“O Kansas é onde eu moro e quero muito voltar para lá, então estou indo até a Cidade Esmeralda para pedir ajuda ao Mágico de Oz.” (tradução livre) O trecho de uma das músicas mais icônicas do filme clássico O Mágico de Oz, de 1939, nos dá pistas sobre quem era L. Frank Baum e seu legado tão importante para a literatura fantástica
Quando criança, lembro do impacto de assistir às cenas de O Mágico de Oz ganharem cores na televisão. O brilho intenso dos rubis dos sapatinhos da Bruxa roubava completamente a cena, mesmo debaixo da casa de Dorothy, levada por um ciclone até a Terra de Oz. Naquele momento, tive a sensação de que algo tinha mudado para sempre no audiovisual e na forma de contar histórias de fantasia.

“We’re off to see a Wizard!”, o criador de Oz
Em 15 de maio de 1859 nascia Lyman Frank Baum, no Estado de Nova York, na vila de Chittenango, nos Estados Unidos. Ele foi escritor, ator, roteirista, produtor de cinema e teósofo.
Utilizou sua experiência de escrita, que começou a aprimorar aos 17 anos de idade, e os elementos da teosofia para compor aquele que seria um legado para a fantasia e um dos clássicos da literatura infantil do seu país: O Maravilhoso Mágico de Oz.
“Eu poderia passar horas, conversando com as flores”
Vindo de uma rica família germânica, o pai de Frank Baum enriqueceu explorando campos de petróleo. O rapaz cresceu em uma casa em estilo vitoriano, que seus pais nomearam como Rose Lawn (gramado rosa). Seu nome artístico ficou como L. Frank Baum, pois Lyman foi o nome que ganhou em homenagem a um tio, mas preferia ser chamado de Frank.

Por ser um garoto sonhador, os pais decidiram mandá-lo aos 12 anos para a Academia Militar de Peekskill. Talvez, por isso, Rose Lawn tivesse uma importância grande em sua vida, pois ali era o seu refúgio. Voltou depois de dois anos difíceis longe de casa e dedicou-se aos livros.
O teatro
Desde muito jovem, Baum era apaixonado por teatro, o que o fez investir na carreira de ator e roteirista. Em 1880, ele não conseguiu o estrelato que sonhava, então seu pai mandou construir um teatro em Richburg, Nova York.
A peça The Maid of Arran até conseguiu algum sucesso, e Frank, além de ter composto as canções e interpretado o papel principal nas apresentações, também tinha escrito a peça.
Porém, durante uma das turnês, houve um incêndio, e tanto o teatro quanto as cópias conhecidas dos roteiros de Baum viraram cinzas. Ao que se sabe, não havia outras cópias guardadas em outro lugar.
“O Kansas é onde eu moro”
Ele se casou com Maud Gage e tiveram quatro filhos: Frank Joslyn Baum, Kenneth Gage Baum, Harry Neal Baum e Robert Stanton Baum. Maud era filha de uma ativista do sufrágio feminino, o que teria influenciado as personagens femininas fortes de Baum.
“Estou indo até a Cidade das Esmeraldas para pedir ajuda ao Mágico de Oz”
Antes de se consolidar na literatura infantil, Frank se arriscou em vários negócios fracassados, incluindo uma loja e um jornal. Ao iniciar sua carreira como escritor, contou com o talento dos ilustradores Maxfield Parrish e W.W. Denslow.
Quando começou a se dedicar a Oz, o nome escolhido surgiu ao olhar para as suas gavetas, que eram organizadas em ordem alfabética: A-G, H-N, O-Z. “Minha visão recaiu sobre as letras douradas das três gavetas do gabinete. A primeira tinha A-G, a seguinte tinha a etiqueta de H-N e na última estavam as letras O-Z. Foi assim que Oz surgiu.”

O título mudou bastante até chegar ao que conhecemos, pois a princípio o livro se chamaria A Cidade Oz; depois passou para A Cidade das Esmeraldas, porém havia uma superstição nas editoras dos Estados Unidos de não lançar obras com nomes de pedras preciosas, porque venderiam mal, então Baum escolheu Do Kansas ao País das Fadas, trocado por A Terra de Oz e finalmente chegando ao nome definitivo O Maravilhoso Mágico de Oz.
Além disso, segundo o The Daily Telegraph, Dorothy Gale, a protagonista do seu livro, foi inspirada em um membro da família de sua esposa. Enquanto a Doutora Sally Roesch Wagner estudava a sufragista Matilda Joslyn Gage, que lutava pelos direitos dos povos originários dos Estados Unidos, ela encontrou algo que julgou não ser uma coincidência: ao lado da lápide da sufragista estava a de sua neta, uma bebê de cinco meses chamada Dorothy Gage.
A bebê teria falecido em 1898, enquanto Frank escrevia Oz, e era sobrinha de Maud.
Então, em 1900, Baum e Denslow publicaram seu maior sucesso, O Maravilhoso Mágico de Oz, batendo recordes de venda. Mesmo com a repercussão, Frank Baum tinha dívidas e pouca demanda, então resolveu escrever mais sobre esse mundo encantado de Oz.

Ao que parece, ele desejava parar no sexto volume, porém precisou seguir na escrita após decretar falência, e somou 14 obras ao todo:
O Maravilhoso Mágico de Oz
A Menina de Retalhos de Oz
A Estrada para Oz
A Cidade das Esmeraldas de Oz
Dorothy e o Mágico de Oz
A maravilhosa Terra de Oz
Ozma de Oz
Tic-Tac de Oz
O Espantalho de Oz
Rinkintink em Oz
A Princesa Perdida de Oz
O Homem de Lata de Oz
A Magia de Oz
Glinda de Oz
“Somewhere Over the Rainbow”
Frank Baum escreveu 55 romances, 82 contos, 200 poemas, vários roteiros (que ficaram perdidos), e teve vários pseudônimos.
A Reilly & Lee, por ser uma editora focada em contos de fadas infantis, também publicava Hans Christian Andersen e os irmãos Grimm. Mas a estrela de seu catálogo nos primeiros anos de 1900 era Baum, tendo em seu catálogo o livro de 1906 chamado John Dough and the Cherub (tradução direta: John Dough e o Querubim).
Neste livro, Baum narra a história de um biscoito de gengibre que ganhou vida graças à quantidade enorme de Essência de Vitalidade que o padeiro derrubou em sua massa e que encontra na ilha de Phreex um lindo querubim chamado Chick, que não tem gênero definido. Eles embarcam em uma aventura junto com o urso de borracha para Bruim atrás da profecia de que o próximo rei dos Reinos Gêmeos de Hiland e Loland não seria feito de carne e osso.

Sob pseudônimos foram publicados Daughters of Destiny, um romance adulto; Annabel; Sam Steele’s Adventures on Land and Sea; Aunt Jane’s Nieces (que gerou uma série de dez volumes voltada para as meninas); e seis livretos para crianças pequenas chamados de The Twinkle Tales, que foram um sucesso, mas ainda não pagavam as dívidas de Baum.
Oz e a política americana
Henry M. Littlefield, um professor de História, fez um artigo em 1964, reunindo seus estudos sobre a obra-prima de Frank Baum e o que ele acreditava ser uma ligação com a política dos EUA nas últimas três décadas do século XIX, a parábola chamada O Mágico de Oz – uma Paródia sobre o Populismo.
Nesse artigo, Littlefield junta a Gilded Age, a Era de Ouro americana, à Cidade das Esmeraldas, que representaria Washington, enquanto a perigosa estrada de tijolos simbolizaria o ouro, que era a moeda corrente, e os sapatinhos que Dorothy recebe quando sua casa cai em cima da Bruxa Má, a prata usada para substituir as moedas de ouro, uma solução proposta pelo Partido Populista para salvar o país.

