Um romance que transforma a dor, o silêncio e a empatia em vínculo
[Contém spoiler]
Há romances que não se contentam em contar uma história de amor: eles se propõem a investigar o que acontece quando duas pessoas feridas decidem, ainda assim, permanecer abertas ao amor. A Melhor Surpresa (2026), de Stefany Nunes, insere-se nesse território com precisão emocional. Desde a dedicatória e da epígrafe de Lord Byron, a narrativa anuncia seu eixo central – o recomeço – não como promessa fácil, mas como um processo delicado, atravessado por perdas, silêncios e escolhas conscientes.
Personagens marcados pelo excesso de sentir
Willow Hamilton é uma protagonista construída a partir do desgaste. Aos 31 anos, virginiana, controladora e profundamente ansiosa, ela carrega as marcas de um burnout e de uma vida que exigiu mais do que pôde oferecer por muito tempo. Engenheira de software, habituada a ambientes de alta cobrança e racionalidade extrema, Willow encontra-se emocionalmente exausta quando decide viajar para Peonyshire como uma resolução de Ano Novo em uma tentativa clara de reorganizar o próprio caos interno. Esse processo é atravessado, ainda, pelos ecos recentes do luto pela morte de seu pai.

Jake Ashton III surge como seu contraponto narrativo e emocional. Aos 35 anos, divorciado, solitário e leitor ávido, atua como professor de hóquei e faz-tudo de Peonyshire, apesar de ser herdeiro e formado em literatura. Sua escolha por uma vida simples e funcional não é casual: Jake vive à sombra de um trauma profundo, a morte da irmã em um acidente, aos 28 anos, dois anos antes do início da narrativa.

O que torna essa dupla especialmente interessante não é apenas o passado doloroso de ambos, mas a forma como esses traumas moldam suas atitudes no presente. Stefany Nunes evita a romantização do sofrimento ao construir personagens que não se definem pela dor, mas pelas estratégias que desenvolveram para continuar existindo apesar dela. Willow e Jake seguem em frente de maneiras distintas, e é justamente nesse contraste que a narrativa encontra força.
Os personagens secundários – como Amanda, a irmã de Willow, a avó de Jake e os moradores de Peonyshire – conquistam o leitor de forma quase imediata. Mais do que figuras de apoio, eles funcionam como uma rede afetiva que sustenta e espelha os protagonistas, torcendo pelo relacionamento com a mesma intensidade do leitor.
Ainda que ocupem um segundo plano, a autora lhes confere contornos próprios, permitindo que suas presenças ampliem o senso de comunidade e reforcem a atmosfera acolhedora da narrativa, contribuindo diretamente para a sensação de pertencimento e imersão que o livro constrói.
O afeto como espaço de acolhimento
A relação entre os protagonistas se constrói de maneira gradual, sustentada por gestos mínimos e observações silenciosas. A convivência forçada intensifica a atração, mas é nos detalhes cotidianos – como a posição dos óculos dele, o perfume floral dela, um sanduíche preparado por ele ou ela ler o livro favorito dele – que o vínculo se consolida. Há algo de profundamente significativo no fato de Willow não se sentir sozinha nem mesmo nos silêncios entre eles, pois ela sente que Jake a vê por inteiro, sem exigir explicações constantes.

Um dos maiores méritos do livro está na forma como a autora aborda temas sensíveis, como a depressão, a ansiedade, o luto, as crises de pânico e os relacionamentos tóxicos. Não há hierarquia da dor nem disputa por quem sofreu mais entre o casal, afinal ambos viveram o luto e lidaram com ele de maneiras distintas, e essa diferença é respeitada.
Antes mesmo de reconhecerem o amor, Willow e Jake já oferecem um ao outro empatia, escuta e segurança emocional. O afeto, aqui, antecede a nomeação do sentimento e isso confere maturidade à narrativa.
Estratégias narrativas e ritmo emocional
A estrutura do texto reforça a caracterização dos personagens. Willow, mais emotiva e ansiosa, tem parágrafos mais longos, densos e repletos de ideias que se sobrepõem, convidando o leitor a entrar em seu fluxo de pensamento. Jake, por outro lado, se expressa com mais contenção, refletindo seu modo de existir no mundo. Em alguns momentos, a narrativa insere o leitor diretamente nos pensamentos dos personagens, recurso que fortalece o vínculo com quem lê e aprofunda a imersão na história.

A fluidez do texto é outro ponto forte. Os personagens estão sempre abertos ao diálogo, o que reflete uma fase da vida em que não há mais espaço para jogos emocionais ou prolongamentos desnecessários de conflitos.
Os plots são bem construídos, com destaque para o arco envolvendo o ex de Willow – que adiciona camadas importantes à compreensão da trajetória emocional dos protagonistas – e, também, o da mãe de Jake.
Um romance que conforta sem simplificar
A Melhor Surpresa se afirma como uma comédia romântica voltada para leitores adultos, consciente tanto de seus temas quanto de seu público. A recomendação para maiores de 18 anos não se deve apenas à complexidade emocional abordada, mas também à presença de cenas de intimidade que dialogam com a maturidade dos personagens e com a fase de vida que ambos atravessam, reforçando o caráter adulto da narrativa.
Além disso, a obra também investe em recursos que ampliam a experiência de leitura. A playlist que acompanha a narrativa estabelece um diálogo direto com os personagens e seus estados emocionais, funcionando como uma extensão sensível da história e intensificando seu tom afetivo.

Nesse contexto, Stefany Nunes demonstra domínio na construção de personagens: sejam aqueles que despertam empatia imediata, sejam os que provocam incômodo, todos contribuem para um alto nível de imersão emocional, evidenciado pelo envolvimento constante do leitor com a trama.
Ao final, o livro entrega exatamente o que constrói ao longo do caminho: um desfecho acolhedor, honesto e emocionalmente coerente. É uma leitura que aquece o coração sem recorrer a soluções fáceis, ideal para quem busca sair de uma ressaca literária ou reencontrar, na ficção, a possibilidade de recomeçar com mais gentileza consigo mesmo.
Sobre a autora

Nascida em Sorocaba, em 1992, Stefany Nunes é formada em Letras e Direito. Leitora apaixonada desde a infância, sempre cultivou o hábito de criar histórias, ainda que por muito tempo não as colocasse no papel. A mudança para Londres foi decisiva para que transformasse esse sonho em realidade, impulsionada pela atmosfera criativa da cidade.
Além de sua atuação no mercado brasileiro, a autora também é publicada no Reino Unido, com o romance Falling on a Duke (2025), lançado pela editora The Book Guild.

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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz









