Entre musicais de sucesso, projetos culturais e pesquisa acadêmica, a artista defende o palco como espaço de encontros, trocas e reflexões
Atriz, produtora, diretora e com formação acadêmica em direção teatral e design de produto, Giovanna Sassi construiu uma carreira que caminha entre os palcos, pesquisas e gestão cultural.
Brilhando no teatro musical em espetáculos como Uma Babá Quase Perfeita (2024) e Beetlejuice (2025), a artista mantém o olhar atento para os processos criativos e também se destaca pelo engajamento em projetos que defendem a democratização das artes.
Cofundadora da Scuola di Cultura, em Niterói, a atriz acredita que o teatro é capaz de mudar a visão de mundo daquele que assiste a um espetáculo. Para ela, tornar o palco acessível é essencial para aproximar diferentes públicos da experiência artística e ampliar o impacto cultural das produções.
Em entrevista ao Entretetizei, Giovanna falou sobre carreira, projetos, inspirações e os sonhos profissionais que deseja realizar. Entre lembranças da infância, reflexões sobre o papel social do teatro e os desafios de dar vida a personagens diferentes, a artista demonstra todo seu amor, cuidado e zelo por sua profissão:
Entretetizei: O que o teatro representou para você na infância e adolescência, a ponto de decidir fazer dele uma profissão?
Giovanna Sassi: Acredito que o teatro tenha sido o lugar da autonomia para mim, onde aprendi sobre disciplina, ética, respeito com meus pares e o comprometimento que devo ter comigo mesma. Aos 9 anos, entrei em um curso que, mesmo sendo para crianças, tinha provas de atuação, cobrança sobre faltas e muito comprometimento com uma formação ampla em teatro. Tínhamos que estudar bastante para fazer uma cena ou uma peça. E, quando nos comprometemos com algo, vemos esse mundo se ampliar. Assim fui sendo conquistada pelo teatro aos poucos. Digo que decidi torná-lo minha profissão porque queria ensaiar por mais horas. O fato de não ter sonhado desde criança em ser atriz fez com que eu me apaixonasse pelo ofício em si e pelo seu dia a dia.
E: Você defende a ideia da arte como um direito de todos e trabalha pelo acesso e inclusão de talentos que ainda estão à margem. Que iniciativas você acredita serem fundamentais para democratizar o teatro no Brasil?
GS: O teatro tem raízes populares. Democratizar o teatro deveria ser redundante, mas infelizmente não é. Uma boa peça ou um bom musical nos faz ver o mundo — ou a nós mesmos — com novos olhos. Desses espetáculos, saímos mais generosos ou mais críticos, e devemos ter prazer nisso. Assim, o teatro é democrático tanto pela sua acessibilidade quanto pelo seu conteúdo. Acessibilidade envolve não só o valor dos ingressos, mas também o horário da peça, o local do espetáculo, as condições do teatro e muitos outros fatores. Felizmente, no Brasil, até mesmo produções de ingressos mais caros, viabilizadas pela Lei Rouanet, destinam parte dos bilhetes gratuitamente a ONGs, que também se responsabilizam pelo translado desses espectadores. O conteúdo democrático é aquele que conversa conosco, com os brasileiros. Para garantir isso, precisamos de peças em que o público se veja em cena, que dialoguem com nossa cultura e nosso espírito. Isso envolve tanto espetáculos nacionais quanto internacionais, afinal, a subjetividade humana vai além da cultura brasileira. Democratizar o teatro é colocar no palco a cultura brasileira, mas é também nos fazer perceber a grande proximidade entre uma peça de Shakespeare e um bafafá da vizinhança.
E: Além de ser uma artista multifacetada, você também é bastante engajada com pesquisas, tem formação em Direção Teatral, Design de Produto e um mestrado em Artes Cênicas. De que forma essa bagagem acadêmica diversificada influencia o seu trabalho artístico?
GS: Tive essa enorme oportunidade de pesquisar academicamente o teatro. Assim, os professores que tive, com seus estilos e preferências teatrais, se tornaram referências de como quero construir minha trajetória. Isso também me tornou mais atenta aos espetáculos que assisto. Além do arcabouço teórico e histórico — essencial para todo ator — minha grande formação veio dos debates sobre as peças lidas e assistidas com meus professores e colegas. O Design de Produto, por outro viés, aguçou minha percepção estética e metodológica. Faço um exercício praticamente diário do que chamo de “composição” no teatro. Identifico que isso veio da minha formação em design. Influenciada pela análise das artes visuais, aplico esses princípios às cenas que construo e analiso.
