O disco marca um novo momento na discografia da cantora
Dizem que a gente só sabe o valor de algo quando a gente perde. Anitta não perdeu nada, mas, ao sair para o mundo e conquistar fama internacional, precisou abdicar de momentos com pessoas queridas, de cuidados com a saúde e de tempo para se dedicar a muitas outras coisas. Assim, conseguiu entender que é no Brasil, na sua família e nas suas origens que mora a verdadeira felicidade.
Enquanto a internet teorizava que seu retorno a terra natal foi devido à falta de sucesso ou algo obscuro que ela possa ter visto oceano afora, Anitta conta em entrevista para o Flow que não há lugar no mundo como nosso país. “A gente ficou com uma herança, sanguínea talvez, de não acreditar que aqui pode ser melhor”, refletiu. Segundo ela, o constante apagamento das nossas origens faz o povo duvidar do quão rico o Brasil é.
Mas Anitta sabe do potencial que o seu país tem. Depois de mergulhar em um processo de autoconhecimento há três anos, ela lançou uma obra que reflete a sua fase de vida atual e retrata o Brasil como ela enxerga: existe fé, existe festa, e as duas coexistem em equilíbrio.
Desgraça
O álbum da Anitta começa em uma encruzilhada. Nas religiões de matriz africana, esse encontro de dois pontos que aparece no clipe de Desgraça representa a união do mundo material e espiritual, a vida e a morte, a passagem entre o presente, passado e futuro. E é nesse espaço central, carregado de significado e poder, que Anitta ressurge em EQUILIBRIVM.
A primeira faixa é potente e traz diversas referências afro-religiosas e aspectos da cultura brasileira. O chorinho no início, uma homenagem a Carmen Miranda, é um spoiler do que está por vir: um álbum repleto de alusão, samples e celebração da cultura brasileira.

A música também carrega claras influências do candomblé. No clipe, a artista aparece praticando rituais religiosos, como acender uma vela vermelha, simbolicamente ligada à Pomba Gira. Após a oferenda, a cantora se transforma, surgindo com uma nova roupa e mais postura – e é possível ver Anitta refletindo o brilho que a entidade de empoderamento e força feminina é capaz de trazer.
Aqui, o eu lírico canta para um antigo amor que foi embora da sua vida. Sem ressentimento ou mágoas, a letra e a batidade envolvente deixa claro que a ausência da pessoa não será sentida. Pelo contrário, Anitta afirma que vai embora e nem mesmo o sagrado seria capaz de reunir os dois. Essa constatação fica clara em versos muito fortes, como:
“Nem por um milagre você me merece /
Nem no teu jogo de búzios você vai me ver”
Mandinga (part. Marina Sena)
A música que mais marca a transição pela qual Anitta está passando na carreira é a segunda faixa do álbum. Mandinga, feat com Marina Sena, sampleia Canto de Ossanha, um clássico da música brasileira de 1966, gravado por Vinicius de Moraes e Baden Powell.
Ossanha, ou Ossaim, é conhecido nas religiões de matriz africana como orixá das plantas, que “sabe tudo sobre as ervas, sobre a alquimia do amor”, como cantou a dupla na década de 60.
É sobre o feitiço da paixão que o eu lírico de Mandiga se encontra. Anitta começa a música assumindo sentir saudade de um relacionamento que não acabou de forma efetiva e fica no vai e volta, mas a chegada de Marina muda o jogo.

Segundo a artista, essa canção, além de reforçar o empoderamento feminino sobre as normas patriarcais e a sedução masculina, representa a quebra de um antigo estilo musical e a chegada de uma nova forma de cantar. Não é uma crítica aos seus trabalhos passados, mas um alerta de que algo novo, mais maduro, está vindo.
“Que eu não vou em mandinga de ninguém/Foi mamãe que ensinou a vigiar”, assim começa o trecho da cantora de Coisas Naturais. Em entrevista para a Billboard Brasil, Marina afirmou que queria que sua entrada na música fosse marcante e que, assim que o público ouvisse, pudesse atestar: “Marina Sena entrou”. E ela entrou com tudo.
Caminhador (part. Liniker)
Caminhador, com Liniker, foi descrita por Anitta como poesia em forma de música – e não poderia ser diferente. Com uma letra esperançosa, a dupla canta sobre ter fé em si mesma e, mesmo em momentos difíceis, continuar caminhando.

No Candomblé, o termo “caminho” se refere ao destino espiritual e às orientações que a pessoa recebe dos orixás ao longo da vida. Não é um caminho único e fixo, e sim um acúmulo de conquistas, erros e destinos que são descobertos e aprofundados com ajuda da prática religiosa.
Bemba (part. Luedji Luna)
A quarta faixa do álbum nos leva em uma viagem para a Bahia. Bemba, com Luedji Luna, foi feita por Magary Lord, criador do gênero Black Semba.
A música, com ritmo agitado e dançante, começa exaltando comidas baianas, muito utilizadas também como oferendas em terreiros. Anitta escolheu a colaboração com a artista, que, segundo ela, traduz a cultura do estado em sua discografia.
Ternura (part. Melly)
Ternura reforça o lado espiritual que guiou as músicas de Anitta em EQUILIBRIVM. Dedicada à orixá Oxum, associada às águas doces de rios e cachoeiras, é uma faixa com Melly, repleta de composições românticas ao som do instrumento handpan.
O instrumento escolhido enriquece a faixa pelo som suave, relaxante, muito parecido com o barulho da água, compondo uma produção que acalma o coração e enche o ouvinte com verdadeira ternura.
Deus Existe (part. Ponto de Equilíbrio)
Anitta não teve medo de explorar diversos gêneros musicais no álbum, e outro ritmo que marcou presença em EQUILIBRIVM foi o reagge, na faixa Deus Existe. Nela, Anitta canta sobre vários momentos em que sente a presença de Deus em sua vida.

