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Foto: divulgação / LC Agência

Entrevista | Lucas Paio fala sobre Macadâmia, seu romance de estreia

Entre sátiras, universos absurdos e road trips, o autor constrói uma ficção especulativa cheia de humor

Muito inspirado pela saga de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias, o autor mineiro Lucas Paio criou a narrativa de Macadâmia, seu romance de estreia publicado em dezembro de 2025. Hoje, mora em Berlim e utiliza da sua experiência na cidade para compor elementos importantes da história, como o fastio em torno da cidade fictícia de Cinzália. Para criar o universo fantástico e construir seus personagens, o escritor revela que se muniu de anotações pessoais acumuladas durante anos.

Em Macadâmia, o leitor será arremessado para a rotina monótona e esgotante de Cinzália, onde vive o protagonista Pablo Pablo. Cansado das burocracias intermináveis e das constantes frustrações cotidianas, o rapaz aceita o convite da amiga Maria Celeste – uma rebelde ex-celebridade-mirim de pele azul – e parte para a estrada em direção a um reino colorido e vibrante. 

Mas os dois não embarcam na aventura completamente sozinhos. Eles contam com a companhia de Alcebíades, imortal de 500 anos preso no corpo de um adolescente, além de Cléo e Radamés, casal de gêmeos siameses fisicamente ligados na bacia. O grupo terá de passar por diversos obstáculos para chegar ao seu destino: lagartos gigantes de estimação, uma seita em que todos agem como cães, uma civilização perdida e o poder oculto da flunfa (aquela sujeirinha do umbigo).

Em entrevista ao Entretetizei, Lucas Paio conta um pouco sobre seu processo criativo e como foi a elaboração da obra. Confira!

Foto: divulgação / LC Agência
Entretetizei: Macadâmia é seu romance de estreia e já apresenta um universo muito próprio. De onde surgiu essa ideia?

Lucas Paio: O mundo de Macadâmia é uma colagem de ideias malucas que fui tendo ao longo dos anos e anotando em meus cadernos. Personagens insólitos, como os gêmeos xifópagos Cléo e Radamés. Uma comunidade de pessoas que agem como cães. Um idioma que não usa as cordas vocais, feito de barulhinhos com os lábios, roncos e estalos. Uma mulher azul chamada Maria Celeste etc.

Um dia, resolvi que o formato de road trip seria uma boa forma de explorar todos esses elementos diversos, e comecei a costurar tudo como parte de um único mundo. Nasceu o universo de Macadâmia.

E: Como foi o processo de construir um mundo que abraça o absurdo sem perder a coerência?

LP: Tive o maior cuidado em tratar Macadâmia como um mundo absolutamente real. Era importante não dar um ar de esquete de comédia nonsense, então criei regras internas consistentes, ancorei o absurdo na realidade e inseri um monte de detalhes para ajudar na imersão. Em Macadâmia nada é aleatório: os personagens têm vidas complexas, as cidades têm histórias ricas e grande parte da bizarrice é explicada por motivos socioculturais.

Por exemplo: na vila onde os habitantes se comportam como cachorros, houve um evento trágico no passado que levou até aquela situação. Tenho anotações detalhadas sobre mil anos de história macadâmica e dezenas de personagens e lugares, e isso foi fundamental para que eu sentisse Macadâmia como uma terra viva, quase palpável.

E: Como o humor e o exagero podem ser usados para falar sobre temas sérios?

LP: O humor dá liberdade para a gente abordar assuntos cabeludos e parecer que só estamos querendo arrancar umas risadas. Quando vê, a pessoa está pensando naquele tema, fazendo conexões com o mundo à sua volta e talvez até dando atenção a opiniões e visões que normalmente rejeitaria.

Macadâmia surgiu de ideias malucas e se passa numa terra fictícia, mas conforme eu escrevia o livro, foi natural satirizar vários aspectos sociopolíticos do nosso próprio mundo. Usei a flunfa (a famosa sujeirinha de umbigo) para falar de bolhas especulativas, a comunidade de pessoas-cães para abordar o fanatismo e o reino circense de Danubiópolis para explorar o autoritarismo e a democracia de fachada.

E: Em que momento você percebeu que o tom irônico e coloquial seria a chave da voz do livro?

LP: A grande virada foi quando decidi que Pablo Pablo seria o único narrador. Em versões anteriores, explorei escrever sob múltiplos pontos de vista, alguns em estilo formal e floreado. Quando deixei o Pablo narrar a história toda, isso não só fortaleceu o próprio personagem como protagonista, como me ajudou a “encarnar” seu jeito de falar e ver o mundo, e aí a escrita fluiu muito mais fácil.

Como ele nunca saiu de sua cidade natal até embarcar numa viagem de carro improvisada, é o personagem ideal para ir descobrindo Macadâmia junto com a gente. Apostei num estilo informal, cheio de tiradas e sarcasmo, que combinavam com um cara que é locutor de carro de som, sonha em ser radialista e sabe que está entrando numa roubada, mas vai em frente mesmo assim.

E: Qual foi o personagem mais divertido ou mais desafiador de conceber?

LP: Maria Celeste, a mulher azul – impulsiva, caótica, autêntica, maluquinha – foi provavelmente a personagem mais divertida de escrever. Os diálogos dela com o Pablo, em que ela não mede palavras para zoar e criticar o melhor amigo (e ex-namorado), sempre saíam fácil, como se eu ouvisse sua voz na minha cabeça.

Também me diverti muito escrevendo Ludovico Danúbio – um rei autoritário e apresentador de circo – e Felpudo, um jovem que foi criado como cachorro e soa quase como um labrador humano simpático.

Os mais desafiadores foram os gêmeos xifópagos, Cléo e Radamés. Além das personalidades opostas, eles carregam segredos e ressentimentos. Cléo, especialmente, é uma personagem complexa que fui descobrindo pouco a pouco, durante a escrita e as inúmeras revisões. Pesquisei xifópagos do mundo real, como as mexicanas Carmen e Lupita [Andrade] (que têm até um canal no YouTube!) para refletir experiências reais e ir além dos clichês.

E: Cinzália é uma cidade burocrática, cinza e monótona. Qual foi a sua maior inspiração para escrevê-la?

LP: No livro, o destino da viagem é Danubiópolis, um reino circense e super colorido. Então eu precisava que o ponto de partida representasse um forte contraste. Em Cinzália coloquei (e exagerei) as chatices da vida real e a burocracia monstruosa que a gente às vezes precisa enfrentar para fazer coisas simples.

Usei um pouco da minha experiência morando na Alemanha, onde muita coisa ainda é analógica (carta pelo correio pra tudo, aparelhos de fax nos consultórios médicos…). E adicionei elementos bem brasileiros, como despachantes e auxiliares de almoxarifado. Mas coloquei um twist: em Cinzália, a burocracia é venerada pela população, que se reúne em eventos como a Convenção Anual de Despachantes e visita o almoxarifado como passeio turístico.

E: No livro, a estrada funciona mais como fuga ou como enfrentamento?

LP: Os personagens pegam a estrada achando que estão fugindo da rotina, dos problemas, dos boletos. Mas os problemas, lógico, aparecem rápido. Muitos são externos, como répteis enormes e gente maluca que os persegue por sabe-se lá qual motivo. Os mais interessantes, no entanto, são os problemas internos.

Pablo, que quer ser famoso a qualquer custo, precisa enfrentar a própria mediocridade; outros personagens – sem dar maiores spoilers – precisam aceitar que suas maiores ambições, tudo aquilo pelo que vêm lutando há anos, podem não passar de ilusão. Como nos meus road movies favoritos, a estrada é um espelho da jornada interna pela qual os protagonistas passam.

E: Que influências – literárias ou não – ajudaram a moldar Macadâmia?

LP: O humor absurdista d’O Guia do Mochileiro das Galáxias foi uma referência clara, mas longe de ser a única. O estilo coloquial de autores como Luis Fernando Verissimo e Nick Hornby sempre me influenciou, e a prosa escrachada de Reinaldo Moraes deixou rastros nos diálogos cheios de palavrões entre Pablo Pablo e Maria Celeste. E também a “cara de pau” do García Márquez de narrar absurdos em Cem Anos de Solidão como se fossem a coisa mais normal do mundo.

E outras inúmeras influências não literárias. Todos os filmes de estrada que já vi, de Easy Rider a Pequena Miss Sunshine e Débi & Lóide. Viagens que fiz com os amigos, como o acampamento no festival Camping & Rock em Minas Gerais. E por aí vai.

E: Que tipo de leitor você imagina se reconhecendo nessa história?

LP: Macadâmia é um livro para quem tem vontade de largar tudo e sumir no mundo. Para quem enfrenta uma rotina maçante ou um trabalho chato e usa o humor como válvula de escape. Para quem lê o jornal, vê aquele tanto de absurdos e tenta rir pra não chorar. E para quem encara os perrengues inevitáveis da vida com bom humor, porque sabe que pelo menos eles dão boas histórias pra contar depois.

 

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Texto revisado por Gabriela Fachin 

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