A Era de Ouro foi marcada por muita corrupção política, enquanto os trabalhadores enfrentavam as mudanças rápidas causadas pela industrialização do país, em meio à atuação de empresários e banqueiros que visavam apenas maximizar seus lucros.
“There’s a land that I heard of once in a lullaby”
O autor, estrela da editora Reilly & Lee (The Reilly and Britton Company), faleceu na Califórnia, em maio de 1919, mais precisamente no dia 6.
Aos 62 anos, perto de seu próximo aniversário, L. Frank Baum nos deixou, assim como ao seu último livro escrito, Glinda de Oz, ainda sem publicação.
O livro de Glinda se tornou uma obra póstuma e a Reilly & Lee continuou a lançar livros sobre Oz, considerados canônicos pelos fãs e chamados de Oz Books. A partir de 1921, continuaram a ser escritos por:
Ruth Plumly Thompson (19 livros);
John R. Neill – três livros;
Jack Snow – dois livros;
Rachel Cosgrove Payes – um livro;
Eloise Jarvis McGraw and Lauren Lynn McGraw – um livro.
Adaptação para o teatro e cinema
Em Chicago, houve uma peça teatral voltada para o público adulto intitulada O Mágico de Oz, adaptada do livro, ficando em cartaz na Broadway por dois anos.
Já o filme O Mágico de Oz foi lançado em 1939 pela Metro-Goldwyn-Mayer Studios (MGM) e conta com muitas curiosidades. A seguir, algumas delas:
Victor Fleming saiu da direção para filmar E o Vento Levou, filme com o qual ganhou o Oscar em 1940.
Mervyn LeRoy produziu o filme e era especialista em dramas, tendo dirigido A Ponte de Waterloo (1940) e Quatro destinos (1949), inspirado no livro Mulherzinhas, de Louisa May Alcott.
Judy Garland (Frances Ethel Gumm) protagonizou o filme, mas não foi a primeira escolha (que incluía Shirley Temple, a estrela mirim em ascensão do momento). Ela era considerada feia, com sobrepeso e mais velha do que eles queriam para o filme (16 anos). Liza Minnelli é sua filha.
No livro de Baum, Dorothy usa sapatos prateados, mas no cinema eles se tornaram de rubi para aproveitar o Technicolor pelo figurinista-chefe Adrian.
A versão final do roteiro deixou apenas Langley, Ryerso e Woolf creditados, mas ele foi escrito e rescrito por várias mãos, contando com revisões do diretor e produtor e a escrita de Irving Brecher, Herbert Fields, Yip Harburg, King Vidor, Arthur Freed, Sid Silvers, George Cukor, Jack Mints.
Ray Bolger convenceu todos a interpretar o Espantalho, seu personagem querido de infância, em vez do Homem de Lata. Assim, Buddy Ebsen passou a ser o personagem metálico sem coração. Porém, Ebsen teve um problema de saúde causado pela maquiagem do seu personagem. Afastado pelos médicos, ele foi substituído por Jack Haley, que imaginou que Ebsen tivesse sido demitido.
O filme não teve uma boa bilheteria e passou por vários escândalos de bastidores.
Recebeu seis indicações ao Oscar, ganhando os de Melhor trilha sonora e Melhor Canção Original, com a inesquecível Over the Rainbow (música de Harold Arlen e letra de Yip Harburg)
O Technicolor de três tiras (usando três filmes em preto e branco), ou Processo 4, foi utilizado nos filmes de Hollywood entre 1930 e 1950 e saturava e destacava algumas cores.
Foi necessária uma semana para a produção pintar a estrada de tijolos amarelos no rolo de filme.
A maquiagem verde da Bruxa má levou Margareth Hamilton a fazer dieta líquida nos dias de filmagem e, em um incidente com fogo no set, a maquiagem dela pegou fogo causando queimaduras de terceiro grau que lhe renderam três meses de recuperação.
Jack Dawn foi um dos primeiros maquiadores a usar máscara de látex, criando a do Espantalho e do Leão Covarde. Porém, o ator do Leão levava uma hora para retirar a máscara.
A neve falsa usada para cobrir Dorothy dormindo no campo de papoulas era feita de amianto, material tóxico.
De acordo com um levantamento feito em 2020 pela Library of Congress, O Mágico de Oz é o filme mais visto da televisão americana.
Está no Programa Registro da Memória do Mundo da UNESCO.
Além disso, é muito provável que em 2026 você já tenha ouvido falar ou assistido a Wicked (2024), a mais recente adaptação em filme do livro de mesmo nome, escrito por Gregory Maguire, e também é uma peça muito famosa da Broadway. Wicked é uma releitura de O Maravilhoso Mágico de Oz.

O legado de Baum, suas histórias sobre esse mundo fantástico, com seus personagens cativantes, continua inspirando artistas após um século da publicação do primeiro volume de O Maravilhoso Mágico de Oz.

Foto: reprodução/The Real Blog of Oz
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Texto revisado por Angela Maziero Santana









