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Os bebês reborn e os livros repaginados: quem diria que a nostalgia ganharia tantas roupagens?

Assim como bonecas hiper-realistas conquistam o público com sua nostalgia artesanal, clássicos literários também ganham novas versões que ressignificam o amor, a memória e até os finais felizes.

[Contém spoiler]

Eles são fofinhos, realistas, e dividem opiniões: os famosos bebês reborn conquistaram o coração (e o feed do Instagram) de muita gente com sua aparência quase humana e aquele cheirinho de infância.

Mas o fenômeno do reborn não parou por aí. Assim como bonecas são recriadas para parecerem ainda mais perfeitas, clássicos literários também vêm sendo revisitados, repaginados e… renascidos.

Sim, vivemos a era dos livros reborn — ou melhor, das releituras literárias que pegam histórias antigas, sacodem a poeira e trazem novos olhares, personagens e, às vezes, até finais inesperados. Histórias renascidas.

Se antes era só a Cinderela perdendo o sapatinho, agora temos ela como hacker em um mundo futurista no livro Cinder (2011) de Marissa Meyer. Em Orgulho e Preconceito e Zumbis (2009), de Seth Grahame-Smith, Elizabeth Bennet já não se preocupa apenas com o orgulho e o preconceito, mas também com… zumbis!

Assim como os bebês reborn provocam aquele misto de encanto e estranhamento — afinal, são bonecas, mas parecem bebês de verdade —, as releituras despertam sentimentos parecidos: um prazer reconfortante ao reconhecer a velha história, misturado com o friozinho na barriga de quem não sabe o que esperar da nova versão.

Além disso, tanto os bebês reborn quanto as histórias repaginadas são produtos de um mesmo desejo: ressignificar o passado. Em tempos de hiperconexão, parece que queremos mais do que nunca manter vivos elementos que nos remetem à infância ou a épocas marcantes, mas com aquela atualização que faz tudo parecer mais nosso.

E, para provar que esse movimento está longe de ser mera coincidência, aqui estão três pares de romances que brincam com essa ideia, onde a réplica de um tema romântico se tornou um novo sucesso:

A memória do amor que se recusa a ser esquecida

Until You (1990), de Judith McNaught: Ambientado na Regência Inglesa, este romance histórico apresenta um lorde que perde a memória dos últimos anos de sua vida, incluindo o casamento. Sua esposa, agora uma estranha para ele, precisa lutar para reconquistar seu coração — um clássico da angústia romântica.

Alguns outros livros trazem a dinâmica de um amor que precisa sobreviver à perda de memória.

O Diário de uma Paixão (1996), de Nicholas Sparks é um deles. Aqui, Noah lê para Allie, que sofre de Alzheimer, revivendo memórias para reacender o amor perdido. A fórmula da luta contra o esquecimento virou um fenômeno pop, ultrapassando talvez o reconhecimento do antecessor.

Imagem: reprodução/divulgação

A perda de identidade e a violência no relacionamento

A Mulher de Pano (1969), de Margaret Forster: Um romance pioneiro e visceral sobre Catherine, uma mulher sufocada em seu casamento, que projeta suas frustrações e dores numa “mulher de pano” — um alter ego silencioso para suportar a violência psicológica e emocional que vive.

Relacionamentos abusivos e tóxicos é um tema que deve constantemente ser debatido e trazido à tona. Mudar perspectivas e o decorrer de histórias com essa temática pode atingir leitores de outra maneira, mesmo que abordando o mesmo assunto.

É o que vemos acontecer com É Assim que Acaba (2016), de Colleen Hoover, que décadas depois modernizou e popularizou o mesmo tema de A Mulher de Pano, mostrando a trajetória de Lily em meio a um relacionamento abusivo, desta vez com violência física e emocional explícitas. Inspirado na vivência da própria autora, o livro virou best-seller e abriu debates importantes sobre o ciclo de abuso.

Imagem: reprodução/Intrínseca

A separação provocada pela escolha pessoal

Grandes Esperanças (1861), de Charles Dickens: Pip ama Estella, mas ela foi criada para não amar. As escolhas pessoais de Estella, que incluem um casamento por status, mantêm o casal separado. O final agridoce deixa em aberto a possibilidade de reconciliação, mas sem o tradicional felizes para sempre.

Um casal que tem de tudo para ficar junto mas se vê em um impasse por questões pessoais e decisões unilaterais envolve o leitor em uma situação facilmente cotidiana, quando os desejos de duas pessoa não são completamente compatíveis, apesar de ambas se gostarem.

Também vemos esse tópico em Como Eu Era Antes de Você (2012), de Jojo Moyes, que oferece uma réplica moderna do tema: Louisa e Will se apaixonam, mas Will está em um momento da vida ontem não se permite amar e ser amado, independentemente do forte sentimento entre eles. Sua decisão pessoal, mais do que as convenções sociais ou tragédias externas, é o que emociona milhões de leitores, reacendendo debates éticos contemporâneos.

Imagem: reprodução/divulgação

Assim como os bebês reborn exigem habilidade artesanal — cada fio de cabelo implantado, cada dobrinha cuidadosamente pintada —, as releituras também são frutos de um trabalho criativo minucioso: selecionar um tema, reinterpretar nuances, e arriscar mexer com as emoções e expectativas de quem já conhece a história original.

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Texto revisado por Karollyne de Lima

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