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Benedito Ruy Barbosa: o legado do mestre do Brasil profundo e da poesia rural na televisão nacional

 

Benedito Ruy Barbosa morreu na última terça(7), aos 95 anos. Seu legado histórico permanecerá por toda a eternidade e seu nome perpetuará sempre como um grande conhecedor do Brasil

Entre cafés, histórias simples, fazendas, autenticidade, contemplação bucólica, vida no campo e a profundeza da alma do povo brasileiro, Benedito Ruy Barbosa fez história na teledramaturgia brasileira. O autor que morreu na terça, dia 7 de julho, aos 95 anos, em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica, revolucionou a teledramaturgia ao consolidar a novela rural e transformar histórias comuns e regionais em grandes espetáculos.

O autor mostrou em suas obras o Brasil profundo e até então oculto e pouco retratado nas telinhas da TV. Com os conflitos latentes da sociedade brasileira, a realidade de pequenas cidades, dos trabalhadores do campo, das disputas por terra, da imigração e das profundas desigualdades econômicas e sociais, rompeu a visão de interior idealizada que predominava anteriormente e colocou a verdade da vida de gente simples, comum, socialmente vulnerável, mas carregadas de humanidade, nos lares brasileiros. Mesclando crítica social e realismo romântico memoráveis, tornou-se uma grande referência na televisão brasileira sobre a representação do Brasil profundo. 

O começo

Foto: reprodução/Cícero Rodrigues

Nascido em 17 de abril de 1931, no município de Gália, no interior de São Paulo, Benedito era o mais velho de cinco irmãos. Passou a infância na cidade vizinha, Vera Cruz, região cercada por cafezais e marcada pela forte concentração de imigrantes japoneses e italianos. Seu pai, Otávio Barbosa, fundou e dirigiu o jornal A Voz de Vera Cruz até morrer, precocemente, aos 29 anos, em 1942. 

Diante da falta de oportunidades no interior paulista, Benedito se mudou sozinho para a capital. Estudava de noite e trabalhava durante o dia como auxiliar de guarda-livros no escritório comercial Antonio Perez. Até conseguir trazer a família para morar em um cortiço no bairro do Bom Retiro, Benedito viveu uma rotina de muito esforço: trabalhou como vendedor de verduras na feira e foi faxineiro em um banco para ajudar no sustento da casa. Depois, graças ao seu conhecimento em contabilidade, foi contratado pelo Banco de Boston. 

Algum tempo mais tarde, retornou ao escritório Antonio Perez e passou dois anos trabalhando em Maringá, no Paraná. Essa temporada no estado seria decisiva para sua carreira artística. Foi ali que ele escreveu o seu primeiro romance: Fogo Frio, que, em 1959, se tornaria uma peça de teatro dirigida por Augusto Boal no Teatro de Arena. A montagem, inclusive, foi vencedora do prêmio principal da Associação Paulista dos Críticos de Arte. “Fogo frio porque a geada queima a plantação. Quando o sol esquentou, queimou todo o café. Tiveram que erradicar aqueles cafezais“, explicou o autor em entrevista ao Memória Globo.

As vivências nos cafezais moldaram profundamente seu olhar como novelista e escritor. Anos depois, transformaria todas aquelas lembranças, personagens e paisagens em partes essenciais de sua obra na televisão.

Em 1954, Benedito passou em um concurso promovido pelo Jornal Estado de S.Paulo e foi contratado como revisor. Sua estreia como repórter aconteceu na editoria de Esportes do jornal Última Hora. Trabalhou ainda na Gazeta Esportiva e foi redator de publicidade na Radial Propaganda. Enquanto consolidava sua carreira no jornalismo, Fogo Frio já havia se tornado um grande sucesso, despertando atenção no meio artístico. O sucesso da peça lhe rendeu um convite para atuar como roteirista na agência J. W. Thompson, onde passou a desenvolver novelas patrocinadas pela colgate-palmolive. Como autor, estreou na televisão com a novela Somos Todos Irmãos (1966), adaptação do romance A Vingança do Judeu de J.W. Rochester, exibida pela TV Tupi. Depois, trabalhou ainda na Excelsior e na Record, até ser contratado como assessor especial pela TV Cultura, em 1971.