Foto: divulgação/Anitta
Escrita por uma das maiores artistas do Brasil, que já viajou o mundo, chegou ao Grammy e fez colaboração com grandes nomes da música, Deus Existe é uma faixa para lembrar que o verdadeiro valor está em passar uma tarde com a família, levar o seu cachorro para passear e beijar a pessoa amada. É um entendimento forte e honesto de alguém que pode ter tudo, mas acredita que o milagre reside no cotidiano.
Caso de Amor (part. Os Garotin) e Varias Quejas
E mesmo para quem tudo pode, também existe a necessidade de amar. As próximas faixas do disco mostram uma versão apaixonada de Anitta. Uma paixão leve e repleta de romance é cantada em Caso de Amor, que mistura gêneros como blues e R&B. A música com Os Garotin, como tantas outras músicas deles, é aquela que enche o coração com a vontade de viver um romance.
Os Garotin também inspiraram outra faixa do disco. Quando a empresária de Anitta pediu para a cantora traduzir a música do Olodum regravada por Anchietx, Cupertino e Leo Guima, surgiu Varias Quejas, a versão em espanhol do sucesso brasileiro.
Por casar com a proposta do álbum e se aprofundar nesse lado romântico de Anitta, a música entrou na seleção e casou perfeitamente com o resto de EQUILIBRIVM.
So Much Love e Pinterest
O amor é tema central também de So Much Love, um funk rasteirinha que foi escrito e produzido para ser leve, como o amor tem que ser.
Ainda bêbada de paixão, Anitta canta Pinterest, na versão em espanhol. A canção, além de super gostosa de se ouvir, é um atestado de que até mesmo os corações menos acreditados podem acabar apaixonados.
“Ya no tenía fe
Y fuiste agua bendita”

Nanã (part. Rincon Sapiência e KING Saints)
Retomando as referências religiosas, Nanã, com King & Rincon Sapiência, traz o sample ponto de Nanã, orixá conhecida como mãe ancestral. Misturando funk e reggae, Anitta quis nessa música glorificar o poder de uma orixá feminina, pois acredita que, na maioria das vezes, a fé louva apenas figuras masculinas.
Mais uma declaração que reforça a vontade da cantora de, nesse álbum, exaltar a potência da mulher – seja das cantoras com quem fez feat, seja das divindades em que acredita, seja de si mesma.
Vai Dar Caô (part. Ebony e Papatinho)
Num momento em que as mulheres do rap estão em ascensão, o hip hop foi mais uma onda em que Anitta quis surfar nesse álbum. Segundo ela, Vai Dar Caô foi produzida para os fãs matarem a saudade de Funk Generation – o que acabou deixando a faixa um tanto deslocada em comparação ao resto.
A música mistura a batida do funk com rimas de rap e contou com a participação de Ebony, um dos principais nomes da cena. Anitta se arrisca em uma rima no início da canção, mas não mantém a potência que demonstrou nos outros gêneros explorados no álbum.
Choka Choka (part. Shakira)
Outra surpresa das colaborações foi Choka Choka, com Shakira. Um dos maiores nomes da cultura latina entra em EQUILIBRIVM para cantar em português.
Nessa faixa, Anitta traz referências das caboclas, reforçando seu interesse em mostrar, na maior totalidade possível, as diversas influências que moldam a cultura brasileira e atravessam sua forma de produzir música.
Nos visuais, a cantora optou por mostrar a luta do Kuarup (ou Quarup), um ritual fúnebre do Xingu que festeja o encerramento do ciclo de luto.
A cantora ainda conta que Shakira não queria cantar sem saber mais sobre as influências indígenas e, por conta disso, pesquisou bastante sobre a cultura e o ritual que é ilustrado no clipe. O resultado? um hit animado que estreou com 2.1 milhões de streams no Spotify.
Meia-Noite (part. Los Brasileiros)
Em Meia-noite, Anitta faz uma verdadeira homenagem à sua Pomba Gira. Ela dá o espaço do eu lírico para sua entidade, colocando-se na noite, no som do atabaque, e numa letra que narra a Exu mulher trabalhando na rua.
A ideia é interssante, mas querendo construir um som abrangente, Anitta optou por elementos do pop e do funk para moldar a penúltima faixa do álbum.
A busca por maior indentificação do público, seja pelo pop ou pelo rap, não é de todo negativa, mas enfraqueceu as últimas faixas que não conseguem atingir a mesma qualidade das canções iniciais de EQUILIBRIVM.
Ouro (part. Emanazul)
O álbum acaba com Ouro, uma meditação que reforça suas influências budistas. Anitta narra um mantra sobre a busca pelo meio-termo: nem ódio, nem amor incondicional. Nem o grito, nem o silêncio.
Para Anitta, o equilíbrio é o balanço perfeito entre os opostos. É sentir tudo que a vida tem a oferecer, mas saber voltar. Voltar para si, para suas origens e para sua ancestralidade. Voltar para o que realmente importa e, olhando para dentro, conseguir entender o que está por fora. Anitta voltou para si mesma e nos presenteou com EQUILIBRIVM.
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Texto revisado por Angela Maziero Santana










