Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: reprodução/Capivara Alternativa

Crítica | Memórias de um Verão: o luto que floresce com a natureza

Charlie McDowell transforma o romance de Tove Jansson em um drama sensorial sobre perda, reconexão e o modo como a natureza guarda e devolve tudo aquilo que a dor tenta silenciar

[Contém spoiler] 

Dirigido por Charlie McDowell e inspirado no clássico O Livro do Verão (2025), de Tove Jansson, o longa Memórias de Um Verão (2024) acompanha uma família tentando reorganizar a vida após uma perda devastadora. Estrelado por Glenn Close (101 Dálmatas, 1996) no papel da avó, Emily Matthews como a neta Sophia e Anders Danielsen Lie (A Pior Pessoa do Mundo, 2021) como o pai, o filme aposta em uma narrativa intimista ambientada em uma pequena ilha no Golfo da Finlândia – um espaço isolado onde o silêncio, a paisagem e o tempo se tornam personagens tão presentes quanto os próprios protagonistas.

Foto: divulgação/Editora WMF Martins Fontes/Entretetizei

Da fotografia melancólica aos longos planos de silêncio, o filme constrói uma experiência contemplativa que pode exigir paciência, mas também recompensa quem se permite ser abraçado pela imensidão natural que rege cada gesto dessas personagens.

Quando a poesia funciona e quando pode afastar o público

Embora Memórias de Um Verão entregue uma experiência visualmente bela e sensorial, é um filme que pode dividir o público. Sua abordagem é delicada, mas também deliberadamente lenta, tão concentrada na textura da paisagem que, para alguns espectadores, os personagens podem parecer menos definidos do que o cenário que os envolve.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

Esse contraste ecoa críticas já dirigidas ao trabalho de McDowell, em que a química entre personagens às vezes oscila ou fica desbalanceada, como acontece na relação entre pai e filha, marcada por uma rigidez que nem sempre convence. 

Ainda assim, a força emocional da obra se impõe em momentos específicos, sobretudo nos instantes em que a narrativa abraça a perspectiva da avó e de Sofia. É quando o filme encontra sua verdade mais profunda e atinge um poder comovente, capaz de fixar na memória de quem assiste certas cenas que reverberam muito depois da sessão terminar. Para quem se conecta com um ritmo contemplativo, o filme não apenas funciona: floresce.

Da página para a tela: o espírito do romance de Tove Jansson

A adaptação mantém o coração do romance The Summer Book, de Tove Jansson, um clássico finlandês sobre o verão de uma menina com a avó enquanto ambas aprendem a conviver com o luto. O filme respeita a natureza fragmentada do livro – capítulos curtos, episódios isolados e longos silêncios –, transformando essa estrutura em fluxo visual.

Foto: reprodução/Moomin

A sensibilidade de Jansson, conhecida por observar a natureza com a mesma atenção dedicada às emoções humanas, sobrevive na forma como McDowell filma o vento balançando as folhas nas árvores, o musgo que insiste em sair do lugar, o mar calmo e a luz tímida do amanhecer, como se fossem extensões dos sentimentos dos personagens. O resultado pode parecer minimalista demais para alguns espectadores, contudo, para quem aprecia narrativas que respiram, a adaptação encontra uma fidelidade mais espiritual do que literal.

A ilha como corpo emocional

A rotina da família arrumando musgos, recolocando ramos e replantando árvores, funciona como uma metáfora imediata do que ainda não sabem fazer consigo mesmos: reorganizar o que a morte desalinhou. A casa não está apenas dentro da cabana, mas na totalidade da ilha, que se torna um microcosmo emocional onde tudo está fora do lugar e precisa ser cuidado.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

Logo no início, McDowell cria uma fotografia que oscila entre tons terrosos, verdes e azuis, acompanhando o luto silencioso do pai e a tentativa da avó de manter algum conforto no horizonte da neta. Essa paleta muda à medida que os personagens encaram suas próprias dores, ganhando cores mais quentes quando as feridas começam, enfim, a cicatrizar.

Entre silêncios: avó, pai e filha

A avó, interpretada com sensibilidade por Glenn Close, é a ponte entre o que Sofia sente e o que o pai tenta esconder. É ela quem escuta a natureza ao amanhecer, quem se senta com a neta sem dizer nada, quem abandona seu nome na visita aos vizinhos como se não coubesse ali. Seu vínculo com a ilha é tão profundo que ela parece buscá-la como destino final – como na cena em que se deita como um corpo prestes a ser velado, uma das mais discretas e dolorosas do filme.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

Sofia observa tudo com uma sensibilidade ainda sem linguagem. Assustada pela morte da mãe e pela distância do pai, ela procura explicações naquilo que vê: a minhoca partida ao meio, que insiste em existir, é sua primeira tentativa de entender a sobrevivência, por exemplo. É dessa busca que nasce seu impulso de escrever, e o filme revela que as cenas assistidas se tornarão seu livro de memórias.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