 Em 1971, Benedito escreveu sua primeira novela totalmente original: Meu Pedacinho de Chão (1971), produzida pela TV Cultura em parceria com a Globo, a obra trazia o universo lúdico ambientado no campo e utilizava a ficção para levar ensinamentos aos trabalhadores e à população, como ferramenta de educação e conscientização social. Os autores contavam com informações fornecidas pelas secretarias municipais de Agricultura e Saúde para escrever sobre vacinação, desidratação, higiene e técnicas agrícolas. A novela também abordou o analfabetismo no campo ao mostrar personagens adultos retornando às salas de aula. Segundo o autor, a produção dialogava diretamente com o período de desenvolvimento do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), iniciativa criada durante a ditadura militar para reduzir os índices de analfabetismo no país. Com a novela, ele buscava ajudar esse projeto no qual acreditava:  “Eu podia provar que podia se fazer uma novela focando na temática rural brasileira, eu falava de técnicas de plantio, de vacinação, de ética, moral e civilização, além de ajudar com o foco na alfabetização do campo”, explicou Benedito ao Memória Globo. Mesmo sendo uma obra de cunho educativo, eram tempos de censura e ditadura militar, e por isso Meu Pedacinho de Chão não escapou de sofrer cortes por parte do governo inclusive em uma cena onde um personagem tocava violão e cantava o hino brasileiro para os caboclos, e em outra em que um aluno cantava o hino da escola com a bandeira do Brasil estendida na mesa, a censura cortou alegando que o hino não podia ser cantado naquele ambiente.  “A censura cortou dizendo que o hino não podia ser cantado naquele ambiente, isso me deixou indignado. Briguei com a censura e consegui liberar as cenas”, contou Benedito. Outro aspecto inovador foi a forma como passou a retratar o ambiente rural. Com o uso de locações naturais, fotografia de cinema e sequências externas, a paisagem se tornou um elemento narrativo fundamental em suas produções, deixando de ser mera coadjuvante e se tornando elemento surpresa de contemplação e atração principal das tramas, uma identidade visual inédita para a época. 

O autor assinou contrato com a Globo em 1976 para adaptar O Feijão e o Sonho, romance de Origines Lessa. A produção deu início a uma trajetória histórica do autor no horário das 18h. Na sequência, vieram À Sombra dos Laranjais (1977), adaptação da peça de Viriato Correia, e Cabocla (1979), inspirada em um romance de Ribeiro Couto.

Foto: divulgação/Acervo/Globo

Para Benedito, o elemento que sustenta uma trama é uma poderosa história de amor: “Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor”, disse ele. E é esse grande amor o fio condutor e o coração central de Cabocla, um de seus maiores sucessos. A trama acompanha o Luís Jerônimo (Fábio Júnior), jovem da elite carioca que deixa o Rio de Janeiro para se curar de uma pneumonia na pequena Vila da Mata. Lá, ele se apaixona por Zuca (Glória Pires), uma menina simples do interior, tendo como pano de fundo a rivalidade política entre Boanerges (Cláudio Corrêa e Castro) e Justino (Gilberto Martinho), dois coronéis da região. Cabocla foi a primeira novela de Glória Pires como protagonista, escalada depois do ótimo desempenho em Dancin Days (1978). A trama teve uma grande mensagem socioeducativa por meio do personagem Neco (Kadu Moliterno), que abordava a importância do voto consciente, sempre enfatizando o discurso de que voto não se vende. O êxito da produção foi tão grande que, em 2004, a TV Globo realizou um remake da trama, estrelado por Vanessa Giácomo e Daniel de Oliveira, que foi um grande sucesso e é lembrada até hoje pelos telespectadores com muito carinho. Com uma trama simples, humana, personagens cativantes, pacata mas muito bonita, sensível e romântica, Cabocla permanece como um dos folhetins mais queridos da história da televisão brasileira. 

Foto: divulgação/Nelson Di Rago/Globo

Após uma curta passagem pela TV Bandeirantes, onde escreveu Os Imigrantes (1981), Benedito voltou para a Globo para criar Paraíso (1982), outra trama romântica que gira em torno da paixão avassaladora e impossível entre o peão José Eleutério (Kadu Moliterno), conhecido como o Filho do Diabo, e Maria Rita (Cristina Mullins), chamada de Santinha, em uma pequena cidade do interior do Brasil. As cenas ambientadas nas fazendas de Paraíso foram gravadas em Vassouras, interior do Rio de Janeiro e a trama também ganhou um remake em 2009 protagonizado por Natália Dill e Eriberto Leão.

