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Milena Yoo
Foto: divulgação/Milena Yoo

Entrevista | Milena Yoo fala sobre o crescimento do Festival Seollal, tradição coreana e pertencimento no Bom Retiro

Diretora da Feira do Bom Retiro, Milena Yoo comenta a evolução do Festival Seollal, a energia do Ano do Cavalo de Fogo e o papel do evento como ponte cultural entre Brasil e Coreia do Sul

O Festival Seollal deixou de ser apenas uma celebração da comunidade coreana para se tornar um dos eventos culturais mais aguardados do início do ano em São Paulo. Realizado no coração do Bom Retiro, o Ano Novo Lunar reúne rituais ancestrais, gastronomia típica, música, dança e a força da cultura pop coreana em um espaço de encontro entre gerações, públicos e culturas.

Milena Yoo
Foto: divulgação/Yumi Yamashi

Nesta entrevista, Milena Yoo, diretora da Feira do Bom Retiro e uma das idealizadoras do festival, fala sobre o crescimento do Seollal ao longo das edições, a simbologia do Ano do Cavalo de Fogo em 2026, os desafios de equilibrar tradição e cultura contemporânea e a importância de fortalecer a identidade coreana dentro de um bairro marcado pela diversidade. Um olhar direto sobre cultura, pertencimento e troca real entre Brasil e Coreia do Sul. Confira:

Entretetizei: O Festival Seollal já virou um dos eventos mais esperados do Bom Retiro. O que muda emocionalmente para você ao ver essa celebração crescer a cada edição?

Milena Yoo: Ver o Seollal crescer é algo muito emocionante e especial para mim. Lá em 2022, na primeira edição, o desejo era simples: compartilhar uma celebração que faz parte da minha história e da história de tantas famílias coreanas. Hoje, ao ver milhares de brasileiros aguardando o festival todos os anos, sinto um misto de orgulho e responsabilidade. É a confirmação de que a cultura conecta, acolhe e cria pertencimento, mesmo longe do país de origem… mais do que longe, eu diria. A Coreia está do outro lado do mundo, entende? Há 10 anos, muitas pessoas nem lembravam da existência da Coreia e hoje elas estão em busca de conhecer sobre nossas tradições de ano novo. Isso é realmente muito emocionante para mim.

E: A edição de 2026 acontece no Ano do Cavalo de Fogo, um signo raro e cheio de simbolismo. Como essa energia influenciou as escolhas de programação e o clima do festival este ano?

MY: O Cavalo de Fogo simboliza movimento, coragem e transformação. Essa energia inspirou uma programação mais dinâmica, com atrações que valorizam tanto a força da tradição (Coral das Mães Coreanas) quanto a vitalidade da cultura contemporânea (como o Aura, cover de K-Pop, e o grupo de dança moderna POZ-e). Pensamos em um festival mais intenso, vibrante, que convidasse o público a participar ativamente, refletindo esse espírito de impulso e renovação. Quando falo sobre participação temos, por exemplo, os blocos de Random Play Dance, que convida os fãs de K-Pop a mostrar as habilidades de dança e isso, junto à renovação, teremos a escola de samba Unidos do Peruche, que além de se apresentar, também fará interações com o público ensinando passos de samba. Essa escolha, sem dúvida, é uma que foi muito influenciada pela energia do ano. Mas claro que a maior atração de todo ano novo está confirmada, a Dança do Dragão e Leão, para nós coreanos, asiáticos, é muito importante, não podemos abrir mão, porque atrai boa sorte e prosperidade.

E: O Seollal é uma data muito ligada à família e às tradições na Coreia do Sul. Como vocês traduzem esse sentimento para o público brasileiro, que muitas vezes está tendo o primeiro contato com essa celebração?

MY: Fazemos isso por meio da experiência. Há um momento na programação em que explicamos os rituais, convidamos o público a participar do Sebae (reverência aos mais velhos), apresentamos o significado do Tteokguk (a sopa de alga) e criamos momentos de convivência. Mesmo que as tradições sejam coreanas, os valores por trás delas que são respeito, união e gratidão são universais e facilmente entendidos pelos brasileiros.

E: O festival mistura rituais ancestrais, como o Sebae e o Tteokguk, com K-Pop, Random Play Dance e atrações contemporâneas. Qual é o maior desafio em equilibrar tradição e cultura pop no mesmo evento?

MY: O maior desafio é garantir que nenhuma dessas linguagens se sobreponha à outra, o equilíbrio é fundamental. Nosso cuidado é criar uma programação em que a tradição seja apresentada com contexto e respeito, enquanto a cultura pop funcione como uma porta de entrada, especialmente para o público jovem, que é a grande maioria. Quando bem equilibradas, elas se complementam e ampliam o alcance cultural do festival.

E: O Bom Retiro é um bairro marcado pela diversidade cultural. De que forma o festival ajuda a fortalecer a identidade coreana dentro desse espaço tão plural de São Paulo?

MY: O Seollal reforça a presença coreana como parte viva da história do Bom Retiro. Ele mostra que a identidade do bairro é construída pela convivência entre culturas. Ao ocupar o espaço público com rituais, música e gastronomia coreana, o Seollal contribui para o reconhecimento e a valorização dessa comunidade dentro de um bairro multicultural. É importante para a comunidade coreana e também para o Bom Retiro.

E: A presença de grupos como o Coral das Mães Coreanas e o Sugi Line Dance chama muita atenção do público. Por que era importante dar protagonismo a essas mulheres da comunidade na programação?

MY: Essas mulheres são uma espécie de “guardiãs” das tradições. Dar protagonismo a elas é reconhecer o papel fundamental que exercem na preservação da memória, na transmissão de valores e na construção de pontes culturais. Além disso, é uma forma de mostrar ao público que a cultura se mantém viva através das pessoas. Estamos falando de senhoras acima de 60 anos que amam a cultura de seu país natal e querem compartilhar isso com aqueles que abriram os braços para recebê-las anos atrás. E claro, quando falamos do Sugi, também falamos que não há idade para dançar. Elas são senhoras que ensaiam, investem em figurinos, chamamos de “idols do Bom Retiro”, em alusão aos idols de K-Pop, porque no palco elas parecem grupos de K-Pop. A energia que transmitem e a mensagem de “não vamos nos limitar pela idade” me encanta e acredito que encante a todos também.

E: Para quem nunca participou do Festival Seollal, qual experiência você acredita que mais surpreende o visitante logo no primeiro contato com o evento?

MY: A surpresa costuma vir do acolhimento. Muitas pessoas chegam curiosas e acabam se envolvendo profundamente com os rituais, com as explicações e com a atmosfera do festival. Temos uma equipe que não está aqui só para trabalhar, antes disso ser um trabalho, todos são apaixonados pela cultura coreana, começaram como voluntários em diversos eventos da comunidade e hoje trabalham de forma fixa como staff. O amor, o cuidado, o acolhimento com o público é o nosso diferencial porque nossa equipe já esteve do outro lado, então eles querem explicar, tirar dúvidas e falar sobre a  cultura. Participar do Sebae ou entender o significado do Ano Novo Lunar costuma ser um momento marcante para quem está vivendo isso pela primeira vez e aí entra nossa mais uma vez nossa equipe, sempre disposta a falar mais a respeito.

E: A parceria com o Centro Cultural Coreano no Brasil e a Competição de Canto de Canções Coreanas reforçam o intercâmbio cultural entre os dois países. Como você enxerga o papel do festival nessa ponte entre Brasil e Coreia do Sul?

MY: Vejo como um espaço de encontro real entre os dois países. Não é apenas uma vitrine cultural, entende? Mas um lugar de troca, aprendizado e diálogo. Essas parcerias fortalecem essa ponte ao incentivar o envolvimento ativo do público brasileiro com a língua, a música e os valores culturais da Coreia. No caso dessa parceria com o CCCB, é também um momento em que falamos mais sobre a instituição e reforçamos as atividades que eles fazem, incentivando o público a se matricular nas aulas de coreano e Taekwondo, por exemplo, que o CCCB oferece de forma gratuita.

E: O festival recebe públicos muito diferentes, de famílias a fãs jovens de K-Pop. O que você percebe que todos eles têm em comum quando vivenciam o Seollal juntos?

MY: Com certeza a curiosidade e a disposição para participar, interagir. Independentemente da idade ou do interesse inicial, as pessoas se permitem viver algo novo juntas. Essa vivência gera respeito, empatia e um senso de comunidade que é muito bonito de observar, porque é isso que aprendemos como coreanos quando pequenos e nossa família começa a nos ensinar os rituais de ano novo.

E: Depois de quatro edições e mais de 50 mil visitantes ao longo dos anos, qual é o futuro que você imagina para o Festival Seollal dentro do calendário cultural de São Paulo?

MY: Imagino o Seollal cada vez mais consolidado como uma celebração multicultural da cidade, reconhecida não apenas como um festival coreano, mas como um evento que promove diversidade, educação cultural e convivência. O objetivo é crescer de forma responsável, mantendo a essência e o cuidado com as tradições que deram origem a tudo isso. Também acredito que o futuro seja o brasileiro conhecer mais sobre nosso ano novo lunar pela mídia, antes mesmo de ir ao evento. O papel de vocês, por exemplo, é extremamente importante e muito especial, pois estão levando ao público mais conhecimento sobre a Coreia e nossas tradições.

 

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Texto revisado por Larissa Couto

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