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Foto: Thiago Gouvea

Entrevista | Tuca Moraes e a Eternidade de Morte e Vida Severina

Atriz revisita o clássico de João Cabral de Melo Neto e revela os bastidores da montagem que reafirma a força da arte popular

Entrar no universo de Morte e Vida Severina é como embarcar numa viagem poética e musical, onde cada gesto, cada palavra e cada nota contam histórias de vida, luta e esperança. Para Tuca Moraes, revisitar esse clássico é muito mais do que atuar: é sentir a obra pulsar no corpo e na alma, e compartilhar isso com o público de forma viva e intensa.

Em uma entrevista franca e transparente, concedida ao Entretetizei, a atriz comenta a diferença entre a primeira vez que atuou nesse espetáculo, há 25 anos, e a experiência atual. Ela também exalta a importância de todos os trabalhadores diretos que tornam a peça possível e ressalta como a história continua atemporal.

Segue a entrevista completa e na íntegra:

Entretetizei: Morte e Vida Severina é uma obra profundamente poética e simbólica. Como foi para você o processo de mergulhar nesse texto e encontrar o tom certo entre a poesia e a interpretação cênica?

Tuca Moraes: Morte e Vida Severina é um auto de Natal. A encenação, e por consequência, a interpretação segue a tradição do teatro popular, a tradição dos praticáveis, do teatro de feira. Não é uma interpretação dramática, psicológica.

Foto: Júlia Freiman

E: O espetáculo aborda temas como desigualdade, fé e resistência, que continuam muito atuais. De que forma você enxerga a relevância dessa história no Brasil de hoje?

TM: A relevância é que, infelizmente, a desigualdade, a fome, a miséria não estão restritas ao Brasil. Essa distopia se espairou pelo mundo…. Os Severinos não estão mais na Serra da Costela apenas… os Severinos são cada vez mais e em mais pontos do mundo. Felizmente, em 2014, no governo Lula, do Partido dos Trabalhadores, o Brasil saiu do mapa da fome, graças a políticas públicas sociais.

Voltou, porém, a figurar no mapa da fome entre 2019 e 2021, durante a gestão Bolsonaro. Após dois anos do retorno de Lula, em 2025, o Brasil saiu novamente do mapa da fome, por conta do Programa Plano Brasil Sem Fome.

Esses ir e vir comprovam que a fome é histórica. Acabar com a fome é uma vontade política, depende dos que governam. A vida Severina é uma consequência da ganância, da concentração dos recursos, da proteção do privilégio de poucos em detrimento de muitos.

E: A encenação mistura música, corpo e palavra de maneira intensa. Como foi o trabalho de preparação física e vocal para sustentar esse ritmo e essa fusão de linguagens?

TM: A preparação corporal do Morte e Vida Severina é realizada pela Luiza Moraes e Mika Makino. O elenco tem treinos diários nos ensaios e nos dias de espetáculo da temporada. As aulas englobam técnicas de gyroknesis, pilates, treinos com bastão, jogos corporais de ritmo, reflexo, risco, tonicidade, resistência, criados pra ativar e colocar os corpos dos atores disponíveis para a encenação. No caso específico do Morte e Vida Severina temos ainda aulas de danças populares : cavalo marinho, coco, jogo, samba de raiz… Não raro, as preparadoras criam novos exercícios e jogos que são vinculadas às necessidades da movimentação cênica. O trabalho da companhia exige muita precisão. O domínio do corpo é imprescindível.

A preparação vocal é de Ana Calvente, que além de preparadora vocal é fonoaudióloga. A preparação consiste em exercícios de aquecimento vocal, ensinar as músicas e as vozes, conforme a escritura na partitura; distribuir os solos, dividir e timbrar o coro. Ana cuida da nossa saúde vocal e é incansável nos detalhes e dicas coletivas e personalizadas para 25 atores.

Estamos sempre em trabalho. Essa é a vantagem do teatro. O trabalho não tem fim. Sempre se pode dar um passo a mais, ir além.

Pra isso, os ensaios têm 7 horas de duração e, nos dias de espetáculo, chegamos 4 horas antes, pra fazer esses aquecimentos de corpo, voz e cena. O sucesso do nosso Morte e Vida Severina não seria possível sem a dedicação e competência dessas profissionais.

Foto: Thiago Gouvea

E: Você tem uma trajetória marcante no teatro. O que mais te desafiou e também te emocionou nesse novo trabalho com “Morte e Vida Severina”?

TM: Morte e Vida Severina foi marcante em todas as edições, a começar da estreia no ano 2000, no Castelo São Jorge, em Lisboa. Mas a versão de 2025 tem algumas peculiaridades. É sem dúvida o melhor coletivo. Na afinação, no timbre, mas sobretudo na defesa do espetáculo e do coletivo. O elenco é grande. São 25 atores e 4 músicos. Quinze são do núcleo fixo, logo, 14 são de fora. E todos defendem o espetáculo e a companhia. Dá gosto estar junto, trabalhar junto. Isso me emociona.

Também fico emocionada pelo fato de a Companhia Ensaio Aberto realizar um espetáculo que junta tantos profissionais bacanas, na criação, no palco, nos bastidores. É muita gente. São mais de 60 empregos diretos. É uma super estrutura. Isso é um gesto generoso de todos. Me comove o verbo dividir.

Agora do ponto de vista pessoal, é poder revisitar um espetáculo de repertório e sentir um amadurecimento em cada gesto, fala, música. Poder viver o meu trabalho no tempo desse espetáculo… ir além. Faço as mesmas coisas de 25 anos atrás, uso o mesmo figurino, os mesmos objetos de cena, mas tudo é muito diferente. Ver o tempo e o efeito dele é bom.

E, como cereja do bolo, é maravilhoso ver meu neto, de 2 anos, cantar as músicas, tocar os instrumentos, imitar os atores e querer ver todos os ensaios e os espetáculos. É a terceira geração da Ensaio Aberto. Antônio foi iniciado e é forjado na Morte e Vida Severina. É um privilégio ver uma criança beber na fonte de João Cabral Melo Neto, Chico Buarque, Carybé… Ninguém sai impune.

E: Se pudesse deixar uma mensagem para o público que ainda vai assistir à peça, o que você gostaria que as pessoas levassem consigo ao final do espetáculo?

TM: “Muita diferença faz entre lutar com as mãos ou abandoná-las pra trás” (Mestre Carpina)

(…)

é uma criança pequena,

enclenque e setemesinha,

mas as mãos que criam coisas

nas suas já se adivinha

É belo porque com o novo

todo o velho contagia. (…)

(música “De sua formosura”)

“E não há melhor resposta que o espetáculo da vida” (Mestre Carpina)

 

Curiosa para assistir a peça e ver essa diva em ação? Morte e Vida Severina chegará em SP daqui a pouquinho, fique atenta! E conte pra gente o que achou da matéria e siga o Entretetizei nas redes sociais Instagram, Facebook e X para ficar por dentro de outras notícias do mundo do entretenimento.

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Texto revisado por Kaylanne Faustino

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