Foto: divulgação/Nelson Di Rago/Globo

Logo após, o autor escreveu Voltei pra Você (1983), De Quina pra Lua (1985) e Sinhá Moça (1986), outra obra marcante de sua carreira. Ambientada nos últimos anos da escravidão, Sinhá Moça acompanha a história da jovem interpretada por Lucélia Santos, filha do poderoso Coronel Ferreira (Rubens de Falco), o escravocrata conhecido como Barão de Araruna. Ela desafia a própria família ao se apaixonar por Rodolfo (Marcos Paulo), um ativo republicano abolicionista. Outro núcleo de destaque da trama foi o de Ana do Véu (Patrícia Pillar), jovem que vive com o rosto coberto devido a uma promessa feita por sua mãe, despertando o amor de Ricardo (Daniel Dantas), que se encanta por ela sem jamais ter visto seu rosto. A novela também ganhou um remake realizado em 2006, escrito pelo próprio Benedito com colaboração de Edmara Barbosa e Edilene Barbosa, contando com Débora Falabella, Danton Mello, Patrícia Pillar e Osmar Prado nos papéis principais, consolidando mais uma vez a força de suas histórias emblemáticas.

Logo após, Benedito escreveu Vida Nova (1988) e dirigiu e reformulou os episódios do Sítio do Picapau Amarelo, antes de uma mudança que redefiniria para sempre sua carreira e a história da televisão brasileira. 

O Pantanal e o marco emblemático para a TV brasileira

Foto: divulgação/TV Manchete

Em 1990, Benedito se transferiu para a TV Manchete, onde escreveu a obra que mudaria definitivamente a história da televisão brasileira: Pantanal. Exibida no horário nobre da emissora, a novela alcançou índices históricos de audiência, ameaçou a hegemonia da Globo e se transformou no maior sucesso da Manchete. Mais do que um fenômeno de público, a obra consolidou o nome de Benedito Ruy Barbosa como um dos maiores autores de novelas do Brasil.

Ambientada no bioma do Pantanal mato-grossense, a novela rompeu com os padrões da época por apostar em extensas gravações em paisagens naturais, fotografia de cinema, folclore nacional, religiosidade e no universo rural. O Pantanal era um personagem vivo e central na história. 

Foto: divulgação/TV Manchete

A história acompanhava a trajetória de Zé Leôncio (Paulo Gorgulho Cláudio Marzo), um peão de comitiva que chegou com o pai, Joventino (Cláudio Marzo) ao Pantanal, onde compraram uma fazenda e começaram a criar gado de corte. Zé Leoncio e o pai caçavam marruás, um tipo de boi selvagem que vivia solto pelas matas da região. Com o desaparecimento do pai, Zé Leôncio prometeu que iria trazer um marruá por dia no laço, para ter a esperança de encontrá-lo, transformando a propriedade em um império. 

Passado algum tempo, Zé Leôncio, já um fazendeiro rico, conhece a mimada Madeleine (Ingra Lyberato Ittala Nandi), uma moça de classe média alta carioca que está à beira da falência. Ela não se adapta à vida rural e à rotina de peão do marido. Amargurado, Zé Leôncio passa a viver com Filó (Tânia Alves Jussara Freire), sua empregada, após Madeleine fugir com o amigo Gustavo (José de Abreu) e o filho de poucos dias para o Rio de Janeiro. Ele passa a criar o filho de Filó, Tadeu (Marcos Palmeira) como seu filho. Vinte anos depois, o filho legítimo, Jove (Marcos Winter) decide conhecer o pai. O reencontro evidencia o choque cultural entre os dois. Sentindo-se rejeitado pelo pai, que acha que o filho é afeminado, e ridicularizado pelos peões da fazenda pelo seu jeito, Jove decide retornar ao Rio, mas leva consigo Juma Marruá (Cristiana Oliveira), moça criada como um animal selvagem pela mãe Maria Marruá (Cássia Kis) até a morte dela, assassinada por encomenda. Comenta-se no pantanal que, tal como a mãe, Juma se transforma em onça-pintada sempre que se sente ameaçada. 

Ao lado do romance entre Jove e Juma, Benedito construiu uma história marcada ainda por um lado sobrenatural: baseados no folclore da região pantaneira, os principais personagens, exceto Zé Leôncio, se deparavam com uma figura conhecida como O Velho do Rio, um curandeiro idoso que cuida das pessoas atacadas pela jararaca-boca-de-sapo, uma cobra venenosa, ou daqueles que se perdem na região. Todos comentam que ele é o pai de todas as sucuris e que também se transforma em sucuri, sendo a maior de todas; o povo ainda acredita que ele é o pai de Zé Leôncio, o desaparecido peão Joventino. Além disso, há a figura do misterioso peão Trindade (Almir Sater), que teria um pacto com o diabo, ou seria a própria encarnação dele. Com uma trama tão potente, envolvente e misteriosa, Pantanal se consolidou como um verdadeiro clássico brasileiro, recheado de mistério, vingança, sobrenatural, romance e tramas poderosas. “Procurei fugir do clichê e de todas aquelas variações sobre ascensão social. Pantanal é uma novela realista onde só se faz riqueza trabalhando duro”, contou Benedito em entrevista. 

