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Créditos: Universal Pictures

Crítica | Wicked: Parte 2 encerra a saga com emoção, maturidade e um poderoso grito político

Em Wicked Parte 2, Elphaba e Glinda mostram que nem sempre a verdade é aquilo que parece – e todo ato de bondade tem seu preço

[Contém spoiler]

O Entretetizei teve a honra de assistir ao filme Wicked: Parte 2 antecipadamente, numa sessão especial para a imprensa, em São Paulo. O filme, muito esperado pelo público, surpreendeu em vários quesitos: elenco, figurino, roteiro e números musicais – em um conjunto que te leva para dentro da história, mas também te faz refletir sobre a nossa sociedade. Em suas duas horas e dezessete minutos de duração, Wicked se revela mais que um musical, mostra-se um verdadeiro grito político em meio às mudanças e acontecimentos do nosso mundo. Vamos entender um pouco mais.

Enredo que traz contextos atuais

A própria sinopse de Wicked: Parte 2 já nos traz Elphaba vivendo no exílio, após a determinação do povo de Oz de que ela é uma Bruxa Má. Quem vem acompanhando a saga, sabe muito bem que de má Elphaba não tem nada. Pelo contrário, ela tem um coração tão bom, que se encontra na condição de estar longe de quem ama, principalmente de seu amor Fiyero. Mas isso não foi suficiente para derrotar Elphaba: seu senso de justiça e sua luta por um mundo melhor, a fizeram continuar com seu objetivo. Enquanto Glinda segue na Cidade Esmeralda, perto de se casar com Fiyero, vivendo uma realidade mascarada e cor-de-rosa, Elphaba se mostra preparada para dominar a cidade e revelar  a verdade para o povo: aquele que se mostrava mágico e “salvador”, na realidade, é uma farsa.

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O início do filme já nos traz o choque de realidade entre o bem e o mal; com toda uma sociedade enganada, crente de que tudo que o Mágico e seus submissos falam é realidade, enquanto quem realmente traz o bem em seu coração, e com verdadeiros poderes mágicos, é taxada como uma vergonha, uma ameaça. Em meio a tudo o que passamos nos últimos anos na política mundial, Wicked II não poderia vir em melhor momento.

O reencontro de Glinda, Elphaba, Fiyero e um casamento forçado arruinado

É claro que todos estávamos ansiosos para ver o reencontro do trio principal: Glinda, Elphaba e Fiyero. E esse reencontro veio em um momento icônico: no meio da cerimônia de casamento de Glinda e Fiyero. Ele, completamente deslocado, sem querer estar ali, mas sabendo que não tinha muita escolha no momento, e ela, iludidamente feliz, no seu mundo cor-de-rosa. Diante disso, seria impossível não imaginar que Elphaba apareceria: pois nossa Bruxa (não) má faz sua primeira aparição em Oz bem no meio da celebração, aproveitando que todos estão presentes e atentos.

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Durante a cena, temos vários momentos: Elphaba se deparando com o casamento de seu amor com Glinda, e a decepção de não ser ela vivendo isso; Fiyero revendo seu grande amor e Glinda reagindo ao estrago que isso fez em seu casamento – que não foi concluído (ainda bem!). A raiva de Glinda por não ter alcançado seu sonho, e ver sua amiga estragar aquele dia, a fez agir de forma impulsiva, prejudicando Elphaba para sempre. Em um momento de choro e muita tristeza, Madame Morrible e o Mágico de Oz comentam com Glinda sobre a necessidade de ter uma isca para Elphaba ir até eles e finalmente darem um fim na Bruxa. Eis que Glinda dá a ideia de usar Nessarose Thropp, irmã de Elphaba, para o plano dar certo. Glinda estava machucada e encontrou, agindo assim, uma forma de ferir a amiga, que, apesar de passar por tanta coisa, ainda assim ficou com o que ela considerava mais importante,  o coração de Fiyero. Essa atitude de Glinda mostra como a personagem ainda apresenta traços imaturos e de uma menina mimada, que não sabe perder e não aceita ser contrariada.

Duas irmãs separadas por ideologias diferentes e a chegada do Boneco de Lata

É verdade que Nessarose e Elphaba nem parecem irmãs em muitas situações. Sabermos que elas compartilham a mesma mãe e os laços sanguíneos, mas são totalmente divergentes em propósitos de vida/pensamentos. Enquanto Elphaba busca fazer do mundo um lugar mais justo, Nessarose é arrogante com as pessoas, mimada e se sente abandonada pela irmã, que, na parte II, retorna ao palácio onde Nessarose atua como governadora da Terra dos Munchkins.

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No palácio, as irmãs discutem e, após Nessarose mais uma vez fazer um escândalo sobre não voltar a andar, Elphaba decide fazer um feitiço, que resulta na irmã voando ao invés de andar. Essa escolha narrativa evita um olhar capacitista, uma vez que a menina é uma pessoa com deficiência, trazendo  a narrativa de que todos têm o direito de voar. A cena foi muito bem executada e num todo, foca muito mais nos conflitos internos de Nessa, destacando  seu hiperfoco no amor, ao invés da deficiência.

