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Foto: divulgação / Editora Verus / Natalie Gerhardt

Entrevista | Natalie Gerhardt: conheça a escritora e tradutora por trás de A História por Trás de Cada Beijo

Finalista do Prêmio Literário Voz, Natalie Gerhardt conta como reencontrou a escrita e fala sobre comédia romântica ambientada no ano 2000

Natalie Gerhardt é escritora, tradutora e, no ano passado, publicou a comédia romântica A História por Trás de Cada Beijo pela editora Verus. A obra, que se passa no ano 2000, é uma ode aos blogs, que eram super populares no início do século, além de uma história sobre recomeços e superação de desafios. 

O livro segue a história de Clarissa, uma jovem jornalista que aparentemente tem a vida perfeita. Possui o emprego dos sonhos em uma das maiores revistas femininas do país, namora um cara lindo e mora em um belo apartamento em Ipanema, bem próximo à praia e ao trabalho. Contudo, em um dia, inesperadamente, o parceiro de Clarissa termina tudo entre os dois, deixando-a devastada. 

Em busca de um local para desabafar, Clarissa cria um blog em que assina como Drama Queen. No começo, era apenas um lugar seguro para falar sobre as suas dores. Mas quando ela começa a contar as histórias sobre suas aventuras e desventuras sexuais, a página explode e passa a receber vários leitores. Uma dessas pessoas, inclusive, é a sua própria chefe, interessada em contratar a escritora misteriosa. 

Ao mesmo tempo, Clarissa se depara com um ex-arrependido e uma paixão antiga que ressurge. Agora, ela precisa decidir: deve aproveitar o sucesso do blog, mas arriscar sua reputação e seu emprego? Ou então irá continuar sendo o padrão idealizado de mulher que a família tanto almeja?

Natalie Gerhardt ama livros, principalmente os mais românticos. Formada em Letras e pós-graduada em Língua Inglesa pela PUC-Rio, atua como tradutora nas maiores editoras do Brasil. É ainda autora do conto A Vingança da Adolescente Revoltada, do audiolivro Dona de Mim e do romance Fora dos Planos, publicado pela Editora Patuá e finalista do Prêmio Literário Voz. 

Em entrevista ao Entretetizei, ela fala sobre a sua trajetória com os livros e também faz uma reflexão sobre seu trabalho como tradutora e ficcionista. Confira!

Foto: divulgação / Editora Verus
Entretetizei: Como você descreveria sua relação com a leitura ao longo da vida?

Natalie Gerhardt: Eu sempre amei ler. Na infância, lá em casa não tínhamos muitos livros, mas me lembro que meus pais compraram a coleção de contos de fadas e fantásticos infantis de capa dura e edição lindíssima, e a minha história favorita era Os Cisnes Selvagens, que li e reli incontáveis vezes. Eles também costumavam comprar gibis da Turma da Mônica e da Luluzinha

Já na pré-adolescência, nem sempre havia livros disponíveis que fossem adequados para a minha idade, então, além dos livros paradidáticos da escola, eu acabava lendo tudo que caía nas minhas mãos: ficção comercial, livros do antigo Círculo do Livro e até aqueles livros de banca de jornal.

Já no segundo grau, comecei a ter contato com alguns grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis, José de Alencar e Jorge Amado e curti, mesmo sem ter muita maturidade para eles. Em paralelo, pegava muitos livros de amor romântico na biblioteca da Cultura Inglesa e continuava lendo muita ficção comercial. Na faculdade de Letras comecei a estudar literatura e cânones da literatura mundial, mas, em paralelo, continuava lendo ficção comercial e o meu sonho era traduzir esses livros.

Hoje em dia, me considero uma leitora bem eclética, alternando bastante entre os gêneros. Tem vezes que quero obras mais densas, outras que quero um thriller bem emocionante ou uma fantasia e outras em que tudo que quero é uma história de amor bem fofa. E às vezes quero tudo ao mesmo tempo, então é bem comum que eu leia mais de um livro de uma vez. Atualmente estou lendo Os Sete Maridos de Evelyn Hugo, da Taylor Jenkins Reid, Voz de Prisão, da Luciana de Gnone, e relendo Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis.

E: O que te levou a escrever ficção?

NG: Eu comecei a escrever ainda na adolescência e é muito interessante que comecei escrevendo peças de teatro. Cheguei a escrever duas peças infantis quando eu era normalista e duas peças de mistério em inglês como um projeto para a Cultura Inglesa. Todas as peças foram produzidas e apresentadas de forma amadora no contexto escolar. Como eu amava ler e escrever, a faculdade de Letras foi um caminho bem natural, mas que acabou me levando a parar de escrever porque, diante dos cânones da literatura, eu passei a não enxergar valor na minha escrita e isso ficou adormecido na minha vida por quase 30 anos. 