O autor buscou enaltecer o Pantanal brasileiro e sua biodiversidade depois de conhecê-lo sete anos antes de realizar a novela, ao se hospedar em uma fazenda do cantor Sérgio Reis, em 1983. Ele chegou a oferecer a sinopse à TV Globo com o nome de Amor Pantaneiro, e ela chegou a ser aprovada, mas o Pantanal enfrentava cheias por causa das chuvas fortes na época. Ofereceram então a Benedito a possibilidade de rodar a trama na zona rural do Rio de Janeiro, ele recusou, e o projeto foi engavetado até 1989. A distância dos grandes centros era fundamental para reforçar o tom bucólico, rural e isolado da trama, todas as externas foram feitas na zona rural do Mato Grosso do Sul.   

Aposta da Manchete, Cristiana Oliveira foi escalada para viver a protagonista Juma Marruá. Ela havia sido lançada pela emissora em Kananga do Japão (1989). A atriz esteve no velório do dramaturgo, realizado no Funeral Home, na região central da capital paulista, e falou sobre o legado deixado pelo escritor, a admiração e a gratidão que sente por ele: “Eu estou muito triste, muito emocionada, mas extremamente grata por tudo o que o Benedito fez por mim, que foi me dar esse presente tão maravilhoso, tão eterno, que foi a Juma Marruá de Pantanal e depois repetir a nossa dobradinha em 2009, na segunda versão de Paraíso“, disse ela. “Benedito deixou um legado imenso, que com certeza as filhas, os filhos e o neto vão continuar. E, bem ou mal, as novelas dele são atemporais, porque falam de um Brasil extremamente simples, de um Brasil raiz, um Brasil que talvez o país não conheça. Ele brigou por mim, ele e Jayme decidiram que eu ia ser a Juma, uma menina desconhecida, sem experiência, de uma novela só. Eles acreditaram em mim”, afirmou a atriz.  Mais de três décadas depois, Pantanal permanece como um dos maiores clássicos da televisão brasileira. Benedito Ruy Barbosa aqui criou uma atmosfera única e inesquecível que redefiniu os padrões da teledramaturgia. 

Renascer e seus mitos sobrenaturais

Foto: divulgação/Acervo/Globo

Após o estrondoso sucesso de Pantanal, Benedito retornou à TV Globo para escrever sua primeira novela das 20h: Renascer (1993). Ambientada na região de cacau de Ilhéus, na Bahia, a obra reafirmou o autor como um dos maiores cronistas do Brasil rural ao unir drama familiar, realismo, sobrenatural, desigualdade social, misticismo e paisagens bucólicas. Aqui, a história conta a trajetória de José Inocêncio (Leonardo Vieira – Antonio Fagundes), um poderoso fazendeiro da zona de cacau que constrói um império na região da Bahia; Casado com Maria Santa (Patrícia França), com quem tem quatro filhos. 

