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Resenha | Love Kills aposta em vampiros para renovar a fantasia nacional

Longa de Luiza Shelling Tubaldini usa o universo dos vampiros para explorar diferentes realidades da capital paulista 

Produzir fantasia no audiovisual brasileiro ainda é um ato de coragem. Em uma indústria frequentemente dominada por dramas, comédias e adaptações de histórias reais, obras que apostam no sobrenatural continuam ocupando um espaço reduzido e raramente recebem a mesma atenção dedicada às produções internacionais do gênero. Ainda assim, cineastas seguem explorando caminhos menos convencionais e demonstrando que criaturas fantásticas também podem habitar cenários profundamente brasileiros.

Foto: reprodução/Canal Tadeu Ramos

É justamente essa proposta que move Love Kills (2025), longa dirigido e roteirizado por Luiza Shelling Tubaldini e baseado na HQ homônima de Danilo Beyruth. Misturando romance, suspense e terror, o filme acompanha Helena (Thais Lago), uma jovem vampira que vive assombrando um café localizado no centro de São Paulo. Sua rotina muda quando ela se aproxima de Marcos (Gabriel Stauffer), um garçom sem qualquer ligação com o universo sobrenatural. Conforme a relação entre os dois se desenvolve, Helena passa a confrontar seus próprios instintos e sua conexão com a humanidade, enquanto tenta controlar a sede por sangue para construir algo que vá além da sobrevivência.

Foto: reprodução/Na Nossa Estante

Mais do que a história de amor apresentada pela trama, porém, o que torna Love Kills uma experiência singular é a maneira como utiliza São Paulo para construir sua identidade. A capital paulista não aparece apenas como pano de fundo, mas como uma personagem fundamental da narrativa. Ruas movimentadas, prédios antigos, estabelecimentos decadentes e espaços facilmente reconhecíveis para quem vive na cidade ajudam a criar uma ambientação que aproxima o fantástico do cotidiano.

Foto: reprodução/Festival do Rio

A escolha de filmar em regiões frequentemente associadas à exclusão social, como a Cracolândia, também chama atenção. Em vez de transformar esses locais em mero espetáculo visual, o longa demonstra cuidado ao retratar pessoas e territórios marcados por vulnerabilidades complexas. O resultado é uma representação que não ignora as dificuldades presentes nesses espaços, mas procura preservar a humanidade daqueles que os ocupam.

Foto: reprodução/Omelete

Essa mesma abordagem se estende à construção de seu universo sobrenatural. Distantes dos castelos europeus e das mansões aristocráticas tradicionalmente associadas ao imaginário vampiresco, os vampiros de Love Kills habitam quitinetes, prédios deteriorados e cantos esquecidos da cidade. Ao deslocar essas criaturas para ambientes urbanos e marginalizados, o filme aproxima o horror de realidades brasileiras e constrói uma fantasia que dialoga diretamente com os contrastes sociais presentes em São Paulo.

A atmosfera também se beneficia do trabalho visual da produção. A fotografia – que ficou por conta de Jacob Solitrenick – explora com eficiência as luzes artificiais da cidade, transformando bares, estacionamentos, fachadas e ruas noturnas em cenários que transitam entre o real e o fantástico. As cores vibrantes ajudam a criar uma identidade visual própria, reforçando a sensação de que o sobrenatural existe escondido entre os espaços mais comuns da metrópole.

Foto: reprodução/Portal GeekPop News

Outro aspecto interessante é a maneira como o filme abraça o horror sem receio. Em vez de utilizar o vampirismo apenas como metáfora ou elemento secundário, Love Kills assume plenamente sua natureza fantástica. Mordidas, confrontos entre criaturas sobrenaturais e personagens que transitam livremente pela noite fazem parte da narrativa sem a necessidade de justificativas excessivas. Em um cenário onde a fantasia ainda busca espaço dentro da produção nacional, essa entrega ao gênero se torna um dos principais méritos da obra.

Foto: reprodução/Filmes e Filmes

Se a ambientação e a proposta conquistam pela originalidade, o romance central encontra mais dificuldades para alcançar o mesmo impacto. A relação entre Helena e Marcos possui potencial, mas nem sempre recebe o desenvolvimento necessário para gerar maior envolvimento. Em alguns momentos, a aproximação entre os personagens parece acontecer de maneira acelerada, enquanto certas motivações e revelações surgem sem o aprofundamento que poderiam receber.

Essas fragilidades também aparecem em alguns elementos do roteiro, especialmente nos momentos finais, quando determinadas explicações e conflitos são apresentados de forma mais abrupta. Ainda assim, o comprometimento do elenco contribui para sustentar a narrativa. Thais Lago entrega uma protagonista marcada pela constante tensão do instinto e afeto, enquanto Gabriel Stauffer constrói um Marcos sensível e vulnerável, capaz de conduzir o espectador por esse universo incomum.

Foto: reprodução/ON Pop Life

Mesmo com suas irregularidades, Love Kills reforça o potencial da fantasia produzida no Brasil. Assim como aconteceu com outras obras do gênero que conquistaram públicos específicos sem alcançar grande projeção, como a série da HBO Vale dos Esquecidos (2022), o longa evidencia que existe espaço para narrativas fantásticas ambientadas em cenários nacionais e conectadas às particularidades de nossa cultura urbana.

Ao transformar São Paulo em palco para uma história de vampiros, Love Kills encontra sua maior força não no romance que propõe contar, mas na construção de uma fantasia genuinamente brasileira. Em um mercado onde apostar no sobrenatural ainda representa uma escolha rara, a existência de produções como esta amplia os horizontes do audiovisual nacional e demonstra que o horror também pode encontrar morada entre as luzes e sombras da maior cidade do país. 

Love Kills estreia nos cinemas brasileiros em 21 de maio de 2026

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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