Da literatura ao cinema e à música, o sofrimento feminino aparece repetidamente como motor de histórias populares e o sucesso dessas narrativas revela tanto sobre o mercado cultural quanto sobre nós, consumidores
Aviso: este texto aborda violência contra mulheres e pode conter gatilhos para leitores sensíveis.
Todo ano, quando chega o Dia Internacional das Mulheres, surgem debates sobre desigualdade, violência doméstica e feminicídio. Estatísticas são divulgadas, campanhas de conscientização circulam nas redes sociais e discursos institucionais reforçam a necessidade de enfrentar a violência de gênero. Trata-se de uma discussão necessária e urgente, especialmente em um país onde os números de agressões e feminicídios ainda são alarmantes.
Mas existe uma contradição cultural que raramente aparece com a mesma intensidade nessas conversas. Ao mesmo tempo em que a sociedade condena a violência contra mulheres, ela também consome – e consome muito – histórias baseadas justamente nesse tipo de violência. Narrativas sobre mulheres em perigo estão entre algumas das histórias mais populares da cultura contemporânea.
Livros, filmes, séries e músicas frequentemente utilizam o sofrimento feminino como motor narrativo. Mulheres sequestradas, assassinadas, perseguidas, manipuladas ou psicologicamente destruídas aparecem repetidamente como ponto de partida para histórias de suspense, terror, drama e até romance. Em muitos casos, o conflito que movimenta a trama nasce exatamente dessa situação de vulnerabilidade.
Essas histórias não estão à margem da cultura. Muitas delas são grandes sucessos de público e crítica. Tornam-se best-sellers, lideram bilheterias, dominam listas de streaming e ocupam espaço constante nas conversas sobre entretenimento. O sofrimento feminino, nesse contexto, deixa de ser apenas um tema social e passa a ocupar também um lugar central dentro da lógica narrativa da indústria cultural.
A pergunta inevitável, portanto, é simples, mas desconfortável: por que a violência contra mulheres vende tanto?
Parte da resposta pode estar na própria tradição das histórias que aprendemos a consumir. Durante séculos, a cultura ocidental construiu a figura feminina como símbolo de fragilidade, pureza ou vulnerabilidade. Quando uma narrativa coloca essa figura em perigo, a reação emocional do público costuma ser imediata. Surge uma sensação de urgência, de tensão, de medo ou de proteção.
Do ponto de vista narrativo, isso funciona como um atalho poderoso para gerar suspense. Colocar alguém vulnerável em risco cria imediatamente um conflito dramático que prende a atenção do público.
A antropóloga argentina Rita Segato, referência internacional nos estudos sobre violência de gênero, argumenta que a violência contra mulheres também possui uma dimensão simbólica nas sociedades patriarcais. Em seus trabalhos, ela observa que esse tipo de agressão muitas vezes funciona como demonstração de poder e controle. Quando esse imaginário aparece em narrativas culturais, ele pode reproduzir – ainda que de forma indireta – estruturas sociais profundamente enraizadas.
Na literatura policial e nos thrillers psicológicos, o sofrimento feminino frequentemente se transforma no ponto de partida para histórias de suspense que conquistam leitores no mundo inteiro
Na literatura, esse padrão aparece com frequência no gênero policial e nos chamados thrillers psicológicos. Nesses tipos de narrativa, crimes, desaparecimentos e obsessões costumam funcionar como elementos centrais da construção do suspense.
No Brasil, um dos autores mais conhecidos por explorar esse tipo de tensão narrativa é Raphael Montes. Em livros como Dias Perfeitos (2014), Suicidas (2012) e Jantar Secreto (2016), o escritor constrói histórias intensas e perturbadoras nas quais situações extremas funcionam como motor dramático da trama.
Em Dias Perfeitos, por exemplo, a narrativa acompanha um estudante de medicina que sequestra uma jovem por quem desenvolve uma obsessão doentia. O suspense nasce justamente da relação de controle e violência exercida sobre a personagem feminina. O desconforto do leitor faz parte da experiência da leitura, mas também alimenta a curiosidade que faz a história avançar página após página.

Montes está longe de ser um caso isolado. O mercado editorial internacional está repleto de histórias em que a violência contra mulheres se torna o eixo narrativo principal. Um exemplo amplamente conhecido é Garota Exemplar (2012), de Gillian Flynn, que começa com o desaparecimento de uma mulher e se transforma em um intrincado jogo psicológico envolvendo manipulação, casamento e mídia.
Outro caso marcante é Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2005), primeiro livro da série Millennium, de Stieg Larsson. O próprio título já indica o tema central da obra: a violência sistemática contra mulheres e as estruturas de poder que permitem que esses crimes aconteçam.
Esses livros se tornaram sucessos globais, foram adaptados para o cinema e geraram debates importantes sobre violência de gênero. Em muitos casos, inclusive, a intenção declarada dos autores é denunciar esse tipo de violência. Ainda assim, essas narrativas acabam reforçando um padrão recorrente: o sofrimento feminino aparece como ponto de partida para o desenvolvimento da história.