E: Como surgiu a ideia de A História por Trás de Cada Beijo?

NG: Eu achava que eu tinha perdido a capacidade de criar e escrever as minhas próprias histórias e me sentia realizada trabalhando como tradutora e editora. Na pandemia, uma amiga querida e eu desenvolvemos um projeto para um festival online de escrita criativa e fomos agraciadas com a Lei Aldir Blanc para realizá-lo. 

Depois disso, organizamos o curso online Arquitetura do romance, da Letícia Wierzchowski, e eu fiquei responsável pela monitoria da turma, mas, assistir as aulas me fez virar aluna também. Comecei a escrever os primeiros capítulos do que depois virou A História por Trás de Cada Beijo. Foi como despertar um vulcão adormecido e não parei mais de escrever.

E: Por que ambientar a história no ano 2000?

NG: A história da Clarissa precisava acontecer em uma época em que o anonimato ainda era possível, não só para o blog em si, mas para a vida dela como um todo. Hoje em dia é quase impossível fazer alguma coisa sem postar. Eu também precisava de algo que tivesse a capacidade do que hoje em dia chamamos de viralizar. 

Pensando na minha própria vida e lendo meus diários, vi o quanto tive sorte de não ter minha adolescência e o início da minha vida adulta exposta em redes sociais. Desse modo, escolhi o ano 2000, por ser um marco interessante entre um século e outro, uma época de transição de tecnologias e por ser um passado bem recente, mas no qual a vida ainda era bem diferente do que a que vivemos hoje em dia.

E: A cidade do Rio de Janeiro parece ser bem importante para a história de Clarissa. Isso procede? Por quê?

NG: Eu sou uma petropolitana que se mudou para o Rio de Janeiro para fazer faculdade e nunca mais voltou. As duas cidades são importantes na minha vida e na minha formação, então, é bem natural que também seja assim na minha literatura. Em A História por Trás de Cada Beijo, Clarissa é uma petropolitana que, assim como eu, se descobre no Rio de Janeiro. 

Em Fora dos Planos, finalista do Prêmio Voz de Literatura, a história se passa mais em Petrópolis, no ano de 1995, embora a protagonista tenha o sonho de vir para o Rio de Janeiro. O meu terceiro romance (ainda não publicado) é um juvenil (YA) e toda a história se passa em Petrópolis nos dias atuais. 

E: O que você espera que os leitores levem dessa história?

NG: Meu primeiro objetivo é que as leitoras se conectem com a Clarissa, uma jovem em busca do seu lugar no mundo, que embora seja uma mulher no início da vida adulta, ainda carrega muita imaturidade da adolescência e não se conhece de verdade, o que a leva a cometer muitos erros. Sei que eu sou suspeita, mas eu amo muito a jornada de autodescoberta da Clarissa como indivíduo e como essa compreensão de quem ela realmente é vem a partir da escrita e da descoberta da própria sexualidade. 

Ela começa a história como uma “pobre menina rica” e termina como uma mulher disposta a arcar com as consequências das próprias escolhas. Então, o que eu gostaria que as leitoras levassem é esse olhar para si mesmas, que elas aprendam a se priorizar e a sair das caixinhas nas quais costumam ser colocadas pela sociedade.

E: Como é para você trabalhar simultaneamente como tradutora e escritora?

NG: É uma alegria e um desafio. A tradução literária não deixa de ser uma escrita autoral e criativa, mas eu sempre parto de uma narrativa que já está pronta. Na escrita das minhas histórias, eu parto do zero, preciso criar todo e cada detalhe da trama, do cenário e principalmente dos personagens e suas respectivas jornadas. Para mim, o maior desafio é conseguir dividir o meu tempo entre as duas atividades que me fascinam e definem muito quem eu sou hoje. 

E: Qual é o maior desafio da tradução literária para você? 

NG: Acho que o principal desafio é deixar a voz do autor original da obra aparecer na tradução em um texto que flua bem para o leitor brasileiro. Quando estou escrevendo os meus textos, eu preciso pensar no que quero passar para o meu público-alvo e quais reações quero despertar nele. Quando estou traduzindo, o meu maior desafio é produzir um texto em português o mais fiel possível ao texto original, não apenas em termos de conteúdo, mas também em termos de forma e estilo, levando em conta aspectos culturais, artísticos e literários.

E: Para você, o que não pode faltar em uma boa comédia romântica?

NG: Protagonistas muito humanos, com seus defeitos, medos e vulnerabilidades, colocados em situações que os façam se abrir de alguma forma para o outro sem que percebam. Isso cria uma sintonia única no casal.

 

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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura 

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