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Habeas Corpus: Marjorie Estiano e Any Gabrielly brilham em drama jurídico que vai muito além dos tribunais

A série explora as contradições humanas, os erros do sistema e o difícil caminho entre culpa, justiça e reparação

Na última quarta (23), a Netflix lançou Habeas Corpus, seu primeiro drama jurídico brasileiro. A produção tem oito episódios e acompanha uma professora de Direito e um grupo de estudantes que decide reexaminar a condenação de um jovem que afirma não ter cometido o crime pelo qual está preso. Inspirada em casos reais de revisão criminal, a série usa o universo jurídico como ponto de partida para discutir também desigualdade, relações de poder, ambição, ética, trauma e as consequências das escolhas humanas.

Imagem: reprodução / O Globo

 

Na trama, Inez Franco, interpretada por Marjorie Estiano (Sob Pressão, 2017), é uma respeitada professora de Direito e ex-advogada criminalista que deixou os tribunais após uma tragédia. Anos depois, ela reúne cinco estudantes para criar um grupo de revisão criminal e investigar o caso de Jonathan, jovem condenado por um crime que afirma não ter cometido.

Entre os alunos está Marina, vivida por Any Gabrielly (Buuu – Um Chamado para a Aventura, 2015), uma aluna brilhante que possui uma motivação pessoal para se aproximar de Inez e do caso. A investigação leva o grupo a confrontar novas evidências, interesses profissionais e personagens ligados ao passado da professora. Entre eles está Murilo, interpretado por Vladimir Brichta (Velhos Bandidos, 2026), ex-marido e antigo sócio de Inez, que agora está do outro lado da disputa.

A partir daí, o caso deixa de ser apenas uma questão acadêmica ou jurídica e passa a envolver diretamente relações pessoais, profissionais e afetivas. Sem entregar os principais acontecimentos da temporada, é possível dizer que a série trabalha justamente com a pergunta que sustenta sua narrativa: quando uma condenação pode estar errada, ainda existe espaço para reparação?

Foto: divulgação / Netflix

 

Um dos grandes méritos de Habeas Corpus está na construção de Inez. No início da carreira, a personagem aparece movida pela ambição, pela vontade de ser a melhor e por uma intensa sede de reconhecimento e poder. É aquela energia quase visceral de quem está começando e acredita que pode conquistar tudo, inclusive quando isso significa caminhar perigosamente próximo dos limites éticos da profissão.

Essa característica é fundamental para compreender a mulher que encontramos anos depois. Inez comete um erro que cobra um preço alto em diferentes áreas de sua vida. Quando retorna ao centro da narrativa, mais madura e experiente, ela não está simplesmente tentando vencer um novo caso. Está, de alguma maneira, tentando lidar com aquilo que fez e encontrar uma possibilidade de reparação.

A série acerta ao não transformar essa trajetória em uma redenção simples. Inez não se torna uma personagem perfeita. Ela amadurece, carrega o trauma, enfrenta as consequências de suas escolhas e tenta compreender o que fazer com tudo aquilo que viveu. É um arco dramático consistente justamente porque as experiências da personagem não são decorativas: elas modificam a maneira como Inez enxerga a Justiça, o trabalho e a própria vida.

Outro ponto de destaque está na complexidade dos personagens. A série apresenta pessoas contraditórias, capazes de acertar e errar, amar e manipular, agir por impulso e depois lidar com as consequências. Essa escolha fortalece o drama porque os conflitos não dependem apenas da existência de um antagonista evidentemente perverso. Eles surgem também das diferentes interpretações que cada personagem possui sobre aquilo que considera justo. É nesse espaço de ambiguidade que a série encontra boa parte de sua força.

Os diálogos acompanham essa proposta. Há conversas francas, confrontos e momentos de escuta em que a verdade, mesmo quando dolorosa, precisa ser colocada sobre a mesa. A narrativa também permite que personagens discordem sem transformar necessariamente toda divergência em uma guerra. Existe espaço para aprendizado, responsabilidade e amadurecimento.

Imagem: divulgação/ Netflix

A relação entre Inez e seus alunos acrescenta outra camada interessante à narrativa. O grupo reúne jovens que ainda estão descobrindo a profissão, o sistema e seus próprios limites. Eles carregam idealismo, indignação e impulsividade, características naturais de quem ainda está construindo sua experiência de vida.

