Primeira parte aposta no romance de Benedict e Sophie com química impecável e núcleos secundários mais maduros
[Contém spoiler]
Histórias de amor atravessam gerações porque tocam em algo profundamente humano: o desejo de conexão, pertencimento e descoberta. Quando contadas com sensibilidade, elas deixam de ser apenas romances e se transformam em experiências que evocam memórias, sonhos e até frustrações. É justamente essa mistura entre emoção e fantasia – muitas vezes envolta em uma atmosfera quase de conto de fadas – que faz com que determinadas narrativas permaneçam no imaginário coletivo por tanto tempo.

A quarta temporada de Bridgerton (2020-) inicia sua jornada lembrando ao público por que a série se tornou um fenômeno: ela fala, acima de tudo, sobre amor em suas múltiplas formas. Amor romântico, amor maduro, amor não correspondido, amor próprio e até amor que dói. Essa primeira parte da temporada entrega emoção, estética impecável e, talvez pela primeira vez desde a estreia da produção, uma sensação de fidelidade genuína à essência literária. Mesmo com mudanças inevitáveis da adaptação, a narrativa se mantém surpreendentemente próxima ao núcleo de Um Perfeito Cavalheiro (2001), de Julia Quinn, o que faz desta, até agora, a temporada mais consistente da série.

A trama acompanha Benedict Bridgerton (Luke Thompson), o segundo filho da família, cuja vida muda ao conhecer a enigmática Dama de Prateado durante o baile de máscaras promovido por sua mãe, Violet (Ruth Gemmell). Por trás do disfarce está Sophie Baek (Yerin Ha), uma jovem que é bastarda de um conde e que vive à margem de sua própria herança, submetida aos abusos da madrasta, Lady Araminta Gun (Katie Leung), e da meia-irmã, Rosamund Li (Michelle Mao) dentro da casa que um dia pertenceu a seu pai. O encontro entre os dois dá início a uma história que mistura encanto, identidade e escolhas difíceis – como todo bom conto de fadas, mas sem prometer finais fáceis.
O espetáculo visual de Bridgerton
Se há algo que Bridgerton nunca falha em entregar é o espetáculo visual e, aqui, isso se reafirma com força. A temporada se abre com um baile de máscaras oferecido por Violet Bridgerton (Ruth Gemmell), evento que inaugura oficialmente a nova temporada social em Londres. A escolha não poderia ser mais simbólica: máscaras escondem identidades, revelam desejos e antecipam o tom de conto de fadas que permeia o arco de Benedict e Sophie.

Os cenários seguem luxuosos, os figurinos continuam exuberantes e a fotografia permanece delicada e vibrante na medida certa. É um universo onde o exagero é proposital e funciona como assinatura estética.
Quando a música conta a história

A trilha sonora, mais uma vez, é um dos maiores triunfos da série – talvez o mais marcante desta primeira parte. A escolha de Enchanted, de Taylor Swift, vai além do apelo popular e encontra eco direto na própria origem da canção. Escrita a partir de um encontro marcante que Swift teve com Adam Young, vocalista e fundador da banda de synthpop Owl City, por quem sentiu uma conexão imediata, a música nasce desse instante único em que tudo parece possível e, justamente por isso, tão frágil. A cantora já comentou que a inspiração veio da sensação de conhecer alguém especial e torcer, em silêncio, para que aquela pessoa não estivesse apaixonada por outra.
Na série, o paralelo é inevitável. Muitos fãs já desejavam que a faixa se tornasse tema de Benedict e Sophie, e sua inclusão reforça o caráter quase mágico do primeiro encontro dos dois. Diferente da história que inspirou Taylor, o casal tem apenas uma dança e uma noite compartilhada, mas o impacto é igualmente transformador. Há, sobretudo, uma inversão dolorosa: Sophie reconhece Benedict, guarda a memória e o sentimento, enquanto ele sequer sabe quem ela é fora da máscara. O encanto deixa de ser apenas sobre paixão instantânea e passa a carregar também a angústia de amar em silêncio, um sentimento que ecoa ao longo de toda a temporada.

Em contraste, o encerramento do quarto episódio, intitulado Um Perfeito Cavalheiro, traz a versão instrumental de Bad Idea Right?, de Olivia Rodrigo, e muda completamente o tom emocional. Após declarar seus sentimentos, Benedict propõe que Sophie se torne sua amante, um pedido que a devasta profundamente, principalmente por tocar em feridas ligadas ao passado de sua mãe, que viveu como criada e amante. A música, irônica e intensa, traduz perfeitamente a quebra do ideal romântico e marca um dos momentos mais dolorosos e memoráveis desta primeira parte.
Além do romance principal: corações que estão movendo a temporada
Se o casal principal sustenta o eixo romântico, são os núcleos paralelos que conferem profundidade e maturidade à temporada. Diferente de fases anteriores, em que as tramas secundárias orbitavam quase sempre o mesmo círculo de bailes e títulos nobres, aqui há uma expansão perceptível do olhar narrativo.

A presença de Sophie como personagem central permite que o público conheça com mais intimidade o cotidiano dos criados, a dinâmica de hierarquia dentro das casas e o contraste entre luxo e serviço que sustenta silenciosamente a sociedade retratada. Esses arcos deixam de ser meros complementos e passam a funcionar como peças essenciais para compreender o universo além dos salões iluminados, revelando conflitos de classe, pertencimento e identidade que enriquecem a história como um todo.
Somado a isso, diferentes núcleos ganham espaço e complexidade, revelando camadas que vão muito além do romance central.
O amor também amadurece

A relação entre Violet (Ruth Gemmell) e Marcus (Daniel Francis) é, possivelmente, uma das construções mais bonitas desta fase. A química entre os dois é natural e delicada, mas o que realmente se destaca é o significado narrativo. Violet representa mulheres maduras que muitas vezes deixam de ser vistas como indivíduos desejantes após a maternidade ou com o avanço da idade. Sua jornada mostra que ainda há espaço para romance, conexão e redescoberta sem que isso diminua seu papel como mãe e amiga. É uma trama sensível, necessária e extremamente bem recebida emocionalmente.
Amores que não cabem em expectativas

O arco de Francesca (Hannah Dodd) segue sendo o mais delicado e também o mais divisivo desta primeira parte. Recém-casada com John Stirling (Victor Alli), ela demonstra dificuldades de conexão e intimidade que revelam uma distância emocional cada vez mais perceptível – um contraste marcante em relação à forma como o relacionamento é retratado nos livros. Paralelamente, a série aprofunda a aproximação entre Francesca e Michaela Stirling (Masali Baduza), escolha criativa que vem gerando debates intensos desde a temporada anterior.

A complexidade da personagem, porém, não se limita ao campo romântico. Parte do público passou a enxergar em Francesca uma possível representação neurodivergente, especialmente por sua necessidade de silêncio, desconforto diante de convenções sociais e maneira particular de se relacionar com o mundo.
Embora Julia Quinn tenha afirmado que essa não foi uma intenção consciente na obra original, a própria equipe criativa da série reconheceu que a leitura surgiu de forma orgânica entre espectadores e roteiristas. O resultado é uma personagem que, mesmo sem rótulos explícitos, permite identificação a quem raramente se vê representado em narrativas de época.

A decisão de tornar Francesca (Hannah Dodd) uma personagem queer e transformar Michael em Michaela também divide opiniões. Para leitores fiéis aos livros, a mudança soa como ruptura; para outros espectadores, representa um avanço significativo em termos de inclusão. A própria produção defende a escolha como uma oportunidade de oferecer um felizes para sempre a diferentes formas de amor, sem invalidar o afeto genuíno que Francesca sente por John – um amor construído mais no companheirismo e na amizade do que na paixão arrebatadora.
É justamente essa dualidade que torna sua jornada tão desconfortável quanto humana, prometendo desdobramentos ainda mais intensos na segunda parte da temporada.
Afeto em voz alta e tinta permanente

Penelope (Nicola Coughlan) e Colin (Luke Newton) surgem como o contraponto leve e apaixonado. O casal mantém uma sintonia encantadora, enquanto Lady Whistledown (Nicola Coughlan) continua sendo uma força narrativa essencial. Suas observações sobre a sociedade – desde pequenas intrigas até comentários mais amplos sobre reputação e comportamento – seguem afiadas e divertidas, garantindo frescor e continuidade ao espírito crítico que sempre acompanhou a série.
Amizade à prova do tempo

Talvez o núcleo mais emocionalmente poderoso seja o de Lady Danbury (Adjoa Andoh) e Rainha Charlotte (Golda Rosheuvel). A amizade entre as duas começa a se fragilizar quando Lady Danbury expressa o desejo de deixar Londres e retornar às suas origens familiares, ligadas à linhagem real da tribo Kpa-Mende Bo, em Serra Leoa. Charlotte recusa prontamente, temendo perder mais uma presença significativa em sua vida enquanto lida com o envelhecimento do marido e o encolhimento de seu círculo social.
Ambas as perspectivas são compreensíveis, e justamente por isso os confrontos entre elas carregam tanta carga dramática. São cenas que misturam saudade, lealdade e medo da solidão, entregando alguns dos momentos mais tocantes desta primeira fase.
Entre debuts e questionamentos

A aproximação entre Eloise (Claudia Jessie) e Hyacinth (Florence Hunt) é uma das surpresas mais delicadas desta temporada. Enquanto Eloise reafirma sua decisão de não se casar e passa a se enxergar cada vez mais deslocada em conversas sobre matrimônio – especialmente ao lado de Penelope (Nicola Coughlan) e Francesca (Hannah Dodd), que trocam confidências quase cifradas sobre a vida conjugal, como na bem-humorada cena dos biscoitos esquentando – Hyacinth se encontra no extremo oposto, ansiosa e completamente imersa na expectativa de seu debut.
A dinâmica entre as duas evidencia o contraste de perspectivas dentro da própria família Bridgerton. Ao perceber que Eloise evita pretendentes e eventos sociais, Violet determina que ela acompanhe a irmã mais nova nas aulas de etiqueta, o que gera um desconforto inevitável. A situação ecoa a relação que Eloise teve com Daphne (Phoebe Dynevor) nas primeiras temporadas: a sensação constante de inadequação diante de rituais sociais que parecem naturais para outras mulheres, mas que para ela soam artificiais e limitadores.

O ponto de virada acontece durante um jantar na casa Kilmartin, quando Hyacinth confronta Eloise após ser ridicularizada pela irmã mais velha. O momento é breve, porém significativo: Eloise, conhecida por suas respostas rápidas e convicções firmes, se vê sem palavras e, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente reflexiva. É uma cena que humaniza ambas, pois Hyacinth deixa de ser apenas a caçula entusiasmada e Eloise revela uma vulnerabilidade rara, mostrando que amadurecer também significa ouvir aquilo que não se quer escutar.
Esse núcleo não entrega grandes escândalos, mas oferece algo igualmente valioso: a construção de um laço fraterno que cresce em meio a diferenças, revelando que, em Bridgerton, nem todos os conflitos giram em torno do romance, alguns nascem simplesmente do processo de descobrir quem se é em um mundo que insiste em dizer quem você deveria ser.
O outro lado do brilho

O núcleo de Araminta (Katie Leung) e da família Li amplia o olhar da temporada para as engrenagens sociais que sustentam o luxo da alta sociedade. A chamada Guerra das Criadas é um exemplo claro disso. Ao dispensar Sophie e, posteriormente, tentar atrair empregados de outras casas, Araminta transforma as relações de trabalho em disputa de poder e status. O gesto revela não apenas frieza, mas uma compreensão estratégica das hierarquias que regem aquele universo.
Nos livros, Araminta é retratada como uma figura abertamente inescrupulosa, disposta a ultrapassar qualquer limite para alcançar seus objetivos. A série suaviza parcialmente essa vilania, apresentando uma personagem ainda cruel, porém menos caricata e talvez mais ambígua. Essa escolha abre espaço para diferentes leituras, pois enquanto alguns espectadores sentem falta da antagonista implacável das páginas, outros percebem na adaptação uma tentativa de complexificar suas motivações, possivelmente preparando terreno para uma redenção ou reconfiguração na segunda parte da temporada.

Essa diferença de abordagem não enfraquece o conflito, mas muda o seu tom: em vez de uma vilã absoluta, a série entrega uma antagonista que opera dentro das regras sociais com cálculo e oportunismo, o que torna suas ações menos explosivas, porém igualmente reveladoras das desigualdades que permeiam o enredo.
Um conto de fadas imperfeito
O romance entre Benedict (Luke Thompson) e Sophie (Yerin Ha) é o eixo emocional da temporada, mas seu maior trunfo não está apenas na narrativa, está na atuação e na química entre os atores. Há uma naturalidade nas trocas de olhares, nas pausas e até nos silêncios, transformando cenas simples em momentos memoráveis.

A famosa cena do lago, por exemplo, rapidamente se tornou um dos pontos mais comentados entre os fãs justamente por condensar vulnerabilidade e desejo sem recorrer a excessos. Já o reencontro no campo, quando Benedict a defende de Philip Cavender e de seus amigos, marca uma virada simbólica: ali o conto de fadas deixa de ser apenas fantasia e passa a assumir riscos sociais reais.
Individualmente, os protagonistas também revelam nuances interessantes em relação à obra original. Sophie, na adaptação, é construída com maior poder de decisão. Ela não apenas reage ao mundo, mas faz escolhas conscientes, recusando destinos que lhe são impostos e se posicionando diante das propostas que a diminuem. Sua força não está no confronto direto, mas na firmeza silenciosa de quem entende o próprio valor.

Benedict, por outro lado, surge menos incisivo e menos dominante do que nos livros. Ainda que tome decisões questionáveis e por vezes egoístas, sua postura é marcada por hesitação e imaturidade emocional. Parte desse comportamento também deriva do fato de ele ainda desconhecer completamente a história de Sophie – sua origem, sua condição de filha bastarda e o peso social que isso carrega. Essa ignorância não o isenta, mas adiciona camadas ao conflito: o romance se constrói não apenas sobre atração, mas sobre descobertas tardias e a necessidade de crescimento pessoal.

O resultado é um casal que funciona justamente por não ser perfeito. O encanto existe, mas é atravessado por falhas humanas, orgulho e vulnerabilidade – elementos que tornam a releitura de Cinderela menos idealizada e muito mais palpável.
Quando o encanto não se dissipa: expectativas para a segunda parte
Ao final desta primeira parte, o sentimento predominante é de expectativa. A recepção do público tem sido majoritariamente positiva, e, mesmo diante de decisões narrativas controversas – especialmente a proposta de Benedict para Sophie – muitos fãs já se mostram prontos para passar pano caso o personagem apresente o amadurecimento necessário nos próximos episódios.

A temporada também reforça com delicadeza os elementos clássicos de Cinderela: o baile mágico, a empregada que adentra um espaço que não lhe pertence, o objeto deixado para trás – aqui representado por uma luva – e a dinâmica social entre nobreza e serviço que sustenta todo o conflito.
O que realmente sustenta essa releitura, porém, é a química entre Benedict e Sophie. Impecável, cativante e profundamente comovente, ela transforma cada reencontro em promessa e cada silêncio em torcida coletiva. Há algo poeticamente bonito na ideia de Benedict se apaixonar duas vezes pela mesma mulher sem perceber, enquanto o público acompanha ansioso para que a verdade venha à tona.
Mais do que um romance de época, a primeira parte da quarta temporada de Bridgerton entrega a sensação de que o amor pode ser redescoberto e que, às vezes, o encantamento não está em encontrar alguém novo, mas em finalmente enxergar quem sempre esteve ali.
A segunda parte da quarta temporada estreia em 26 de fevereiro. Por isso, não guardem os espartilhos e nem as máscaras, pois o conto de fadas de Benedict e Sophie ainda reserva muitas surpresas.

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Leia também: Resenha | Um Perfeito Cavalheiro: o conto de fadas imperfeito de Julia Quinn
Texto revisado por Larissa Couto


















