Debate sobre a rejeição a livros com protagonistas LGBTQIAPN+ levanta questões sobre preconceito velado, diversidade e o impacto das narrativas na formação dos leitores
Recentemente, uma declaração de uma criadora de conteúdo nas redes sociais reacendeu um debate que vai muito além das preferências literárias. Ao afirmar que não lê livros com temáticas LGBTQIAPN+, a influenciadora provocou discussões sobre os limites entre gosto pessoal e preconceito – uma conversa que revela como determinadas narrativas ainda enfrentam resistência, mesmo em um momento de maior visibilidade e diversidade editorial.
Sem sombra de dúvida, ninguém é obrigado a consumir todos os tipos de histórias. Cada leitor possui seus gêneros favoritos, autores de preferência e temas que despertam mais interesse. O debate surge, porém, quando a rejeição não está relacionada à narrativa, ao estilo de escrita ou ao gênero literário, mas exclusivamente à identidade dos personagens que protagonizam a obra.

Nesse contexto, especialistas e pesquisadores apontam para formas mais sutis de discriminação. Diferente das manifestações explícitas de preconceito, elas costumam aparecer em discursos que não expressam hostilidade direta, mas que estabelecem distanciamento ou desconforto diante de determinadas experiências humanas.
A literatura é um dos espaços onde esse fenômeno pode ser observado. Afinal, romances, dramas, histórias de amadurecimento e narrativas sobre amor protagonizadas por pessoas heterossexuais raramente têm sua relevância questionada por conta da orientação sexual de seus personagens. Quando a simples presença de protagonistas LGBTQIAPN+ se torna motivo para descartar uma obra, a discussão deixa de ser exclusivamente literária e passa a envolver questões sociais mais amplas.

Esse cenário se torna ainda mais significativo quando observamos a trajetória da representação LGBTQIAPN+ nos livros. Durante décadas, personagens queer apareceram de forma limitada, muitas vezes associados a estereótipos, finais trágicos ou papéis secundários. Nos últimos anos, porém, o mercado editorial passou a oferecer narrativas mais diversas, nas quais essas personagens podem viver romances, aventuras, conflitos familiares, jornadas de autodescoberta e histórias universais que dialogam com diferentes públicos.
Obras de grande alcance comercial ajudam a ilustrar essa transformação. A HQ Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2026), baseada no premiado filme brasileiro, acompanha a trajetória de um adolescente em busca de autonomia, amizade e pertencimento. Já Heartstopper (2021) conquistou leitores ao redor do mundo ao retratar as inseguranças, os afetos e os desafios da juventude. Embora apresentem personagens LGBTQIAPN+, ambas as histórias abordam sentimentos e experiências compartilhadas por inúmeros leitores, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero.

O mesmo pode ser observado em títulos como Os Sete Maridos de Evelyn Hugo e Vermelho, Branco e Sangue Azul. Enquanto o primeiro explora temas como fama, ambição, amor e os custos dos segredos mantidos ao longo da vida, o segundo combina romance, política e expectativas familiares. O sucesso dessas obras evidencia que a identificação do público não depende necessariamente de compartilhar as mesmas vivências dos protagonistas, mas da capacidade das histórias de despertar emoções universais.
A importância da representatividade na literatura também pode ser compreendida a partir da função que os livros exercem na formação dos indivíduos e da sociedade. Em O Direito à Literatura (1988), o crítico literário Antonio Candido afirma que “a literatura é o sonho acordado das civilizações” e que, assim como o sonho é fundamental para o equilíbrio psíquico, a literatura desempenha um papel essencial para o equilíbrio social.
Sob essa perspectiva, ampliar as vozes e experiências presentes nas narrativas significa também ampliar as possibilidades de compreensão do mundo. Não se trata apenas de garantir espaço para determinados grupos, mas de reconhecer que diferentes vivências fazem parte da realidade e merecem ser contadas.
Essa percepção também é compartilhada pelo escritor Johnatan Marques, autor de Se Tudo Der Errado Amanhã (2018). Em entrevista à Companhia das Letras, o autor destacou que jovens LGBTQIAPN+ precisam encontrar personagens com os quais possam se identificar. Segundo ele, ver pessoas semelhantes a si nas histórias contribui para a construção de um senso de pertencimento e para a compreensão de que outras pessoas enfrentam desafios parecidos.
Ao mesmo tempo, Marques ressalta que essas narrativas também são importantes para leitores que não fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+. Ao entrar em contato com diferentes perspectivas, eles têm a oportunidade de conhecer outras realidades, exercitar a empatia e desenvolver uma compreensão mais ampla sobre a diversidade humana.
A resistência a esse tipo de literatura também levanta uma questão importante: o que se perde quando evitamos determinadas histórias? Ler sempre foi uma forma de entrar em contato com realidades diferentes das nossas. Poucos leitores viveram batalhas medievais, solucionaram crimes complexos ou habitaram mundos fantásticos, mas isso não impede que se conectem emocionalmente com essas narrativas. O mesmo princípio se aplica às histórias protagonizadas por pessoas LGBTQIAPN+.

Mais do que representar uma parcela específica da população, a literatura LGBTQIAPN+ tem contribuído para ampliar o repertório de histórias disponíveis aos leitores. Seus personagens amam, erram, amadurecem, enfrentam perdas, constroem amizades e buscam seu lugar no mundo – experiências que atravessam identidades e gerações.
Por isso, o debate provocado nas redes sociais não precisa se limitar a uma única declaração. Ele pode servir como oportunidade para refletir sobre quais histórias consideramos dignas de atenção e por quê.
No fim das contas, ler não significa necessariamente se identificar com todas as experiências retratadas em uma obra. Significa estar disposto a conhecê-las. E quando determinadas narrativas são rejeitadas apenas por quem as protagoniza, talvez a discussão revele algo maior do que uma simples preferência de leitura: ela revela quais vozes estamos dispostos a ouvir e quais ainda insistimos em manter à margem.

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Texto revisado por Angela Maziero Santana









