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Foto: reprodução/Andy Santana/Brazil News

Resenha | TINA – mais que um musical, a versão brasileira revela uma Tina Turner à altura de seu legado

TINA – Tina Turner, o musical, indicado a 12 Tony Awards faz sua estreia no Teatro Santander e conta com protagonista potente na versão brasileira 

Por Anna Mellado e Luana Chicol

O espetáculo Tina – Tina Turner, O Musical, em cartaz na cidade de São Paulo, apresenta a trajetória de uma das maiores cantoras do Pop e Rock dos anos 80. A produção, que contou com a própria Tina Turner (in memoriam) em seu desenvolvimento, revive clássicos que atravessaram gerações e vai muito além: nos leva para dentro da vida desse ícone que deixou marcas eternas na história da música – e o Entretê te conta como foi viver uma noite de sábado ao lado de Tina Turner!

Com Analu Pimenta – e Carol Roberto como alternante –, o musical já se faz empolgante: a forma como ambas incorporam Tina é impressionante. No dia em que estivemos presentes, com Analu no palco, a sensação era de que estávamos realmente vendo a grande diva em nossa frente. Certamente, a excelência na interpretação torna o espetáculo incansável, emocionante e inesquecível.

Por dentro da família Turner e do amadurecimento da pequena Tina 

O musical inicia nos contando a história de infância de Anna Mae Bullock (Tina). Ela vem de uma família negra de Brownsville, em Tennessee (EUA), cidade que foi berço de ícones do blues, incluindo Turner e Sleepy John Estes, sendo também a terra do algodão, onde Tina encontrou sustento por um bom período de sua vida. Desde cedo, a vida da menina não foi fácil: o pai era pastor e levava Anna Mae, sua mãe, e a irmã aos cultos. Lá, a mãe da pequena não aprovava a empolgação da filha, que costumava se levantar dos bancos para cantar e interpretar.

Já em casa, descobrimos que a amargura da mãe vinha de uma realidade dura: ela convivia com um marido cristão e abusivo, e Anna Mae foi gestada contra a vontade da genitora. Sendo assim, nossa futura estrela começou a vida sendo rejeitada: primeiro pela mãe, que saiu de casa e levou sua irmã mais velha, e depois pelo pai, que decidiu deixar a menina aos cuidados da avó. 

Em cena, as atrizes Aline Cunha, Renata Vilela e Vanessa Mello entregaram atuações profundas e tocantes como avó, mãe e irmã de Tina, respectivamente. Imprescindível também citar o elenco infantil, que nos fez ter empatia e sensibilidade pela história da família Bullock desde a cena 1.

Do início ao fim do musical, algo chamou muito a nossa atenção: o poder da Ancestralidade. Apesar da infância e adolescência complexas, Anna Mae nunca perdeu sua essência e sede de viver. Muito conectada com sua avó materna, a menina cresceu com uma referência de mulher batalhadora e incansável e, até o fim da vida, levou consigo a figura da avó e de sua versão criança para o seu lado. As cenas de Analu como jovem Tina e sua avó nos lembram dessa força: nos momentos mais difíceis de sua carreira, quando precisava se reconectar consigo, era a Ancestralidade que a levava de volta à vida. 

Além disso, entre a chegada de Anna Mae à cidade grande e a sua transformação em Tina Turner, o espetáculo nos apresenta uma mulher ainda muito inocente, mas apaixonada pelo canto. Em uma de suas primeiras noites na metrópole, já se destacou em um clube noturno e chamou a atenção de Ike Turner – seu primeiro marido e responsável por coroar Anna Mae como a inesquecível Tina Turner. 

Foto: reprodução/Caio Gallucci

Tudo parece brilhante, até ela se deparar com um casamento forçado e com muita violência física e psicológica. Sim, a nossa diva do pop e do rock, infelizmente, foi apresentada ao amor de forma abrupta e equivocada. Sua primeira paixão, Raymond Hill (interpretado pelo gigante Abrahão Costa), foi logo destruída pelo marido egocentrista e abusivo.

Ike e Tina – como a carreira artística da cantora foi marcada por violências

O fato de Tina ter vivido parte de sua vida adulta ao lado de um marido agressivo pode parecer absurdo – visto a sua reputação posterior como uma mulher enérgica e irreverente –, mas é muito real: quando se deparou com a fama, Tina ainda era muito menina e viu naquele homem a oportunidade de ser grande, cedendo assim, pouco a pouco, às suas vontades. Com Ike, Tina deu à luz a Ronnie Turner e ainda criou os dois filhos de outra relação dele com Lorraine Taylor: Ike Turner Jr. e Michael Turner, o que comprova o coração acolhedor de mãe que a estrela carregava consigo.

Ainda assim, com tamanha beleza, voz, fama e apoio familiar, Ike foi capaz de ferir Tina a ponto de ela tentar contra a própria vida. O interessante é observar como, em nenhum momento, o amor abusivo foi fantasiado. Por trás de cada sucesso, havia uma Tina fortemente machucada. 

Toda a fase desse relacionamento tão conturbado foi interpretada por Analu Pimenta com muita maestria, e fez o público sentir a dor daquela mulher tão talentosa, mas com uma dor que vinha da alma. Ike não a machucava apenas fisicamente, ele feria a sua alma. Ainda bem que Tina conseguiu se libertar desse monstro e finalmente viver livre – e que cena emocionante ver a estrela conseguindo sua liberdade!

Apesar disso, o ex-marido fez da vida de Tina um verdadeiro pesadelo nos primeiros anos depois da separação. Após perder o direito às próprias músicas – inclusive as escritas por Tina, que foram a maioria –, a cantora se viu sem dinheiro para arcar com as contas básicas e cuidar dos filhos, já crescidos, mas dependentes da mãe. E foi nesse recomeço que Tina Turner brilhou, construindo um futuro gigante e com muito sucesso. 

Foto: reprodução/Andy Santana/Brazil News

Mais uma vez, Analu Pimenta nos transmitiu a força e a coragem dessa mulher tão admirável, que, mesmo sabendo que já não era tão nova, sentia-se capaz de conquistar o mundo com sua voz. A dor é o lugar onde, muitas vezes, encontramos nossa maior força e onde mais nos conectamos com nós mesmas e foi isso que a fase conturbada trouxe de lição à Turner.

O sucesso depois dos 40 – como Tina 

Não é uma surpresa que Tina teve seu grande “boom” após os 40. Com um cabelo marcante e uma voz inconfundível, sua história é uma das maiores quando falamos em superação e reinvenção. Já cansada de obedecer a ordens, ainda mais após finalmente se divorciar e se afastar de vez de Ike, a artista não queria mais cantar apenas pop: nessa nova fase, cantar rock era seu maior sonho. 

Na peça, fica muito claro que Tina estava realmente disposta a viver uma fase diferente, na qual ela escolheria o que seria melhor para si mesma: desde os arranjos musicais até o seu cabelo e os seus figurinos. A maturidade trouxe muito mais que uma repaginação em sua carreira: também trouxe coragem, determinação e a certeza de que era possível ir muito mais longe – e isso foi muito bem apresentado para o público, que já conseguia ver aquela Tina “contemporânea” pelos olhos de Analu Pimenta – que, por acaso, também faz sua primeira protagonista nos palcos, aos 40 anos.

Após a morte da mãe, em uma fase na qual sua carreira estava voltando a prosperar após a transição para um novo gênero musical, Tina poderia ter sido desestruturada novamente. Entretanto, ela consegue manter as rédeas da sua própria vida, ao confiar em sua vasta experiência de vida e aptidão para sempre reencontrar a própria voz. O ápice do musical, e um detalhe muito bem-vindo para os fãs brasileiros em especial, ocorre no show no Estádio Maracanã ao fim dos anos 80, que teve a presença de mais de 180 mil espectadores, contando também com o seu grande amor, Erwin Bach, interpretado pelo carismático Bruno Sigrist

A paixão madura entre a cantora estadunidense e o produtor alemão ocorre em um momento de crescimento em diversas frentes na vida de Turner, e foi impactante ver os resultados do recíproco na vida de uma mulher já tão poderosa. Ainda, ouvir What’s Love Got to Do with It? interpretada dentro do contexto de uma jornada de redefinição do amor na vida de uma mulher mais velha, estabeleceu novas camadas de interpretação à história.

Foto: reprodução/Andy Santana/Brazil News

Antes do início da apresentação, as cortinas que tomam o palco já apresentam o olhar hipnotizante de Tina, observando enquanto o público se acomoda nas cadeiras e desafiando-o a, quando o terceiro sinal tocar, prestar atenção e conhecer mais sobre a história da rainha do rock – a partir de sua perspectiva e em seus próprios termos. 

De forma brilhante, Analu Pimenta incorpora Tina no palco do Santander e nos transporta diretamente para um verdadeiro espetáculo de força, empoderamento e verdade em cada fala e música apresentada. O musical – ou melhor dito, o show de Tina Turner – se encerra com uma seleção de hits da cantora interpretados tão empolgadamente que a plateia não teve alternativa a não ser se levantar e dançar junto. Veja um trecho aqui.

 

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Texto revisado por Luana Chicol e Laura Maria

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