Entre o pertencimento e a alienação, o longa co-produzido por Kleber Mendonça Filho revela um Brasil diferente sob o olhar de imigrantes chineses e uma turista taiwanesa
Dormir de Olhos Abertos é um filme que, entre silêncios e ausências, tem muito a dizer. Uma co-produção entre Brasil, Taiwan, Argentina e Alemanha e dirigido pela cineasta alemã Nele Wohlatz, o longa propõe uma reflexão sensível sobre as contradições e a busca por pertencimento inerentes à condição do imigrante.
Em uma narrativa não-linear e quase epistolar, a trama se desdobra a partir de três personagens: Kai (Liao Kai Ro), uma taiwanesa que se vê sozinha no Brasil quando seu namorado termina com ela minutos antes do viagem que fariam juntos, Fu Ang (Wang Shin-Hong), um imigrante chinês deprimido que é dono de uma loja de guarda-chuvas, e Xiaoxin (Xiao Xing Cheng), uma jovem chinesa que se muda para Recife e se aproxima da comunidade de sino-brasileiros que trabalham para sua tia.
Confira o trailer oficial abaixo:
Dormir de Olhos Abertos é um estudo muito interessante e sensível da imigração, com paisagens deslumbrantes e personagens que guardam muito, mas cuja busca por pertencimento transborda os limites do idioma e da nacionalidade. As atuações são muito contidas, mas os atores transmitem muita honestidade em pequenos detalhes.
O filme se constrói de uma forma dialética. As escolhas estéticas e os movimentos da narrativa são pautados em contradições: estar cercado de água e não saber nadar, vender guarda-chuvas em uma cidade que se recusa a formar nuvens, cartões postais escritos sem a intenção de algum dia serem enviados, morar em um país sem saber falar o idioma… a alienação dos personagens e a impossibilidade de se conectar está refletida em todas as camadas da trama.
Além disso, por ser composto principalmente com planos abertos ou médios e com poucos movimentos de câmera, o filme reforça a sensação de isolamento e estagnação dos seus personagens. Essa decisão da direção estabelece outra contradição interessante: o tema do deslocamento, o trânsito da imigração se nega visualmente pela monotonia das cenas.
O personagem de Fu Ang, inclusive, fala que os dias no Brasil parecem todos iguais em comparação às rápidas transformações das cidades chinesas.

A não-linearidade do filme, somado a essas contradições do lugar onde as pessoas estão e não estão, transmite uma fragilidade muito grande e uma impermanência do estado das coisas. Estar em um país por tanto tempo e ainda assim não se sentir parte dele, sempre numa condição de observador, de passagem, como se estivesse pronto para partir a qualquer momento, são sentimentos caros à direção do filme, construindo uma atmosfera evanescente, como se as coisas estivessem próximas de se dissolver.
Nesse sentido, o Brasil de Dormir de Olhos Abertos é muito diferente do que estamos acostumados, e é interessante poder experienciar o nosso país sob a perspectiva do estrangeiro. O estranhamento que os personagens sentem pelo Brasil é compartilhado por nós.

Um longa que fala sobre pertencimento e conexão através de movimentos de contradição, Dormir de Olhos Abertos é um projeto deslumbrante de Nele Wohlatz. Após receber o prêmio de Melhor Filme FIPRESCI e o prêmio da crítica da seção Encontros no Festival de Cinema de Berlim de 2024, o longa finalmente chega aos cinemas brasileiros hoje (11).
Confira aqui os cinemas em que o filme está em cartaz e reserve seu ingresso!
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Texto revisado por Karollyne de Lima @karollysl










