca parece ser suficiente para justificar uma reação e o silêncio é sempre elogiado, como se existisse um mérito em fingir que nada aconteceu e permitir que pessoas brancas continuem confortáveis às custas de uma violência apagada. Os dois podiam ter decidido sair do palco e se recusado a continuar a apresentar a categoria e não teriam menos dignidade ou seriam menos profissionais por isso. 

Contudo, o racismo não se limitou ao uso da injúria, também se estendeu à postura voluntária das instituições que falharam em proteger seus artistas e garantiram que o momento fosse transmitido na televisão.

Reincidência da violência

Assim como em todos os anos, o BAFTA foi transmitido este domingo com duas horas de delay e, dias antes da cerimônia, foi revelado que a BBC, emissora que sedia a premiação, estaria em alerta para evitar discursos políticos. O comentário é consequência das recentes manifestações pró-Palestina e em oposição à política contra imigração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante cerimônias de premiação.

Vimos o resultado disso quando os cineastas Wale Davies e Akinola Davies Jr. subiram ao palco para receber o prêmio de Melhor Diretor ou Roteirista Estreante, pelo filme My Father’s Shadow (2025). Durante o discurso, Akinola dedicou o prêmio aos imigrantes e a todos “aqueles sob ocupação, ditadura, perseguição e aqueles experienciando genocídio” e fechou sua fala dizendo “Palestina livre”.

Foto: reprodução/Variety

Duas horas depois, contudo, essa parte do seu discurso foi cortada da transmissão oficial na BBC que, ao mesmo tempo, optou por manter o momento em que Davidson grita a ofensa racista. Segundo alguns jornais, a escolha aconteceu mesmo após representantes da Warner Bros pedirem diretamente que a emissora cortasse o momento antes de levar a cerimônia ao ar.

A decisão da produtora de cortar um discurso político contra o genocídio do povo palestino, mas de deixar um momento de violência racial, é curiosa, para dizer o mínimo, e o resultado é a reincidência do racismo sofrido por Michael e Delroy, além de dar espaço para o capacitismo e a ignorância sobre o Tourette de Davidson, expondo todos os três a escrutínio e humilhação uma segunda vez – agora definitiva.

Na entrevista à Variety, Davison comentou que o BAFTA garantiu que qualquer tique causado pela coprolalia seria cortado da transmissão e, mesmo indicado nas principais categorias da noite, o artista foi colocado em uma cadeira a mais de 40 fileiras de distância do palco, procurando evitar expor outros presentes. 

Eu lembro que tinha um microfone bem na minha frente e, em retrospectiva, eu preciso me perguntar se isso era inteligente, tão perto de onde eu estava sentado, sabendo que eu poderia ter um tique”, revelou. 

Como se tudo isso já não fosse o bastante, a inteligência artificial do Google usou a injúria racial na manchete do incidente e incentivou usuários a “see more about n******”. A empresa logo emitiu um comunicado pedindo desculpas e retirou a notícia do ar.

Será que sabemos lidar com racismo?

No fim, percebemos que o fardo do racismo ainda é de responsabilidade exclusiva de pessoas não brancas e que um simples pedido de desculpas deve remediar e anular como uma situação, por mais não intencional que possa ter sido, nos fez sentir.

A violência, a humilhação e a desumanização são todas segundo plano quando o primeiro instinto do público é justificar a injúria, não oferecer acolhimento ou ouvir as pessoas afetadas. Quando a declaração do BAFTA elogia o silêncio, ela antecipa e condena qualquer possível reação que os dois possam vir a ter.

Seus sentimentos escapam em rumores e fofocas, mas ninguém parece entender que, para pessoas negras assistindo de casa, ver dois homens sofrerem racismo em um palco como o BAFTA e não terem o direito de reagir, além de breves segundos de pausa para recuperar o fôlego, é apenas um lembrete de que não podemos agir como humanos se quisermos ser reconhecidos como tal. 

Foto: reprodução/Rolling Stone

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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura

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