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Imagens: reprodução Intrínseca

Resenha | Os diários de Emma M. Lion: uma mulher não precisa ser dócil para ser encantadora

Como Beth Brower deu vida a uma protagonista forte e carismática, digna de tirar qualquer um da ressaca literária

“Emma M. Lion gostaria de dedicar seus diários a todos aqueles que tiverem a audácia de lê-los”.

Assim se inicia um novo capítulo da história de nossa querida Emma. Fascinada por livros e por um bom diário onde pode compartilhar suas aventuras, nossa protagonista acaba de retornar a Casa Lápis-Lazuli, onde espera poder viver o resto de seus anos. Todavia, parece que o destino — ou apenas Archibald Flat — não será tão flexível para que seus planos se cumpram com êxito.

Seu bairro, St. Crispian’s, parece o mesmo: a igreja continua sendo abençoada com os poéticos sermões do Jovem Hawkes, Red & Wite ainda possui bons doces e seu sagrado local de achados e perdidos, e, claro, Lápis-Lazuli segue infestada de roupões de seda, do preguiçoso mordomo, Parian, e da querida e injustiçada, Agnes.

Mas algo mudou. Prestes a completar a maior idade e, finalmente, poder tomar as rédeas de sua vida, Emma M. Lion está mais determinada, e, embora carregue muitas cicatrizes de seu passado, fará o impossível para salvar sua herança — ou o que restou dela — das garras de seu parente — “não de sangue, graças a Deus!” — e viver uma vida tranquila com suas amigas queridas e aqueles que conheceu ao longo do caminho.

Os diários de Emma M. Lion – Volumes 1 e 2, chegaram ao Brasil no início de setembro, pela editora Intrínseca. Escrito por Beth Brower, as obras descrevem os dias da protagonista, Emma, que registra em seu diário os conflitos familiares, as peculiaridades dos moradores de St. Crispian’s —seu bairro— e os desafios de conquistar sua independência sendo uma mulher solteira no século XVIII.

Além dos diários, Beth também é autora de The Queen’s Gambit, The Ruby Prince, The Wanderer’s Mark, The Q e The Beast of Ten. E, nessa nova história, podemos conhecer um outro lado de sua escrita: mais casual e leve, digna para uma leitura tranquila de fim de semana.

Uma protagonista a frente de seu século

Ser mulher é difícil em qualquer época, e nessa história, não poderia ser diferente, mas Emma, é exatamente o tipo de mulher na qual outras deveriam se inspirar. Órfã desde os treze, e obrigada a assumir as rédeas de sua vida desde então, ela erra, se frustra, é enganada, mas sempre, sempre, dá um jeito de dar a volta por cima, afinal, as mulheres sempre precisaram dar um jeito.

Em seus relatos, descobrimos pouco sobre seu passado, mas é evidente que, diferente das outras garotas de sua época, Emma sempre desejou bons estudos e uma vida tranquila. Vários são os personagens masculinos que rodeiam suas aventuras, entretanto, nenhum deles toma seu protagonismo, e muito menos invadem seus pensamentos, a atrapalhando de suas reais motivações.

Emma é uma mulher forte, que lida com os empasses da vida com uma boa xícara de chá e uma caminhada pelos lugares mais altos de St. Crispian’s, onde busca pensar melhor. Mas, assim como todo mundo, ela também perde a paciência, não tolera injustiças e, na maioria de suas conversas, preserva sempre o sarcasmo e busca não dar brechas para perguntas inconvenientes. 

Mulheres devem, acima de tudo, questionar

A trama principal de sua fase adulta, é tomar conta de uma mansão e uma conta bancária exclusivamente suas. Embora sua herança tenha ficado sob custódia de Archibald durante muitos anos, seu destino final sempre foi Emma, e o interessante é que, seu estado civíl nunca foi questionado. Mesmo sendo uma cidadã do século XVIII, durante quase 400 páginas o foco dos personagens nunca foi ver Emma casada, e, consequentemente, isso nunca impediu que a herança ficasse com ela.

Outro ponto interessante, é como a jovem enxerga o mundo. Seu sonho, desde criança, sempre foi ser culta, ter uma boa educação e entender de literatura, matemática, ciência, e, embora o destino não tenha contribuído para tal realização, ela sempre se esforçou para continuar seus estudos de forma independente, se debruçando nos livros e adquirindo o máximo de conhecimento possível.

Seus questionamentos também rodeiam sua própria casa. É verdade que Emma nunca gostou de Parian, afinal, o mordomo é um puxa saco de seu primo e nunca cumpre com suas reais obrigações, mas, ao descobrir que seu salário é absurdamente maior do que Agnes, ela se revolta. A empregada é responsável por todos os serviços da casa: cozinhar, limpar, passar, servir, e por aí vai, e, apesar de mantê-la nesse papel, a protagonista se mostra uma grande aliada aos direitos das mulheres: aumenta seu salário, o deixando superior ao do mordomo — uma vez que ela merece muito mais, segundo Emma — e a permite desfrutar de doces, chás, além de ajudá-la em diversas ocasiões com limpeza e mudanças na casa.

É um grande quentinho para o coração poder acompanhar a história de uma jovem tão decidida e inteligente. O foco de Emma nunca foi sua aparência — mesmo gostando muito de se ver bem vestida — ou arrumar um marido, mas poder ter independência sobre suas escolhas, e isso, não tem preço.

Para o Entretê, a leitura é ótima para sair da ressaca literária e aproveitar um bom fim de semana. Os diários de Emma M. Lion são rápidos e fáceis de se ler, e uma ótima companhia para aqueles que adoram uma protagonista feminina ácida e que não tem medo de se impor. 

 

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Texto revisado por Gabriela Matuk 

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