Autor também reflete sobre representatividade, a função da ficção e os desafios da profissão
Pedro Ivo é o escritor da série de HQs O Cidadão Incomum, que conta a história de super-heróis em São Paulo, e também de Entre Mundos, obra sobre fantasmas, que escreveu em parceria com Rodrigo de Oliveira. Ivo também é roteirista, publicitário e ator — trajetórias que utiliza no momento de escrever e construir seus personagens.
Agora, o autor se prepara para mostrar ao mundo as adaptações dos seus trabalhos para o universo do audiovisual. Enquanto O Cidadão Incomum se tornará um filme protagonizado por Gabriel Leone e Luis Navarro, Entre Mundos virará série, com Jean Paulo Campos no papel principal.
Em Cidadão Incomum, o leitor conhecerá Caliel, que ao ganhar superpoderes, começa a atuar como um super-herói na cidade de São Paulo. Já Entre Mundos apresenta as peripécias de um grupo de jovens que, ao entrarem em contato com um celular misterioso, descobrem que podem se comunicar com os mortos.
Em entrevista ao Entretetizei, o artista conta um pouco da sua experiência, suas inspirações e reflexões acerca de adaptações literárias. Confira!
Entretetizei: Como começou a sua trajetória como quadrinista?
Pedro Ivo: Eu sempre gostei de quadrinhos. Entrei em contato com eles antes mesmo de entrar na literatura. Foi ali que comecei a me formar artisticamente, e sempre desenhava. No começo dos anos 2000 criei um workshop de roteiro porque percebia que tínhamos artistas muito bons, mas poucos roteiristas. Busquei aprender com material que vinha de fora, no comecinho da internet, e montei um curso para dar aulas de roteiro, mas eu ainda não roteirizava direito.
Depois, desencanei um pouco dos quadrinhos, me formei ator e, nesse processo, percebi que escrever uma peça é muito semelhante a escrever um quadrinho. Há vários pontos de convergência entre a roteirização de filmes, quadrinhos e livros. Passei a me especializar mais nisso e, por causa do meu trabalho no marketing, comecei a trabalhar efetivamente com quadrinhos quando surgiu a oportunidade de fazer tiras para algumas marcas. Ficamos dois anos produzindo tiras semanais para duas marcas, e ali percebi que podia viver de quadrinhos.
Depois, pulei para a produção de storyboards para publicidade, um trabalho necessário para sobreviver. É aquela coisa: desenhar o quadrinho que vai virar comercial para o diretor fazer os cortes. Isso ajudou a treinar bastante meu traço. Também publiquei quadrinhos na internet, tirinhas, charges políticas, inclusive algumas para o programa Agora é Tarde, do Danilo Gentili. Só publiquei de fato um quadrinho longo com O Cidadão Incomum, de 200 páginas, colorido, bem trabalhado. Esse foi meu primeiro grande trabalho, mas antes já tinha publicado o livro O Cidadão Incomum.
E: E o roteiro veio antes para você, certo?
PI: Veio antes. Eu escrevia porque nasci na cultura de blog, no começo dos anos 2000. Era uma forma de expressão na internet e também de divulgar meus textos. Depois fui estudar roteiro e, quando estudei arte dramática, percebi que me interessava mais pela escrita e construção da peça do que pela atuação. Na publicidade aprendi a escrever roteiros de vídeos institucionais e comerciais.
E: E de onde surgiu a vontade de viver contando histórias?
PI: Porque eu era ruim em todas as outras coisas (risos). Tive uma vida escolar complicada: nasci em 1981, provavelmente tinha déficit de atenção, mas na época não havia diagnóstico. Fracassei em quase tudo na escola, repeti de ano várias vezes e acabei fazendo supletivo para entrar no mercado de trabalho. Não tive vida acadêmica. Mas sempre fui bom em escrever, desenhar e fazer as pessoas rirem. Me comunicava muito bem. Então entendi que fracassaria em tudo que não fosse contar histórias, desenhando ou falando delas.
E: Você tem algum cineasta, publicitário ou quadrinista que te influenciou?
PI: Hoje não busco mais referências em quadrinhos ou literatura de ficção. Leio outras coisas e estou mais preocupado em entender a realidade para escrever melhor. No começo, um artista que me influenciou muito foi o roteirista Brian Michael Bendis. Ele pegou personagens defasados, como o Homem-Aranha, e deu uma roupagem nova.
Em uma entrevista, ele disse que observa mais do que lê, e isso sempre foi meu caso também, já que eu tinha dificuldade de leitura. Capturava o que observava e transformava em história. Gosto muito do trabalho dele, que é cheio de texto, e foi minha maior influência.
E: E como você faz hoje para “entender a realidade”?
PI: Como trabalho no computador, escrevendo ou desenhando, acompanho notícias no YouTube e sites que assino. Hoje me interesso mais por análises de fatos do que pelos fatos em si, já que vivemos um momento em que a percepção sobre os acontecimentos é mais importante do que os acontecimentos.
Estou hiper focado em política e observo essa dicotomia radical entre direita e esquerda, que elimina qualquer possibilidade de opinião complexa. É um tempo muito maluco, meio histórico. Meu trabalho é acompanhar o que as pessoas estão dizendo e transformar isso em histórias.
E: Você mencionou o roteirista Bendis, e a adaptação de Entre Mundos também apresenta mudanças nos personagens. Como foram essas mudanças?
