Cultura e entretenimento num só lugar!

Foto: divulgação/wave.filmes

Entrevista | Seungyoun Lee fala sobre as florestas invisíveis que conectam mito, ciência e imaginação

Artista coreana formada em Seul, Daejeon, Austrália e Londres transforma física, memória e espiritualidade em ecossistemas vivos que crescem dentro e fora das páginas

Seungyoun Lee nasceu em Seul, em 1982, filha de um físico que a levou a transitar desde cedo entre mundos aparentemente distantes: a precisão da ciência e a fluidez da imaginação. Após viver na Austrália e retornar à Coreia, estudou Design na Universidade Hongik e, mais tarde, aprofundou sua pesquisa sobre narrativas ecológicas na Central Saint Martins, em Londres.

Ao longo dessa trajetória, desenvolveu uma obra que se expande do desenho para ferro, madeira, tecido, vídeo e instalações, reinterpretando temas como civilização, religião, guerra e identidade a partir de uma sensibilidade coreana. Em séries como A Floresta do Mofo Dourado e A Floresta Invisível, Lee cria ambientes que parecem respirar, mudando com a luz, com o espaço e até com quem passa por eles.

Foto: divulgação/wave.filmes

Nesta entrevista, ela discute como mito, ciência e sensação se entrelaçam em seu processo criativo. Também explica por que suas florestas funcionam como organismos autônomos e revela o que esse ecossistema artístico ainda deseja contar. Confira: 

Entretetizei: A Floresta do Mofo Dourado apresenta um ecossistema que parece vivo, pulsante e quase mítico. Que revelações pessoais ou sensações despertaram em você a necessidade de criar essa floresta em forma de livro?

Seungyoun Lee: A Floresta do Mofo Dourado começou com meu desejo de registrar os movimentos invisíveis da vida  que eu sinto ao caminhar pela floresta.

As árvores antigas e as raízes gigantes que encontrei nas florestas da América do Sul deixaram uma impressão profunda em mim.

O ciclo constante de desaparecer e crescer me soou quase como algo mítico.

O formato do livro me permitiu registrar essa vibração sutil e transformá-la em uma floresta em páginas.

E: No processo de transformar o livro em instalação, com o projeto A Floresta Invisível, o que você descobriu sobre esse universo que só pôde ser revelado fora das páginas?

 SL: A Floresta Invisível não nasceu do livro – na verdade, começou como uma instalação e obras bidimensionais criadas para o Museu de Arte Moderna e Contemporânea da Coreia.

 A história que surgiu naquele espaço foi depois organizada em formato de livro.

Na exposição no Brasil, a floresta voltou ao espaço real e encontrou luz e vegetação locais. Com isso, cresceu de forma mais diversa e em constante transformação.  A instalação passou a se mover junto com o ambiente, como um organismo vivo.

E: O mofo dourado, em suas obras, parece simbolizar algo além do biológico, quase como um elo entre o visível e o oculto. O que esse organismo representa para você em termos de imaginação, memória e espiritualidade?

SL: Para mim, o “mofo dourado” é menos um organismo biológico e mais uma metáfora que liga o visível ao invisível. Ele cresce em lugares escondidos, assim como nossas memórias, imaginação e sensações espirituais.

Por isso, no meu trabalho, o mofo dourado representa forças silenciosas que sustentam e movem o mundo. É uma pequena linha de conexão entre elas.

E: A floresta, para você, é frequentemente um espaço-sujeito, não um cenário. Como essa visão se manifestou na transição do livro ilustrado para a exposição imersiva?

SL: Para mim, a floresta não é um cenário, mas um ser que se move e fala. Na exposição no Brasil, instalei A Floresta Fluida em posição inclinada, “escorrendo”, para que o público pudesse sentir o movimento da floresta mais de perto.

Nas laterais, coloquei frases curtas em coreano e português que expressam o “coração” da floresta, criando a sensação de que ela observa e dialoga com quem passa.

Assim, a floresta deixa de ser um pano de fundo e se torna algo com quem respiramos junto.

 E: Suas obras combinam mitologia, ciência e sensorialidade. Nesse novo projeto, onde você percebe que esses três mundos mais se encontram e onde eles mais entram em conflito?

