Jornalista, pesquisadora musical e diretora criativa do Banana Music e do Mapa dos Festivais, ela compartilha sobre sua trajetória e as reflexões sobre a indústria musical no Brasil
Acreditar que a arte é uma ferramenta de transformação coletiva, e que os festivais são sobre se permitir viver novas experiências: esse olhar diz muito sobre quem é Juli Baldi, fundadora do Mapa dos Festivais. Criada em 2019, a plataforma brasileira dedicada ao mapeamento, produção de conteúdo e dados sobre festivais de música vem se consolidando como ponto de encontro para uma comunidade apaixonada por música, festivais e viagens, unindo quem faz, quem vive e quem apoia: público, artistas e marcas.
Como Juli mesma descreve, de forma bem-humorada, nas redes sociais, “a mãe joga em todas as posições”. E não é exagero. Além de sócia-fundadora do Mapa dos Festivais e do Banana Music, projeto que iniciou anos antes e que atua com curadoria musical para marcas, ela é pesquisadora, DJ e faz parte do júri do Prêmio Multishow de Música.
Mas foi no rádio que ela aprendeu sobre curadoria e programação e onde desenvolveu esse olhar com tanta presença. A experiência como comunicadora em emissoras de Porto Alegre levou Juli a um caminho de experimentação em diversos formatos de curadoria musical: de shows a festivais, de rádios a residências artísticas. Paralelamente, seguiu sua carreira como DJ, produzindo faixas e tocando em muitas festas.
Sonhadora, sempre buscou abrir caminhos e gerar novas perspectivas. Desde cedo, nutria o desejo de ser jornalista cultural, unindo a paixão pela música a um olhar analítico. Com o mesmo encantamento da adolescente que organizava vans para assistir a bandas de metal em cidades vizinhas, a jornalista segue movida pelo desejo de proporcionar experiências.
Hoje, o veículo mudou: as redes sociais se tornaram sua nova estrada, onde ela fala sobre conexão, movimento, presença e cultura, democratizando informações sobre o universo dos festivais.

Curiosa, inteligente e dedicada, Juli Baldi vem construindo uma trajetória que inspira e abre caminhos. Se antes era a adolescente sonhadora, hoje é referência na cena musical, mostrando como seu trabalho pode ser conexão e transformação. E, acima de tudo, como a música segue sendo o fio que a guia em cada nova etapa.
Em entrevista ao Entretetizei, ela falou sobre a importância do lazer ao vivo, a força das conexões humanas, trouxe dados sobre os festivais no Brasil e refletiu sobre os desafios de ser mulher ocupando espaços de liderança na música. Confira:
Entretetizei: Você transita entre o jornalismo, a pesquisa musical, curadoria, a direção criativa, a criação de conteúdo e muitas outras áreas. Quando olha para sua trajetória, o que conecta todas essas frentes? Quais aprendizados dessas áreas foram fundamentais para a criação do Mapa dos Festivais?
Juli Baldi: O que conecta tudo é a música, ela é o fio condutor da minha carreira. A minha lente é de jornalista, então tudo que faço tem essa visão curiosa e analítica. Quando pequena, o meu sonho era trabalhar com jornalismo musical e agora posso dizer que tenho a minha própria plataforma de comunicação, focada em festivais. A criação do Mapa é um acúmulo de experiências no mercado da música e um olhar atento ao que o mercado estava precisando.
E: Apostar em festivais como negócio é também acreditar na força da presença e das trocas ao vivo, que muitas vezes são deixadas de lado em um mundo tão conectado como o atual. O que te motiva a seguir esse caminho? E o que ainda carrega da Juli que organizava vans para ver shows de metal em cidades vizinhas da qual morava?
J.B: Eu sou uma apaixonada por música, viagens e por conectar pessoas, isso é o que me motiva até hoje. Acho que o Mapa consegue resumir muito dessas minhas paixões. Perceber que muitas outras pessoas também compartilham e acreditam que conexões reais pela música são potentes é muito incrível.
E: O Mapa dos Festivais se tornou referência, entregando dados e conectando fãs de festivais, marcas e artistas. Quais foram as maiores dificuldades para manter essa plataforma viva num país onde a cultura independente é tão desafiada?
J.B: O maior desafio continua sendo manter financeiramente a plataforma. Hoje, temos 8 pessoas fixas trabalhando na criação de conteúdo, relacionamento com festivais e marcas e análise de dados. O Mapa dos Festivais ainda é uma aposta minha e do meu sócio, Rafael Achutti.
E: No painel do Rio Innovation Week, você mencionou o crescimento da participação de cantoras nos festivais. A partir dos dados do Mapa dos Festivais, como você avalia essa evolução feminina nos últimos anos? E esse crescimento também tem se refletido na curadoria e nos bastidores dos eventos, além do que acontece nos palcos?
J.B: Pelo segundo ano consecutivo, apenas a Pitty está entre os 10 artistas mais tocados em festival no Brasil. Apenas uma mulher está no ranking e isso é muito pouco. Mais de 63% do line-up dos festivais brasileiros são compostos por homens. Ainda estamos muito longe de uma equidade de gênero, apesar de ela já ter evoluído muito nos últimos anos.
E: Como mulher, comunicadora e artista, o que você ainda gostaria de transformar na cena cultural?
J.B: Luto por uma cena mais equilibrada e desejo que todos que trabalham no meio musical possam ter um dia a dia organizado, com equilíbrio financeiro e mental.
E: O fato de ser mulher em um cargo de liderança ainda desperta resistência em alguns ambientes? Quais conselhos você daria para outras mulheres que desejam se lançar ou ocupar múltiplos espaços criativos?
J.B: Eu vejo uma mudança positiva, significativa nos últimos 10 anos. Mas ainda percebo que mulheres precisam se esforçar mais e provar o seu valor para serem ouvidas, enquanto homens com menos experiência tem um caminho mais fácil. O conselho é confiar em si mesma e no seu trabalho, não duvidar do seu potencial e saber se posicionar e, se precisar, se impor.
E: Pesquisas mostram que frequentar festivais pode até aumentar a expectativa de vida, pelo papel da arte no equilíbrio emocional e na qualidade de vida. O que isso significa para você e como sente a arte no seu dia a dia?
J.B: Para mim, frequentar festivais é sair da rotina. É convidar pessoas, combinar viagens, conhecer novos artistas, amigos e lugares. É se permitir viver e voltar pra casa com novas memórias. Somos seres sociais e acredito que os shows e festivais são cada vez mais importantes para experienciar o real e sair das telas.
E: O que você enxerga para o futuro do Mapa dos Festivais? Pode dar algum spoiler dos próximos passos?
J.B: Esse ano, já expandimos o mapeamento para shows internacionais. O próximo passo é ter estrutura para mapear também as turnês nacionais e ser a grande referência em dados, conteúdo e comportamento do público e da indústria da música ao vivo.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva









