Do psicológico ao grotesco, explore as formas mais inquietantes do horror japonês
[Contém gatilhos]
Bem-vindo ao mês do horror, aquele período soturno do ano em que as sombras parecem se alongar mais do que o normal, os sussurros se escondem nos cantos da casa e até o vento carrega algo de sinistro. É o momento perfeito para mergulhar em histórias que mexem com o psicológico, desafiam a lógica e invocam o desconforto com traços grotescos e atmosferas opressoras.
E, quando falamos de terror no mundo dos mangás, não estamos falando apenas de sustos baratos, mas de experiências viscerais, que gritam nos olhos e ecoam na mente.

O mangá de terror se destaca por sua capacidade de tornar o horror quase palpável — seja através da loucura que cresce página a página, da obsessão que consome personagens, ou das imagens que grudam na retina como pesadelos acordados.
Nesta lista, o Entretetizei separou dez títulos aterrorizantes. Então, se você é do tipo que gosta de sentir aquele arrepio inesperado e adora uma boa leitura sombria, prepare-se: essas obras vão te fisgar… com ou sem aviso.
Fragmentos do Horror (2020) – Junji Ito

Junji Ito retorna ao horror com uma coletânea de nove contos que exploram o grotesco, o surreal e o bizarro, mantendo sua estética perturbadora e imaginativa. Em histórias que vão do erótico ao repulsivo, o autor nos apresenta desde casas que giram sobre seus próprios moradores até turmas de dissecação com propósitos sinistros. O equilíbrio entre o cômico e o aterrorizante cria uma experiência única, onde cada página revela o desconforto por trás do cotidiano.

Publicado pela DarkSide Books, o volume marca a estreia do autor na editora e celebra a sua habilidade de capturar o terror em sua forma mais visceral e inesperada.
Contos de Terror da Mimi (2022) – Junji Ito

Nesta antologia, inspirada em relatos reais extraídos do livro Shin Mimibukuro, Junji Ito reinterpreta histórias sobrenaturais com a sua marca única de horror psicológico e visual.
A protagonista Mimi é uma jovem universitária que vive uma rotina que seria comum, se não fossem os eventos macabros que insistem em cruzar o seu caminho. Envolvida por aparições, presságios e vizinhos sinistros, ela se vê cada vez mais convencida da existência de forças ocultas, o que a coloca em conflito com seu namorado, um cético convicto.

Entre os contos, destaca-se O Boneco de Assombração, em que uma mulher revive memórias de infância ao criar uma figura perturbadora para uma casa de terror.
Com atmosfera densa e elementos clássicos do kaidan japonês, a obra mostra como a realidade pode ser mais assombrosa do que qualquer invenção ficcional.
Pedacinhos (2024) – Shintaro Kago

Em meio a uma onda de assassinatos brutais em Tóquio, onde vítimas femininas são encontradas esquartejadas, Pedacinhos alterna entre a investigação desses crimes e a jornada criativa de um mangaká em crise: o próprio Shintaro Kago, que se insere na narrativa em uma ousada autoficção.
Enquanto o garçom Kotaro e a sua colega Fujioka investigam os assassinatos por conta própria, a linha entre a realidade e a ficção se desfaz, revelando uma teia de mistérios que desafiam a lógica.

Misturando elementos do body horror, do grotesco erótico e do humor surreal, Kago cria um mangá que é, ao mesmo tempo, um quebra-cabeça narrativo e um metacomentário sobre o próprio ato de contar histórias.
Além da trama principal, o volume traz quatro contos que exploram a alienação, o trauma e o desconforto físico e psicológico — todos embalados em um estilo visual chocante e inconfundível.
Anamorfose (2024) – Shintaro Kago

Shintaro Kago apresenta mais uma obra provocadora, que ultrapassa os limites da narrativa tradicional, combinando mistério, humor ácido e horror gráfico.
Em Anamorfose, uma pegadinha televisiva, que deveria simular uma clássica cena de tokusatsu — com monstros gigantes e efeitos especiais retrôs —, termina de forma catastrófica quando a brincadeira com um jovem artista sai completamente do controle.
A gravação do desastre, mantida em sigilo, é exibida anos depois, como parte de um jogo chamado Ana Morphosis, onde os participantes precisam sobreviver dentro de cenários realistas, inspirados em acidentes e assassinatos. Em paralelo, um diretor de cinema se dedica a ressuscitar a magia do tokusatsu, ampliando a tensão entre ficção e realidade.
A obra ainda inclui nove contos que exploram o estilo ero guro nansensu (tradução livre: erótico, grotesco e absurdo), com temas grotescos, eróticos e absurdos, em uma coletânea sangrenta e ousada que brinca com os limites da moralidade e da narrativa visual.
MADK: Volume 1 (2024) – Ryo Suzuri

Makoto é um jovem marcado pelo isolamento e pelas repressões que cercam seus desejos mais obscuros. Visto como alguém anormal por conta de seu fetiche macabro, ele decide realizar um ritual de invocação demoníaca, mas sem acreditar de verdade em seu sucesso.
No entanto, o Grão-Duque J, um demônio de presença imponente e charme sinistro, atende ao chamado. O pacto entre os dois é selado: em troca de sua alma, Makoto poderá realizar seus desejos mais reprimidos. A partir daí, ele renasce como um demônio e mergulha em um mundo de prazeres extremos, violência e transformações radicais.
Esta é uma história intensa e gráfica, que lida com temas sensíveis e perturbadores, misturando erotismo e horror sobrenatural em uma trama que explora os limites da identidade, do desejo e da monstruosidade. É uma leitura recomendada para o público adulto.
PTSD Radio: Frequências de Terror (2025) – Masaaki Nakayama

Um dos mangás de horror mais cultuados da última década, PTSD Radio: Frequências de Terror se constrói a partir de narrativas fragmentadas que percorrem diferentes tempos e lugares, todas conectadas por uma presença maligna e inexplicável. Cada capítulo carrega o nome de uma frequência de rádio, como se estivéssemos sintonizando pesadelos, transmitidos a partir dos traumas vividos pelos personagens.
Inspirado por lendas urbanas e elementos do terror psicológico japonês, o autor Masaaki Nakayama cria um mosaico de histórias perturbadoras que parecem atravessar o tempo — e até mesmo a realidade.

A produção do mangá foi cercada de incidentes bizarros na vida real, com relatos de sombras no estúdio do autor e doenças misteriosas que tornaram a obra ainda mais lendária entre os fãs. Com edições caprichadas pela Pipoca & Nanquim, o primeiro volume compila os dois encadernados originais japoneses em uma publicação primorosa. Uma leitura para quem deseja sintonizar na frequência do medo absoluto.
Fobia: Volume 1 (2025) – Yukiko Gotou

Fobia reúne cinco histórias intensas que exploram o terror psicológico com uma atmosfera sufocante e perturbadora. A coletânea mergulha em diferentes manifestações do medo, confrontando o leitor com situações que testam os limites da mente humana — desde a ansiedade silenciosa ao pânico absoluto.
Cada narrativa revela personagens à beira da ruptura, presos em realidades onde a sanidade vacila e a ameaça pode surgir a qualquer momento.
Uma leitura envolvente que provoca arrepios e desafia o leitor a não desviar os olhos, mesmo diante do mais íntimo e incontrolável dos horrores: o medo.
Sleeping Dead: Volume 1 (2025) – Nemui Asada

O professor Sada leva uma vida aparentemente comum, sendo querido por colegas e alunos. Tudo muda quando ele é vítima de um assassinato brutal. Contudo, a morte não é o fim: ele é trazido de volta à vida como zumbi por um excêntrico cientista chamado Mamiya, tornando Sada refém de uma existência oculta e grotesca.
Mamiya, que enxerga no sucesso de sua experiência a salvação de sua carreira, força Sada a viver ao seu lado, em um pacto de dependência mútua. Enquanto tenta lidar com sua nova condição e com os dilemas morais de sua existência pós-morte, Sada descobre que o retorno à vida pode ser ainda mais desumano que a própria morte.
Sleeping Dead é uma obra que mistura drama, horror e crítica social em uma narrativa incomum sobre identidade e sobrevivência.
Gaia (2025) – Asagi Yaenaga

Em sua estreia como autor, Asagi Yaenaga apresenta uma obra visualmente marcante e filosoficamente provocadora.
Gaia se passa em um mundo onde o tempo e as leis da natureza colapsaram, e uma jovem desperta de um sono profundo para iniciar uma jornada em busca do sentido de sua existência.
Guiada por instintos e acompanhada por outras mulheres com dons especiais, ela precisa alcançar a mítica Terra de Origem. Nesse caminho, ela enfrenta horrores surreais e provações emocionais, enquanto o equilíbrio entre esperança e desespero define sua luta pela sobrevivência.
Com traço detalhado e narrativa subjetiva, a obra é inspirada na Hipótese de Gaia — teoria que propõe a Terra como um organismo vivo — e reflete sobre a destruição ambiental, a espiritualidade e o destino humano. Uma leitura intensa que transforma o horror cósmico em crítica ecológica e emocional.
Pesadelos Completos (2025) – Hideshi Hino

Nesta coletânea perturbadora, o mestre do mangá de horror, Hideshi Hino, convida o leitor a adentrar um universo onde o grotesco, o surreal e o desespero coexistem em perfeita dissonância.
Pesadelos Completos apresenta histórias marcadas por degeneração física, loucura e obsessões artísticas, como no conto A Doença Bizarra de Zōroku, em que um pintor recluso é abandonado em um pântano e, mesmo sendo consumido por uma doença terrível, continua criando arte com os próprios fluidos corporais.
Outra narrativa apresenta um artista que mutila a si mesmo em busca de beleza no sofrimento, revelando um mundo onde a estética e a dor caminham lado a lado.
Com desenhos que se estendem do infantil ao grotesco, Hino rompe as barreiras da moral e da sanidade para oferecer uma experiência literária incômoda, visceral e inesquecível. Seu horror não busca apenas entreter: ele invade, marca e transforma o leitor.
Seu mangá de horror favorito está na lista? Compartilhe com a gente nas nossas redes sociais — Instagram, Facebook e X — e, se gosta de trocar experiências literárias, junte-se ao Clube do Livro do Entretê!
Leia também: Entre o medo e a tensão: a diferença entre thriller e terror
Texto revisado por Ketlen Saraiva @lapidando_palavras