E: Você cofundou o Centro Cultural Scuola di Cultura, um espaço de encontro e valorização das artes. Ele trouxe um impacto positivo na cena cultural de Niterói com cursos livres, seminários, apresentações, workshops e festivais, e também formou vários novos artistas. De onde surgiu a ideia de criá-lo e quais foram os principais desafios no início? Existe algum plano de expansão desse projeto?
GS: A Scuola di Cultura é fruto da efervescência da minha família. Cresci com pais que sempre reconheceram a importância das artes e da linguagem na vida comum. Eu e meu irmão estudamos música, íamos ao teatro e a museus. Também aprendíamos idiomas e, quando eu tinha 7 anos, chegamos a formar uma turma com todos os primos para aprender italiano. Sem o rigor de nos tornarmos profissionais, o valor estava na contemplação, no contato frequente e no prazer que isso gerava. O desejo de estar próxima das artes cresceu, e assim criamos a Scuola, primeiramente como sede do curso do Consulado Italiano em Niterói, que envolvia não só o ensino do idioma, mas a difusão da cultura italiana. Desde o início, essa casa foi sala de ensaio para produções de amigos e pequenos saraus, até crescer e se tornar esse centro cultural múltiplo. O maior desafio inicial foi encontrar os parceiros certos, porque nada se faz sozinho. Diretores, músicos, dançarinos, acrobatas, professores das mais diversas áreas e também seus alunos: todos que passam pela Scuola constroem parte da casa. Hoje, as frentes de expansão da Scuola estão em suas produções. Começamos com pequenos espetáculos teatrais e crescemos. No ano passado, fizemos Itapuca, o maior musical já produzido em Niterói, com uma equipe criativa composta por profissionais das maiores produções do Brasil. Agora estamos trilhando caminhos para crescer ainda mais.
E: Quais são as suas maiores inspirações e referências no teatro?
GS: Fico inspirada quando assisto ao trabalho de alguém que me faz ter certeza de que passo meus dias com o que me encanta. Tenho como referência artistas com os quais convivo e trabalho: diretores como Lucia Cerrone, Marllos Silva e Clara Carvalho; atores como Diego Becker, Eduardo Sterblitch, Juliano Antunes e Brian Penido. À distância, como espectadora, admiro diretores como Rodrigo Portella, André Paes Leme e Rachel Chavkin, e atrizes como Nathalia Timberg, Nívea Maria, Fernanda Montenegro e Soraya Ravenle.
E: Ao interpretar Janet Lundy em Uma Babá Quase Perfeita, quais foram os principais desafios na composição dessa personagem?
GS: Os principais desafios envolviam a posição da personagem na dramaturgia. Como Janet Lundy, eu era escada de Diego Becker, que personificava o Mister Jolly. Como escada, precisava ser o chão para a comédia genial de Diego. O desafio não era apenas ocupar esse lugar novo, mas também manter a seriedade — ou melhor, não rir em cena — diante de um mestre da comédia.
E: Na nova temporada de Beetlejuice – O Musical você interpreta a escoteira Skye, como foi seu processo criativo durante a preparação para o espetáculo e como está sendo dar vida a essa personagem?
GS: Para Skye, primeiro precisei deixar Janet. Fui de uma personagem séria, de voz grave, adulta e cheia de responsabilidades para uma criança de voz aguda, que estava pela primeira vez sem a supervisão dos pais. Antes dos ensaios, estudei questões teóricas e dramatúrgicas da personagem, e os ensaios foram momentos de experimentação. Assisti a muitos vídeos de escoteiros, crianças e adolescentes, e levei várias dessas observações para a cena. Tem sido divertido ser Skye, lidar com seus medos e inseguranças e explorar as novidades que surgem.
E: Você já participou de produções grandiosas, mas, olhando ainda mais adiante, quais sonhos e desejos gostaria de realizar na sua carreira?
GS: Meu sonho é nunca parar de trabalhar com teatro. Olho adiante e penso: quero estar em cena como Othon Bastos está hoje. Também desejo trabalhar com audiovisual, televisão, cinema e streaming para experimentar e descobrir outros caminhos da atuação.
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Texto revisado por Alexia Friedmann @alexiafriedmann









