O filme é um mergulho no grotesco, que troca sustos fáceis por imagens difíceis de esquecer
Nos últimos anos, o subgênero envolvendo múmias como personagens assustadores no cinema ficou mais associado à aventura e ao entretenimento leve, por conta das franquias que foram lançadas ao longo dos anos. Ao decorrer das décadas, a múmia já foi um monstro silencioso e atmosférico, uma ameaça física quase sem identidade e, até mesmo, um elemento de aventura leve e escapista.
Dirigido por Lee Cronin – conhecido por seu trabalho em A Morte do Demônio: A Ascensão (2023) –, a Maldição da Múmia integra uma nova fase do terror produzida pela parceria entre a Blumhouse Productions e a Atomic Monster, estúdios responsáveis por sucessos recentes do gênero.
As versões da Múmia ao longo dos anos
A versão de 1932 – dirigida por Karl Freund e protagonizada por Boris Karloff –, é o pilar fundamental de todos os filmes que vieram depois. O longa é um clássico do terror gótico que definiu a imagem do monstro no cinema. Diferente das versões modernas, grande parte do filme mostra Imhotep – a múmia – disfarçado como um egípcio moderno que usa seus poderes hipnóticos e conhecimentos antigos para encontrar a reencarnação de sua princesa.
Já a trilogia com Brendan Fraser, que esteve nos cinemas entre os anos de 1999 e 2008, trazia uma aventura leve, uma comédia romântica e um certo suspense. Um clima muito parecido com o de Indiana Jones, com carisma e humor, sem se levar muito a sério.

O mais recente deles, estrelado por Tom Cruise e lançado em 2017, trouxe uma ação frenética com toques de horror e sobrenatural. Essa adaptação foi mais sombria, focada na ação de Hollywood e menos na exploração arqueológica divertida.

Rick O’Connell, interpretado por Fraser, era um herói carismático, gente como a gente, propenso a situações perigosas e cômicas, mas um personagem com muita coragem. Nick Morton, de Cruise, foi um anti-herói egoísta e militar, muitas vezes descrito como um personagem de Missão Impossível em um filme sobrenatural, com menos carisma relacional.
A Múmia, a grande vilã das histórias era, em 1999, uma figura mítica e clássica chamada Imhotep que buscava ressuscitar sua amante, gerando uma ameaça romântica e física. É uma força da natureza sobrenatural. Começa como uma criatura incompleta que precisa absorver órgãos de vítimas para se regenerar, possuindo poderes quase divinos sobre os elementos.
Em 2017, tivemos a primeira múmia feminina com o nome de Ahmanet, uma princesa egípcia com motivações baseadas em vingança e ambição pelo poder. É uma guerreira física e uma entidade que busca trazer o deus Set para o mundo real, funcionando quase como um vírus ou uma maldição de escala global.
A ambientação? A versão original, de 1932, mostra um Egito visto com um olhar de mistério arqueológico e fascínio. Em 1999, o longa era ambientado nos anos 20 e 30, focado no Egito antigo, mas o cenário era uma fantasia. Aqui, o Egito é como um parque de diversões para heróis destemidos, vilões caricatos e tesouros escondidos. Já em 2017, o longa foi ambientado nos dias atuais, com grande parte da ação acontecendo em Londres, mudando completamente a atmosfera de mistério antigo para o moderno. O Egito é apenas o prólogo e a múmia é transformada em uma ameaça urbana contemporânea.
Mas, então, se já existem tantos longas a respeito de um mesmo vilão – a múmia –, o que torna o novo filme da Blumhouse e Atomic Monster, distribuído pela Warner Bros, tão diferente de seus antecessores?
Qual a história do filme Maldição da Múmia de 2026?

A nova trama, segue um caminho diferente, abandonando o tom épico e apostando em um terror mais cru, gráfico e desconfortável. A proposta fica clara desde o início: provocar mais repulsa do que sustos fáceis. A história gira em torno de uma entidade demoníaca egípcia conhecida como Nasmaranian, cuja presença está ligada a um ritual absurdamente obscuro.
Em Maldição da Múmia, acompanhamos um casal que vive com seus dois filhos – Katie e Seb – no Cairo, Egito, por conta do trabalho de Charlie, que é um jornalista correspondente para um veículo americano.
Logo nos primeiros minutos de filme, Katie desaparece no deserto sem deixar rastros. A família, dilacerada e em luto, fica sem notícias do paradeiro da filha por oito anos, até que, como em um sonho – que se revela mais tarde como um pesadelo –, um sarcófago é encontrado e com ele o corpo de Katie… viva.
O reencontro alegre logo se transforma em um completo horror sobrenatural, quando uma força obscura assombra a família, misturando terror visceral e suspense.
O desconforto como proposta
O principal mérito do novo longa está em sua identidade, no qual se aproxima muito mais do terror contemporâneo – popularizado por obras como Invocação do Mal (2013) – e prioriza a tensão psicológica com imagens perturbadoras.

Maldição da Múmia se posiciona na indústria cinematográfica como uma ruptura deliberada: o filme escolhe o excesso. O longa é brutal, nojento e extremamente sangrento durante todos os seus 130 minutos, com destaque para a reta final, capaz de embrulhar o estômago. O horror não é apenas sugestivo ou simbólico, ele é físico, e você se vê escondendo o rosto por trás das mãos para não ter que testemunhar tamanha aflição.
A nova versão abandona completamente a figura da múmia como algo distante para torná-la uma força invasiva e corporal. Não por acaso, o filme carrega marcas muito claras da filmografia de Cronin, especialmente na forma como o horror é construído. O medo surge da deterioração do próprio corpo – algo que este filme faz questão de explorar de uma maneira bem insistente. A violência não é apenas vista, mas sentida.

No fim, o roteiro levanta questões interessantes a respeito do funcionamento do ritual e da lógica da possessão, mas falha ao não se aprofundar em suas respostas. O que pode gerar certo estranhamento nos espectadores, mas também contribui para o clima de mistério da narrativa.
Ao trocar sustos previsíveis por imagens perturbadores, o longa entrega uma experiência que persegue o espectador mesmo após os créditos finais. Se o objetivo é sair do cinema mexido, vale o ingresso. Só não vá desprevenido: a classificação +18 não é exagero, e o filme cobra um preço alto de quem não tem estômago para encarar o que está na tela.
Maldição da Múmia já está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura










