Com 15 anos de experiência no audiovisual, essa é a estreia do roteirista no universo literário
Mario Oshiro é roteirista, mas no final de 2024 entrou no seu primeiro projeto fora do audiovisual com o lançamento da graphic novel Achados & Perdidos, da Editora Skript. Ao lado da ilustradora Dominic Amaral, o autor apresenta uma história ambientada em uma São Paulo distópica, na qual seres humanos são tratados como objetos. Definida como uma tragicomédia romântica, a HQ também é marcada pelo protagonismo amarelo, representatividade LGBTQIAP+ e uma reflexão sobre saúde mental.
A trama se desenrola a partir da perspectiva de Kenzo, um jovem desmemoriado que é encontrado sozinho no metrô, sendo assim levado para um departamento de achados e perdidos, como se ele fosse um pertence abandonado. Kenzo então recebe uma classificação, “B124”, e um diagnóstico de que possui a Síndrome dos Achados e Perdidos (SAP). Questionando-se sobre quem é e o que realmente faz ali, ele conhece Pedro, também perdido e buscando pertencimento.
Embora estejam inseridos em uma realidade distópica, com um sistema frio e impessoal que os trata como obsoletos, os protagonistas iniciam uma jornada de autoconhecimento.
A princípio, essa história era para ser um roteiro para cinema, mas foi adaptada para os quadrinhos. As inspirações do autor vão desde outras HQs, como Heartstopper (2016), até as séries Fleabag (2016) e Looking (2014) e os filmes Medianeras (2011) e Encontros e Desencontros (2003). Oshiro, que é um homem gay e de ascendência japonesa, traz em sua obra temas como identidade, solidão e pressão social.
Nas suas ilustrações, Dominic Amaral procurou representar a alma da capital paulista como um personagem vivo. Além disso, a artista inspirou-se em pessoas reais, focando nas expressões faciais dos personagens para melhor transmitir os sentimentos deles.
Nesta quarta, 18 de junho, Dia da Imigração Japonesa, Mario Oshiro compartilha sua trajetória e processo de escrita em entrevista exclusiva. Confira!
Entretetizei: Achados & Perdidos marca sua estreia nos quadrinhos. Como foi essa transição do audiovisual para a linguagem da HQ, e por que decidiu contar essa história nesse formato?
Mario Oshiro: Sobre a transição do audiovisual para a linguagem da HQ, foi meio como trocar a câmera por um balão de fala. No começo, dá um frio na barriga, mas depois você percebe que continua contando histórias com imagens, só que em outro ritmo. A HQ me deu uma liberdade narrativa que o audiovisual às vezes engessa. E contar essa história nos quadrinhos foi quase uma catarse, porque ela precisava desse espaço mais íntimo, mais livre.
A história começou como um argumento de filme, lá em 2016. Foi premiada, chegou a empolgar algumas produtoras, mas, como acontece muito no audiovisual, foi ficando pelo caminho. Orçamentos que nunca fechavam, reuniões que terminavam em “talvez”, todo mundo dando palpite, e, aos poucos, a ideia foi virando só um arquivo salvo na pasta de projetos esquecidos.
Anos depois, quando vi que o ProAC (Programa de Ação Cultural de São Paulo) tinha uma linha específica para criação e publicação de HQs, a ficha caiu: talvez essa história só estivesse esperando o formato certo. Quadrinhos me deram uma autonomia que o cinema não permite. Como autor, pude me perder e me encontrar na narrativa sem precisar de câmera, equipe, locação. Sem esperar autorização de ninguém. Era só eu, a história e o word aberto (risos). E foi assim que Achados & Perdidos finalmente se achou.

E: A graphic novel traz um protagonista amarelo e LGBTQIAP+, o que ainda é pouco comum no cenário nacional. Qual a importância dessa representatividade para você como autor descendente de japoneses e homem gay?
MO: Cresci sem ver gente como eu nas capas, nas telas ou nas histórias. E quando aparecia alguém amarelo ou LGBTQIAP+, era estereotipado, periférico ou piada. Então, colocar um protagonista amarelo e gay no centro da história, vivendo suas dores, amores e bugs existenciais, é uma forma de reivindicar espaço. É dizer: a gente existe, sente, deseja e também tem direito a finais bonitos, mesmo que tragicômicos (risos).
E: A história se passa numa São Paulo distópica, mas extremamente familiar. De que forma a cidade moldou a atmosfera emocional da narrativa?
MO: São Paulo é quase um personagem da HQ. Uma cidade que engole a gente com pressa, concreto e notificação de aplicativo. O cenário distópico da história nada mais é do que um espelho exagerado do que já vivemos diariamente: solidão compartilhada, hiperconexão vazia, gente que desaparece no meio da multidão. E, ainda assim, é nela que os encontros mais improváveis acontecem.
E: Kenzo, seu protagonista, sofre da Síndrome dos Achados e Perdidos e é tratado como um objeto. Como surgiu essa ideia e o que ela representa sobre identidade e pertencimento?
MO: A SAP, Síndrome dos Achados e Perdidos, nasceu de uma metáfora muito pessoal. Já me senti um objeto extraviado em vários momentos da vida. A ideia era justamente traduzir aquela sensação de não saber mais quem você é, como se alguém tivesse apagado suas informações de identidade. E se, nessa sociedade, quem perde o rumo fosse literalmente tratado como coisa? Tratar isso com humor e drama foi minha forma de provocar e abraçar quem já se sentiu ou se sente assim.
E: Em meio ao drama, a HQ também é uma história de amor. Como foi construir essa relação entre Kenzo e Pedro em um ambiente tão inóspito, e por que era importante que esse romance fosse parte central da trama?
MO: Porque o amor, quando floresce no caos, pode ser bonito. A relação entre Kenzo e Pedro nasce no subterrâneo, literal e metaforicamente. Eles se conhecem num lugar que parece feito pra apagar identidades, anestesiar afetos, catalogar gente como se fosse bugiganga. E mesmo ali, algo acontece. Uma troca de olhares, um silêncio compartilhado, uma piada fora de hora. Eles se encontram no meio da falta.
Queria muito que esse romance estivesse no centro da trama porque histórias de amor entre dois caras ainda são tratadas como exceção, ou como subtrama. Aqui, não. Aqui, o amor deles é o que dá sentido ao absurdo. E porque, pra quem já se sentiu quebrado, deslocado, fora do lugar… às vezes tudo o que a gente precisa é de alguém que olhe pra gente e diga: “eu te vejo”. Mesmo que a gente ainda nem saiba quem é.

E: Seu trabalho lida com saúde mental de forma sensível e sem clichês. Qual foi o cuidado na abordagem desse tema, especialmente para o público jovem?
MO: Eu quis falar sobre saúde mental como quem oferece um cobertor e não uma receita. Sem didatismo, sem romantizar o sofrimento. Mostrar o caos interno com humor, poesia e umas boas ironias foi meu jeito de dizer “você não tá sozinho”. Às vezes, o que a gente precisa é de alguém dizendo: “tô perdido também, mas vamo junto.”
E: A HQ conta com a arte da ilustradora Dominic Amaral. Como foi essa parceria e o que você destaca da contribuição dela para a atmosfera e emoção da história?
MO: Parceria de milhões! A Dom não só entendeu a história, ela sentiu. A HQ ganhou alma com a arte dela. Cada desenho tem peso emocional. A gente conversava muito sobre intenção, clima, sutilezas. E ela sempre entregava algo melhor do que eu imaginava. A HQ é metade minha, metade dela. E 100% nossa.
E: Como é transformar vivências pessoais em algo que dialoga com um público tão diverso?
MO: É estranho e bonito. Estranho porque você se despe na frente do mundo. Bonito porque, no fim, a dor que parecia só sua vira espelho pra tanta gente. Eu escrevi achando que era sobre mim, e descobri que era sobre todo mundo que já se sentiu deslocado, esquisito, sensível demais.
E: Suas referências vão de Heartstopper a Fleabag e Medianeras. Que elementos dessas obras o influenciaram e de que maneira você quis “abrasileirar” essas inspirações em Achados & Perdidos?
MO: Heartstopper me ensinou a falar de sentimentos com doçura. Fleabag, a rir do caos interno. Medianeras, a poetizar a solidão urbana. Mas eu queria tudo isso com serpentina de Carnaval, purpurina e chuva de verão. Então, coloquei esses sentimentos num metrô de SP, com personagens que usam tiara de unicórnio, correm riscos para curtir um bom Carnaval e adoram explorar novos mundos.
Eu queria que Achados & Perdidos tivesse tudo isso: um bocado de beleza, um tantinho de dor e um sotaque bem nosso.
E: A data da Imigração Japonesa no Brasil é um convite à reflexão sobre identidade cultural. Como sua ancestralidade japonesa aparece ou influencia sua arte e sua visão de mundo hoje?
MO: Nada na minha história é colocado com régua e compasso. Eu não penso “agora vou inserir minha ancestralidade aqui”. Ela simplesmente está, porque faz parte de mim. Cresci imerso na cultura japonesa do lado da família do meu pai: cerimônias com missoshiru, as palavras em nihongo surgiam no meio da conversa dos meus tios, fazíamos reverência ao altar xintoísta… E mais tarde, morei quase seis anos no Japão, o que só aprofundou essa relação, de um jeito muito afetivo e também muito complexo.
Essa vivência aparece na minha arte de forma natural, como quem dobra um papel e só depois percebe que criou um tsuru. Em Achados & Perdidos, isso está no origami que vira metáfora de transformação. No passeio pelo bairro da Liberdade, que é quase um retorno às origens em pleno centro de São Paulo. São detalhes que carregam memória, pertencimento e, principalmente, uma tentativa de traduzir quem eu sou, não como bandeira, mas como respiração.
E: O que você diria para jovens leitores amarelos e LGBTQIAP+ que crescem sem se verem nas histórias que consomem?
MO: Diria: se escreva, se desenhe, se invente. E se não se encontrar em lugar nenhum, então talvez você seja o começo de uma nova história. Não espere ser convidado, invada a festa com glitter, leque e representatividade.
E: Para encerrar: perder-se é parte do processo de se encontrar, como você mesmo escreveu. O que você mesmo “achou” e “perdeu” durante o processo de criação dessa HQ?
MO: Perdi um pouco do medo de me expor. Achei leitores que me disseram “parece que você escreveu sobre mim”. Perdi a ideia de que essa história era pequena. Achei um mundo inteiro dentro de mim que eu nem sabia que existia. E, acima de tudo, achei um jeito de fazer sentido com as partes que nunca fizeram.
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Texto revisado por Ketlen Saraiva









