Em meio a mistérios, a série de David Lynch continua a fascinar novas gerações com sua mistura única de humor e estranheza
35 anos após sua estreia, Twin Peaks (1990) segue sendo um grande enigma. Criada por David Lynch e Mark Frost, a série redefiniu o que era possível fazer na televisão quando se tratava de misturar o suspense policial com o absurdo surrealista, com um humor excêntrico e uma atmosfera onírica característica de Lynch.
Entre cafés fortes e quentinhos, tortas de cereja da Norma, pinheiros e corujas envoltas em névoa, Twin Peaks questionava não apenas “quem matou Laura Palmer?”, mas também o que existe por trás das aparências de uma cidade pequena e aparentemente tranquila. E, por extensão, o que de pior pode se esconder em cada um de nós.
A primeira temporada (1990)

Em 1990, a pergunta que não queria calar era: “quem matou Laura Palmer?”. A série se inicia com o mistério do corpo de uma garota morta encontrado em um saco de plástico às margens de um lago na pequena e pacata cidade Twin Peaks. O agente especial do FBI, Dale Cooper, interpretado pelo grande ator Kyle MacLachlan, chega à cidadezinha para investigar o caso e logo percebe que há algo estranho na atmosfera do lugar.
Com um elenco que apresenta personagens muito excêntricos, como a Mulher do Tronco e o policial que chora diante de qualquer violência, e cenas que desafiam a lógica, Lynch transforma o cotidiano monótono em um verdadeiro pesadelo.

A temporada tem apenas oito episódios e conquistou o público e a crítica, cada vez mais curiosos para descobrir quem teria matado Laura Palmer, fenômeno que tomou conta das rodas de conversa e dos jornais.
A segunda temporada (1990–1991)
Com o sucesso da primeira temporada, Twin Peaks retorna para saciar a curiosidade do público em uma segunda temporada mais ousada e ainda mais enigmática. Aqui, o mistério da morte de Laura Palmer é finalmente resolvido, mas descobrimos que a série vai muito além desse crime.

Lynch e Frost mergulham no universo místico da “Lodge Negra”, onde o tempo e o espaço se distorcem e as leis da realidade se fragmentam. O famoso sonho de Cooper da primeira temporada, com Laura e o exótico anão dançarino, deixa de ser apenas uma pista e se transforma em um portal para o inconsciente.
Apesar de quedas de audiência e interferências do estúdio, a série encerra sua segunda temporada de forma perturbadora e um tanto quanto poética: o mal persiste, e o herói se torna refém de seus próprios demônios.
O legado e o retorno (2017)
Mais de duas décadas depois, David Lynch voltou a Twin Peaks com uma nova temporada: The Return. Lançados em 2017 pelo canal Showtime, em vez de nostalgia, os episódios oferecem uma reflexão sobre tempo, memória e linguagem televisiva.
A série quebrou qualquer expectativa, misturando humor, terror, crítica social e experiências audiovisuais fora do comum. Foi um retorno ousado, que reafirmou o lugar de Twin Peaks como uma das obras mais revolucionárias da história da TV.


A trilha sonora hipnótica de Angelo Badalamenti
É impossível falar sobre Twin Peaks sem mencionar a trilha sonora de Angelo Badalamenti, que nos faz permanecer na série. Trabalhando lado a lado com Lynch, o compositor fez uma mistura de jazz, melancolia e mistério, o que gerou uma das trilhas mais memoráveis da televisão.
O tema principal, com um toque de piano suave e uma atmosfera etérea, tornou-se instantaneamente reconhecível, e canções como Falling, interpretada por Julee Cruise, capturam o espírito da série: ao mesmo tempo doce e inquietante.
Cada nota parece ecoar pela floresta de Twin Peaks, como se o som fosse uma extensão do mistério que atormenta a cidade. Não tem como assistir à série sem se deixar envolver por essa sonoridade fascinante.
Ouça aqui a trilha sonora completa:
A genialidade de David Lynch

Antes de Twin Peaks, Lynch já era conhecido por seu cinema singular com Eraserhead (1977), O Homem Elefante (1980) e Veludo Azul (1986), todos marcados por atmosferas inquietantes e uma lógica de sonho. O cinegrafista, que faleceu aos 78 anos, era frequentemente associado ao estranho e surreal que fazia questão de trazer em suas obras, muitas vezes consideradas confusas e sem sentido.
Apesar de nunca ter trabalhado para a televisão antes, aceitou o convite para criar algo novo, e o resultado foi uma obra que misturou melodrama, horror e arte experimental em pleno horário nobre. Além de dirigir e coescrever a série, Lynch também atuou em diversos episódios como o agente Gordon Cole, um chefe do FBI com sérios problemas auditivos e falas memoráveis de muito humor e excentricidade.
A imprevisibilidade e o lado onírico do diretor deixavam os fãs fascinados, hipnotizados e com a ânsia de receber mais daquilo.
Assistir às obras de Lynch é compreender sua beleza mesmo quando não se entende tudo.
Twin Peaks acabou se tornando uma espécie de chave visual e emocional para decifrar o que há de mais misterioso na arte: o poder das imagens em nos inquietar, sem precisar explicar tudo.
Dica para os amantes de terror
Como disse Mark Frost, citando Shakespeare: “Há método na loucura”. E talvez seja exatamente isso que mantém Twin Peaks viva: a certeza de que, por mais que o tempo passe, o mistério nunca termina. E não há escolha melhor do que revisitar a cidadezinha coberta de neblina e mergulhar nos seus segredos. Reassista ou descubra pela primeira vez essa obra-prima que transformou o absurdo em arte e o medo em fascínio.
A série completa está disponível na plataforma MUBI.
Assista aos trailers aqui:
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Texto revisado por Cristiane Amarante