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

Inocêncio tem uma péssima relação com o caçula, João Pedro, já que Maria Santa morreu no parto do menino. Na segunda fase, José Inocêncio é um contador de histórias: o caçula João Pedro preserva sua obra, a quem ama e idolatra, apesar de ter todos os motivos para odiá-lo. A desavença com o filho mais novo piora com a chegada de Mariana (Adriana Esteves), por quem tanto João Pedro e José Inocêncio se apaixonam. Um dos personagens de destaque da trama é o catador de caranguejos Tião Galinha (Osmar Prado), porta-voz do autor na denúncia das precárias condições de vida e de trabalho no Brasil. Tião acredita que o sucesso de José Inocencio se deve ao fato de ele ter criado um diabo dentro de uma garrafa, seu amuleto. Os filhos de José Inocêncio, José Augusto (Marco Ricca), José Bento (Tarcísio Filho) e José Venâncio (Taumaturgo Ferreira) moram e trabalham na cidade grande. Já o caçula João Pedro (Marcos Palmeira) é o único que nunca deixou a fazenda, mantendo-se do lado do pai, mesmo sofrendo com a indiferença e o desprezo dele. O diretor Luiz Fernando Carvalho conferiu uma linguagem de cinema aos capítulos iniciais da trama. Com direção de fotografia de Walter Carvalho, a novela recebeu muitos elogios de crítica e de público. Os cenários de Renascer eram um show à parte, um verdadeiro oásis, com cenas gravadas em Ilhéus, na Bahia, no interior de quatro grandes casas de fazendas de cacau. Por meio da história de Buba (Maria Luisa Mendonça), a novela abordou o hermafroditismo e o preconceito, e também tratou dos meninos de rua. Através de Teca (Paloma Duarte), Neno (Cassiano Carneiro) e Pitoco (Oberdan Junior), o autor discutiu temas como gravidez precoce, violência e anseios juvenis. Teca engravida cedo e é acolhida por José Inocêncio; a chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, fez o autor mudar o destino do pai do filho de Teca, que morre assassinado. Renascer marcou a estreia de Benedito no horário nobre da TV Globo. O autor colheu informações, impressões e histórias para a trama rodando três mil quilômetros do sertão baiano. “Uma grande parte das histórias a gente imagina. Mas o fundamental são as experiências de vida. Personagens que você cruza pelos seus caminhos. Eu rodei três mil quilômetros no sertão baiano para escrever Renascer e fiquei mais de dez anos até conseguir trazer à tona e fazer a novela”, contou o autor ao Memória Globo.

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

A atriz Patrícia França, que vinha do sucesso da minissérie Tereza Batista (1992), estreava em novelas na TV Globo ao lado do também iniciante Leonardo Vieira; os dois conquistaram e encantaram o público na primeira fase da trama, trazendo um amor puro e bonito, com uma química arrebatadora que renderam aos jovens, mais tarde, um convite para repetir o par romântico em outra novela: Sonho Meu (1993). Benedito explorou novas lendas e folclores, como a história do diabo na garrafa, e o personagem de Jackson Antunes, Damião, que foi inspirado em um ex-matador que o autor conheceu nessa viagem, chamado Seu Visita. 

Rei do Gado e a reforma agrária

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

Em 1996, Benedito continuou sua trajetória de novelas rurais, protagonizadas por pessoas simples e histórias sertanejas com O Rei do Gado, uma de suas obras mais emblemáticas. A trama conta a história de amor entre o latifundiário e pecuarista Bruno Mezenga (Antonio Fagundes) e a boia-fria Luana (Patrícia Pillar), ambos descendentes de duas famílias de imigrantes italianos rivais: os Mezenga e os Berdinazzi. Luana, porém, desconhece sua verdadeira origem e não sabe que pertence à família Berdinazzi. A descoberta de sua identidade traz à tona antigas desavenças e rivalidades entre as duas famílias.

Novamente, Benedito apostou em uma saga dividida em duas fases. “É bom estruturar em duas fases para que as pessoas possam conhecer as origens e as dores dos personagens“, afirmou. A novela também abordou o amor doentio e violento de Léia (Silvia Pfeifer) e seu  amante, Ralf (Oscar Magrini): Léia sustenta o estilo de vida fácil e luxuoso do companheiro, enquanto Ralf, malandro e interesseiro, faz de tudo para conseguir colocar as mãos em sua fortuna. A situação muda quando Bruno arma um flagrante e revela o caso entre eles. Abandonada, Léia implora pelo amor de Ralf, que passa a agredi-la, dando início à uma história de violência e submissão, extorquindo seu dinheiro e a espancando sempre que pode. 

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

Outro núcleo que chamou a atenção do público foi o de Lia (Lavínia Vlasak), filha mais velha de Bruno e Léia. Cúmplice do irmão Marcos (Fábio Assunção), Lia cresceu cercada de privilégios. Rica, bonita, culta e inteligente, sempre teve tudo o que quis, porém emocionalmente carregava as marcas de uma criação sem afeto. Sua vida muda ao conhecer Pirilampo (Almir Sater), um homem humilde do campo que, mesmo não sendo rei de coisa nenhuma, demonstra coragem, liberdade e resiliência. A química entre os dois conquistou o público, e o romance entre a princesinha do gado e o pobre violeiro permanece até hoje entre os casais mais lembrados da teledramaturgia nacional.

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

O Rei do Gado estreou apenas dois meses após a morte de 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará. Em meio à comoção nacional, Benedito levou para a televisão um tema até então inédito em novelas: a reforma agrária e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A abordagem teve grande repercussão nacional e colocou o debate sobre a questão fundiária no centro das discussões do país. 

