Em parceria com Fernanda Takai, cantora, atriz e performer nipo-brasileira transforma uma experiência de despedida e crescimento em uma das faixas mais afetivas de Borrões
Deixar o ninho, construir o próprio caminho e entender que crescer também envolve despedidas. É a partir desses sentimentos que Lina Tag constrói Palha de Vento, faixa que reúne a artista nipo-brasileira e Fernanda Takai em um encontro entre diferentes gerações e trajetórias da música brasileira.
Parte do álbum autobiográfico Borrões (2026), a canção nasceu de uma experiência pessoal de Lina ao deixar a casa dos pais para construir sua própria vida adulta e trajetória artística. O que poderia ser apenas uma despedida ganha novos significados na música, que transforma memória, afeto e amadurecimento em uma narrativa sobre aprender a seguir em frente sem necessariamente abandonar as próprias raízes.
Com versos como “Palha de vento, deixa vagar o ninho. Sozinha, embala no ar”, a faixa encontra na participação de Fernanda Takai uma nova camada de delicadeza. As duas vozes se encontram de maneira sensível, fazendo com que uma experiência íntima de Lina também converse com diferentes gerações e histórias.
Além da relação com o amadurecimento, Palha de Vento também se insere em uma trajetória marcada pela busca por novas representações na música e nas artes. Como artistas nipo-brasileiras, Lina e Fernanda ocupam espaços importantes na construção de outros imaginários sobre mulheres amarelas na cultura brasileira, cada uma a partir de sua própria identidade e liberdade criativa.
Para falar sobre a criação da faixa, a parceria com Fernanda Takai, as memórias que deram origem a Borrões e os caminhos que surgem quando é preciso deixar o ninho, Lina Tag conversou com o Entretetizei em uma entrevista exclusiva, confira:
Entretetizei: Palha de Vento nasceu do momento em que você saiu da casa dos seus pais e começou a construir uma vida própria. O que você consegue dizer hoje sobre aquela partida que talvez não conseguisse dizer quando ela aconteceu?
Lina Tag: Eu diria que algumas escolhas precisam de uma certa coragem para que a gente possa se atirar para a vida e até se redescobrir. E esse movimento pode ser desconfortável e assustador, mas, às vezes, essa desestabilização pode fazer com que a gente encontre outros pilares de apoio dentro de nós. Pilares que antes eram desconhecidos. Então, eu diria: se lança!
Entretê: Tem uma imagem muito bonita em “deixa vagar o ninho”. Quando você escreveu esse verso, estava pensando mais em quem precisa criar coragem para partir ou em quem precisa aprender a deixar alguém ir?
Lina: Acredito que os dois. Esse processo de sair da casa dos pais e deixar o ninho é como romper o cordão umbilical, né? Então acredito que seja dolorido para quem vai e para quem deixa ir também. No dia em que eu saí de casa e minha cama foi retirada oficialmente do quarto onde eu cresci, minha mãe escorregou na parede e chorou, bem dramática (risos). Parecia uma cena trágica. Hoje, nós lembramos desse momento e damos risada. Mas é claro que foi um momento difícil… É uma mudança de ciclo bem drástica, uma separação e uma transformação profunda na relação.
Entretê: A Fernanda Takai entra justamente em uma música muito íntima da sua história. O que fez você sentir que essa memória poderia, ou até deveria, ser dividida com outra voz?
Lina: Logo antes de convidar a Takai para a música Palha de Vento, pensei imediatamente na voz doce que ela tem e na sua presença musical marcante e madura. E achei que a Takai poderia trazer uma nova camada de profundidade para essa canção. Mas, para além dessa parte musical, também me ocorreu que seria muito interessante a presença de uma artista mais madura, que já trilhou esse início de carreira, que é bastante duro e exige uma escolha constante dessa profissão.
Então, hoje, eu sinto que essa música fica, na verdade, completa com a presença da Takai. Não vejo essa versão como uma música minha que tem um feat como um acessório, e sim como uma canção que traz o encontro dessas duas vozes em momentos diferentes da vida. E faz todo o sentido o encontro dessas vozes nessa canção sobre o tempo, a vida, a carreira artística e o amadurecimento.

Entretê: Entre Se Não Afogar, Brilho Pó, Ruína, Balas Amargas e Riso Forte, já pelos títulos existem imagens e sentimentos muito diferentes. Quando você olha para essas músicas juntas, consegue enxergar uma trajetória emocional acontecendo entre uma e outra?
Lina: Não sei se vejo essas canções de forma racionalmente conectadas. Acho que não existe muito bem essa linearidade no sentido de uma ser uma sequência lógica da outra. Até porque o disco Borrões foi construído para ser todo fragmentado mesmo, em forma de memórias que vão aparecendo, borradas, lembradas, por entre as sombras.
Mas, quando vejo essas canções todas juntas em um disco, acho que enxergo um espectro de emoções variado, com dores, amores, desejos, sonhos e frustrações.
Entretê: Existe alguma música de Borrões que mudou completamente de significado para você entre o momento em que foi escrita e o momento em que finalmente chegou ao público?
Lina: Moça, Veja Bem é uma música que se transformou muito e ganhou muitas camadas até o seu lançamento. Compus essa canção em 2017, aos 19 anos. E escrevi essa música como forma de me comunicar com uma pessoa muito querida que, na época, estava praticamente incomunicável e eu pude me comunicar com ela entregando uma canção para que ela pudesse ouvir.
Moça, Veja Bem surgiu dessa necessidade de me comunicar com essa moça e de demonstrar a ela que, de alguma forma, eu estava ali presente. Quando essa música foi produzida em 2021, juntamente com seu videoclipe-performance, já estávamos em outro momento da vida e pude elaborar toda essa situação do contexto de moça já com um outro olhar.
