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Foto: divulgação / Grupo Editorial Record

Entrevista | Alberto Mussa sobre o romance policial no Brasil: “A história de uma cidade é a história dos seus crimes”

Escritor comenta que o gênero ainda é deixado de lado pelos brasileiros e afirma que existe preconceito por parte da crítica literária 

Há muitas maneiras de se conhecer a história de um país ou de um povo. Para o escritor Alberto Mussa, a melhor delas é por meio dos seus casos criminais. Então, em 2014, publicou A Primeira História do Mundo, o primeiro de cinco livros que formam a coleção de novelas policiais Compêndio Mítico do Rio de Janeiro. 

Os romances históricos acabam de receber novas edições pela editora Record e prometem narrativas instigantes sobre diversos períodos da história brasileira. Alberto Mussa tem uma obra vasta e já recebeu os prêmios Casa de las Américas, Biblioteca Nacional e ABL. É também finalista do Prêmio Jabuti 2025, na categoria Romance Literário, com o livro A Extraordinária Zona Norte (2024).

Permeando a história do Brasil ao longo de cinco séculos, as narrativas levam o leitor para o passado da capital fluminense. No entanto, o recorte escolhido pelo autor é o de assassinatos passionais, irmandades secretas e mistérios. Mussa ainda faz um retrato da poderosa mistura de culturas e povos do Rio — construindo uma ponte entre mitologia indígena e africana para, assim, arquitetar um cenário mítico inconfundivelmente brasileiro.

Os cinco livros podem ser lidos em qualquer ordem, pois são independentes. Cumulativamente, inserem-se a cinco tradicionais gêneros do romance: o carioca, o histórico, o fantástico, o policial e o de adultério.

Em A Primeira História do Mundo, há uma viagem ao Rio de Janeiro quinhentista, onde é registrada oficialmente o primeiro assassinato da cidade, que envolveu 15% da população da época. O Trono da Rainha Jinga se dirige para o Rio seiscentista e explora a deflagração de cinco crimes, supostamente cometidos por uma irmandade secreta de escravos.

A ambientação escolhida para A Biblioteca Elementar, é a cidade no ano de 1733, quando uma cigana presencia um assassinato na calada da noite. O mundo dos capoeiras do Rio oitocentista nos é apresentado em A Hipótese Humana. Já O Senhor do Lado Esquerdo parte para os anos 1900 para investigar a morte do secretário da Presidência da República.

Alberto Mussa cursou a Faculdade de Letras na UFRJ, onde finalizou o Mestrado com a dissertação O papel das línguas africanas na história do português do Brasil. Contista, romancista e ensaísta, recriou a mitologia dos antigos tupinambás e a versão pré-histórica do mito do Roubo do Fogo. Também escreveu, com Luiz Antonio Simas, Samba de Enredo: História e Arte (2023). Em 2024, seu livro Meu Destino é ser Onça (2009) inspirou o enredo da Acadêmicos do Grande Rio.

Em entrevista, Mussa destrincha a criação do Compêndio, o processo de pesquisa e reconstrução histórica, além dos estigmas que o romance policial sofre no Brasil. Confira.

Foto: divulgação / Grupo Editorial Record
Entretetizei: Por que escrever o Compêndio Mítico do Rio de Janeiro? Como surgiu a ideia de narrar a história da cidade a partir de seus crimes?

AM: É uma história longa. Quando escrevi meu primeiro livro de contos, Elegbara, a última peça seria um conto chamado O trono da Rainha Jinga. Mas antes de eu terminar, apareceu um concurso da Biblioteca Nacional para romances em fase de conclusão. Decidi excluir o conto do Elegbara e transformá-lo em romance.

Ganhei o concurso, publiquei O Trono da Rainha Jinga como um romance (ou uma pequena novela), e tive a ideia de retomar a estrutura policial em mais quatro romances, um para cada século da história do Rio. E disse isso, numa entrevista para um jornal (que não me lembro agora).

Bem, mas acabei começando uma imersão no universo mítico da Arábia pré-islâmica, escrevi outro romance, O Enigma de Qaf. Traduzi Os Poemas Suspensos, e esqueci do projeto. Certo dia, recebi um livro de uma crítica literária holandesa que fazia uma análise de O Trono da Rainha Jinga e citava minha entrevista sobre a série de cinco livros.

Foi quando retomei o projeto esquecido. Nessa altura, eu já era um romancista mais maduro e experiente, então as ideias ficaram mais claras. Daí ter escrito essa frase: a história de uma cidade é a história dos seus crimes.

Não sei se é verdade, mas funciona literariamente.

E: Como foi o processo de escolher quais episódios ou contextos históricos se tornariam a base de cada livro?

AM: Alguns séculos induzem cenários meio óbvios. O século 16 tem que ser muito indígena. O 17, que eu já tinha tratado, era mais africano. No 19, resolvi falar das maltas de capoeira e das irmandades negras, que eram muito importantes na cidade. O século 20, especialmente o início, também induz ao conflito que era o Rio antigo e o processo de saneamento e urbanização da cidade, que vai virando aos poucos uma metrópole cosmopolita sobre uma matriz cultural afro-indígena. Para o século 18, decidi pôr em cena os ciganos, grupo étnico importante, mas muito esquecido, na formação cultural  da cidade.

E: A mitologia indígena e africana ocupa um lugar importante em suas obras. De que forma você constrói essa ponte entre culturas na ficção?

AM: O primeiro passo é mergulhar nelas, aprender com elas, tentar sentir como elas sentem e percebem o mundo. Depois que você incorpora esse conjunto de saberes, esse imenso acervo estético à sua sensibilidade pessoal, é só escrever. Tudo aquilo vai reverberar, vai transparecer. Mas é preciso sinceridade. O intelectualismo puro é fatal.

E: Como a literatura pode ajudar a resgatar e valorizar a presença indígena e africana?

AM: Só se os escritores estiverem identificados e voltados para essas culturas, que são a base da cultura popular. Infelizmente, a literatura brasileira em geral é auto-centrada, as personagens muitas vezes são os próprios escritores, os dramas são psicológicos, crises de identidade e do sentido da vida. O trabalho de fabulação é mínimo.

E: Existe algum desafio ao mesclar a pesquisa histórica e o trabalho da imaginação literária ao recriar o Rio de diferentes épocas?

AM: Não faço pesquisa, no sentido estrito do termo. Faço imersões no ambiente histórico. Leio livros de história, esses que têm abordagem moderna, que tratam mais de pessoas comuns que de vultos eminentes, para formar uma imagem da época, dos tipos urbanos, da movimentação das ruas. E leio, quando existem, romances escritos nesses períodos, para obter as mesmas imagens mentais da cidade. O que de fato respeito é a geografia, isso sim, estudo os mapas etc. E, como se trata de romances policiais, a estrutura policial e jurídica, as leis penais. Só. O resto é fabulação.

E: Ao longo do processo de escrita desses romances, que descobertas pessoais ou literárias mais o surpreenderam?

AM: As maiores descobertas foram históricas: saber por exemplo que a maioria das vítimas da Inquisição no Rio de Janeiro era formada por mulheres; que havia aldeamentos indígenas no entorno da cidade até o século 19; que a capoeira era o grande problema da polícia; que a maior parte das prisões feitas na cidade era de pessoas que faziam festas; que as pessoas mais ricas do Rio, no século, eram de origem mameluca. Essas coisas mudam nossa forma de compreender a cidade.

E: Como você enxerga o papel da literatura policial hoje no Brasil, em conjunto com a nossa história?

AM: São pouquíssimos autores, na verdade, que se dedicam plenamente ao gênero. O fato é que ainda não se formou no Brasil uma tradição de romance policial, forte, diversificada, consistente. Até porque a narrativa policial sofre tremendo preconceito da crítica acadêmica, que em sua maioria é extremamente aristocrática.

Para a maior parte desses críticos, literatura é coisa de iniciados, é necessário que eles, os críticos, ensinem as pessoas como ler, como identificar quem é bom, quem é ruim. Dostoievski escreveu romances policiais, mas não é considerado autor policial: Dostoievski é literatura. Borges escreveu narrativas policiais, mas não é autor policial, é literatura. Faulkner escreveu histórias policiais, mas não é autor policial, é literatura. E daí por diante. Se o romance policial é bom, é literatura; se é ruim, é policial.

Mas seria importante esse desenvolvimento, porque o que não falta na história brasileira é assunto para romance policial. Do século 16 ao 21.

E: No Brasil, a violência é um tema constante da realidade. Isso influencia ou diferencia o romance policial brasileiro?

AM: Acho que todo policial é fundado na violência. Em certas tradições estrangeiras, especialmente europeias, a violência não está difundida na sociedade, mas resulta de indivíduos específicos, os desajustados, os traumatizados, os ofendidos, os abusados etc. No Brasil, a violência é uma prática do próprio Estado. Uma estratégia política. O desafio do romance policial brasileiro é que a instituição policial não tem crédito.

A imagem comum é de uma polícia corrupta, que só apura os crimes que têm interesse político. As montanhas de cadáveres produzidos nas grandes cidades ficam quase sempre sem atenção, não há investigação, no duro, para todos os crimes. O romancista policial tem que achar alternativas para narrar uma história que seja verossímil, e é muito difícil criar detetives honestos, como vemos na ficção estrangeira.

E: O romance policial pode estabelecer ligações com outras formas narrativas brasileiras, como o cordel, o samba ou até as crônicas urbanas?

AM: Tudo é possível no romance, cabe tudo num romance. Alguém já disse, certamente, uma frase como essa. Só precisamos de escritores que sejam sensíveis a essas tradições.

E: Unir o popular e o erudito é uma forma de recriar a verdadeira complexidade cultural do Rio de Janeiro e, por extensão, do Brasil?

AM: Acho que não se trata de unir, mas de eliminar a fronteira conceitual entre popular e erudito. Tudo é erudição. O fato de alguém, por exemplo, ser capaz de compreender e sentir a música clássica, não implica no fato de sentir e compreender um ponto de umbanda, ou um samba de enredo. Os altos mestres da literatura não necessariamente têm sensibilidade para captar o sentido de um mito sobre os orixás, ou uma narrativa de iniciação xamânica.

No caso brasileiro, cuja população é formada por todos esses influxos étnicos, uma reforma no conceito escolar e acadêmico de cultura é urgentíssimo. O que se tem feito ainda não é suficiente para exterminar o preconceito e o desprezo pelo popular.

E você, já conhecia os livros de Alberto Mussa? Conta para a gente em nossas redes sociais — Insta, Face e X. E, se você gosta de trocar experiências literárias, venha participar do Clube de Leitura do Entretê, para conversar sobre leituras incríveis!

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Texto revisado por Karollyne de Lima @karollysl

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