SL: No meu trabalho, mito, ciência e sensação não aparecem separadamente, eles se conectam de forma natural, como uma floresta.

É difícil apontar um momento específico em que colidem ou se encontram, porque eles sempre coexistem. Creio que essa mistura e esse limite “borrado” criam novos caminhos de imaginação.

Foto: divulgação/wave.filmes

E: No desenvolvimento da A Floresta Invisível, houve algum elemento, som, cor ou textura que ‘apareceu’ sozinho, como se a obra tivesse vontade própria?

SL: Sim. O espaço de exposição no Brasil tinha grandes janelas onde o sol entrava diretamente.

Por isso, as cores da A Floresta Fluida mudavam conforme a direção e a intensidade da luz. Era como se a obra criasse suas próprias expressões.

As plantas e os elementos da instalação também mudavam naturalmente com o clima e a umidade locais. Senti que a obra não estava sendo finalizada por mim, mas revelando-se sozinha à medida que encontrava o ambiente.

E: Grande parte do seu trabalho provoca o público a repensar modos de coexistência. Que tipo de reflexão sobre convivência – humana, interestelar, ecológica – você espera despertar com esse novo ciclo artístico?

SL: Na floresta, raízes escondidas e pequenos organismos convivem apoiados uns aos outros. Acredito que nós também vivemos conectados, mesmo com ritmos e formas diferentes. 

Não desejo oferecer uma grande resposta, mas sim inspirar uma pequena pergunta: “Com que estou conectado?”.

Acredito que essa pergunta é o primeiro passo para pensar em coexistência.

E: Se a floresta pudesse falar, que pergunta você acha que ela devolveria ao público que atravessa suas instalações?

SL: Acho que ela perguntaria: “O que você está vendo? E o que está deixando passar?”. 

A floresta é cheia de movimentos invisíveis e pequenos tremores. Isso continua nas duas florestas que desenhei no livro, a floresta em pé e a floresta invertida. São duas faces do mesmo mundo. 

Talvez a floresta também dissesse:  “Eu também estou tremendo. E você, que tipo de tremor sente?”.

Não é uma pergunta que exige resposta, mas um convite para perceber as pequenas mudanças ao redor.

E: Tanto no livro quanto na exposição, há uma sensação de transformação contínua: fungos que crescem, tecidos que se movem, imagens que parecem respirar. O que o tema da metamorfose representa na sua trajetória atual?

SL: Na floresta, desaparecer e crescer acontecem ao mesmo tempo. Esse ciclo silencioso me inspira muito. Em A Floresta Fluida e em A Floresta do Mofo Dourado, a floresta nunca está parada – ela está  sempre em mudança. Aceito essa mudança como parte natural da obra.

Para mim, metamorfose significa deixar espaço para que o trabalho cresça sozinho e encontre novos  caminhos.

E: Se A Floresta do Mofo Dourado é uma narrativa, e A Floresta Invisível é um ambiente vivo, qual seria o próximo capítulo dessa história? Há algo que você sente que esse ecossistema ainda quer revelar?

SL: Vejo A Floresta do Mofo Dourado e A Floresta Invisível como duas cenas de um mesmo mundo. Não sei ainda qual será o próximo capítulo, mas sinto que essa floresta continua se expandindo.

Ultimamente, tenho me interessado por instalações que se conectam mais profundamente com luz, ar e plantas.

Talvez a próxima história apareça como movimento ou respiração. O que sei é que esta é uma floresta aberta, que pode renascer em qualquer lugar. Estou acompanhando esse fluxo e esperando para ver qual forma surgirá a seguir.

 

O que achou da entrevista? Compartilhe com a gente nas redes sociais do Entretê – Facebook, Instagram e X – e nos siga para ficar por dentro de todas as novidades do mundo do entretenimento e da cultura.

Leia também: Crítica | A Natureza das Coisas Invisíveis: quando enfrentamos a nossa própria finitude

 

Texto revisado por Angela Maziero Santana 

Nós usamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar a sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdo de seu interesse. Ao utilizar nossos serviços, você concorda com tal monitoramento. Acesse nossa política de privacidade atualizada e nossos termos de uso e qualquer dúvida fique à vontade para nos perguntar!