Mais uma vez, o autor levou para a ficção sua própria vivência e familiaridade, retratando o que já viveu pessoalmente: na juventude, Benedito morou em fazendas, acompanhou o recebimento do café e aprendeu a selecionar grãos, conferir o peso e observar o tempo das brocas, conhecimentos que utilizou para mostrar na novela o universo com verdade.

Em busca de realidade, alguns atores tiveram que se submeter a laboratórios intensos antes da novela para compor seus personagens, alguns inclusive, viajaram para a região de Amparo, no interior de São Paulo, onde conviveram com colonos locais e  aprenderam atividades típicas do campo, como montar a cavalo, bater feijão e colher café. A preparação foi fundamental para impactar e mostrar a realidade do cotidiano das fazendas de café.

A novela foi um grande sucesso de audiência e repercussão, consolidando ainda mais o nome de Benedito como um ícone da teledramaturgia brasileira.

Terra Nostra e a trama italiana 

Foto: divulgação/R. Marques/Globo

Sua próxima saga, Terra Nostra (1999), trouxe à tona as raízes da cultura ítalo-brasileira ao contar a história de dois imigrantes italianos que se apaixonam durante uma viagem de navio rumo ao Brasil, mas são separados ao desembarcarem no país no final do século XIX. “Vários capítulos eu escrevi com os olhos cheios d’água pois eram reminiscências da minha infância. Nessas cenas, eu sempre via alguém muito próximo de mim, amigos e parentes naquele contexto, é uma das minhas obras favoritas“, explicou o autor ao Memória Globo. Na trama, os jovens italianos Matteo (Tiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio) se apaixonaram ainda durante a travessia para o Brasil. Ao desembarcarem, porém, são separados e seguem rumos diferentes, casando-se com outras pessoas, mas lutando para permanecerem juntos.

Foto: divulgação/R. Marques/Globo

Outro casal que conquistou o público foi Francesco (Raul Cortez) e Paola (Maria Fernanda Cândido). O romance, marcado pela diferença de idade entre os personagens, repercutiu em todo o país e foi um dos grandes destaques da novela. 

Inicialmente, Terra Nostra foi planejada para ter três fases, levando a história até o início dos anos 2000. Apesar do enorme sucesso, Benedito preferiu não prolongar a trama e encerrou ela no início da segunda guerra mundial, dividindo-a em apenas duas fases.

Uma continuação chegou a ser cogitada, mas o escritor mudou de ideia e preferiu retomar o tema da imigração italiana em Esperança (2002).

As cenas do embarque e da travessia foram gravadas em Southampton, no sul da Inglaterra, de onde partiu o Titanic em 1912. As gravações contaram com a participação de mais de 50 profissionais e cerca de 300 figurantes, incluindo ingleses, franceses e italianos.

Foto: divulgação/Jorge Baumann/Globo

As pesquisas históricas realizadas pela equipe foram fundamentais para a confecção dos figurinos de época. Somente para os primeiros capítulos foram feitas mais de 4 mil peças! O figurino influenciou na moda da época: os lenços usados por Giuliana viraram moda entre as meninas, enquanto os bonés de Matteo se tornaram febre entre os meninos. 

O reconhecimento veio também da crítica. A Associação Paulista de Críticos da Arte (APCA) deu à Terra Nostra o prêmio Musa de Ouro da Promax Latin America pela campanha de lançamento, e a novela ainda foi eleita como o melhor programa de televisão de 1999.

O autor idealizou Terra Nostra muito antes do sucesso. Ainda em 1981, ao encerrar Os Imigrantes na TV Bandeirantes, Benedito recebeu milhares de cartas de pessoas de diferentes nacionalidades contando as histórias de suas famílias que construíram uma nova vida no Brasil. Sua esposa fez uma seleção dos relatos, dando origem ao projeto da novela.

Inicialmente, Benedito achou que a Globo  não aprovaria a produção devido ao custo alto da produção, mas a direção aceitou e decidiu apostar no projeto.

Mais uma vez, o autor buscou inspiração em suas próprias memórias de infância. Quando criança, costumava brincar com filhos de imigrantes italianos que trabalhavam nas plantações de café da fazenda de um tio. 

Outro detalhe curioso envolve o diretor geral da novela e seu braço direito por muitos anos, Jayme Monjardim. Bisneto do empresário Francisco Matarazzo, Jayme tem uma ligação direta com a imigração italiana retratada na trama. Seu bisavô deixou Nápoles, em 1870, para construir a vida no Brasil em uma viagem de navio semelhante à mostrada na trama.