A professora Gill Plain, especialista em literatura policial da Universidade de St. Andrews, observa em seus estudos sobre crime fiction que o gênero thriller historicamente construiu tensão narrativa a partir da vulnerabilidade feminina. Segundo ela, colocar uma mulher em perigo tornou-se uma convenção poderosa dentro desse tipo de narrativa, porque cria uma sensação imediata de urgência emocional no leitor.
Esse mecanismo funciona justamente porque dialoga com expectativas culturais muito antigas sobre perigo, proteção e vulnerabilidade.
No cinema, a violência contra mulheres também se tornou um elemento recorrente na construção do suspense e de algumas das cenas mais marcantes da história do audiovisual
No cinema, esse padrão narrativo aparece desde os primórdios do suspense moderno. Ao longo da história do audiovisual, inúmeros filmes utilizaram situações de violência contra mulheres como elemento central para gerar tensão dramática e impactar o público.
Um exemplo clássico é Psicose (1960), dirigido por Alfred Hitchcock. A famosa cena do chuveiro, em que a personagem interpretada por Janet Leigh é brutalmente assassinada, tornou-se um dos momentos mais icônicos da história do cinema. Na época de seu lançamento, a sequência chocou o público e redefiniu a forma como o suspense poderia ser construído nas telas, justamente por quebrar expectativas narrativas e expor uma violência inesperada contra uma personagem feminina que parecia ocupar o papel central da história.
Décadas depois, filmes como O Silêncio dos Inocentes (1991) continuaram explorando narrativas centradas em crimes violentos envolvendo mulheres. No longa, a agente do FBI interpretada por Jodie Foster investiga um assassino em série que sequestra e mata mulheres jovens. A trama constrói sua tensão justamente a partir da ameaça constante contra essas vítimas.
Outro exemplo é Garota Exemplar (2014), dirigido por David Fincher, adaptação do romance de Gillian Flynn. O desaparecimento de uma mulher desencadeia uma investigação complexa que mistura manipulação psicológica, exposição midiática e uma crítica mordaz às narrativas públicas sobre casamento e violência.
Mas talvez um dos casos mais controversos da história do cinema seja O Último Tango em Paris (1972), dirigido por Bernardo Bertolucci e estrelado por Marlon Brando e Maria Schneider. O filme ficou marcado por uma cena de violência sexual entre os personagens interpretados pelos dois atores. Décadas depois, Schneider revelou em entrevistas que não havia sido plenamente informada sobre como a cena seria conduzida. A revelação reacendeu debates sobre os limites entre arte, exploração e abuso dentro da indústria cinematográfica.

A teórica de cinema Laura Mulvey, autora do influente ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema (1975), argumenta que muitas narrativas audiovisuais foram historicamente construídas a partir do chamado male gaze, ou “olhar masculino”. Nesse modelo, personagens femininas frequentemente aparecem como objetos de observação, desejo ou perigo, enquanto a ação narrativa tende a girar em torno das experiências masculinas.
Esse conceito se tornou central para compreender como determinados padrões de representação foram se consolidando no cinema ao longo do século XX e continuam influenciando a forma como as histórias são contadas.
Na música popular, narrativas de amor, ciúme e obsessão muitas vezes transformam conflitos emocionais em histórias dramáticas que atravessam gerações
Se na literatura e no cinema a violência contra mulheres aparece como motor dramático para suspense e tensão narrativa, na música ela frequentemente surge dentro de histórias emocionais sobre amor, perda, ciúme e obsessão. Diferentes gêneros musicais, ao longo das décadas, transformaram relações amorosas conflituosas em narrativas intensas que conquistaram o público.
Muitas dessas histórias não descrevem necessariamente violência física explícita, mas apresentam dinâmicas de controle emocional, ressentimento ou dependência afetiva extrema. Esses elementos acabam funcionando como combustível dramático para canções que exploram sentimentos de abandono, traição ou vingança.
Um exemplo clássico é Hey Joe (1966), eternizada por Jimi Hendrix. Na canção, o narrador admite ter matado a companheira depois de suspeitar de traição. A história é contada de forma direta e quase narrativa, transformando o crime em parte da construção dramática da música.
Outro exemplo vem da tradição das chamadas murder ballads, baladas narrativas que contam histórias de crimes passionais. Na música Cocaine Blues (1968), popularizada por Johnny Cash, a narrativa começa com o assassinato de uma mulher cometido pelo próprio narrador da canção.
Décadas depois, narrativas violentas também apareceriam em outros gêneros. Na música Kim (2000), o rapper Eminem constrói uma história ficcional em que um personagem dominado pela raiva assassina a esposa. A música gerou intensos debates sobre os limites entre ficção artística, catarse emocional e representação da violência.
No Brasil, embora a violência física apareça com menos frequência explícita nas letras populares, muitas músicas reproduzem uma lógica semelhante de posse ou dependência emocional. No sertanejo, por exemplo, não é raro encontrar narrativas em que o narrador masculino reage à rejeição feminina com ressentimento ou sofrimento extremo.
Na música Ciúme de Você (1978), interpretada por Raul Seixas, aparece o verso “Se você quiser, eu posso até morrer”. Em muitas outras canções populares, a impossibilidade de aceitar o fim de um relacionamento aparece como elemento central do drama emocional.
A escritora e crítica cultural bell hooks observou, em seus estudos sobre amor e cultura popular, que muitas narrativas românticas acabam misturando sentimentos de afeto com dinâmicas de controle emocional. Para hooks, esse imaginário cultural pode transformar obsessão, sofrimento ou dependência em sinais de intensidade amorosa.
Isso não significa que músicas sobre relacionamentos difíceis incentivem comportamentos violentos. Mas essas narrativas ajudam a revelar como determinados modelos de amor, posse e conflito foram culturalmente construídos e repetidos ao longo do tempo.
Entre o fascínio narrativo e a realidade social, surge uma pergunta inevitável: por que histórias de violência despertam tanto interesse no público?
Diante de tantos exemplos em diferentes formas de arte, surge uma questão inevitável: essas histórias influenciam comportamentos violentos? A resposta mais honesta é que não existe uma relação direta e automática entre consumir ficção violenta e cometer violência real. Filmes, livros e músicas exploram situações extremas justamente porque essas situações despertam emoção, curiosidade e tensão. O suspense, o terror e o drama sempre se alimentaram de conflitos intensos.
Pesquisadores da área de comunicação frequentemente destacam que o fascínio por histórias violentas está ligado a diferentes fatores psicológicos e culturais. O suspense provoca adrenalina, o mistério desperta curiosidade e o medo pode ser experimentado de forma segura dentro da ficção. A narrativa cria um espaço controlado em que o público pode entrar em contato com emoções extremas sem enfrentar as consequências da realidade.
Ainda assim, existe uma pergunta mais específica quando observamos a repetição de certos padrões narrativos: por que tantas dessas histórias funcionam melhor quando a vítima é uma mulher? Parte da resposta pode estar na própria tradição cultural. Durante séculos, a figura feminina foi representada na literatura, no teatro e no cinema como símbolo de fragilidade ou pureza. Colocar essa figura em perigo produz imediatamente uma reação emocional no público.
Do ponto de vista narrativo, essa construção se transforma em um recurso eficiente para gerar tensão. Quando uma personagem considerada vulnerável está em risco, o conflito dramático se intensifica de maneira quase automática. A narrativa cria um senso de urgência que mantém o leitor ou espectador envolvido.
Mas esse recurso também revela algo sobre o imaginário coletivo construído ao longo do tempo. Quando determinadas imagens se repetem por décadas — mulheres ameaçadas, perseguidas ou assassinadas — elas acabam ajudando a consolidar expectativas culturais sobre quem ocupa determinados papéis dentro das histórias. A vítima, o agressor, o investigador e o espectador.
Esses papéis narrativos não surgem no vazio. Eles dialogam com estruturas sociais, valores culturais e tradições de storytelling que atravessam gerações e continuam moldando a forma como as histórias são contadas.
Quando o sofrimento feminino deixa de ser reflexão e se transforma apenas em fórmula narrativa dentro da indústria cultural
Isso não significa que histórias sobre violência contra mulheres não devam existir. Muitas obras cumprem um papel importante ao denunciar abusos, discutir desigualdades e expor realidades que ainda precisam ser enfrentadas. Em diferentes momentos da história, livros, filmes e séries ajudaram a tornar visíveis problemas sociais que antes eram ignorados.
O próprio romance Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2005), por exemplo, foi concebido por Stieg Larsson como uma denúncia direta da violência de gênero na sociedade sueca. Nesse caso, a narrativa busca justamente expor estruturas de poder e desigualdade que permitem que esses crimes aconteçam.
O problema aparece quando a violência deixa de ser reflexão e passa a funcionar apenas como ferramenta narrativa. Quando se transforma em fórmula. Um recurso utilizado para provocar choque, curiosidade ou tensão dramática sem necessariamente aprofundar o tema ou discutir suas implicações.
Nesse momento, o sofrimento feminino corre o risco de se tornar apenas um mecanismo para movimentar a história, um gatilho emocional que mantém o leitor virando páginas ou o espectador preso à tela.
A indústria cultural aprende rapidamente quais fórmulas funcionam. Quando determinado tipo de narrativa gera audiência, vendas e bilheteria, ele tende a se repetir. E a repetição, ao longo do tempo, transforma um recurso narrativo em padrão.
No Dia Internacional das Mulheres, discutir violência de gênero costuma significar olhar para estatísticas, políticas públicas e campanhas de conscientização. Esses debates são fundamentais e continuam sendo urgentes.
Mas talvez também seja importante olhar para a cultura que consumimos todos os dias. Livros, filmes e músicas não existem no vazio. Eles refletem aquilo que uma sociedade teme, deseja, condena e também aquilo que ela continua assistindo, lendo e ouvindo.
Se a violência contra mulheres aparece tantas vezes no centro de histórias populares, talvez a pergunta não seja apenas por que autores escrevem essas histórias, mas também por que diretores as filmam ou por que músicos as cantam.
Talvez a pergunta mais incômoda seja outra: por que elas continuam sendo algumas das histórias que mais queremos consumir?
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Texto revisado por Cristiane Amarante @cris_tiane_rj