Inez ocupa o outro lado dessa equação. A professora representa a experiência, mas não é construída como alguém que simplesmente possui todas as respostas. Ela entende os impulsos dos estudantes, valida determinadas inquietações e, ao mesmo tempo, mostra que uma decisão aparentemente correta pode produzir consequências que um olhar mais jovem ainda não consegue dimensionar.

Esse choque entre gerações é uma das relações mais interessantes da série porque não transforma juventude e experiência em conceitos opostos. Pelo contrário: os dois lados têm algo a ensinar e algo a aprender.

Embora o Direito seja o centro da trama, Habeas Corpus está interessada em algo maior: o sistema humano que existe por trás das instituições. A série aborda questões como machismo, lobby, nepotismo, abuso de autoridade, subornos, chantagens, influência e desigualdade, mostrando como relações de poder podem interferir nos caminhos da Justiça.

O olhar também alcança aqueles que possuem menos recursos e menos influência dentro desse sistema. Por isso, o drama não trata a Justiça como uma entidade abstrata que simplesmente funciona ou deixa de funcionar. A Justiça passa pelas pessoas que a operam, pelas estruturas que as cercam e pelas oportunidades, ou pela falta delas, disponíveis para quem está diante do sistema.

O que acontece quando aquilo que queremos entra em conflito com aquilo que sabemos ser correto? Nesse sentido, Habeas Corpus é tanto uma história sobre leis quanto sobre responsabilidade, escolhas e consequências.

Foto: divulgação/ Netflix

No centro dessa construção estão as atrizes Marjorie Estiano e Any Gabrielly. A parceria entre as duas é um dos grandes destaques da série. Inez e Marina possuem semelhanças em uma visão mais ampla: inteligência, força, ambição e uma relação intensa com aquilo em que acreditam. Ao mesmo tempo, suas experiências e motivações fazem com que sejam personagens bastante diferentes.

Essa combinação cria uma relação de espelhamento interessante. Uma personagem revela aspectos da outra, mas nenhuma delas precisa se diminuir para ocupar seu espaço. Elas se confrontam, se reconhecem, entram em tensão e, justamente por serem tão parecidas em alguns aspectos e tão diferentes em outros, ajudam a revelar as contradições uma da outra.

Marjorie sustenta uma Inez marcada pelo controle, pela experiência e pelas consequências do passado, enquanto Any constrói uma Marina atravessada por juventude, determinação e motivações próprias. O resultado é uma dupla que consegue sustentar a complexidade da relação sem transformar o conflito em uma disputa rasa entre duas mulheres.

As duas atrizes também passaram por preparação específica para o universo jurídico. A produção contou com consultorias e o elenco teve contato com profissionais da área, acompanhou julgamentos e estudou procedimentos e conceitos relacionados à revisão criminal.

Apesar de ser uma obra ficcional, Habeas Corpus parte de uma realidade bastante concreta. A série foi inspirada no trabalho do Innocence Project Brasil, organização criada para investigar possíveis erros judiciários e atuar na reversão de condenações injustas.

A parceria também ultrapassou a inspiração temática. Profissionais do projeto contribuíram para a preparação do elenco e para a compreensão dos dilemas e procedimentos relacionados à revisão criminal. Esse cuidado ajuda a explicar por que o universo jurídico da série não funciona apenas como decoração narrativa.

Esta é uma obra que confia na inteligência do público. A série não precisa dizer o tempo inteiro quem é o certo e quem é o errado. Ela apresenta as escolhas, consequências e diferentes formas de enxergar a Justiça e permite que o público acompanhe as contradições de cada personagem.

No fim, o Direito é apenas o cenário. O que está realmente em julgamento são as pessoas e sua capacidade de reconhecer uma falha e tentar repará-la. É uma história sobre amadurecimento, ética, poder, desigualdade e relações humanas. Com boas atuações, personagens complexos e uma narrativa que equilibra investigação, tensão jurídica e drama humano, a produção se apresenta como uma obra brasileira que encontra no universo dos tribunais uma maneira de falar, sobretudo, sobre nós mesmos. Palmas para o audiovisual brasileiro!

E você, já assistiu à Habeas Corpus? Conta pra gente o que achou da série e, se ainda não viu, coloque na lista! Para acompanhar mais críticas, notícias, lançamentos e tudo o que movimenta o universo da cultura e do entretenimento, siga o Entretê nas redes sociais – Facebook, Instagram e X – e compartilhe esta matéria com quem também ama uma boa série brasileira.

 

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Texto revisado por Crystal Ribeiro

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