Thriller de Kleber Mendonça Filho mistura espionagem, memória histórica e estética ousada para retratar os fantasmas ainda vivos da ditadura de 1977
Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho nos leva ao Recife de 1977, num Brasil sufocado pela ditadura militar, para contar a história de Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia atormentado por um passado político incerto. Ao retornar à sua cidade natal durante o Carnaval, na esperança de reencontrar seu filho, o homem percebe que o refúgio que buscava está longe de existir, a opressão está presente em cada rua, em cada olhar desconfiado. O filme, além de thriller, é um retrato denso da paranoia política, da memória coletiva e das feridas que persistem no tecido social.
A direção de arte, o cenário, o figurino e a cinematografia colaboram para transportar o espectador ao calor opressor dos anos 70: ruas úmidas, luzes artificiais tremeluzindo, sombras que parecem conspirar. Através de escolhas visuais poderosas, Kleber Mendonça constrói atmosferas tensas e realistas, mas permeadas de simbolismo, como por exemplo cenas que beiram o surrealismo, sugerindo que a realidade política também tinha formas de horror próprio.
Wagner Moura se destaca ao incorporar o personagem com nuances de fragilidade e resistência: não é um herói clássico. Ele é um homem dividido, traído, tentando reconstruir algo, mas sempre sob o risco de ser arrancado da segurança mínima que julga ter. Sua atuação convence justamente porque resiste ao maniqueísmo: ele age mais por medo, por amor, por necessidade de sobreviver do que por idealismo puro. O elenco complementar dá suporte sem ofuscar: personagens secundários que vivenciam dilemas morais parecidos, como quem colabora ou resiste, quem observa ou esconde.

Apesar de seus méritos artísticos, O Agente Secreto exige paciência do público. São cerca de 2h38min de narrativa que alterna momentos de intensidade com passagens de contemplação, digressões visuais ou simbólicas que podem parecer arrastadas. Alguns espectadores poderão se sentir impacientes em meio a tanta atmosfera, sobretudo se esperavam um thriller com ritmo mais acelerado. Mas essa lentidão deliberada parece parte do propósito: mostrar que o horror institucional não é linear, que a memória contamina o cotidiano, que o passado nunca está realmente encerrado.
O filme também se destaca por sua coragem política: trazer à tona não só os horrores da ditadura, mas os resíduos desse período, as feridas que atravessam gerações, a sensação de insegurança, as injustiças ainda não reparadas. As comparações com Ainda Estou Aqui e outros títulos recentes que tratam da memória brasileira aparecem com frequência, mas aqui o diretor vai além de revisitar o passado, ele expõe como esse passado vive em nossos espaços físicos e psicológicos. A ditadura é personagem invisível, mas presente, persistente.
Em suma, O Agente Secreto é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro recente: ambicioso, necessário e artisticamente rigoroso. Ele talvez não agrade a quem espere puro entretenimento ou ação frenética, mas para quem busca uma obra que interpele, que sacode, que questiona, o filme entrega alto valor. Resta agora ver como o público nacional o receberá quando estiver em cartaz e o quanto o cinema político continuará encontrando espaço para respirar entre o formalismo e a urgência.
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