Além disso, nesse outro momento da vida, eu já estava em pesquisa com a Diretora Geral de Borrões, Luciana Elias, e com o co-compositor do disco, Romulo Fernandes. Então, essa composição, na verdade, nasceu antes desses encontros artísticos e foi se modificando a partir da chegada desses dois artistas no projeto.
Entretê: Ojiisan parte de uma memória da infância, enquanto Palha de Vento olha para um momento de entrada na vida adulta. Você pensou em Borrões como uma espécie de percurso pela sua vida ou essas conexões apareceram naturalmente conforme o disco foi tomando forma?
Lina: Acho que as conexões inevitavelmente aparecem por Borrões ser composto de músicas autobiográficas. Então, elas percorrem o percurso da minha vida. Quando comecei a escrever Borrões, a premissa era, de fato, me desdobrar sobre as memórias perdidas nesse percurso. Mas, conforme fui escrevendo e compondo as canções, os assuntos de cada música foram tomando forma. Inclusive me deparei com memórias que já tinha esquecido, que estavam mais apagadas dentro de mim. Então, de certa forma, existia uma premissa, mas o disco em si foi acontecendo.
Entretê: Na nossa última conversa, você contou que, em Ojiisan, reuniu falas do seu avô de diferentes momentos da sua vida dentro de uma mesma cena da infância. Esse embaralhamento do tempo acontece em outras músicas de Borrões também?
Lina: Acontece. Até porque a memória parece ser assim… Ela só pode ser acessada a partir do tempo presente. Daquilo que a gente vive hoje e de como a gente lê, hoje, as memórias do passado. Nesse movimento de olhar para trás, a experiência que vivemos se encontra com referências que tivemos e temos dos tempos posteriores ao fato ocorrido. Muitas vezes, inclusive, memória e fantasia se misturam. Lembrar de alguma história é também ter a oportunidade de fabular mais uma vez.
Entretê: Momiji já tinha ganhado uma versão com Victor Kinjo antes de retornar em formato acústico. O que faz uma música continuar pedindo novas formas de existir mesmo depois de já ter sido lançada?
Lina: Eu acho que uma música composta é, muitas vezes, um ponto de partida. A gente escreve a partir do nosso universo, mas a partir de cada encontro com outros artistas, sonoridades, instrumentos, essa mesma composição vai ganhando novas camadas. Ela vai se revelando de outras maneiras que não só a que estava originalmente na nossa cabeça.
Foi assim com Momiji e também com Palha de Vento. Os feats com Victor Kinjo e com a Fernanda Takai trouxeram outras camadas e outros sentidos que se somam ao que estava na origem de cada música.
A ideia de lançar uma versão acústica, somente voz e violão das músicas de Borrões, foi conseguir lançar essas composições da maneira mais crua, mais próxima à forma como elas surgiram.
Mas as músicas do disco em suas versões oficiais e completas já estão sendo produzidas em estúdio e serão lançadas em breve na sua forma mais encorpada, cheias de arranjos e novos encontros musicais.
Entretê: Quando você coloca lado a lado músicas como Ruína, Balas Amargas e Riso Forte, parece existir espaço tanto para dores quanto para outros afetos. Foi importante para você que um trabalho autobiográfico não fosse definido apenas pelos momentos difíceis?
Lina: Assim como na vida, como se trata de um disco autobiográfico, existem momentos tristes e momentos de alegria, às vezes, tendo esses sentimentos conflitantes existindo ao mesmo tempo, inclusive. Acho que Borrões se define um pouco por suas memórias marcantes, sejam elas doloridas ou extasiantes, ou os dois. Então com certeza foi importantíssimo que Borrões tivesse uma gama de emoções e experiências que não se resumisse só a dor e sofrimento. A vida é complexa! (risos).
Entretê: Você contou anteriormente que esse disco começou a ser preparado ainda em 2020. Depois de tantos anos convivendo com essas músicas, teve alguma que você precisou parar de tentar transformar e simplesmente aceitar que estava pronta?
Lina: Acho que quase todas, na verdade (risos). Acho muito difícil declarar o momento em que a música está pronta. Em Ojiisan e Se Não Afogar, por exemplo, fiquei semanas me desdobrando sobre alguns detalhes finais das letras e, após dialogar com a minha Diretora Geral, Luciana Elias, e o Assistente de Direção, André Seraphico, eles me ajudaram a perceber que as canções já estavam prontas para ir ao mundo, da forma como estavam. Foi um processo difícil de assimilar, mas acabei concordando no fim.
Entretê: Na nossa última entrevista, você falou muito sobre permitir que as contradições humanas apareçam na sua arte. Agora que conhecemos mais músicas desse projeto, qual delas expõe uma contradição sua que talvez você mesma ainda não tenha resolvido?
Lina: Acho que todas as músicas trazem sombras que ainda me acompanham, apesar das diversas questões já serem bem familiares e discutidas em minhas autorreflexões. Em Ruína, por exemplo, falo sobre a minha descoberta enquanto uma pessoa LGBTQIAPN+. E apesar de eu estar fora do armário enquanto uma pessoa LGBT+, acredito que segue sendo um processo difícil de viver ainda hoje, ainda mais considerando que sou uma pessoa nikkei. A nossa comunidade nikkei, infelizmente, ainda não é muito aberta para a diversidade de sexualidade e gênero.
Entretê: Se alguém ouvisse Borrões inteiro sem saber absolutamente nada sobre você, qual música você acha que revelaria uma Lina que ainda não apareceu tanto publicamente?
Lina: Balas Amargas ou Riso Forte. Acho que não vou dizer mais nada, vou deixar no ar e sair correndo… (risos).
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Texto revisado por Kalylle Isse











