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Foto: divulgação / Bianca da Silva e Denise Flaibam

Entrevista | Bianca da Silva e Denise Flaibam falam como é escrever terror infantojuvenil ambientado no Brasil

Autoras ainda comentam sobre principais inspirações e a resistência a obras de terror nacionais

Bianca da Silva e Denise Flaibam são amigas e, em maio deste ano, publicaram O Clube do Pesadelo, obra infantojuvenil que traz elementos da fantasia e do terror para terras brasileiras. O livro, publicado pela editora Rocco, se inspira na aura sombria e misteriosa observada em Stranger Things (2016) e Ordem Paranormal (2024), além de uma gama de elementos nostálgicos da década de 90. As escritoras, que cresceram em meio à cultura do período, quiseram traduzir essa atmosfera por meio de um grupo de amigos que busca resolver um enigma macabro que se apoderou da Enseada dos Anjos, cidade onde a trama se passa. 

Em O Clube do Pesadelo, o leitor conhecerá Dominique, jovem que, em outubro de 1999, muda-se para uma pequena cidade no litoral de Santa Catarina. Com dificuldades para se adaptar à nova escola, ela é enviada para uma turma de reforço, que ostenta um grupo de alunos um tanto peculiares. A menina logo descobre sobre uma suposta maldição que ronda a cidade, deixando-a com receio, mas curiosa. 

Dominique decide iniciar sua própria investigação, descobrindo mistérios e segredos obscuros intrincados no passado do local. Agora, ao lado de seus novos amigos – Johnny, Mabê, Angélica e Fábio – ela destrincha pistas em busca de respostas, enfrentando perigos pelo caminho, num mundo no qual pesadelos podem caminhar entre os humanos. A narrativa também está permeada de comédia pastelão, cultura brasileira, amores queer e questões inerentes à fase de amadurecimento. 

Silva e Flaibam já haviam trabalhado juntas na duologia As Bruxas de Lugar Nenhum, que acompanha a trajetória de quatro meninas que vivem em um internato e escondem de todos que possuem poderes mágicos. Em entrevista ao Entretetizei, as autoras contam como foi criar em dupla, além de comentarem sobre o processo de escrita de um terror nacional.  

Foto: divulgação / editora Rocco
Entretetizei: O Clube do Pesadelo faz referências a Stranger Things e Ordem Paranormal, mas também com pitadas de humor e cultura dos anos 90. Como vocês pensaram nessa mistura entre elementos internacionais e a brasilidade da obra?

Bianca da Silva: A gente gosta muito de começar as nossas histórias a partir de um “e se”. Essa também começou assim, com uma fanfic. Conforme fomos adaptando a ideia, pensamos: “E se a gente fizesse uma narrativa com essa pegada nostálgica dos anos 90?”. A partir daí buscamos referências brasileiras, especialmente porque a trama envolve pesadelos. Pensamos no que poderíamos usar de lendas urbanas para trazer essa nostalgia brasileira. Foi uma forma de reunir tudo o que fazia sentido para nós, mesclar e construir algo novo.

Denise Flaibam: Foi muito nostálgico, porque era parte da nossa infância. Muitas vezes eu falava alguma coisa e a Bianca dizia: “Nunca vi isso!”. Outras vezes era o contrário, ela comentava algo e eu pensava: “Nunca vivi isso”. Apesar de termos só um ou dois anos de diferença, parecia um choque cultural. Mas foi justamente isso que tornou o processo divertido.

E: E como foi o processo de escrever juntas? Essa foi a primeira experiência de vocês escrevendo em parceria?

DF: Não, nós já tínhamos lançado uma duologia de fantasia juntas. Mesmo nas histórias individuais, sempre compartilhávamos ideias, pedíamos ajuda uma à outra. Era comum mandar mensagem dizendo: “Preciso de uma luz aqui” ou “Me ajuda a organizar isso”. Então foi muito natural e fácil porque a gente fala que divide o mesmo neurônio (risos). 