Ainda nesta sequência, Boq, que é apaixonado por Glinda e descobre sobre o casamento dela com Fiyero, abre o coração com Nessa, que se vê revoltada por seu “amor” ainda gostar de Glinda. Numa tentativa de se vingar, por Boq não a amar como ama a menina do mundo cor-de-rosa, Nessa tenta aplicar um feitiço no rapaz que, por sua vez, sente uma forte dor no coração e desmaia. Para tentar reverter o erro da irmã, Elphaba, mais uma vez, com seu coração bom, faz um feitiço e transforma Boq no tão famoso Homem de Lata – personagem presente também em O Mágico de Oz.

Resultado: após Elphaba ir embora, Nessa mente para o rapaz e coloca a culpa na irmã, que mais uma vez carrega um peso que não é dela. Boq não aceita que virou um boneco de lata e se revolta contra Elphaba. Toda essa cena nos faz refletir muito sobre como as pessoas podem ser egoístas a ponto de culpar uma pessoa inocente pelos seus próprios erros. Nesta sequência, conclui-se que a verdadeira vilã é Nessarose, uma mulher amargurada, ingrata e que não soube lidar com o fato da irmã ter mais sucesso no amor e na vida.

A aparição de Dorothy e a morte de Nessa

Um dos momentos mais esperados certamente era ver os personagens de O Mágico de Oz – introduzidos de forma bem explicada na história. Tudo começou com Madame Morrible aplicando o feitiço de mudança climática: um forte vendaval destruiu diversas partes da Cidade Esmeralda, incluindo o caminho dos tijolos amarelos e diversas casas – uma delas, acabou caindo em cima de Nessarose, que foi esmagada e ficou com seus sapatinhos à mostra. Lembra quando foi comentado, lá em cima, que a atitude de Glinda, ao sugerir usar Nessa para atrair Elphaba, traria consequências para sempre? Pois bem, seria impossível Elphaba não ficar sabendo do ocorrido.

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Ainda sobre a cena do vendaval, para quem conhece a história de O Mágico de Oz e Wicked, toda a sequência foi produzida de forma bem fiel às histórias e deixou claro de onde surgiram os sapatos de Dorothy: a personagem aparece e rouba os sapatos de Nessa, já que eles ficaram para fora. Nessarose então tem o seu fim trágico, numa cena dramática impactante, deixando sua irmã em pedaços, conforme sugeria o plano.

Quem são O Espantalho e o Leão?

Agora já sabemos quem é o Boneco de Lata (Boq) e um pouco sobre Dorothy, que na verdade, vem do mundo de O Mágico de Oz e é citada em Wicked – na cena descrita acima, apesar de não podermos ver seu rosto. Porém, dois personagens ainda estão faltando: O Espantalho e o Leão.

O Espantalho é Fiyero, que foi transformado no personagem após um feitiço de Elphaba, para salvar seu amado. Com o plano de Madame Morrible em andamento, Elphaba retorna a Oz após a morte da irmã. Então, há uma briga entre Glinda e Elphaba e, quando os guardas chegam para separá-las, Elphaba é capturada. Para que a mesma não seja presa, Fiyero, que estava entre os guardas, faz Glinda de refém, em troca da liberdade de Elphaba. Quando os guardas soltam Elphaba, o rapaz ordena que as duas fujam e ele é capturado. Logo após tudo isso, os guardas batem em Fiyero, na intenção de que ele conte onde a “Bruxa Má” está – momento em que Elphaba canta No Good Deed, enquanto aplica um feitiço para seu amado não sentir dor. É nessa hora que Fiyero vira o espantalho.

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O Leão é a versão adulta do pequeno leão libertado por Elphaba em Wicked: Parte I, dentro da Universidade Shiz. Apesar de Elphaba ter feito isso pelo bem do animal, ele cresceu com muito medo e, na cena, comenta que preferia a jaula. 

Dorothy, O Leão e O Homem de Lata se juntam contra a Bruxa Má – e é Dorothy quem joga a água em cima de Elphaba e a derrete, fazendo todo o povo de Oz pensar que Elphaba estava finalmente morta.

As músicas de Wicked e as lições que tiramos para nossas vidas

O ponto alto de Wicked é a qualidade vocal dos atores, com destaque para Ariana Grande e Cynthia Erivo, que entregaram interpretações emocionantes. Na minha opinião pessoal, os destaques vão para: No Good Deed, que traz, em sua letra, os desejos de “que a pessoa não sinta dor” e todo o bem tem seu preço”. Toda a trajetória de Elphaba, até o final do filme, mostra exatamente isso: que há um preço a se pagar para quem deseja ser justo e escolhe o bem. Uma música forte, atual, numa cena emocionante.

