A adaptação norueguesa de Cinderela é um retrato quase realista do que significa crescer sob a pressão de padrões de beleza
Era uma vez uma jovem gentil e de uma beleza ímpar que, após a morte do pai, é obrigada a servir sua madrasta e suas meia-irmãs. A crueldade que enfrenta sem sacrificar a pureza e a virtude é compensada quando, na noite do baile real, uma fada madrinha transforma seus trapos em um vestido deslumbrante e as abóboras do seu quintal em uma carruagem que a conduz para os braços do príncipe. Mas, na décima segunda badalada do relógio, a magia perderá o efeito.
Todos nós sabemos como essa fábula termina. A sapatilha que cabe somente em seu pé minúsculo, o pôr-do-sol, o felizes para sempre ao lado de um homem que, quase sempre, sequer sabemos o nome.
A história de Cinderela já foi contada centenas de vezes, de várias maneiras diferentes, na televisão, no cinema, na literatura, no teatro… mas é no body horror de A Meia-Irmã Feia que a fantasia parece finalmente encontrar a realidade.
Dirigido e roteirizado pela estreante norueguesa Emilie Blichfeldt, A Meia-Irmã Feia constroi um retrato nojento, desconfortável e visceral do que significa crescer sob a pressão de padrões de beleza e de gramáticas sociais misóginas ao decidir olhar não para a futura princesa, mas para aquela que vive à sua sombra: uma de suas meia-irmãs.
Elvira (Lea Myren) é uma menina desajeitada e ingênua, que sonha em se casar com o príncipe e viver o próprio conto de fadas. Entre ela e esse objetivo, contudo, figura um aparelho dental, seu nariz, seu peso e Agnes (Thea Sofie Loch Næss), a Cinderela dessa adaptação. Assim, quando a família real anuncia um baile para escolher uma noiva para o príncipe, Elvira decide que não há dor ou fome que a impedirá de se tornar a jovem mais bonita do reino.

Se os procedimentos estéticos e os métodos para emagrecer de A Meia-Irmã Feia parecem absurdos, é apenas porque a direção de Emilie Blichfeldt não nos permite desviar o olhar e nos força a encarar os extremos que muitas jovens aceitariam sem hesitar se significasse que vão suprir, mesmo que minimamente, a necessidade de pertencimento e de corresponder a padrões de beleza – que aqui são reforçados de forma impiedosa pela mãe de Elvira, Rebekka (Ane Dahl Torp).
Nesse sentido, grande parte do desconforto no filme se dá a partir do momento que percebemos que, à exceção do terceiro ato, o roteiro se aproxima muito de experiências que vão soar familiares para muitas meninas que, como o próprio trailer denuncia, já se sentiram inferiores ou rejeitadas.
Não fossem as sequências grotescas que fazem jus ao gênero de body horror, A Meia-Irmã Feia poderia muito bem ser um coming-of-age sobre as consequências de padrões de beleza dirigido por Sofia Coppola ou Greta Gerwig.

A rivalidade feminina também é um dos temas centrais do longa. A comparação constante entre Elvira e Agnes, que é a favorita para se tornar noiva do príncipe, torna Agnes a principal antagonista do filme e o alvo de toda a frustração e obsessão de Elvira.
No pano de fundo dessa animosidade entre as duas, figuram os personagens masculinos, que, quando não estão literalmente apodrecendo ou sendo objeto de idealização no onírico, são retratados de forma repulsiva, num lugar de violência e ameaça sexual. O poder que detêm em relação às mulheres do filme é palpável sempre que estão em cena.
Aqui, vale chamar atenção para o momento que as duas são convidadas para o baile e precisam dar seus nomes ao mensageiro. Depois de Agnes responder com seu sobrenome de prontidão, Elvira hesita, sem saber o que dizer, e recebe o convite endereçado à Elvira Meia-Irmã.
A cena, além de indicar que sua família é muito pobre e, portanto, não possui títulos, também parece sugerir que, enquanto Agnes é uma mulher inteira, que sabe quem é, Elvira existe inacabada e tem sua identidade formada a partir da comparação, subordinada à Agnes.

A fotografia lúgubre, que faz um uso maravilhoso de iluminação natural, e a trilha sonora agourenta contribuem para a construção de uma atmosfera opressiva e desagradável.
A adaptação triunfa quando direciona a câmera para o que há de feio e podre na mais bela imagem, quando segura a cena mesmo no limite do desconforto e nos faz ver o sangue e ouvir a fome insaciável de Elvira. Em A Meia-Irmã Feia, a fábula da Cinderela se revigora como um retrato grotesco e terrivelmente realista sobre o desamparo irrevogável das mulheres em um mundo em que, mesmo engolindo seus vermes e cortando o que não cabe, nenhuma pode ganhar.
O filme estreia nos cinemas nacionais dia 23 de outubro.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz @analuztraduz










