O filme oferece um ótimo retrato sobre o envelhecimento, mas falha ao tentar fazer o público simpatizar com um ex-colono português
[Contém spoilers]
[Texto com conteúdo sensível]
Em Coração das Trevas, romance de 1899 escrito por Joseph Conrad, o leitor encontra uma das primeiras denúncias da violência do projeto imperialista britânico a partir das experiências do narrador, Charles Marlow, no Congo Belga.
A obra faz parte do cânone literário inglês e é celebrada pela admissão de crimes de guerra e da barbaridade por parte dos colonos no continente africano, mas ainda reproduz muitos dos comportamentos racistas e desumanizantes que justificaram a expedição colonial. Quando eu assisti A Memória do Cheiro das Coisas (2025), filme português dirigido e co-roteirizado por António Ferreira, esse romance imediatamente me veio à cabeça, mas, se Conrad tinha a ideologia e a mentalidade da época como desculpas, Ferreira pode se refugiar somente na ingenuidade do público.
No longa, José Martins interpreta Seu Arménio, um ex-combatente português assombrado por suas memórias de guerra que é colocado em uma casa de repouso por seu filho. Entre as consequências de seu trauma e a piora de sua saúde, Seu Arménio se aproxima de Hermínia (Mina Andala), sua cuidadora negra.
A Memória do Cheiro das Coisas oferece uma contemplação muito interessante sobre o envelhecimento, a fragilidade humana e o sentimento de alienação e de abandono em pessoas idosas e, nesse sentido, há muito o que elogiar na direção de António Ferreira.
Ainda que tenha pouco mais de 90 minutos de duração, a produção é composta por cenas longas, que se detêm na dificuldade de uma senhora em cruzar o corredor ou do protagonista em abotoar suas camisas e até mesmo em tomar banho sozinho, reduzindo o ritmo do filme e colocando o público nesse lugar de estagnação e dependência junto dos personagens.
Em uma cena, antes de dormir, Seu Arménio pergunta ao seu enfermeiro sobre sua família e, enquanto coloca fraldas no idoso, o cuidador responde com orgulho que seu filho “já consegue fazer tudo sozinho”.

A Memória do Cheiro das Coisas se passa quase que completamente dentro da casa de repouso, cujas janelas não abrem, ainda que permitam observar o mundo do qual, de repente, o personagem já não faz mais parte. A predominância de planos médios e planos detalhes, somada a uma câmera quase sempre estática, também contribuem para uma atmosfera claustrofóbica e de enclausuramento, que emula a dificuldade dos personagens em se movimentar livremente.
A atuação de José Martins também merece uma atenção especial. O peso e o trauma dos anos que viveu, o cansaço e a frustração são expressas com absurda sinceridade e naturalidade.
Infelizmente, contudo, A Memória do Cheiro das Coisas não tematiza somente o envelhecimento, e é quando decide explorar o racismo e as consequências da Guerra de Libertação das antigas colônias portuguesas que o filme expõe o quanto seus realizadores parecem não ter superado seus próprios preconceitos e fantasias de hegemonia colonial.

Entre os anos 1961 e 1974, no que ficou conhecido como a Guerra Colonial Portuguesa, o Estado português levou seu exército para as colônias africanas em uma tentativa fracassada de assegurar seu poder sobre Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, que ainda estavam sob domínio de Portugal.
Na época, o personagem de Seu Arménio serviu aos interesses portugueses em Angola e, no presente da narrativa, sofre com as memórias e os traumas de seu tempo em combate, que, de alguma forma, é usado como justificativa para o seu racismo, com ele enxergando todas as pessoas negras como terroristas.
Centralizar o testemunho de um ex-combatente não é inerentemente ruim, uma vez que esse resgate poderia ser feito com um interesse crítico. Mas A Memória do Cheiro das Coisas tenta equiparar a resistência paramilitar africana à violência colonial portuguesa, como se ambos os lados fossem igualmente selvagens e passíveis de repreensão – ainda que só um desses lados receba o título de terrorista no longa.

Há duas cenas em particular em que o personagem se abre sobre suas experiências em combate que valem ser comentadas. Na primeira, com sua terapeuta, ele narra de forma mórbida como é mais difícil do que parece decapitar alguém: “As pessoas pensam que é só passar uma faca, mas não. Há ossos, músculos, veias, tendões… gritos, muito gritos. Gritos sobretudo de crianças. As cabeças só se calam quando são espetadas numa estaca.”
A cena sugere que Seu Arménio não foi um participante passivo na expedição colonial. Contudo, em outro momento, quando o personagem conta de quando foi sequestrado por um grupo paramilitar, vemos, detalhada com muito mais horror e sensibilidade, a violência da qual foi vítima, configurando um dos exemplos mais notáveis de como A Memória do Cheiro das Coisas está interessada em redimir seu protagonista antagonizando os povos angolanos que tentou dominar.
Não há cenas em que ele demonstra se arrepender de representar interesses coloniais, e sua maior vergonha parece ser o medo que sentiu quando foi sequestrado. Mesmo os movimentos de redenção no último ato são voltados para os seus comportamentos racistas com Hermínia em particular, não para o fato de ter cometido crimes de guerra.

Quando a personagem de Hermínia é apresentada, Seu Arménio a chama de “minha pretinha” depois de tocá-la à força. Ainda que ela se defenda e seja firme ao repreendê-lo, o que se segue são cenas dele gradativamente aprendendo a respeitá-la conforme percebe que ela é uma das poucas cuidadoras que de fato se importa com os idosos da instituição, tudo isso a despeito de ela ser uma mulher negra.
Além disso, um dos momentos mais importantes de conexão entre os dois é quando Hermínia revela que seu pai também lutou na Guerra Colonial Portuguesa ao lado de Portugal, ou seja, ela não era como aqueles terroristas africanos.
Claro, ela é uma personagem interessante e é interpretada com maestria por Mina Andala, mas, em A Memória do Cheiro das Coisas, nos deparamos novamente com uma história em que pessoas pretas precisam conquistar sua dignidade e provar a pessoas brancas que são diferentes das fantasias desumanizantes as quais são submetidos e, por isso, somente sob essa premissa, merecem respeito. No filme, esse contexto é agravado pelo fato de Hermínia, que facilmente perdoa o comportamento do protagonista, ter que cuidar de Seu Arménio.

A Memória do Cheiro das Coisas é ótimo quando reflete o envelhecimento e a forma como pessoas idosas são destratadas e descartadas na nossa sociedade. A fotografia e a direção do filme são muito eficazes quando preocupadas em representar o encolhimento e desaceleração do mundo de pessoas idosas.
Mas logo se torna refém da nostalgia portuguesa e vítima das próprias críticas quando tenta ser mais uma história sobre um homem branco que deixa de ser racista após ser forçado a conviver com uma pessoa negra que ele julga digna de humanização. Quantas vezes já vimos histórias como essas?
A Memória do Cheiro das Coisas estreia nos cinemas nacionais dia 30 de outubro.
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Texto revisado por Ana Carolina Loçasso Luz @analuztraduz