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Além disso, outras canções que arrepiam durante o filme são:

As Long as You’re Mine, que arranca lágrimas pela potência da letra e da interpretação de Cynthia e Jonathan Bailey. A música aparece numa cena de amor entre os dois, um momento raro e único em suas vidas;

The Girl in the Bubble e I’m Not That Girl, ambas de Glinda e que mostram a evolução da personagem, que verdadeiramente reflete sobre suas ações e o que está acontecendo com o mundo ao seu redor. Principalmente em The Girl in The Bubble, a personagem se mostra exausta de ser rotulada como aquela menina que vive dentro da bolha e sente necessidade de usar a sua bondade para realmente tentar mudar o mundo em sua volta;

For Good, uma interpretação de Elphaba e Glinda sobre amizade e despedida – talvez um dos momentos mais tristes do filme, ao mesmo ponto que é uma das cenas mais lindas. Falar de amizade faz qualquer um se emocionar, principalmente quando trazemos para a realidade e refletimos sobre as amizades que fazem ou já fizeram parte de nossas vidas.Num todo, todas as canções de Wicked: Parte 2 foram interpretadas de forma imponente, com cenas repletas de energia e muita entrega. Certamente vai gerar muitas lágrimas e arrepios no público.

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Um final emocionante e repleto de significado

Todos os acontecimentos de Wicked: Parte 2 levam para um final na medida certa e muito bem explicado. Após a “morte” de Elphaba, o povo de Oz se acalmou e Glinda surge como essa pessoa que vai levar paz à população. Até então, Glinda não se enxergava como “Glinda, a Boa”, porém, após “perder” sua melhor amiga e Fiyero, ela se mostra disposta a assumir essa identidade: usar sua bondade para o bem de todos. Essa atitude mostra que a personagem amadureceu, aprendeu, de forma dura, com seus erros e entendeu que precisava mudar suas atitudes.

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Ainda na parte final, a conexão de Elphaba e Glinda é uma das coisas mais lindas de se ver. Glinda guarda a garrafa verde, que pertencia à mãe de Elphaba, a mostra ao mágico e ele entende que fez mal à sua própria filha. O objeto torna-se uma lembrança eterna dessa amizade, junto ao Grimmerie, livro de feitiços de Elphaba. Ao assumir que não era capaz de fazer mágica, Glinda leva o livro para a torre do Castelo de Oz, numa homenagem à amiga. Enquanto isso, Elphaba sente esse momento de longe, o livro se abre e se enche de brilho, gerando um arco-íris – uma referência à infância de Glinda, cena anterior, com a pequena Glinda fingindo que sabia fazer magia, quando um arco-íris surge no céu. 

Toda essa cena mostra como a ligação das amigas é extremamente forte, pois mesmo estando nas terras mais longínquas de Oz, no meio do deserto, com Fiyero como espantalho, Elphaba sentiu a ação da amiga. Tal ligação e a cena nos fazem pensar que Glinda entendeu que Elphaba não morre, mas havia escolhido um outro caminho para sua vida.

Em suma, o final de Wicked: Parte 2 não deixa brecha para continuidade, pois encerra muito bem a histórias dos personagens, com Elphaba em busca de uma nova vida com Fiyero, longe de Oz e livre, enquanto Glinda decide realmente mudar e ajudar o seu povo. No plano final, ainda temos a cena de Glinda contando um segredo à Elphaba, fazendo referência ao famoso cartaz de Wicked. O momento sugere cumplicidade e intimidade, mostrando que as duas bruxas têm uma relação muito mais complexa do que bondade e maldade, e que existe uma verdade oculta por trás da verdade contada.

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Para mim, que assisti ao filme e conheço a história desde criança, foi um filme avassalador, uma verdadeira homenagem à história original de Wicked, com um resultado que supera expectativas. Concluo que existem muitas Glindas, Mágicos de Oz e Elphabas no nosso dia a dia: pessoas que se passam de boas, mas não são; líderes que dominam seu povo com mentiras contadas diversas vezes e pessoas de bom coração, que buscam fazer o bem a qualquer custo – mas sabem que existe um preço a pagar por isso. Depois de tudo, podemos entender a mensagem de que nem sempre é possível mudar o mundo sendo bom o tempo todo.

Ainda assim, Elphaba é um personagem tão real, que me faz pensar sobre quem é ela na sociedade: uma mulher tão justa, que nunca abandonou seus princípios, lutou até o fim para seguir seus ideais e foi até onde pode para tornar o seu mundo um lugar mais justo. Glinda sempre será aquela parte de nós que quer encarar o mundo, mas que sente medo de perder tudo e não alcançar seus sonhos. Glinda e Elphaba são a soma imperfeita de uma amizade perfeita e são o resumo do que somos por dentro: porque todos nós temos os dois lados: o bem e o mal; basta escolher qual lado se quer ficar e até onde está disposto a lutar.

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Wicked: Parte 2 é um filme muito mais sobre as sociedades do mundo do que um filme lúdico. Surge numa época em que precisamos falar de todos os temas retratados na obra, que vão desde tipos de amizades, a inclusão, até os líderes que escolhemos e o preço da liberdade e da justiça. Para quem sabe interpretar, vai levar para casa várias lições de vida.

 

Ficou ansioso para Wicked: Parte 2? E o que você, que já assistiu, achou do filme? Conta para a gente e siga o Entretê nas redes sociais (Instagram, Facebook, X) para mais novidades sobre o mundo do entretenimento turco.

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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