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Imagem: divulgação/Editora Lura/Entretetizei

Entrevista | Camilo Farias conta sobre os bastidores da escrita de A Assassina de Berlim

O thriller histórico relembra o cenário de Guerra Fria e explora os dilemas da violência política

Quando abrimos o livro A Assassina de Berlim, o autor – e advogado – Camilo Farias nos transporta diretamente para 1979 e podemos conhecer a Alemanha, ainda dividida pelo Muro de Berlim e diferentes outros cenários centrais da Guerra Fria.

Rachel Rabinovich, protagonista da obra, vive cercada por disputas políticas, violência extrema e diversas operações secretas. Em sua história, a personagem deixa de ser apenas uma jovem comum para se tornar uma agente infiltrada entre terroristas.

Em entrevista para o Entretê, Camilo conta um pouco sobre seu processo de criação, construção de personagens e escolhas morais do livro.

Entretetizei: Como surgiu a ideia de escrever esse romance? Houve algum acontecimento histórico, personagem ou questionamento que serviu como ponto de partida para a narrativa?

Camilo Farias: A sociedade dos anos 1950 a 1970 viveu a noção de que a História poderia ser modificada pela ação direta: pela atuação na cultura e na sociedade, pela arte, política, ou pelo conflito e luta armada. Hoje, o que temos é um derrotismo existencial presente na ideia de que “as coisas vão piorar” não importa o que façamos. E as questões que aquela sociedade enfrentou são similares às nossas: polarização, extremismo, precarização do trabalho, violações de direitos. Pouco tempo passou entre essas épocas: e o que mudou?

E: Como foi o processo de pesquisa para reconstruir Berlim, Paris e o Líbano? Quais foram os maiores desafios?

C: O nerd veio antes do escritor! Eu lia sobre esses temas históricos e movimentos políticos por hobby e curiosidade. O que ocorreu foi um processo mais ou menos “de trás para a frente”: quando comecei a escrever, boa parte da pesquisa já estava pronta, e o maior desafio foi podar o nerd. Resistir e não sair colocando no livro tudo que eu achava fascinante, mas que a Rachel e a narrativa não queriam saber.

E: De que maneira sua formação jurídica influencia a construção das narrativas e dos dilemas morais?

C: Estudar nos ensina a desconfiar de histórias e soluções simples. Grupos, indivíduos e ideologias têm essa tendência de espremer a realidade dentro do seu ponto de vista, e existe essa opinião, comum, aliás, de que advogados atuam assim! Embora eu não consiga imaginar a razão. A profissão ensina, entretanto, que argumentar é um hábito humano e que não existe uma ideia ou solução universal e aplicável a todas as hipóteses. Quanto a mim, gosto de personagens que até podem estar “errados” (aspas são propositais) e, ainda assim, serem interessantes e convincentes na sua visão de mundo.

E: Como foi construir Rachel? Em que momento você encontrou a voz e a personalidade dela?

C: Rachel é uma personagem que não se interessa em ser absolvida. Ela pode ser violenta e é capaz de cometer um crime bem terrível, uma página depois de ser engraçada ou leal. Uma pessoa com essa atitude é muito veloz em dar ordens dentro da mente desse coitado chamado de “o escritor”. E eu sabia que ela não seria uma femme fatale que executa vilões genéricos sem se sujar, literal ou metaforicamente: Rachel, e quem a lê, precisam sentir as consequências dos seus atos.

E: Até que ponto experiências pessoais podem explicar escolhas políticas e atos de violência? Existe limite entre compreender e justificar?

C: Quando sofremos uma agressão, reagimos das mais diversas maneiras, e infelizmente é comum que um trauma seja incorporado ao comportamento de forma inconsciente. Acho essencial tentar compreender nossos próprios atos, e os das pessoas que nos cercam, com a ressalva de que compreender não é absolver. Aposto que Rachel vai conquistar a simpatia de muitos leitores. Ela é charmosa! Apesar de ranzinza, mal-humorada, orgulhosa e atrevida. Mas em momento algum a assassina foi concebida para ser perdoada.

E: Como foi decidir quais figuras históricas e intelectuais fariam parte da narrativa? E o que Marcuse permitiu discutir?

C: Procurei figuras históricas que reproduzissem as contradições do seu período, mas ainda atuais. Wadie Haddad organizou sequestros de aviões civis como “ação direta” em favor da causa palestina. Herbert Marcuse fez parte de uma geração que presenciou a Segunda Guerra Mundial, sua obra investigando mecanismos de dominação e questionando a violência enquanto instrumento de libertação. São perspectivas opostas. E Rachel representa o afã da juventude, a ansiedade de mudar o mundo; um personagem inventado até poderia ser um bom contraponto, mas Marcuse dá às cenas uma densidade histórica especial.

E: Como você trabalha a fronteira entre empatia, compreensão e julgamento crítico? A literatura tem papel particular na discussão sobre radicalização?

C: A arte tem a vantagem de colocar o espectador dentro de uma lógica, permitindo sua compreensão sem exigir o aceite. Não é necessário abandonar as convicções para se ampliar o horizonte de pensamento. Pelo contrário! Conhecer os diferentes e os divergentes se presta, inclusive, para fortalecer nossa visão de mundo, na medida em que testamos as nossas contradições. E é importante reconhecer que possuímos contradições! A outra hipótese é achar que somos perfeitos.

E: Como funciona sua rotina de escrita? Você planeja toda a trama? E como revisa?

C: Eu gosto de ir do abrangente para o específico. Primeiro, monto o esqueleto da história, defino os movimentos e depois deixo os personagens livres para brincarem, bem no estilo “o escritor que se vire”. E uma parte considerável do livro se constrói durante a releitura e na revisão; talvez por ser advogado, eu desenvolvi uma obsessão com a revisão, essa busca pela coerência e pelo ritmo.

E: Que reflexão você gostaria que permanecesse com o leitor? Existe alguma pergunta para a qual você ainda não encontrou resposta?

C: Os meios de hoje são mais acessíveis para expor nossos pontos de vista. Mas nós, enquanto sociedade, atuamos com a intensidade aguardada? Os mecanismos de opressão se tornaram mais sofisticados, ou nós nos tornamos apáticos? E, no outro extremo, existe um preço-limite para mudar o mundo? Até que ponto uma causa segue legítima antes de ser deformada pelos meios? Eu não tenho respostas definitivas para essas perguntas, e, sinceramente, nem pretendo que o livro finja as ter.

Com 342 páginas, A Assassina de Berlim conquista o leitor pela sua história intrigante. O livro já está disponível para compra pelos sites da Amazon e da Livraria da Lura, pelo preço de R$ 49,90.

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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