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Foto: divulgação / Editora Intrínseca

Resenha | Hamnet, de Maggie O’Farrell, é a poética dilaceradora do luto

Livro é uma diegese pungente, mas sensível, sobre a morte

É vero que William Shakespeare é um dos nomes mais conhecidos da literatura ocidental. No entanto, a biografia do dramaturgo é rodeada de mistérios: temos algumas datas aqui e ali e documentos esparsos que nos dão certa ideia de quem poderia ter sido o autor. O pouco que se sabe, porém, foi o bastante para que a escritora irlandesa Maggie O’Farrell construísse uma história magistral e emocionante sobre perda, luto e laços familiares no romance Hamnet. O livro foi publicado em 2020 e chegou ao Brasil em 2021 pela editora Intrínseca, recebendo a tradução de Regina Lyra.

Aqui, O’Farrell concebe uma narrativa ficcional em torno de Hamnet, filho de William Shakespeare e Anne Hathaway, que morreu aos 11 anos. Na verdade, esta é a única informação sobre a criança que resistiu ao tempo, uma vez que nem a causa da morte é conhecida. Entretanto, o nome do menino ainda seria entoado milhões de vezes ao redor do mundo, já que se tornou o título de uma das peças mais famosas de Shakespeare. Hamnet e Hamlet, à época, eram o mesmo nome com grafias diferentes.

É sabido que Shakespeare era filho de um luveiro na cidade inglesa Stratford-upon-Avon e casou-se com uma mulher mais velha, herdeira de terras consideráveis. Juntos, foram pais de uma filha e um casal de gêmeos, mas viveram longos períodos afastados devido ao trabalho do escritor. É então que a família sofre a perda de um dos filhos e, alguns anos depois, Shakespeare escreve Hamlet, que narra a história de um príncipe dinamarquês assombrado pelo fantasma do pai. 

Embora não se saiba a causa da morte do filho do dramaturgo, o menino faleceu num período em que a Inglaterra estava sendo tomada por surtos de peste bubônica. A doença, todavia, nunca apareceu em nenhuma das peças do autor – fato que sempre intrigou Maggie O’Farrell. Por que uma doença tão avassaladora seria esquecida por Shakespeare, que era tão consciente acerca das mazelas de seu tempo?

Com essas referências em mente, Maggie O’Farrell escreve uma narrativa magistral que nos faz refletir sobre o luto e a perda. Mas, além disso, é um livro que nos mostra como a arte pode cristalizar sentimentos tão profundos e fazê-los perdurar por séculos à frente.

A formidável Agnes

A esposa de Shakespeare era conhecida pela maioria como “Anne”, mas seu próprio pai a chamou de Agnes no testamento – nome escolhido por Maggie O’Farrell ao escrever Hamnet. No romance, Agnes é uma mulher que se mescla à natureza. Ela sabe sobre plantas, suas propriedades benéficas e tem o dom de prever o futuro apenas segurando a palma da mão de uma pessoa.

Com a sua personalidade selvagem e fora dos padrões, ela costumava caminhar pelas terras da família com seu falcão sentado sobre o braço. Quando conhece o jovem professor de latim de seus irmãos, logo vê nele algo extraordinário. 

Os dois se apaixonam, casam-se e têm a primeira filha. A vida naquela cidade, porém, não é o suficiente para o professor, que possui visões bem diferentes das propagadas pelas pessoas que viviam ali. Incentivado por Agnes, ele parte para Londres, onde passa a trabalhar como ator e dramaturgo. 

Em Hamnet, Agnes é a protagonista da trama. Mãe e esposa superprotetora, a mulher é o coração e a força da família: tudo começa e termina nela. O desenvolvimento da personagem, seus anseios, medos e superações foram retratados com uma beleza lírica e belíssima. 

A poética dilaceradora do luto
Foto: reprodução / A.M Heath Literary Agents

Algo que merece destaque em Hamnet é a prosa única de Maggie O’Farrell. O estilo de escrita da escritora é delicado, potente e extremamente metafórico, tal qual a própria Agnes. Desse modo, ela oferece um conto que se desdobra ao redor da morte, mas que exalta a vida acima de qualquer outra coisa. 

O livro faz um retrato das diferentes formas de luto – a dor presente, no caso de Agnes, e a ausente, no caso de Shakespeare. Os dois precisam atravessar os sentimentos de culpa e devastação, cada um à sua maneira, já que têm formas opostas, mas complementares, de entender o mundo à sua volta. 

Agnes é uma força da natureza: entende de presságios, conversa com os animais e conhece a floresta como se fosse uma amiga de longa data. Por várias vezes ao longo do romance, ela aparenta ser mais próxima dos elementos naturais do que dos seres humanos — que não entendem a sua forma de ser. Will, por sua vez, é rodeado por letras e mundos distantes criados em sua mente, utilizando sua arte e suas palavras para expressar suas emoções mais recônditas. 

Hamnet é uma obra que emociona do início ao fim – Maggie O’Farrell retrata a morte e a perda de um familiar de uma forma muito real e palpável. Mas toda a narrativa também é envolta em uma aura de magia, bem como tantas histórias do próprio William Shakespeare.

 

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Texto revisado por Angela Maziero Santana 

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