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Conheça Raphael Garcia, brasileiro que cruzou o Atlântico a remo

Inspirado pela viagem de Amyr Klink, Raphael dedicou quatro anos ao preparo da expedição, incluindo a montagem da embarcação e o treinamento para enfrentar a travessia pelo Atlântico Sul

Aos 34 anos, o brasileiro Raphael da Fonseca Garcia, engenheiro elétrico formado pela Universidade de São Paulo (USP), passou 136 dias no mar para realizar uma travessia que havia sido feita pela primeira vez por Amyr Klink, em 1984. Sozinho, ele saiu de Lüderitz, na Namíbia, e chegou a Salvador, no Brasil, repetindo a rota pelo Atlântico Sul a bordo do barco Sater. A viagem, concluída em 22 de agosto, foi resultado de quatro anos de preparação e de uma ideia que começou a ganhar forma após uma leitura que mudou seus planos.

Aventuras anteriores

A relação de Raphael com grandes aventuras começou antes da travessia pelo Atlântico. Aos 21 anos, ele percorreu a Tasmânia de bicicleta e, no ano seguinte, atravessou a Patagônia, de Bariloche até Ushuaia. As experiências prepararam o aventureiro para diferentes tipos de desafios. “A Tasmânia foi um desafio psicológico, a Patagônia foi um desafio físico e a viagem a remo juntou os dois e multiplicou por mil”, conta.

A ideia de cruzar o oceano ganhou força quando o paulistano leu o relato da viagem de Amyr Klink, no livro Cem Dias Entre o Céu e o Mar. “Eu li o livro em três dias. Me fascinei pela ideia de cruzar o oceano a remo porque ele é gigantesco”, relembra. Depois da leitura, ele pesquisou sobre a travessia e percebeu que quase 40 anos haviam se passado desde a expedição de Klink, e que ninguém havia repetido ela. Assim, surgiu uma pergunta que mudaria os próximos anos de sua vida: se eu acho que essa viagem tinha que ser refeita, por que eu não tento refazê-la? Por que não eu?

Foto: reprodução/Arquivo Pessoal

O processo até a partida

A pergunta deixou de ser apenas uma possibilidade e começou a ganhar forma em um projeto que levaria quatro anos até a chegada a Salvador. Nesse período, Raphael construiu o próprio barco, aprendeu a remar e organizou os diferentes aspectos necessários para enfrentar sozinho uma viagem pelo Atlântico Sul.

Para ele, além da preparação física, era necessário antecipar os problemas que poderiam surgir no caminho. “É preciso fazer um projeto robusto. O sucesso desta viagem se dá nos detalhes. Você tem que partir sabendo que cuidou de tudo da preparação”, explica.

A embarcação também foi pensada para carregar um significado pessoal. Batizado de Sater, a escolha veio do cantor Almir Sater, cujas músicas acompanham o engenheiro no dia a dia. A ideia era encontrar um nome que tivesse significado pessoal e, ao mesmo tempo, alguma relação com o mar. Entre as canções que costuma ouvir, algumas dialogavam com a experiência que estava prestes a viver.

Durante esse período, passou a registrar todas as possibilidades e situações que poderiam comprometer a expedição, e o planejamento chegava a ocupar até as noites de sono. “É como se fosse um segundo emprego, eu não tinha tempo para mais nada. Cada vez que surgia alguma ideia na cabeça, eu ia correndo anotar, mesmo de madrugada”, diz o navegador.

A alimentação também entrou na preparação da viagem. Como tinha apenas um rim e enfrentaria uma rotina de esforço físico intenso, buscou adaptar a dieta às necessidades da travessia, recorrendo a alimentos utilizados por atletas de alto rendimento e cafés da manhã reforçados.

136 dias no mar

Com o barco pronto e a preparação concluída, chegou o momento de deixar Lüderitz, na Namíbia, em direção ao Brasil.

