Um romance marcado por tensão emocional, protagonistas imperfeitos e relações que orbitam o limiar entre o desejo e o conflito ético
Ter sentimentos pelo melhor amigo do irmão já não é algo fácil, mas quando este amigo é 15 anos mais velho do que você, as coisas ficam ainda mais complicadas. Maya Killgore, uma jovem de 23 anos que ainda está na faculdade e em busca de direção, e Conor Harkness, empresário de 38 anos, carregam um histórico emocional mal resolvido que ressurge durante uma semana na Itália em Um Amor Problemático de Verão (2025), da autora Ali Hazelwood.

“Eu nunca quis nada de maneira tão desesperada, tão incontrolável e tão persistente quanto quero você.”
É com essa intensidade que o romance se apresenta: uma experiência que tensiona o desejo, a moralidade e a vulnerabilidade emocional.
A princípio, o romance parece que vai seguir o caminho mais previsível, mas Hazelwood tenta tensionar essa previsibilidade ao tornar o próprio relacionamento um objeto de questionamento interno – ou seja, eles conversam sobre isso. A narrativa não ignora o desconforto: ela o explicita. A diferença de idade e a desigualdade de poder são constantemente verbalizados por Conor, quase como um mecanismo de autocrítica dentro da ficção.
Por um lado, o fato disso ser sempre lembrado pelos personagens confere uma densidade. Por outro, torna-se repetitivo e, como leitor, você se vê um pouco cansado de observar a mesma discussão mais de uma vez. Você compreende, mas a discussão perde a força depois da terceira conversa entre os protagonistas pelo mesmo motivo.
Conor insiste em uma narrativa sem ao menos considerar como Maya se sente com relação a tudo isso. Então, por mais que o fato do debate estar presente seja importante, chega um momento em que até os leitores começam a se questionar se realmente essa diferença de idade é um problema tão grande assim.
Entre impulsos e contenções

Maya é uma protagonista coerente com sua trajetória, marcada pela perda precoce dos pais e faixa etária. Ela carrega uma raiva quase palpável do mundo, e esse sentimento se manifesta em suas ações. Ela vai ser impulsiva e emocionalmente transparente, pois ainda está em processo de formação. É exatamente essa característica que torna sua voz narrativa um dos pontos mais fortes da trama. Ela sustenta boa parte da fluidez da leitura, com um humor leve que se equilibra nos momentos de tensão.
Conor já é um personagem definido pela culpa – mas também mais controverso dentro da obra. Sua consciência sobre a natureza do envolvimento com Maya não o impede de sentir, mas o coloca em constante estado de contenção. Ele reconhece o desequilíbrio entre eles, a relação de poder entre um homem mais velho com uma mulher mais nova, e insiste nisso ao longo da narrativa. Essa dinâmica cria um jogo interessante: enquanto Maya está constantemente avançando, Conor recua.
Por outro lado, por mais que Conor seja apresentado como alguém que entende as implicações morais de seu possível envolvimento com Maya, sua postura frequentemente oscila entre o cuidado e o controle. Há momentos, inclusive, em que Conor tenta controlar as emoções dela e determinar como ela deveria se sentir em relação a ele.
A construção de um amor problemático

Um dos aspectos mais interessantes, é que – diferentemente de narrativas que naturalizam relações desde a infância ou adolescência – aqui não existe a ideia de que Conor acompanhou o crescimento de Maya. O vínculo entre eles se constrói já na vida adulta, ao longo de encontros espaçados, conversas e uma aproximação gradual que escapa do estereótipo mais problemático do trope. É claro que essa escolha não elimina as eventuais tensões que relações do tipo abordam, mas ela redefine seus contornos.
E para contar essa história, o passado não aparece como simples exposição: ele é dramatizado. Ao iniciar a leitura você não tem um grande contexto da história desses personagens, tomando conhecimento através dos pequenos detalhes e nos capítulos que retornam a momentos anteriores. Tudo é entrelaçado com o presente e isso permite que o leitor reconstrua, pouco a pouco, a evolução da relação e se apaixone por ela.
Isso cria uma dinâmica de descoberta. Em vez de apresentar um sentimento já estabelecido, o livro convida o leitor a acompanhar seu desenvolvimento – o que torna a conexão entre Maya e Conor mais orgânica, ainda que envolta em conflitos.
A Sicília como personagem

Maya e Conor se reencontram no casamento do irmão de Maya, Eli, que acontece na Sicília. A ambientação é um dos grandes trunfos do livro, pois, aqui, a Sicília não funciona apenas como um pano de fundo, mas sim como um elemento ativo da narrativa.
Há uma construção sensorial marcante: é possível visualizar as paisagens, sentir a brisa do mar, imaginar os sabores e a textura daquele ambiente. A escrita de Hazelwood transforma o espaço em experiência, a ponto de provocar um desejo quase imediato de comprar uma passagem e decolar no próximo avião em direção à Itália. O leitor se sente lá mesmo sem esse deslocamento real; ele vive aquela semana junto com os personagens.

A Sicília é como um catalisador emocional, permitindo que os personagens – e, talvez, até os leitores – se afastem de suas rotinas e confrontem sentimentos que, em outro contexto, permanecessem reprimidos.
Vale a pena?

A leitura de Um Amor Problemático de Verão é fluída e altamente envolvente. É um livro que se deixa devorar, daqueles que um dia ou dois são suficientes para finalizar, mas há fragilidades.
O desfecho parece surgir de maneira um pouco abrupta, especialmente quando a narrativa finalmente parece ganhar maior intensidade dramática. A sensação que fica para o leitor é de interrupção, não de conclusão. Falta tempo para que o clímax se desenvolva plenamente.
No entanto, a obra é, acima de tudo, uma experiência de leitura profundamente envolvente. Um romance que se apoia em tropes já bem consolidados, mas que, ao mesmo tempo, busca reconfigurá-los por meio de escolhas narrativas mais cuidadosas. Um romance que reconhece suas próprias contradições sem necessariamente resolvê-las, mas que encontra força justamente nessa ambiguidade.
Ao finalizar a leitura, o que permanece não é apenas a discussão sobre o que é ou não problemático, mas a memória sensorial da jornada: a atmosfera, os sentimentos e a intensidade. E a vontade de voltar, um desejo de esquecer para poder ler tudo de novo como se fosse a primeira vez.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura










