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Foto: reprodução/GLP4

Entrevista | Da música clássica à Charlie Brown Jr.: Felipe Habib comenta o trânsito por diferentes linguagens artísticas

O artista falou com o Entretê sobre o livro Amundo, que escreveu com Marina Palha, e seu trabalho na cinebiografia do Chorão

Entre os palcos, o cinema, as palavras e a música, Felipe Habib está em uma fase de bastante atividade em sua carreira. Por trás das câmeras, o artista esteve conduzindo a performance musical do ator José Loreto para o papel de Chorão em Se não eu, quem vai fazer você feliz? e, no começo de outubro, encerrou a nova montagem do espetáculo infantil musical Zaquim, que idealizou em parceria com sua esposa, Marina Palha, há quatro anos.

Além disso, ao longo das últimas semanas, Felipe e Marina também têm viajado pelo país para os eventos de relançamento do livro Amundo, escrito em parceria entre o casal e publicado pela Marisco Edições.

A obra de não-ficção atravessa diferentes registros e formas para recontar as memórias do casal durante a gestação e os primeiros meses após o nascimento do seu primeiro filho, Joaquim, quando os dois ainda processavam a novidade da parentalidade.

Foto: reprodução/Marisco Edições

Oito anos depois das experiências descritas no livro, e com a segunda filha do casal, Cora, já com dois anos, Felipe contou para o Entretê em uma entrevista exclusiva sobre a mudança na sua visão de paternidade nos últimos anos, sua relação com a música e quais são seus próximos desejos como um artista que explora tantas expressões diferentes.

Confira a entrevista completa abaixo:

Entretetizei: Como você e a Marina organizaram a escrita do livro em parceria? O que vocês levaram em consideração para dividir os trechos e as perspectivas?

Felipe Habib: Na verdade, antes de decidirmos fazer um livro em conjunto, eu tinha uns escritos meus e tinha o desejo de lançá-los. Mas eu comecei a organizar o material e eu me cansava um pouco das minhas angústias, das minhas próprias questões.

Eu não me lembro exatamente quando, mas em algum momento conversando com a Nina eu perguntei sobre os escritos dela, e começamos a fazer um exercício de misturar os relatos desse momento que a gente tinha vivido, da chegada do nosso primeiro filho. Quando fizemos isso foi muito bonito, porque começou a aparecer uma perspectiva muito diferente de cada indivíduo vivendo o mesmo momento.

Foto: reprodução/Instagram/@felipehabib

Aquilo pareceu ser o melhor caminho para comunicar para os outros aquela experiência, e começamos a trabalhar nessa mistura dos textos. Fomos descobrindo uma dança muito bonita entre essas trajetórias tão individuais. Amundo fala muito sobre essa jornada, que é tão singular e ao mesmo tempo em parceria, de quando você tem a experiência de ter um filho em dupla.

E: Vocês escreveram Amundo principalmente sobre a gestação e os primeiros meses do Joaquim, e estão relançando agora depois do nascimento da Cora. A sua visão sobre a paternidade mudou com a chegada dela? Pode compartilhar mais sobre?

FH: Mudou radicalmente. A chegada do segundo filho é uma nova experiência, é uma outra paternidade. Mas eu acho que o primeiro filho é bem mais impactante porque realmente é aquele momento na vida, pelo menos para mim, de uma mudança de lugar mesmo: até então eu era filho, e naquele momento eu virei pai. Essa mudança é realmente muito importante.

Eu gosto de dizer que tem uma coisa que acontece que é a mais difícil e é a mais maravilhosa, que é o fato de você deixar de ser o centro da sua vida quando você tem um filho.

Foto: reprodução/Instagram/@felipehabib

Acho que a principal diferença é que, para a gente, no primeiro, o desafio foi descobrir como esse casal virava uma família. Agora, com o segundo filho, é descobrir como essa família, que já é um triângulo – Eu, Nina e Joaquim – vira um quadrado, ganha mais uma pessoa. Então esse trio precisa viver essa nova adaptação.

Além do fato do Joaquim ser um menino, e isso é uma experiência, uma relação, com questões que eu talvez já conhecesse um pouco mais pela própria trajetória enquanto homem. A chegada da Cora, uma menina, muda bastante várias perspectivas dentro dessa sociedade que a gente vive, em que as experiências do feminino e do masculino são muito diversas. Me ilumina e me questiona em vários novos sentidos também.

E: A conversa sobre parentalidade tem mudado muito. O que você enxerga como mais transformador nessa mudança, comparando com a época em que você era criança?

FH: Muita coisa, né? A relação que eu tive com meus pais, se pensar em parentalidade (que era um termo que nem existia na época, né?), comparada à relação que eu tenho com meus filhos hoje, é realmente muito diferente.

Por outro lado, tem muitas coisas da minha experiência com meus pais, com quem eu tinha uma relação muito bacana de diálogo, de afeto, de presença, que eu sinto que são muito inspiradoras para mim na minha paternidade hoje.

Mas também acho muito diferente em vários aspectos. Nós, pelo menos eu e Marina, damos um passo ainda maior na direção da comunicação. A gente conversa muito com as crianças – com Joaquim, que já tem 8 anos, então… Ainda elabora muito os sentimentos, dá espaço para questionamentos que há um tempo os pais não davam muito.

Foto: reprodução/Instagram/@felipehabib

Nós permitimos que ele sinta, que ele verbalize coisas e damos espaço para elaborar esses sentimentos que ele encontra de uma maneira muito nova, e eu sinto que isso forma um indivíduo mais complexo e talvez, por conta disso, mais empático. Não acho que seja mais fácil para ele, nem para nós, mas eu sinto que tem um caminho muito positivo nisso, de poder habitar complexidades e exercitar, elaborar questões de maneira mais profunda.

E: Você transita por várias linguagens; cinema, TV, música e literatura. Como essas formas de expressão se diferenciam pra você? Com qual delas você se sente mais em casa?

FH: Eu venho da música erudita, cantava no coral quando era criança, estudava música clássica, cantava música sacra, porque cantava todos os domingos na igreja, e vivia em concertos.

Depois, fui estudar canto lírico, mas eu sempre me senti um cara muito interessado por assuntos que a maioria ali não se interessava: eu era um cara do coral, mas eu curtia muito MPB. Na época da relação mais profunda com a música erudita, eu me interessava muito pelas questões cênicas, interpretativas, e pras pessoas aquilo não fazia muito sentido. Quando fui para o teatro também, como vinha com essa bagagem da música, sempre achava que podia ter um refinamento diferenciado que também não encontrava.

Foto: reprodução/Instagram/@felipehabib

Então sempre me interessou muito esse olhar mais completo sobre as práticas artísticas, e acho que isso me faz transitar entre as linguagens, de alguma forma sempre fazendo essa brincadeira de pegar um pouco de uma e levar para outra.

Acho que pela experiência que eu tive na minha vida, acaba que a música é muito central, é um elemento que está sempre muito presente, mas eu gosto muito de me relacionar com a palavra, de me relacionar com o corpo também. Diria que me sinto à vontade transitando entre as linguagens, mas certamente a música é um lugar de conexão.

E: Já tendo participado de tantos projetos especiais e em diferentes frentes, o que você ainda não fez e tem vontade de tentar?

FH: Sou um constante desbravador, adoro ir fazendo coisas novas. Tudo me interessa.

Eu falo com a Nina que acho que eu me vejo dirigindo, e talvez a música seja uma coisa que conduza isso, mas me interessa muito o olhar estético da fotografia. Eu me vejo dirigindo uma peça de teatro, me vejo dirigindo coisas no ambiente da música clássica, da música erudita também. Me imagino dirigindo uma ópera e agora, por estar mais conectado com cinema, me vejo nesse lugar de fazer um filme. Eu acho que me interessa todos esses caminhos, sabe?

Acho que o fato de ser uma pessoa que transita por tantas linguagens, e que se interessa por elas, é uma característica que vai me alimentando de uma maneira muito positiva, me nutrindo mesmo, me formando com o olhar mais aguçado para direção. Eu acho legal isso de exercitar do varrer o chão à iluminar a sala, sabe?

Foto: reprodução/Instagram/@felipehabib

Uma vez alguém me perguntou “se você não fosse o que você é, o que que você faria?” Eu falei: “cara, sei lá, várias coisas”. Eu poderia ser zelador também, por ter um prazer mesmo em fazer as coisas. Gosto de cuidar do jardim, gosto de cozinhar, gosto mesmo de varrer a sala, tenho prazer em arrumar as coisas, e acho que isso tem a ver um pouco com dirigir também, um olhar total sobre as coisas.

E: Sabemos que você assinou a direção de performance musical e vocal na cinebiografia do Chorão, que finalizou as gravações recentemente, ajudando a preparar o José Loreto para o papel. Sobre esse projeto, pode dar algum spoiler para o Entretetizei sobre o que podemos esperar?

FH: Sobre o Chorão, acho que eu posso falar que o trabalho foi muito legal, muito profundo, e o [José] tá arrebentando. O que a gente vivenciou ali do processo com as canções do Chorão e a preparação do Zé para estar ali performando como Chorão foi muito bonito, muito bacana.

Todo mundo que entrou em contato no processo, com nosso trabalho, que visitou a nossa sala de ensaio, sempre ficava muito tocado e emocionado.

Teve aquele evento especial, que foi o show com o DZ6, que acho que já deu um gostinho para o pessoal do que pode aparecer nas telas. Acho que é isso, o trabalho está bem bonito, e estamos bem felizes e ansiosos para ver o resultado.

Foto: reprodução/Rolling Stone

 

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Texto revisado por Karollyne de Lima

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