PI: O livro, escrito com Rodrigo de Oliveira, tem um tom mais novelesco. É sobre um grupo de brasileiros de diferentes classes sociais que convive com um celular que capta vozes dos mortos, com uma dinâmica um pouco caricata. Para a adaptação audiovisual, quisemos dar um tom mais realista.
Colocamos a história na periferia de São Paulo, com arquétipos sociais brasileiros — o jovem coreano do Bom Retiro, a menina da periferia, o playboy dos Jardins. Assim podemos falar de problemas brasileiros e criar uma realidade paralela à nossa, porque acho que não tem sentido não falar da realidade.
O produtor Luiz Navarro, que é da periferia, topou na hora, sentindo falta de uma boa ficção científica ambientada nesse contexto. Quanto mais real for o drama, mais impactante será a parte fantástica. É importante para a galera se identificar.
E: E como foi escrever o livro em parceria com Rodrigo de Oliveira?
PI: Foi ótimo, por conta do Rodrigo, tanto que estamos escrevendo a continuação. A ideia e a sinopse foram minhas, e ele entrou com o estilo dele. Como autor da Saga dos Mortos, ele tem um jeito mais ousado, cria coisas que eu talvez não teria coragem de criar. Foi um processo respeitoso, natural e produtivo. Cada um defende a suas ideias, mas os dois cedem.

E: O livro foi publicado em 2021. Como foi a recepção dos leitores?
PI: Recebemos bastante retorno, diferentes, como ele tem a base de fãs dele, eu tenho a minha. Mas o lançamento foi tímido por causa da pandemia. A obra pegou a “cauda longa”: aos poucos, leitores foram descobrindo e comentando, principalmente na Amazon e no Skoob. Agora, com a série, esperamos alcançar o público que gostaríamos desde o início.
E: E de onde surgiu a ideia de escrever sobre espíritos?
PI: Eu tenho uma curiosidade muito grande sobre alguns assuntos extrafísico, religiosos. E eu sempre tomo cuidado para falar sobre essas coisas porque a gente tem uma base cultural muito rica, mas eu acho que não temos muita maturidade para discutir sobre coisas que não acreditamos.
Eu sou espírita, tive uma educação espírita. Para mim está tudo no mesmo balaio de gato. Tem Saci, tem gnomo, tem o pessoal da umbanda, tudo existe. Decidi falar da maneira crua sobre isso, imaginar se o meu celular começasse a transmitir a voz dos espíritos a minha volta. Como seria isso?
Eu tive que criar uma mitologia, que foi a parte mais difícil. A gente criou um universo onde tudo existe. Então existe o céu católico, o céu da testemunha de Jeová. Cada um vai para onde acredita que vai. Só que quem está muito preso às narrativas da Terra fica no limbo, entre o mundo espiritual e o mundo físico, tentando interagir e influenciar os vivos. E por isso coloquei esse aparelho na mão de crianças, jovens, porque são ideias que eu tinha nessa idade.
E: Quais desafios você vê como autor no contexto atual?
PI: O maior desafio é que ficção e realidade estão sendo tratadas como a mesma coisa. Obras de ficção acabam sendo usadas como bandeiras sociais, e isso limita a liberdade criativa. Eu entendo as razões, todos querem ter a narrativa para si, e parece que a obra de ficção precisa pertencer a uma narrativa social. Mas acho que a longo prazo isso pode ser prejudicial.
Eu preciso ter cuidado o tempo todo e isso pode impactar negativamente a qualidade da obra. Eu não estou falando em cometer crimes. Já passei, por exemplo, por questionamentos sobre criar um super-herói trans sem ser trans. Meu irmão é trans, e o observando percebi que ele seria um personagem muito interessante. Eu fui cobrado por não ser trans — a comunidade LGBTQIAP+ curtiu muito — quem me cobrou não era da comunidade.
Não que eu tenha sido cobrado severamente, mas muitos me perguntaram qual era a minha relação com a transsexualidade e precisei dar justificativas. Defendo que o autor deve observar a realidade e criar personagens como seres humanos complexos, com virtudes e defeitos, sem os reduzir a estereótipos.
E: E o que podemos esperar do tom da série Entre Mundos?
PI: Estamos afinando o tom, mas será mais um drama social com fantasmas reais — suspense social com espíritos. A principal diferença na adaptação é que, no audiovisual, tudo é objetivo: todos veem a mesma maçã, não a maçã que imaginam ao ler.
A obra não é só minha, a série é uma obra coletiva — do diretor, roteiristas, produtores — então a história original serve de base para algo novo. Acho que essa é a parte mais divertida e que dá mais medo.
E: E quanto ao receio das mudanças na adaptação em relação ao público leitor?
PI: Eu estou em um processo mais avançado da adaptação de O Cidadão Incomum, que será um filme. Quando começou sair a escalação, comecei a sentir um pouco essa pressão vinda do público leitor. Mas eu acho muito legal que a galera se importe a esse ponto. Não tenho medo de crítica.
No audiovisual, há menos controle do autor sobre o produto final. Eu estou gostando muito dos caminhos que as adaptações dos meus livros estão tomando. Prefiro pensar que, se o filme for ruim, o livro continua lá, e se for bom, melhor ainda. Nosso objetivo não é repetir o que já existe, mas propor algo novo. Acho que o leitor vai ficar muito satisfeito, mas estamos criando uma coisa nova.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









