O filme resgata Brasília dos anos 80 ao retratar família, identidade e frustrações com delicadeza
Em Pequenas Criaturas, Anne Pinheiro Guimarães dirige uma narrativa genuína e introspectiva ambientada em Brasília, em 1986, ano de efervescência política e de formação de identidades. A protagonista Helena (Carolina Dieckmmann) se vê repentinamente sozinha na nova capital futurista quando o marido parte em viagem de negócios, deixando para trás não só uma casa desconhecida, mas expectativas silenciadas. À medida que ela lida com a solidão, sua jornada se entrelaça com as inquietações de seus dois filhos: um adolescente na busca do primeiro amor, o outro, uma criança que ainda enxerga além do visível, acreditando em magia e em amigos imaginários.
O grande mérito do filme está em sua capacidade de capturar minúcias afetivas, gestos contidos, olhares que dizem mais que diálogos, silêncios que ecoam o que não pode ou não se diz. A ambientação de Brasília, ainda jovem e promissora, funciona quase como coadjuvante simbólico: uma cidade-futura, ultramoderna em seus traços arquitetônicos, mas vazia de aconchego para quem chega sozinho, deslocado. A fotografia de Pablo Baião e o design de produção revelam essa tensão entre o progresso concreto e a atmosfera emocional flutuante dos personagens.

Letícia Sabatella, Caco Ciocler e Fernando Eiras desempenham papéis de suporte que ganham vida justamente pelo contraste: mães que ecoam com o silêncio resignado, figuras masculinas ausentes ou autoritárias, vozes antigas que resistem. Théo Medon, que interpreta o filho adolescente, entrega solos emocionantes no retrato da rebeldia típica, não apenas por se opor à nova casa ou ao pai distante, mas por querer encontrar seu lugar no mundo. O personagem do menino de sete anos contribui com o toque mágico da narrativa, desenhando uma Brasília de infância, na qual ver o invisível faz parte do processo de cura.
Porém, o longa nem sempre consegue equilibrar os ritmos. Alguns momentos de sua narrativa parecem se estender demais sem impacto claro, como se o filme hesitasse entre ser memórias íntimas ou drama psicológico. Esse compasso irregular às vezes compromete a urgência emocional. Há cenas belíssimas e outras que se perdem em um limbo de contemplação um pouco repetitiva. Ainda assim, essas falhas não eclipsam o valor do filme, que permanece impressionante pela coragem de escavar dores cotidianas e afetos leves, sem apelar para o melodrama.
Em última análise, Pequenas Criaturas é um filme de sutilezas poderosas: sobre mulheres que se reinventam, crianças que sonham e vidas onde a cidade é tanto refúgio quanto cárcere. É uma obra que convida ao silêncio e à reflexão, tanto sobre o que deixamos para trás quando mudamos, quanto sobre aquilo que, mesmo invisível, insiste em nos acompanhar. Para quem gosta de cinema que respira, que mora na alma, este longa é uma pequena grande descoberta.
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Texto revisado por Larissa Couto @larscouto