Terra Nostra também marcou a estreia de Maria Fernanda Cândido como atriz na TV Globo, durante a exibição da novela, uma pesquisa realizada no Fantástico elegeu a atriz como a mulher mais bonita do século pelo público.

A novela foi um verdadeiro fenômeno e extrapolou a televisão. Camelôs vendiam bonecos de Matteo, Paola e Giuliana em bancas de jornais, enquanto roupas, alimentos como macarrão, vinhos e molhos de tomate com a marca Terra Nostra chegaram aos mercados. A novela foi uma das produções brasileiras mais vendidas para o exterior e permanece até hoje como um dos maiores clássicos da televisão nacional.

Foto: divulgação/Acervo/Globo

Ainda dentro deste universo, Benedito escreveu Esperança em 2002, novela que retomou diversos elementos parecidos de Terra Nostra para contar a história de amor entre os italianos Toni (Reynaldo Gianecchini) e Maria (Priscila Fantin), agora na década de 1930. 

Foto: divulgação/Renato Rocha Miranda/Globo

Em 2005, já com 40 anos de carreira, Benedito escreveu Mad Maria, uma minissérie baseada no romance de Márcio Silva. “Depois da Terra Nostra, o Ricardo Waddington leu Mad Maria e ficou louco. Foi ao meu sítio e disse que tinha que fazer isso, ele montou a equipe e foi embora para Rondônia, falou com o governador, armou tudo, tiraram a Mad Maria do meio do mato, botaram em cima do trilho, reformaram tudo. Quando vi os primeiros capítulos, juro que não acreditei“, afirmou o autor. A produção retrata a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, no norte do Brasil, um dos maiores empreendimentos do país. Nos anos seguintes, Benedito  ainda revisitou duas de suas obras mais marcantes ao escrever os remakes de Sinhá Moça e Meu Pedacinho de Chão, em 2006 e 2014, reafirmando a força de suas histórias que atravessam gerações e deixam marcas. 

Velho Chico e a declaração de amor ao Rio São Francisco

Foto: divulgação/Caiuá Franco/Globo

 Em março de 2016, Benedito concebeu sua última obra inédita para a televisão: Velho Chico. Dividida em duas fases, a novela começa na década de 1960, na fictícia Grotas de São Francisco, e retrata a disputa de terras e poder entre os De Sá Ribeiro e os Dos Anjos, mais uma vez explorando disputas entre famílias que atravessam gerações. A rivalidade se estende até a atualidade e se entrelaça na luta pela preservação e pelo renascimento do Rio São Francisco.

Em 2009, Benedito entregou à direção da TV Globo a sinopse da trama inspirada no Velho Chico, porém em 2012, o projeto foi engavetado por ser considerado político demais. Em 2015, a novela chegou a ser aprovada para às 18 horas, mas a pedido do autor, Luiz Fernando Carvalho foi convidado para assumir a direção. Com isso, a emissora concluiu que a história era forte demais para o horário e decidiu transferi-la para o horário das 21 horas, com sua estreia sendo programada para 2016, justamente por abordar tramas políticas em pleno ano eleitoral.

O elenco foi selecionado a partir de uma pesquisa extensa de atores nordestinos. A primeira fase marcou a volta de Rodrigo Santoro para as novelas, após 13 anos afastado do gênero desde Mulheres Apaixonadas, em 2003. Luiz Fernando Carvalho desejava uma atriz espanhola para o papel de Iolanda, mas devido à importância da personagem, várias atrizes brasileiras foram cogitadas, entre elas Ana Paula Arósio e Maria Fernanda Cândido. Como  nenhuma dessas aceitou o convite, o papel ficou a cargo de Camila Pitanga.

O amor proibido de Maria Tereza (Julia Dalavia) e Santo dos Anjos (Renato Góes), que desafiavam as desavenças familiares e se encontravam às escondidas, conquistou o público pela química avassaladora e uma paixão bonita e pura, delicada dos jovens. Afrânio (Rodrigo Santoro), pai de Maria Teresa, faz de tudo para separar o casal e chega a até ordenar a morte de Santo.

Foto: divulgação/Caiuá Franco/Globo

Quase 30 anos depois, Maria Tereza volta para a cidade ao lado do marido, o ambicioso político Carlos Eduardo (Marcelo Serrado), que criou Miguel (Gabriel Leone), como se fosse seu próprio filho, fruto, sem saber na verdade que o rapaz é fruto da relação proibida entre Tereza e Santo. 