A saída aconteceu em uma boa janela de condições, mas logo depois o cenário mudou. Na região da Corrente de Benguela, o aventureiro enfrentou um período de tempestades que considera o pior de toda a viagem. “Eram tempestades de quatro a cinco dias, em que eu tinha que ficar preso dentro da cabine, sem conseguir remar. Não tinha ventilação e era muito úmido”, relata. Quando conseguia voltar aos remos, o avanço era pequeno. “Foi um período difícil porque passei por muitos desafios e perrengues, sem a recompensa de ter progredido”, completa.

Com ondas de até quatro metros, o barco ficava à deriva enquanto Raphael aguardava o fim do mau tempo.“Uma vez que você está dentro de uma tempestade, só pode esperar passar. Não tem muito o que fazer”, explica. Nesses períodos, o diário, os livros e as anotações se tornaram companheiros de travessia.

A escolha das leituras, aliás, havia sido feita ainda antes da partida. Para os longos períodos de isolamento, ele levou obras que já tinha vontade de ler, entre elas Cem Anos de Solidão e A Expedição Kon-Tiki, livro que dialoga com o universo das grandes expedições marítimas.

Após 136 dias cruzando o oceano Atlântico a remo, Raphael chegou a Salvador. A etapa final da travessia exigiu quase 36 horas remando até alcançar a costa brasileira, onde uma grata surpresa o aguardava para coroar o fim da jornada.

Encontros inesperados

Apesar dos momentos de tensão, a travessia também foi marcada por interações com a vida marinha. Entre os momentos mais marcantes da viagem, o navegador menciona os encontros com baleias. “É muito especial estar em um barco tão pequeno, cercado por animais enormes que poderiam destruí-lo a qualquer momento. Mas elas foram muito cuidadosas e não causaram nenhum problema para mim”, conta.

Ele também destaca a recepção que teve ao chegar em Salvador. Amyr Klink estava esperando o aventureiro no fim da travessia, 42 anos depois de ter realizado a mesma rota. “Encontrar o Amyr na chegada foi extremamente especial. Ele me inspirou a fazer essa viagem, e se ele não tivesse escrito o livro e compartilhado a experiência dele, eu não teria feito. Sou extremamente grato”, afirma.

Foto: reprodução/Instagram @amyrklink

A ligação com a aventura de Klink também apareceu antes mesmo de entrar no mar. Já em Luderitz, Raphael encontrou Crispin Clay, de 82 anos, que havia acompanhado a saída de 1984. O encontro trouxe relatos e memórias de uma viagem que, décadas depois, voltaria a ser feita. “Acabei encontrando ele e foi muito especial. Ele tem uma memória lúcida, me mostrou fotos inéditas e lembrava de muita coisa. Foi uma ligação entre as viagens, como se eu tivesse vivido um pouco do passado”, completa.

De volta à terra firme

Depois de 136 dias no mar, o retorno à rotina firme trouxe uma sensação curiosa. Durante a viagem, Raphael conta que a comida era uma das coisas de que mais sentia falta, já que as opções desidratadas eram limitadas e, segundo ele, não eram tão saborosas.

Agora, no entanto, sente saudade dos perigos. “O que eu mais sinto falta é dos desafios que uma viagem dessa proporciona, já que a vida por aqui é de certa forma mais pacata”, relata. O engenheiro ainda completa: a única parte que não faz falta é a rotina de remar entre 10 e 12 horas por dia.

A experiência também provocou mudanças pessoais. Depois de concluir a travessia, sente-se mais confiante e paciente, enquanto o período distante das redes sociais contribuiu para que desenvolvesse mais foco. O isolamento, que poderia ser visto como uma dificuldade, acabou se transformando também em uma experiência de mudança pessoal.

Ao relembrar a experiência, quando Raphael olha para os quatro anos de preparação e para tudo o que aconteceu durante a travessia, não mudaria as decisões que tomou ao longo da expedição.

Apesar de alguns problemas pontuais com fornecedores, considera que a preparação aconteceu melhor do que esperava. “Não consigo pensar em nada que eu faria diferente. Não importa qual decisão você tome, sempre vão existir problemas. Tenho certeza de que, se tivesse escolhido outras alternativas, teria encontrado outros obstáculos”, afirma.

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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