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Foto: reprodução/Aiode Magazine

Crítica | Chopin, Uma Sonata em Paris revela um gênio muito além das partituras 

Longe da imagem do artista atormentado, cinebiografia dirigida pelo polonês Michał Kwieciński apresenta um Chopin espirituoso, sociável e profundamente humano 

Muitas cinebiografias parecem determinadas a transformar seus personagens em monumentos. Chopin, Uma Sonata em Paris (Chopin, Chopin, 2025) segue pelo caminho oposto. Dirigido por Michał Kwieciński, o filme não tenta ampliar a figura de Frédéric François Chopin até que ela se torne inalcançável. Pelo contrário, aproxima o compositor do público ao revelar um homem muito mais complexo, contraditório e humano do que a imagem cristalizada ao longo dos anos.

Antes mesmo da estreia, Kwieciński pediu que o público não procurasse no filme o Chopin que já carregava consigo. O aviso faz sentido. Para muitos, o compositor existe quase exclusivamente como um artista melancólico, consumido pela doença e pelas questões políticas de sua terra natal. O longa não ignora nenhuma dessas dimensões, mas apresenta algo mais interessante: um homem espirituoso, sociável e dono de um senso de humor afiado.

Foto: reprodução/Admiradores da Sétima Arte

É nesse aspecto que o filme encontra sua maior força. Entre apresentações, encontros com amigos e noites nos salões da aristocracia parisiense, vemos que Chopin (Eryk Kulm) gosta da companhia dos outros, faz brincadeiras, diverte seus amigos e aproveita os prazeres que a vida lhe oferece. O talento extraordinário ao piano está presente, evidentemente, mas não domina toda a construção do personagem. A genialidade deixa de ser sua única característica.

Ao mesmo tempo, existe uma sombra constante pairando sobre a narrativa. A tuberculose não aparece apenas como uma condição médica, mas como uma espécie de relógio silencioso que acompanha cada cena. Desde os primeiros momentos sabemos que o tempo de Chopin é limitado, e o filme trabalha essa sensação com uma delicadeza quase melancólica. Mesmo nos momentos mais leves, a doença permanece presente, quase como um segredo compartilhado entre o protagonista, alguns amigos próximos – como o compositor Franz Liszt, interpretado por Victor Meutelet – e o espectador.

Foto: reprodução/Omelete

Essa dualidade entre vitalidade e fragilidade dá profundidade ao filme. Chopin tenta preservar uma aparência de normalidade enquanto o próprio corpo começa a impor limites cada vez mais severos. A morte nunca ocupa o centro da narrativa, mas sua presença é constante, transformando gestos simples e encontros cotidianos em momentos carregados de significado.

A música, naturalmente, ocupa um papel central, mas o filme acerta ao não tratá-la como mero acompanhamento biográfico. Cada vez que Chopin se senta ao piano, temos a sensação de estar diante do único lugar onde ele não precisa esconder nada. As composições funcionam como uma janela para aquilo que o personagem raramente verbaliza: seus medos, suas inquietações e até a consciência crescente de que seu tempo está se esgotando. Nesse sentido, momentos marcados por obras como o Estudo Op. 25 n° 11 (também chamado de Vento de Inverno), a Valsa do Minuto e o célebre Estudo Revolucionário acabam se tornando alguns dos mais poderosos do longa. 

Foto: reprodução/Admiradores da Sétima Arte

Grande parte desse equilíbrio funciona graças à atuação de Eryk Kulm. O ator evita qualquer caricatura do artista sofredor e constrói um personagem cheio de nuances. Seu Chopin é carismático, divertido e, ao mesmo tempo, profundamente consciente da própria condição. Kulm consegue transmitir o peso desse conhecimento sem abandonar a leveza que torna o compositor tão fascinante ao longo do filme.

Visualmente elegante e historicamente cuidadoso, Chopin, Uma Sonata em Paris também acerta ao não se transformar em um documentário ilustrado nem em um musical convencional. A música está presente, mas o foco permanece sobre o homem que a criou. O resultado é uma cinebiografia que não pretende desmistificar Chopin por completo, mas enriquecer nossa percepção sobre ele.

Mais do que retratar um dos maiores compositores da história, o filme apresenta alguém que ria, amava, fazia escolhas questionáveis, escondia seus medos e tentava continuar vivendo apesar da consciência crescente de sua própria finitude. E talvez seja justamente por isso que a obra seja tão envolvente: porque nos lembra que, antes de se tornar um gênio eterno, Chopin foi apenas um homem.

O filme chegou aos cinemas brasileiros em 28 de maio de 2026. 

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Texto revisado por Thaís Figueiredo @tinapalooza

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