Outra trama que chamou atenção foi a de Beatriz (Dira Paes), professora na escola rural de Grotas, que luta por melhores condições de ensino para as crianças. Ela se envolve em um triângulo amoroso com o vereador Bento (Irandhir Santos) e o jornalista Martim (Lee Taylor), ambos apoiadores de sua candidatura à prefeitura da cidade.

As gravações começaram em janeiro de 2016 no nordeste e duraram dois meses entre Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia. A logística impressionou: dez caminhões saíram do Rio de Janeiro rumo ao Nordeste com três toneladas de figurinos, cenários e equipamentos.

Para escrever a novela, Benedito buscou inspiração em sua época de repórter, nos anos 70. Durante esse período, o autor percorreu o Rio São Francisco em uma embarcação conhecida como gaiola e passou dias dormindo a bordo. O contato com o rio, suas paisagens e seu povo deu origem à trama, definida pelo autor como uma verdadeira declaração de amor ao Velho Chico.

Na reta final da carreira, Benedito contou com a ajuda da filha, Edmara Barbosa, e do neto, Bruno Luperi na construção da novela.  

Velho Chico, no entanto, infelizmente, ficou marcada por duas perdas duras e severas que abalaram profundamente o público e a equipe da trama. A primeira aconteceu com o ator Umberto Magnani, que morreu aos 75 anos, dois dias depois de sofrer um acidente vascular encefálico hemorrágico durante as gravações da novela. O ator foi substituído por Carlos Vereza em cena.

Foto: divulgação/Artur Meninea/Globo

Quase cinco meses depois, outra tragédia ainda maior impactou o público e marcou a trama para sempre. Faltando apenas duas semanas para a exibição do capítulo final, em 15 de setembro de 2016, o ator Domingos Montagner, que interpretava o protagonista Santo, morreu após se afogar no Rio São Francisco, em Canindé de São Francisco, Sergipe. O acidente ocorreu logo após uma gravação da novela, com a presença de Gabriel Leone e Camila Pitanga. Montagner entrou no rio acompanhado de Camila e acabou sendo arrastado por uma forte correnteza. Marcelo Serrado, que havia acabado de finalizar uma cena em Alagoas, também participou das buscas. O ator foi encontrado cerca de quatro horas depois, já sem vida. 

Enquanto Domingos estava desaparecido, o Brasil parou em orações acompanhando as buscas em clima de comoção, e a direção da TV Globo determinou que as gravações da novela fossem paralisadas imediatamente.

Profundamente abalado, Benedito lamentou a morte de Montagner e afirmou, em entrevista ao UOL, sobre a indefinição do desfecho do personagem : “É muito difícil ter que trocar um ator como ele por qualquer outro; essa não deve ser a solução. Tenho que fazer justiça a ele e ao trabalho maravilhoso que ele vinha fazendo, tenho que homenagear ele de alguma forma”. 

A equipe decidiu levar a história até o fim sem substituição, morte ou viagem do personagem. A solução encontrada foi filmar as cenas finais sob a perspectiva em primeira pessoa de Santo, sem falas do personagem. Curiosamente, um mês antes, o próprio personagem também havia desaparecido nas águas do rio dentro da história. Na sequência final, os atores contracenaram diretamente com a câmera no lugar dele, e o telespectador via a história pelos olhos do protagonista.

Velho Chico foi indicada ao Prêmio Emmy Internacional 2017 na categoria de Melhor Novela e encerrou a trajetória de Benedito discutindo questões sociais relevantes como a agricultura, o meio ambiente, a sustentabilidade, o coronelismo e a política.

Legado eterno e atemporal

Foto: divulgação/Mauricio Fidalgo/Globo

As novelas de Benedito Ruy Barbosa permanecem relevantes e atuais, e seu legado de sensibilidade e olhar sobre o Brasil profundo e escondido, marcado por tradições, conflitos sociais, espiritualidade e paisagens que raramente ocupavam espaço na televisão antes de suas obras é atemporal. Seu olhar sensível sobre o campo e sobre a identidade brasileira transformou definitivamente a teledramaturgia nacional. 

O legado do autor permanece vivo por meio de seu neto, Bruno Luperi, responsável por adaptar para a TV Globo remakes como o de Pantanal em 2022, estrelado por Marcos Palmeira, Dira Paes, Alanis Guillen e Jesuíta Barbosa, sucesso de audiência e repercussão nacional, e Renascer (2024), levando uma nova geração a acompanhar histórias marcadas pela luta, pelos mitos e pelas crendices e tradições do interior do Brasil.  

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Texto revisado por Angela Maziero 

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