O pai, interpretado por Anders Danielsen Lie, é o mais silencioso e devastado. A imagem das brasas do cachimbo – quase apagadas, mas ainda insistindo em arder – acompanha seu arco como uma metáfora precisa do luto que ele não admite sentir. Em muitos planos, algo sempre se interpõe entre ele e Sofia: troncos, portas, sombras ou galhos. O filme o enquadra de modo a revelar a distância que ele não verbaliza, sugerindo que a reconciliação entre os dois precisa primeiro atravessar esse emaranhado de obstáculos invisíveis.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

Juntos, avó, pai e filha formam um triângulo emocional em que cada um carrega um silêncio diferente. A avó tenta mediar a dor com acolhimento, Sofia busca sentido em pequenos sinais da natureza e o pai luta para não desmoronar. É dessa fricção entre modos tão distintos de lidar com a perda que o filme extrai sua força: cada personagem é uma face do luto, e é apenas quando seus gestos finalmente se encontram – não nas palavras, mas nos olhares e no toque – que a ilha deixa de ser um espaço quebrado e volta a ser um lar possível.

Quando o verão desaba: a festa interrompida pelo luto

A Festa de Verão, que ocorre na metade do filme, deveria simbolizar renascimento e comunidade. Entretanto, a chuva repentina invade tudo, transformando-a em uma Festa de Inverno improvisada, uma imagem clara da incapacidade da família de celebrar o que quer que seja. O pai acredita que é o “fedor do luto” que afasta as pessoas; a avó rebate que, talvez, ele esteja apenas com pena de si mesmo.

Foto: reprodução/The Hollywood Reporter

Quando a chuva passa, eles tentam soltar fogos, mas apenas o terceiro dispara. A insistência funciona como metáfora da dificuldade do pai em seguir em frente e do impulso que a filha lhe dá, mesmo sem perceber. 

A tempestade que rasga o silêncio

A tempestade final é o ápice simbólico do filme. Antes dela, vemos os três no barco, sentados afastados, enquanto o luto paira entre eles. O pai deixa a avó e a filha no farol, tentando sofrer onde ninguém o veja. Todavia, Sofia percebe que ele não foi embora; apenas se esconde.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

No barco, a menina reza por uma tempestade – um pedido que mistura culpa, raiva e saudade. E a tormenta chega, impiedosa. A trilha sonora tensa se transforma na sinfonia do caos que rege o mar em fúria, tornando-se a materialização da turbulência interna que o pai evita encarar. É só diante do perigo real que ele permite que a dor venha à tona.

No reencontro com a família, Sofia admite sua culpa por ter pedido a tempestade, e o pai confessa ter pedido também. A lembrança da esposa, que amava tempestades, desmancha a distância entre eles. Sem dizer diretamente, ele afirma que a filha não tem culpa pela morte da mãe e que a ama.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

O abraço que segue, com Sofia adormecendo no colo do pai e a avó os envolvendo, marca o primeiro plano sem obstáculos entre eles. A tempestade passa deixando sinais na ilha, mas o álamo reerguido no início do longa começa a florescer, pois o que antes era apenas mantido agora renasce.

O que fica após o fim

Memórias de Um Verão é um filme que encontra sua força na poesia das pequenas coisas – nos silêncios, na textura da paisagem e nos gestos mínimos que carregam um mundo inteiro de significados.

Ainda que sua construção dramatúrgica possa parecer desigual para parte do público, sobretudo quando a figura paterna não se sustenta com o mesmo vigor que a dupla central, o longa entrega imagens que permanecem.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

A adaptação do clássico de Tove Jansson captura o espírito contemplativo da obra original, mas escolhe expandi-lo para um território mais emocional, onde a tempestade interna de cada personagem ganha forma literal na tela. Poético, sensível e talvez lento demais para alguns espectadores, é o tipo de filme que ressoa mais pela atmosfera do que pela narrativa e que, apesar de suas imperfeições, deve ser lembrado justamente por essa delicadeza.

Foto: reprodução/helsinkifilmi

O filme chegou aos cinemas brasileiros em 27 de novembro, convidando o público a entrar nesse território onde o luto e a paisagem respiram juntos. Para quem quiser sentir o ritmo do filme antes da estreia, o trailer já antecipa a delicadeza visual e emocional que permeia a obra, indício de uma experiência que, mesmo suave, permanece reverberando muito depois de seus últimos minutos.

Pretende assistir esse filme? Compartilhe suas impressões nas redes sociais do Entretê – Instagram, Facebook e X – para não perder nenhuma novidade do mundo do entretenimento.  

 

Leia também: Memórias de Um Verão, com Glenn Close, estreia nos cinemas em 27 de novembro

 

Texto revisado por Kaylanne Faustino

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!