BS: A gente costuma falar que sempre escrevemos juntas, porque uma lê a história do outra, opina. Quando tinamos algum problema, pedíamos ajuda. Então escrever tanto As Bruxas quanto O Clube do Pesadelo foi bem natural. 

E: A história se passa em 1999, um ano antes da virada do milênio. Por que escolheram exatamente esse ano?

DF: Queríamos esse contexto justamente por causa do bug do Milênio. Pensamos muito em algo que fosse familiar para nós duas e também interessante para adolescentes. 

BS: Queríamos algo que fosse nostálgico para os adultos, mas que interessasse os adolescentes. O fim dos anos 90 e o início dos anos 2000 nos parecia o momento perfeito para cruzar esses dois interesses.

Denise Flaibam. Foto: divulgação / Bianca da Silva e Denise Flaibam
E: O livro é voltado para leitores mais jovens. Houve algum desafio em escrever uma história de terror para esse público?

DF: O terror do Clube não é aquele terror pesado, é aquele terror mais galhofa. Tentamos não exagerar nas cenas justamente para que o jovem pudesse ler sem problemas. O maior cuidado foi escolher as palavras certas, de um jeito que os leitores se identificassem e abraçassem os sentimentos que estão sendo passados no livro. Eu sou uma pessoa medrosa, então escrever terror talvez tenha sido até mais fácil, porque eu não conseguiria escrever nada muito aterrorizante (risos).

BS:  Na verdade, a gente nem encarou essa história como terror desde o início. Ela começou como fantasia, mas, conforme se desenvolveu, foi caminhando para o terror. Ao mesmo tempo, sempre trazemos comédia para as nossas histórias. Temos esse humor meio quinta série, besteirol, porque a gente não sabe ser 100% séria. É para ser uma coisa que dá um arrepio na espinha, mas com esse tom mais leve. 

E: Os adolescentes são muito engajados nas redes sociais quando se trata de literatura. Como é escrever para esse público?

DF: É muito gostoso, né? Tivemos uma recepção calorosa na Bienal, muito mais do que esperávamos. O livro foi bem nas divulgações no TikTok e a galera veio muito empolgada. E era tão divertido porque nessa idade tudo parece uma grande revolução, uma grande emoção. A gente ficava até querendo chorar ali conversando com eles, porque era contagiante.

BS: Estamos há mais de dez, quinze anos no mercado editorial, já bastante acostumadas com o ambiente literário. Já estamos escaldadas com muita coisa. Ver essa galera tão novinha, com brilho nos olhos, começando a desenvolver o hábito da leitura, foi ótimo. Lembrou de quando a gente era assim. Foi como reviver aquela empolgação inicial. Aquele sentimento de ficar completamente alucinado dentre de uma história, foi muito bom ver essas pessoas tão empolgadas por uma história nossa. 

E: Quais os maiores desafios que vocês enfrentam hoje como autoras?

DF: Chegar ao leitor ainda é um grande desafio. Mesmo com redes sociais e algoritmos ajudando, ainda é preciso convencer a pessoa de que nosso livro é o que ela quer ler naquele momento. Não chega a ser um tormento, porque hoje é mais fácil alcançar o público, mas ainda considero um percalço importante.

BS: Os adolescentes querem testar os próprios limites, estão em fase de descoberta do que gostam, então estão mais abertos a experimentar. Isso ajuda. Mas os desafios continuam sendo os de sempre: manter o hábito da leitura e lidar com o preço dos livros, que só aumenta. O TikTok tem feito muito para incentivar a leitura, mas ainda precisamos de mais estímulo.

E: O livro traz muitos personagens diversos, cada um com personalidade marcante. Como foi criá-los?

BS: Eles surgiram ainda na época em que a ideia era uma fanfic de Stranger Things. Já sabíamos que teríamos algumas figuras típicas, como o rebelde, a líder de torcida, o roqueiro. Depois que definimos o cenário, fomos construindo os demais personagens inspiradas na estética e nos arquétipos dos anos 90. A gente não se inspirou apenas na estética da época, mas também na maneira que as histórias eram contadas. Pegamos estereótipos comuns na época e fomos desconstruindo, adicionando camadas.

DF: Foi assim que, sem querer, acabamos criando algo parecido com a turma do Scooby-Doo. Mas nossa intenção era justamente quebrar estereótipos. Então a nerd, por exemplo, não é só inteligente; ela também é meio avoada, quase a maluca do terror. Cada personagem recebeu pequenos detalhes extras que os tornaram mais interessantes.

Bianca da Silva. Foto: divulgação / Bianca da Silva e Denise Flaibam
E: E como a bagagem pessoal de vocês entrou no livro?

DF: Muito através da nostalgia. Quando criamos os pesadelos, busquei memórias da infância, coisas que me assustavam. Pesquisei para ver se cabia incluir essas referências. Rolou até choque cultural entre a gente! Eu queria colocar o ET Bilu, porque na minha cabeça ele era cultura dos anos 90. Mas lembrei que ele é dos anos 2010 (risos). 

BS: Tivemos que adaptar. Mas, no geral, não colocamos muito de nós mesmas nos personagens, apenas alguns gostos, como música ou literatura de terror. Foi meio que uma gincana do quanto dos anos 90 eu conseguiria colocar na história, todas as coisas que eu lembrava da minha infância.

E: Vocês já falaram anteriormente sobre isso, mas quando estavam escrevendo o livro, quais foram as maiores inspirações concretas? O que pesquisaram e consumiram muito?

DF: A Hora do Pesadelo foi uma grande inspiração, tanto para a construção da grande antagonista quanto para o tom da história. Eu e a Bianca maratonamos os filmes para relembrar e trazer elementos para o livro. Stephen King também foi uma influência, especialmente essa ideia de personagens que têm algo paranormal sem explicação.

Os nomes dos capítulos, por exemplo, são todos inspirados em filmes e livros clássicos de terror. A gente mudava alguma coisinha, mas sempre como referência. 

BS: Além disso, buscamos resgatar a sensação de nostalgia que Goosebumps (2022) trouxe, a gente queria essa coisa de terror infantojuvenil. Mas, no fim, acho que a maior inspiração acabou sendo Stranger Things. Por mais que a gente se distanciou da série, ela ainda foi uma base muito forte. 

E: O livro também traz bastante representatividade e elementos da cultura brasileira. Por que acham importante que os jovens se reconheçam em histórias assim?

DF: Quanto mais a gente mergulha na nossa cultura, mais percebe o quanto ela é rica e expansiva. É muio legal que as novas gerações abracem isso e se vejam representadas. Os adolescentes estão se construindo, vivendo tudo de forma intensa, e nossos personagens também passam por isso. A Dominique, por exemplo, já sabe que gosta de garotas, mas ainda não tem certeza se pode contar para os outros. A jornada dela é justamente sobre se sentir à vontade, entender que será acolhida.

BS: É importante termos a noção de que as nossas histórias também são válidas. Além disso, existe um preconceito antigo com literatura nacional, como se fosse menos interessante. Eu mesma, quando comecei a escrever, pensava: “Quem vai querer ler uma fantasia passada em Blumenau, Santa Catarina?”. Todo mundo queria algo que se passasse em Nova York, Los Angeles. Mas hoje vejo que nossa vivência e nossa cultura são tão valiosas quanto qualquer história estrangeira. Por que um apocalipse zumbi no Brasil seria menos interessante que nos Estados Unidos? É importante quebrar essa ideia e reforçar que nossas histórias também são válidas. 

E: O livro se passa nos anos 90, uma época que a maioria dos jovens leitores não viveu. Como encontraram o equilíbrio entre nostalgia e diálogo com o público atual?

DF: Tentamos recriar para os adolescentes de hoje o que os anos 80 foram para a nossa geração. Não vivemos aquela década, mas construímos um imaginário dela através de filmes e séries. Fizemos o mesmo com os anos 90, trazendo detalhes de casas, roupas e músicas. Esses detalhezinhos despertam curiosidade e criam o clima nostálgico.

BS: Quando a gente pensou em botar os anos 90, também imaginamos a nostalgia que causaria nos adultos, que não são nosso público-alvo, mas que também podem vir a consumir. E a gente pensou em como isso poderia ser atraente para os adolescentes, porque eles estão nesse momento de curiosidade com a época. 

Além disso, a gente é cronicamente online e muito do público também é (risos). Os memes, as coisas que a galera revive, as histórias, tudo deixa a história mais atraente. 

E: Existe uma resistência maior a autores nacionais de fantasia e terror?

BS: Acho que sim. Terror e fantasia já são nichos mais difíceis, diferentes de romance, que costuma agradar mais facilmente. Então temos duas barreiras: primeiro o gênero, que é mais específico, e depois o fato de ser nacional, que ainda carrega muito preconceito. Mas vejo que o momento é propício. O cinema está cheio de filmes de terror, as séries de fantasia estão em alta, e editoras brasileiras adicionais estão publicando cada vez mais obras nacionais do gênero. Isso abre espaço para nós. 

DF: Além disso, nossos livros não são só terror: eles misturam gêneros, têm humor, amizade, representatividade. Esse dançar entre gêneros ajuda a chegar até o leitor sem assustá-lo com a ideia de ser apenas terror. Tem comédia, referência, nostalgia. É um contorno que se faz, até os filmes de terror também estão fazendo isso, tentando chamar atenção com trailers diferentes, com chamadas diferentes. É para mostrar que, mesmo sendo um gênero nichado, tem coisas muito interessantes aqui dentro.

BS: Sim, trazendo um grupo de gêneros também, né? Tem muito da comédia de terror que parece estar voltando, não só a comédia de terror, mas a comédia dentro do terror. O romance também. Acho que eles estão tentando expandir, encontrar um novo nicho dentro do terror.

E: E para vocês, existe alguma coisa que diferencie o livro de terror escrito no Brasil dos livros escritos fora? Existe algo que só o Brasil tenha e que seja muito propício para uma história de terror?

DF: O boneco do Fofão, a boneca da Xuxa… Eu acho que é mais a questão da identificação. Você assiste um filme ou lê um livro gringo, passa por aquela história e tudo bem. Mas, quando você vê um produto feito no Brasil, encontra algo com que se identifica. Tipo: “Meu Deus, o nome da rua é igual ao da minha casa.” Ou: “A personagem se chama Maria, e minha mãe se chama Ana Maria.” São pequenos detalhes que causam aquela epifania de: “Meu Deus, tem uma história com dragão que se passa em Itatiba, São Paulo!”. É o momento de se sentir dentro da história porque está no seu CEP. Acho que essa é a vibe.

BS: Eu acho que tem também a questão da adaptação. As pessoas estão acostumadas a um tipo de história dentro daquele gênero e quando você traz para o Brasil, ela acaba se transformando um pouco. Pensei muito nisso porque estava numa onda de ler e assistir histórias góticas, e é tudo uma referência muito europeia.

Aí eu comecei a ler um gótico sulista dos Estados Unidos, e ele tem uma pegada muito diferente. Não tem aquela coisa de casarão sombrio, frio, neve, chuva… porque lá é calor, é muto diferente. 

Quando vem para o Brasil também é assim. Você não vai escrever um gótico aqui como escreveria na Europa. Então essa adaptação, essa transformação, acaba mudando o gênero. O terror que se passa no Brasil vai ser diferente do terror dos Estados Unidos ou da Europa, porque ele essencialmente precisa ser diferente. O clima é outro, as culturas são outras. E acho que isso é um grande diferencial, não só para o leitor que se identifica, mas também na construção da história e nos clichês que aparecem.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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